Capitulo 36 - Moedas.
A bolsa bateu com um baque audível na negra mesa de madeira lustrada. As dezenas de moedas chacoalhando e retinindo por uma fração de segundo. O mais belo som de Jonas ouviu em tempos.
Raggin, o ouvidor da guilda, encarou seus olhos, sorrindo de forma cordial.
— Essa é vossa parte pelo javali de jatn, quarenta e sete moedas de prata. — anunciou.
Jonas sentiu a garganta seca. Erik, até então parado ao seu lado, adiantou-se e deu um passo à frente, agarrando a bolsa com ambas as mãos, agradecendo o funcionário.
— Espero que continuem com o bom trabalho — desejou o homem. Levantando e estendo a mão para comprimentá-los, afastando a cadeira em que estava sentado com o movimento e apoiou um braço sobre a mesa. Ainda sim, Jonas não ouviu um único som vindo dele.
Ambos apertaram as mãos.
Após isso, Jonas e Erik saíram do escritório repleto de monstros empalhados.
— Finalmente um pouco de sorte — cantarolou Erik, sentindo o peso e apertando a bolsa em suas mãos.
Jonas sentiu-se dúbio quanto a isso.
Quarenta e sete moedas de prata. Mais do que haviam conseguido com as tulípas. Mais do que já haviam ganhado naquele mundo. Mas não sabia se o que tinha ocorrido fora sorte ou azar.
Eles se dirigiram para o quarto, onde estava o motivo da dúvida.
Leandro estava acamado a dois dias, com uma tala na perna imobilizada. Graça cuidava dele, dia e noite. Levando-lhe, comida, água, e ajudando-o com suas necessidades fisiológicas. Após ser ferido pela javalina, teria morrido, não fosse pela mulher fármo que os socorrera, enquanto os outros aventureiros matavam a criatura. Se chamava Keurin e não parecia entender o que era senso de humor. Cobrou-lhes cinco moedas de prata pelo serviço após voltarem para cidade. O que foi protestado por Erik até fecharem um acordo em três pratas e sete cobres.
Jonas teria dado as cinco moedas de bom grado, mas sentiu-se aliviado quando a curandeira aceitou receber menos. No entanto, ainda tiveram que gastar mais, pois Leandro em nada melhorara desde então.
— Como ele está? — perguntou a Graça.
Um lento e melancólico balançar de cabeça, junto a uma expressão de angústia responderam sua questão.
— Ele parecia com muita dor, então dei o remédio para fazê-lo dormir.
— Eu sabia que aquela garota só queria nosso dinheiro — reclamou Erik, aproximando-se da cama.
Jonas revirou os olhos.
— Fomos a outros fármos e todos eles disseram para fazer o mesmo que ela fez — lembrou.
Aproximou-se de Leandro, e levantou as cobertas sobre sua perna ferida. As ataduras feitas com tecidos de linhas úmidas, comprados na rua verde, cobriam sua panturrilha. Estava enxertado de ervas e pomadas medicinais feitos pela fármo após retornarem para Beuha.
A princípio o curativo era branco e tinha um cheiro parecido com uma sessão de xampus e sabonetes no supermercado. Mas, após dois dias, estava alaranjado e fedendo como a carcaça e um gato morto. A pele visível em volta do curativo começava a tomar tons arroxeados. E, além disso, havia a febre.
— Tá, e agora? Damos mais dinheiro pra fazer outra atadura perfumada? — provocou Erik.
— Kerin vem hoje, né? Vamos esperar pra ver o que ela vai dizer — sugeriu Jonas.
— “Ótimo” — disse Erik em um tom jocoso. Ele deu alguns passos para o lado e assustou-se ao tropeçar em algo, que rapidamente saltou para longe.
Graça gemeu de dor no mesmo instante, pondo as mãos na cabeça enquanto seu coelho unicórnio se escondia debaixo da cama.
— As vezes esqueço que esse bicho existe — comentou Erik.
— Tome mais cuidado onde pisa, pelo amor de Deus — implorou Graça, ainda com as mãos sobre a cabeça.
— Sentiu isso também? — perguntou Erik franzindo as sobrancelhas. Graça confirmou com um aceno de cabeça. — Sente se ele tiver fome?
Graça o encarou confusa, movendo a boca sem realmente dizer nada por alguns segundos.
— Cara, para de perturbar e deixa ela em paz — bradou Jonas.
Erik deu de ombros, revirando os olhos. Sentou-se com as pernas cruzadas em um canto do quarto e ficou analisando suas pequenas pedras mágicas. Graça começou a trocar os panos de cama de Leandro. Jonas a ajudou, virando com cuidado o corpo do amigo para que ela o fizesse.
Algum tempo depois, a luz do dia entrando pela janela do quarto começou a enfraquecer. Era possível ver os aventureiros voltando de sua caçada em direção a guilda em uma marcha desanimada.
Jonas ouviu o prédio aos poucos se encher de sons. Vozes que atravessavam as paredes, o rangido causado pelos passos na madeira velha do piso. Batidas de copo e risos vindos do andar de baixo. Uma batida na porta, que pôde ser ouvida por todos no quarto. Ele a abriu, deparando-se com uma mulher de volumosos cabelos castanhos a contornar o rosto severo e magro. Usava o mesmo manto de quando a haviam encontrado pela primeira vez, cobrindo-lhe o corpo inteiro até o pescoço, e a bolsa que sempre parecia carregar consigo.
— Olá, Keren — comprimentou Jonas. Não sabia como tratar a mulher.
— Olá, devo entrar ou ficar lhe encarando aqui? — perguntou ela secamente.
Jonas deu um passo para trás, lhe dando espaço para passar. Fechou a porta e quando virou, a fármo já estava aos pés da cama, retirando algo de sua grande bolsa. Um pote com uma pasta de diferentes tons de verde.
— Houve alguma mudança desde que os vi pela última vez? — perguntou.
— Ele passou a ter febre e a vomitar — comentou Graça.
A expressão da fármo foi da severidade à preocupação. Ela então suspirou, dizendo.
— Entendo — respondeu com tom de voz monótono e começou a abrir as bandagens.
A cada camada de tecido tirada, as faixas ficavam mais negras e sujas, e o cheiro mais forte, até o ar por todo quarto tornar-se intragável de se respirar. O ferimento no entanto era o pior. Uma fenda profunda repleta de bolhas amarelas, envoltas por carne apodrecida, roxa como uma beterraba.
Graça sufocou com o cheiro, Erik soltou um guincho de repulsa a visão das bolhas, e Jonas não conseguiu retirar o olhar da fenda apodrecida.
— Isso não é bom — declarou a fármo, como se não fosse óbvio a quem olhasse. — A carne em volta infeccionou e se tornou pútrida, o corpo não consegue fechá-la sozinho e os medicamentos que eu passei antes não fizeram efeito.
— Como assim não fizeram efeito? — questionou Erik.
— Você passou os medicamentos errados? — Jonas perguntou, um tanto confuso.
— Não há nada de errado com o que passei, apenas ocorreu de algo não ser apenas o que eu esperava que fosse — explicou-se a fármo.
— Pelo amor de Deus, o que está acontecendo com ele? — desesperou-se Graça, pondo as mãos sobre o peito.
A fármo encarou Leandro com preocupação por algum tempo. Examinou sua temperatura, pondo uma mão sobre sua testa, e passou um pano úmido por cima de seu ferimento. Então seus olhos se arregalaram e seu rosto empalideceu.
— Por Heila e todos os deuses, como não pensei nisso antes?
— O que foi? — perguntou Jonas, o coração agitando-se no peito.
— Seu amigo foi envenenado — afirmou a fármo.
— Pelo quê? Não acredito que aquele javali era venenoso também — disse Erik, franzindo o cenho. Keren respondeu no mesmo instante em que ele se calou.
— Não era. Não foi o javali que o envenenou, mas o golpe de machado que aquele bárbaro ignorante deu — Fez uma carranca de desgosto. — Pelos deuses, todos sabem que se deve avisar antes de usar uma arma arcana envenenada, ou os danos colaterais podem afetar os outros membros do grupo.
— Tá dizendo que foi aquela fumaça que saiu do machado verde? — questionou Erik e Jonas se relembrou o ocorrido.
O golpe acertando a cabeça da javalina e os outros aventureiros se afastando enquanto reclamavam.
— Mas também respiramos aquele gás, porquê não sentimos nada? — observou.
A fármo deu de ombros.
— Não conheço as características daquela arma. Talvez o veneno faça mais efeito ao entrar em contato com o sangue. Talvez a resistência do seu amigo seja menor do que vocês. De todo modo é o que creio estar acontecendo com ele.
— E dá pra fazer alguma coisa? — Graça se aproximou da mulher, tocando em seu braço. A fármo a encarou, e Jonas viu o que acreditou ser um resquício de hesitação.
— Eu não tenho como afirmar. Preciso saber o tipo de veneno que é, antes de aplicar o antídoto. O que posso fazer por agora é retardar os sintomas enquanto descubro — explicou Keren.
Graça suspirou em tristeza.
— Como vai descobrir? — indagou Erik.
A fármo ergueu levemente os ombros.
— Tenho minhas maneiras, mas devo me apressar. Não sei se a quantidade de tempo que dispomos caso a dose tenha sido letal.
— Letal, como assim? — preocupou-se Jonas. Sua boca moveu-se em um sorriso de nervosismo.
Keren não respondeu.
Tirou meia dúzia de potes e frascos de sua bolsa, misturando-os em uma vasilha até uma pasta marrom ser formada. Ela o espalhou pelo ferimento e o fechou com mais panos úmidos, então preparou outra mistura, em maior quantidade e mais aguada. Despejou em um cantil e o entregou a Graça.
— Quando ele acordar, faça-o beber um gole disso. Retardará o efeito do veneno no corpo por algum tempo. Tentarei descobrir o antídoto antes que isso ocorra — A fármo então juntou suas coisas, levantou e estendeu a mão em direção a Erik, permanecendo assim.
Erik estalou a língua e tirou algumas moedas de cobre da bolsa.
— A depender do tratamento necessário, talvez o pagamento seja maior?
— Sim, sim, claro — Erik concordou em tom cínico.
— Acha que ele ficará bem? — perguntou Graça, a preocupação marcando seu rosto, que naquele momento parecia mais velho do que realmente era.
Keren respirou profundamente antes de responder:
— Não posso afirmar nada, mas farei o possível por meus pacientes.
— Se houver algo que possamos fazer, é só falar.
— Mantenham-no limpo — disse e saiu, com a bolsa em seu ombro.

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