Capítulo 083 - Assine aqui!
Capítulo 083 – Assine aqui!
A forma como o grande castelo estendia-se pelo reino como uma fortaleza viva era o reflexo da grande potência que Sihêon se tornara, seus muros altos de pedra calcária refletiam os últimos raios de sol que jaziam lentamente em direção ao horizonte que parecia, cada vez, mais distante.
As sombras serpenteavam, alongavam-se pelas torres, esfriava-se e esgueirava-se pelos corredores, consumindo as tapeçarias de reinados anteriores que diziam, silenciosamente, o tempo pelo qual o castelo reinara.
Aquele ar de entardecer era bastante característico, ele era a última sensação de frescor antes do vento cortante do frio da noite, que casualmente penetrava pelas janelas abertas do grande salão, trazia consigo um aroma distante da floresta, o vento puxava o mundo inteiro para perto do trono.
Em um dos inúmeros cômodos daquele gigantesco palanque estava ele, Kord Lâmina-Fria, bem no centro, em uma mesa retangular de madeira maciça que dominava todo o espaço. Sobre essa mesa, estavam inúmeros pergaminhos e listas de homens recém-alistados.
— De onde esses aqui vieram? — indagou a líder da guarda real.
— Esse grupo é de uma caravana que veio do extremo oeste, sabe? Darazilia. — respondeu Kord, com a sua voz firme, enquanto carregava um pouco de respeito.
Ele se inclinava sobre todos aqueles papéis, seus dedos grossos percorriam cada um dos nomes como se ele estivesse tentando absorver o caráter ou a coragem de cada um daqueles homens, ele tentava presumir se esses guerreiros seriam valiosos ou não.
A luz do entardecer refletia no metal polido da armadura do homem, tingia-a em um misto de cobre e ouro.
A sua testa franzia-se em uma concentração ímpar, ao seu lado estava Yelena, a líder da guarda real, a mesma permanecia ereta, quase como uma entidade etérea que observava calmamente, analisando não apenas os papéis, mas como o homem agia perante a eles.
Aqueles cabelos loiros, quase brancos, de Yelena caíam sobre o seu ombro quase como um véu puro, sua pele pálida estava absorvendo todo o calor daquele salão imenso.
— Eles viajaram durante semanas, enfrentando neves e ventos cortantes — o homem continuou.
Aquele nome, Darazilia, parecia conjurar diversas imagens de montanhas brancas no meio de vastas e geladas extensões.
Era algo tão distante que até mesmo os mais endurecidos cavaleiros de Sihêon sentiam um hesitar em atravessar aquele imenso e ingrato caminho sem qualquer tipo de preparo, logo, a ideia de que os guerreiros enfrentaram uma distância como essa apenas para poder erguer suas espadas em nome de Sihêon. E isso lhes entregava uma aura admirável.
— Nossa, sério? — murmurou Yelena, arqueando levemente as sobrancelhas. — Darazilianos são fortes.
— Fortes e honrados — disse Kord. — Acho que é uma das principais adições que poderemos ter.
Yelena então moveu a sua mão em direção a uma das outras pilhas de pergaminhos, que se uniam aos montes de forma bastante caótica naquela mesa, a quantidade daqueles nomes estava quase esmagando a madeira maciça.
—E esses outros aqui?
— Isso é um misto — respondeu Kord, franzindo a testa. — Teve grande interesse de eikianos, membros da vila de Bramut, e percebi até alguns da Fortaleza das Esferas.
— Ora, sério… oestinos? — dissera Yelena, com sua voz tingindo um leve desprezo.
A cultura eikiana era completamente estranha para os homens e mulheres de Sihêon, mantos de mangas largas que chamavam de quimonos, nomes e cidades pronunciados de maneira melódica e até um pouco sinuosa, quase como um pequeno musical, mas que soava estranhamente, parecia ofensivo aos ouvidos que não eram acostumados.
Já o guerreiro não compartilhava daquele mesmo desdém que a sua superior.
— Ah, sim… Membros poderosos que decidiram entregar as suas espadas e os seus machados em nosso nome… Acho isso deveras… honroso.
Ele dissera firmemente, evitava qualquer desrespeito cultural.
O salão parecia ter escolhido o silêncio, principalmente diante de tais palavras, enquanto o sol sumia completamente, fazendo seus últimos raios iluminarem as pedras mais próximas das janelas. Os dois permaneciam ali, isolados em seus próprios pensamentos, lendo os voluntários para batalhas futuras e guerras que viriam.
— São muitas… muitas pessoas. — dissera Yelena, muito mais para si mesma do que para Kord, necessariamente, era como se a sua voz estivesse se perdendo no salão.
Ele apenas assentiu, concordou lentamente com a sua cabeça, mesmo sabendo que ela falava mais com as fivelas das suas vestes do que com ele necessariamente, e ela continuou em seu monólogo sem se preocupar que ele também estava por lá.
— Eu me pergunto como poderemos dividir tudo isso…
O guerreiro então ponderou, claro, lembrava-se de como o exército de Sihêon volta e meia se organizara de tempos em tempos, quando havia generais diversos, não pertencentes à Guarda Real.
Nos tempos de outrora, esses generais eram incumbidos de treinar tropas específicas. Mas a paz prolongada havia reduzido esses cargos e boa parte dos guerreiros mais habilidosos foi anexada à guilda da segurança dos reis ou para os sentinelas.
— Eu e Claude sequer poderíamos nos tornar generais… já que fomos integrados à Guarda Real. — Dissera o homem, também em uma reflexão silenciosa.
— Não me lembro de quem foi aquele que estabeleceu essa ordem… Mas tenho certeza de que, se conversarmos com o Ayel, ele poderia relevar.
O homem rapidamente pensara, sua testa franziu com a velocidade do seu pensamento:
— Então os novos generais seriam eu. Claude, e aí? — perguntou, sua pausa carregava um peso do gigantesco desafio, alocar tantos líderes para tantos homens.
— Ora, eu também. Acredito que nós três conseguiríamos dar conta de um pelotão de quinhentos homens, cada um.
— Loucura.
— Kord!
— Você, líder da Guarda Real, já é responsável por uma guilda inteira… Ainda mais sendo a mais experiente dos sentinelas, fazendo com que exista uma segunda guilda inteira para que você possa cuidar… Além disso tudo, precisas de um pelotão inteiro de guerreiros? Isso é insano.
Kord estava completamente incrédulo, era visível em seu rosto.
— Eu… acho que isso pode dar certo. — Ela dizia com uma firmeza em sua voz, seguida de uma ternura.
Enquanto o homem continuava perplexo, a mulher pálida sorriu, com uma serenidade e uma determinação muito forte em seu olhar. Para Yelena, acumular responsabilidades era uma das maneiras que ela conseguia se demonstrar útil para Ayel, era sua forma de evidenciar que ela era capaz, tanto como aventureira, quanto como mulher, diante daquele imperador.
Era como se ele pudesse sentir.
O som de três batidas discretas na porta daquele salão ecoou veemente, e o silêncio se fez assim que as batidas cessaram.
Esse silêncio fora rasgado logo depois pelo tilintar metálico das armaduras e do sussurro surdo do vento passando pelas frestas abertas da janela. Ayel surgira no batente, a presença do ruivo preenchia cada canto daquele espaço, ele era dotado de uma presença alarmante, intimidadora, mas acolhedora. Estranhamente, ao mesmo tempo.
— Eu não sabia que estavam aqui, o que temos de novo? — dissera o tribal, cada uma daquelas palavras carregava um peso.
Era a autoridade selvagem do jovem ruivo.
— Boa tarde, imperador.
Kord dissera, firme, com o respeito evidente.
Ele não era a pessoa mais próxima do mundo do bárbaro, mas com o tempo e com as lutas que tiveram um ao lado do outro, era evidente o valor de guerra daquele homem, ele o respeitava, afinal.
— Vossa Alteza… — A voz de Yelena saía melodiosa, quase em cacofonia, um sussurro solene.
Ele adentrou e esticava o couro das suas vestes, observou com uma certa paciência aqueles mesmos papéis que repousavam na mesa de madeira maciça.
— Isso é… Muita gente, não é? — Ele comentou, seu sorriso era vitorioso e ele cruzava os lábios em um sorriso que parecia o raiar do sol no meio daquele começo de noite.
— Sim, meu imperador, estávamos tentando encontrar alguma forma de treinar esses homens todos… Mas acabamos em um impasse.
Dissera firmemente, Kord. Seus olhos ainda estavam fixos nos pergaminhos.
— Eu sugeri que fossem feitos generais, vossa alteza. Kord, Claude e eu. — Exaltou Yelena. — Pelas contas do guerreiro, cada um teria que cuidar pelo menos de oitocentos e cinquenta combatentes.
— Besteira. — respondeu Ayel com uma voz firme, cortante como uma lâmina fria. — Kord e Claude podem ser generais, são competentes… Você, Yelena, sem chance.
— Mas, majestade?
— Quieta. — Ele a encarou de cima, com um fogo em seus olhos. — Você tem muito mais valor cumprindo exatamente o que você já me faz, não iremos mudar isso, certo?
A mulher recuou lentamente um passo, corando.
O ruivo prosseguiu, sua intuição e a razão pareciam andar de mãos dadas, era instintivo.
— Kord… Claude… Que tal, Hayit? Ele está em Pharid, mandar um pelotão para lá melhoraria as relações e nos daria mais espaço… Acredito que também poderíamos fazer de Nael um general.
— Nael? — Indagaram tanto Yelena quanto Kord, uníssonos e espantados.
— Sinto que ele será útil… — afirmou o imperador. Que apenas sorriu, confiante em sua própria percepção.
— Então, prosseguiremos assim? — indagou finalmente a sentinela.
— Poderemos fragmentar parte dos novos recrutas e levá-los diretamente para a Guarda Real, tornariam-se escudeiros individuais de cada guarda, que garantiria treinamento personalizado para esse escudeiro em si.
Dividir para conquistar havia se tornado dividir para treinar. De certa forma, Yelena e Kord trocaram olhares silenciosos de admiração.
Era uma boa estratégia, entregar pouquíssimas pessoas para treinadores sem muita experiência, a ponto de evoluir os escudeiros para se tornarem bons Guardas Reais, enquanto enfatizava as habilidades dos próprios guardas quando fossem passar os treinamentos para os novatos.
A atitude do ruivo dava a impressão de que era fácil.
Isso deixava ambos embasbacados em meio à sua admiração, uma leve pontada de raiva também surgira, mas tanto a sentinela quanto o homem de espada deixaram esse sentimento de lado.
— Por fim, teremos ao todo cinco pelotões, será assim que dividiremos os nossos homens — Concluira Ayel. — E os responsáveis por eles serão a própria Guarda Real e logo depois Nael, Hayit, Kord e Claude… Posso considerar que vocês dois concordam?
Antes que ambos pudessem responder, um soldado surgiu batendo na porta, chamando a atenção de todos os três que repousavam naquele enorme salão.
— Alguém deseja vê-lo, meu imperador. — dissera o homem em uma longa reverência.
— Quem? — perguntou Ayel.
— É Mudamir.
O soldado estava completamente sério.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.