Capítulo 7: Calor no Vazio
Ele hesitou, o coração batendo forte contra as costelas. A atração entre eles era inegável, uma corrente subterrânea que fluía há anos, uma faísca perigosa de calor num universo frio e funcional. Mas a imagem nítida dos três rostos sorridentes na foto holográfica em sua parede brilhou em sua mente como um aviso.
A culpa pela emboscada, pelo erro tático dela nascido de um impulso pessoal para salvá-lo, o erro que quase lhe custara a vida e que custara a vida deles, martelou em sua consciência com a força de um golpe físico.
O preço potencial de um momento como este. Ele se afastou instintivamente, apenas alguns centímetros, mas a distância emocional pareceu de repente um abismo intransponível.
“Anya”, ele sussurrou, sua voz rouca, a garganta apertada com a memória dos mortos e a visão da mulher quebrada à sua frente. “Nós já cometemos esses erros antes. Por causa disso, você deixou seu posto na Emboscada do Cânion. Quase morremos. Eles morreram“. A acusação, mesmo dita suavemente, pairou entre eles, pesada e inegável.
Ela não o ignorou. Por um momento, a dor em sua voz pareceu atingi-la, seus ombros cedendo ligeiramente sob o peso da verdade. Mas então, algo mudou em seus olhos. A vulnerabilidade crua foi rapidamente velada, substituída por uma máscara familiar de desafio teimoso, talvez uma forma de autodefesa contra a culpa que ameaçava afogá-la.
Ela afastou-se apenas o suficiente para encará-lo, um sorriso triste, mas inegavelmente desafiador, curvando seus lábios. “Errar é humano, Zeon”, disse ela suavemente, a voz ainda um pouco trêmula, mas recuperando a antiga cadência defensiva.
Era menos uma desculpa e mais uma declaração de fato, uma recusa em ser definida apenas por aquele único e terrível momento. “E no final das contas,” ela acrescentou, a voz ganhando força, forçando-o a confrontar a consequência paradoxal de seu erro, “deu certo para você, não deu? Eu sou humana. Cometi um erro sob pressão. E você… apesar de tudo, apesar das perdas, você ainda está aqui. Ainda é um herói para alguns lá fora”.
Ela se aproximou novamente, fechando a pequena, mas significativa distância que ele criara entre eles. A atmosfera mudou sutilmente, a confissão da culpa recuando para dar lugar a algo mais perigoso, mais íntimo. Sua voz baixou para um sussurro que roçou a pele dele, ignorando deliberadamente a sombra dos companheiros mortos que pairava entre eles como uma acusação silenciosa.
“Pense nisso. Se não fosse por mim, por aquele ‘erro’ tático no calor do momento, você seria apenas mais um nome numa longa lista de baixas. Mais um capitão condecorado postumamente. Seu rosto esculpido em Tharincron frio para honrar seus feitos póstumos em algum memorial esquecido.”
Ela fez uma pausa, deixando a imagem sombria assentar. “Mas você está aqui. Vivo. Respirando.”
A ponta de seus dedos quentes encontrou a linha áspera da mandíbula dele, um toque lento e deliberado que queimava sob a pele dele como uma brasa. Seus dedos demoraram-se ali, não mais buscando consolo, mas traçando um caminho, reivindicando uma proximidade, um convite silencioso e perigoso que ele lutava internamente para recusar.
Seus olhos escuros e profundos encontraram os dele novamente, a zombaria usual completamente ausente agora, dando lugar a algo mais profundo, mais cru, mais faminto – uma necessidade que espelhava a solidão esmagadora que ele via refletida nos dela.
“Bem… eu ainda estou esperando meu agradecimento oficial por ter te salvado naquele maldito cânion,” ela murmurou, a voz agora rouca, intencionalmente sedutora, a mudança de tom quase completa.
Ela inclinou-se até que o hálito quente dela roçou a pele sensível de seu ouvido, um arrepio percorrendo a espinha dele apesar de sua resolução. “Talvez você pudesse finalmente me pagar agora, sabe…”.
Um sorriso perigoso e conhecedor – a antiga Anya, a brincalhona, a provocadora, a sobrevivente – curvou seus lábios, emergindo brevemente, mas com força total, das cinzas da culpa recente que a consumia. “…afinal,” ela acrescentou, a voz um fio de seda e veneno, “esta missão cheira a armadilha de ida sem volta. E se todos nós morrermos amanhã no gelo de Saturno? Não vamos desperdiçar a noite, Capitão”.
A última palavra foi dita com uma ironia carregada, um desafio direto à sua autoridade e ao muro que ele tentava desesperadamente manter entre eles. A proximidade dela, o cheiro de seu cabelo misturado ao ozônio da Dobra, a honestidade crua e desesperada em seus olhos quebraram a última e frágil barreira de sua disciplina auto imposta.
A tensão entre eles estalou, quebrando-se não com um som audível, mas com o suspiro rouco e involuntário que escapou dos lábios dele quando ele finalmente cedeu à força que o puxava para ela.
Ele se virou completamente, agarrando-a pela cintura com uma força que a surpreendeu, puxando-a para si, e suas bocas se encontraram não com ternura, mas com a violência de uma colisão faminta e desesperada.
Não foi terno; foi brutal, quase raivoso. Um beijo de puro desespero, de fome acumulada por anos de contenção forçada, disciplina militar e as perdas recentes que os haviam deixado em carne viva.
O sabor salgado de suor e lágrimas não derramadas misturando-se na urgência crua de suas línguas, que se enroscavam numa batalha voraz.
Era a fúria silenciosa de dois sobreviventes se devorando na escuridão confinada da cabine, tentando desesperadamente apagar o universo hostil lá fora – e os fantasmas dos seus companheiros mortos que os observavam da foto na parede – com a intensidade avassaladora daquele toque proibido.
As mãos dele, ásperas e calejadas pelos controles do Kation, subiram pelas costas dela sob a regata fina, mapeando as curvas familiares, os músculos tensos sob a pele quente e viva, apertando-a contra si com uma força possessiva.
Uma mão subiu hesitante até o ombro esquerdo dela, os dedos encontrando não a pele macia, mas o encaixe frio e liso do metal protético no lugar onde a carne deveria estar, onde fora arrancada anos atrás.
O contraste abrupto entre o orgânico e o inorgânico era um lembrete agudo e doloroso do preço que ambos pagavam naquela guerra interminável, da violência que definia suas vidas. Mas em vez de recuar diante daquela frieza artificial, ele apertou o metal frio, os nós dos dedos brancos, usando-o quase como uma alavanca para puxá-la ainda mais para perto, fundindo o orgânico e o inorgânico na mesma necessidade crua, desesperada e fundamental de sentir algo real, algo tangível naquele inferno flutuante.
Era um ritual sombrio e familiar, tão instintivo quanto montar sua arma no escuro, cada movimento conhecido, cada cicatriz física e emocional um mapa gravado na memória um do outro ao longo de décadas. A disciplina férrea e quase desumana do Capitão Zeon se dissolvia completamente na soleira da porta dela, inútil contra aquela força gravitacional de necessidade mútua.
Ali, naquela pequena caixa de metal suspensa no vazio caótico da Dobra, ele não era o lendário Fantasma de Ganimedes, não era Zeon, um caos ambulante que temia a própria sombra.
Ele era apenas Zeon, despido momentaneamente de seu posto e de seu passado assombrado. E ela, sem a armadura externa e o cinismo calculista que usava como escudo, era apenas Anya. Duas almas profundamente quebradas buscando desesperadamente um simulacro fugaz de calor antes que o frio inevitável do dever e da morte os levasse para sempre.
As roupas tornaram-se barreiras inúteis e irritantes contra a urgência que os consumia, descartadas com a pressa febril e desajeitada de quem sabe instintivamente que o tempo está se esgotando.
Pedaços de tecido caíram esquecidos no chão frio de metal da cabine. Então, finalmente, pele contra pele na beliche estreita que mal os continha, um emaranhado desesperado de membros, músculos tensos e cicatrizes – as dela, lembranças visíveis de batalhas perdidas e do membro arrancado; as dele, ecos fantasmagóricos de uma morte antiga que ele não compreendia completamente, mas sentia latejar na carne em momentos de estresse.
Cada toque era uma redescoberta dolorosa e familiar, uma busca desesperada por alívio mútuo em território conhecido e seguro; cada beijo mais profundo, cada mordida contida nos lábios ou no ombro, uma tentativa fútil e consciente de silenciar os fantasmas que os observavam em silêncio da foto desbotada na parede, dos corredores vazios da nave lá fora, e das profundezas escuras de suas próprias mentes culpadas.
Seus corpos se moveram juntos, um ritmo primordial nascido não de ternura romântica, mas de uma necessidade crua, quase violenta, uma colisão inevitável de dor física acumulada e prazer fugaz e desesperado.
Ele a pressionou contra o colchão fino, o corpo dela cedendo sob o peso dele, mas respondendo com igual ferocidade.
As unhas dela arranharam suas costas, deixando marcas vermelhas na pele tensa, enquanto ele a penetrava com uma urgência que não pedia permissão, um impulso para reivindicar, para se ancorar na única realidade que restava naquele momento.
Os gemidos dela eram baixos, abafados contra o peito largo dele, um som que era meio agonia reprimida pela dor da culpa, meio êxtase libertador pelo contato cru; a respiração dele, um farrapo irregular e ofegante contra a pele macia do pescoço dela, cada exalação um testemunho do controle férreo finalmente perdido, rendido à tempestade.
Era uma dança desesperada de culpa e absolvição temporária, onde cada impulso de prazer era tingido inescapavelmente pela sombra da perda iminente, pela imagem onipresente dos rostos de Roric, Lena e Kai que os julgavam em silêncio de algum lugar além do véu.
Ele se perdeu nela, na fricção da pele suada contra a dele, no calor úmido e apertado que o envolvia, no som áspero de sua própria respiração ofegante misturada à dela, nos espasmos involuntários dos músculos dela sob seu toque.
E acima de tudo, ele se agarrou à forma como ela arqueava as costas sob ele no clímax, os dedos de sua mão de carne e osso cravando-se em suas costas marcadas por cicatrizes antigas como se quisesse deixar uma marca permanente, e sussurrava roucamente seu nome – “Zeon” – não o título frio de Capitão, não a máscara impenetrável que ele usava para o mundo, mas o nome que ele mesmo escolhera para si, como se naquele ato desesperado de conexão física, naquela única palavra arrancada do fundo da garganta dela no pico do prazer e da dor compartilhados, residisse a última faísca de verdade e realidade num universo construído sobre mentiras, segredos e morte iminente.
***
Era o único lugar, o único momento, onde os fantasmas não podiam alcançá-lo completamente. O único lugar onde o barulho incessante em sua cabeça se silenciava por um instante precioso, substituído pelo som primordial de dois corações batendo em uníssono desesperado contra as paredes frias de uma gaiola de metal, voando cegamente através de uma realidade rasgada e hostil.
Depois, eles ficaram deitados no escuro apertado da beliche, os corpos ainda entrelaçados, o suor esfriando rapidamente em sua pele na temperatura controlada da cabine. O braço protético de Anya jazia esquecido no chão frio, como uma peça de armadura descartada após a batalha.
A foto na parede parecia observá-los em silêncio acusador.
“Eu te odeio”, ela sussurrou contra o peito nu dele, a voz abafada, as palavras desprovidas de raiva, carregadas apenas de uma exaustão profunda e de uma resignação triste.
“Eu sei”, ele respondeu simplesmente, sua mão traçando distraidamente os contornos familiares de suas costas nuas.
Não havia mais nada a ser dito. Naquele silêncio compartilhado, naquela escuridão íntima, eles encontraram uma paz frágil e fugaz, um cessar-fogo temporário na guerra interminável contra si mesmos, contra suas culpas e contra o universo que os havia moldado em armas quebradas.
O momento de quietude foi quebrado abruptamente por uma voz sintética, fria e impessoal, que ecoou pelos alto-falantes da nave, perfurando a intimidade precária de seu pequeno santuário como uma lança de gelo.
“Atenção. Saída da Dobra em cinco minutos. Todas as unidades, para seus postos de combate.” A Dobra estava terminando. Saturno se aproximava. E com ele, o que quer que o destino, ou Hesperus, lhes reservara.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.