Índice de Capítulo

    Charles corria na escuridão da caverna, segurando a carabina. Mesmo que a luz não estivesse bloqueada por Circe naquele momento, isso não importava para o prefeito. De qualquer forma, não havia nenhuma fonte de luz ao seu redor.

    “Que som de ventaria lá fora! Pelo menos a filha dele está vivinha ao que aparenta.”

    “Não queria mesmo estar nesse buraco… Só que aquela médica egoísta de uma figa não pisa aqui uma segunda vez enquanto eu viver. Chega de gente daquele tipo aqui!”

    Percorreu a escuridão por vários metros, mantendo o equilíbrio com dificuldade. Seus sapatos particularmente grossos evitavam que machucasse os pés ao batê-los em rochas e desníveis variados no caminho.

    Enquanto continuava a corrida cega no escuro, percebeu uma leve luminosidade azulada vinda de um dos lados. A curiosidade o moveu imediatamente até um espaço muito apertado, no qual passou a se esgueirar.

    Queria ser rápido, mas não era uma opção, ainda mais querendo levar a arma consigo. Movia-se de lado, arrastando os braços e pernas na pedra fria e úmida da caverna. A arma era o que passava mais facilmente, por seu formato.

    O som da respiração e do arrastar, do esfregar, ganhou a companhia de algumas batidas adiante. Os ruídos se intensificaram, trazendo um receio ao prefeito. Talvez algo estivesse à espreita, esperando que despontasse no fim do caminho para atacá-lo de imediato. O formato estreito daria muita vantagem a um potencial inimigo.

    “Alguém sai morto daqui, e não vou ser eu!”

    Charles não era um grande perigo no que dizia respeito ao Roha, mas sabia usá-lo suficientemente bem. Concentrou a energia e fortaleceu os pontos mais vitais do corpo, que acreditava poderem ser os pontos focais de um ataque.

    — Me solta! — gritou Mark, a voz vinda do fundo da passagem.

    Charles se apressou ao máximo, mesmo que machucasse o corpo, pois podia se regenerar com a Definição da Aniquilação, cedida por Quilionodora. Forçou-se até o fim do espaço e avistou perfeitamente a fonte do brilho azul.

    Emanava da criatura uma luminosidade azulada e escura, contrastante ao amarelo vibrante do lampião segurado por Mark, que tentava se desvincilhar de um amontoado de girassóis. As plantas enrolavam-se nos seus braços, como serpentes, tentando subir aos ombros.

    Movia-se uma das figuras que atacaram a vila. Inconfundível era o longuíssimo par de mãos negras, a altura de quase dois metros, o enorme buraco, na face, repleto de girassóis negros que se contorciam como uma infestação de inseto. Do crânio fluía, infinitamente, um líquido fétido.

    Charles mal deu tempo para que o percebessem chegar, atirou em pleno movimento. Um estrondo ressoou. O projétil em altíssima velocidade foi certeiro, de encontro com a cabeça da criatura. Ao ser atingida, curvou-se para trás, emitindo um lamento choroso.

    Mark conseguiu se soltar dos girassóis e deu um salto para trás. Correu para ficar ao lado do prefeito. Marcas escuras e estranhas visíveis nos pontos apertados pelas plantas.

    — Que bom que você chegou!

    — Não pretendia gastar minhas munições especiais em um capanga feio daquela mulher, mas é o que tenho para hoje, né? — Movimentou o ferrolho, descartando o primeiro cartucho do pente de munições.

    — Não consegui descobrir nada de útil sobre essa coisa nesse tempo!

    — Ok! Ei, sua filha está viva em algum lugar por aí, escutei uma ventania maluca lá fora! — Ergueu a arma e apoiou a coronha apropriadamente contra o ombro. — Se até ela, que é uma das mais fortes da vila, foi raptada por uma dessas coisas, é melhor tomarmos cuidado redobrado!

    “Argh… Só tem duas alternativas aqui: os monstros do ataque à vila eram mais fortes ou aquela mulher não quer o Mark morto.”

    “Pelo que vi na vila, ele já deveria estar despedaçado por aqui!”

    A coisa avançou rapidamente, e o prefeito reagiu de imediato. Outro estrondo ecoou e a criatura caiu rolando pelo chão, até parar. Quando acreditaram brevemente que tinha acabado, viram a figura se levantar.

    Charles movimentou o ferrolho novamente, descartando mais um dos cartuchos utilizados.

    Girassóis negros passaram a brotar do líquido fétido derramado sobre o chão pedregoso. As flores se contorceram, formando com rapidez formatos pontiagudos; fluía Roha em cada ponta. Um verdadeiro jardim distorcido se construiu diante aos olhos da dupla.

    Um girassol bizarramente se esticou contra o prefeito, que bloqueou o ataque com uma coronhada violenta. A flor se afastou, retornando ao estado aquoso.

    “É, nada é fácil nessa minha vida.”

    Parte da madeira estava profundamente cortada, retirando dele até mesmo a certeza sobre o bom funcionamento da carabina. Impedido de pensar por uma nova série de ataques repentinos, escolheu fortalecer os materiais da arma com o Roha.

    Atingia as flores, bloqueando e contra-atacando as investidas com coronhadas velozes. Mark observava sem nenhuma ideia do que fazer, surpreso pela velocidade e precisão. Durante a defesa perfeita, encontrou uma brecha para um novo disparo e deu um passo adiante, forçando o pé contra o chão. Girou a arma na direção do alvo.

    — Quilionodora — cochichou, envolvendo-se em uma aura vermelha antes de puxar o gatilho.

    O disparo coberto pelo Roha, fortalecido pela deidade, atravessou a criatura na barriga e abriu um rombo. O alvo foi jogado contra a parede daquela parte da caverna, batendo com tudo. Escorria do buraco a tinta obscura, esparramando-se.

    — Conseguiu?! — indagou Mark ao erguer o lampião na altura dos olhos para tentar ver melhor.

    Uma ação rápida e misteriosa foi percebida pelo médico. Mediante à luminosidade amarelada, viu Charles ser empalado e batido contra o teto. Um grupo de girassóis cortantes o forçaram contra o irregular topo da caverna.

    No instante em que a primeira gota de sangue tocou o chão, Mark viu um dos girassóis avançar contra ele. Sem tempo de reação, foi atingido no rosto, tendo os óculos quebrados e a face parcialmente cortada.

    Afastou-se e prestou atenção na movimentação dos girassóis As plantas serpenteavam pelas extremidades, buscando um momento ideal para atacar. A adrenalina gritava em suas veias, preparando-o para reagir.

    — Preciso encontrar a minha filha e você está me atrapalhando! — Ele jogou os óculos quebrados fora. — Não posso ser inútil como médico e como pai. Mesmo que eu seja fraco, vou dar um jeito de remover você do meu caminho!

    O prefeito, no alto, segurava a arma com uma mão e forçava a outra contra os girassóis, tentando arrebentá-los. Os efeitos eram mínimos naqueles esforços.

    “Deve estar focando a maior parte do Roha para me conter…”

    — Vamos ver quem é mais maluco! — Agarrou a arma com as duas mãos novamente e virou para si, dando um tiro à queima roupa com a mesma potência do anterior.

    As plantas reforçadas que o cortavam não aguentaram e foram completamente destruídas. O homem despencou e caiu de costas no chão, com um sangramento grave decorrente da energia do disparo.

    — Levanta e me ajuda! — pediu, incisivo, Mark.

    — Ai… — Charles se levantou, regenerando lentamente as feridas. — Tenha mais um pouco de compaixão por um possível paciente… Hahaha!

    “Foi algo assim que matou muitas das pessoas da minha vila…”

    “Perdi tantas pessoas e vi tantas coisas tão mais escabrosas na guerra… Nem imaginava ainda poder sentir raiva em uma situação como essas… É um bom sinal, ainda não fui dominado por minha falta de sensibilidade”

    Ao apontar a arma novamente, declarou: — Vamos!

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota