Índice de Capítulo

    Mark e Charles avançaram em sincronia, lado a lado, visando alcançar o monstro. Os girassóis negros e retorcidos se alongaram para tentar impedi-los de seguir.

    O prefeito respondeu ao ataque abrupto novamente atingindo-os com a coronha da carabina. Parte das flores foi completamente arrebentada, e o médico aproveitou a abertura feita após o ataque.

    Mark avançou, concentrando nas mãos o pouco Roha que tinha. Foi atingido nos braços e pernas de formas não letais; tentavam derrubá-lo.

    “É, eu acertei, essa coisa por algum motivo não quer matar ele!”

    “Preciso ser mais agressivo para acabar com isso logo.”

    Charles concentrou o Roha nas pernas e deu um salto ao outro canto da caverna, atirando-se como um míssil contra a criatura. Um sorriso surgiu em seus lábios, confiante, antes de apertar o gatilho à queima-roupa.

    O disparo da munição especial atravessou a monstruosidade de tinta, abrindo um buraco logo atrás dela, tamanha a potência. O prefeito caiu por cima do alvo ao fim de seu salto, tocando diretamente o líquido fétido que escorria do crânio.

    “O quê?!”

    Diversos girassóis negros brotaram de dentro de seu braço, rompendo a carne, e, como se não desse para piorar, a criatura começou a emitir uma luminosidade azul mais intensa. Um grunhido arranhado, em lamento, vinha da aberração.

    — Por que você não morre logo?! — Charles pulou para trás e arrancou parte das flores no braço com uma mordida.

    Mark, que vinha logo atrás, saltou contra o alvo e deu um soco com toda sua força. O monstro estremeceu e ele continuou golpeando sem parar, enquanto o brilho azul aumentava mais e mais.

    — Morre de uma vez! — berrou o médico, afundando os punhos naquilo, furioso.

    De um segundo para o outro, Charles viu Mark ser brutalmente arremessado contra a parede. O homem atingiu as pedras e caiu ao solo, inconsciente. Antes que o prefeito tivesse chance de pensar sobre, uma sensação o envolveu.

    Todo o corpo, cada parte de si, alertou para que se virasse na direção da criatura novamente. Os olhos mal acompanharam, e ele apertou o gatilho por mero reflexo. Charles errou o tiro completamente. O longo par de mãos negras veio veloz e arrancou um de seus braços, fazendo-o perder a arma.

    Sentiu-se jogado e, após bater as costas contra as pedras, finalmente viu a mudança ocorrida. O intenso azul cobria todo o espaço daquela caverna. A aberração estava evidentemente machucada, e os girassóis no buraco da face pareciam queimar. Uma chama branca e azul dançava.

    “Essa coisa é mais barra pesada do que eu poderia imaginar… Minha coluna vai virar pó nesse ritmo.”

    “Ahh… Sem a munição de Quartzo das Profundezas não tem como a gente ganhar disso… Preciso recuperar minha carabina.”

    “Só tenho um único disparo restante, e parece que essa coisa ficou mais rápida!”

    Enquanto Charles pensava no que fazer, Mark tinha um sonho durante seu desmaio. O peso das dezenas de horas sem dormir caiu sobre ele como o deslizamento de uma montanha, soterrando-o no cansaço.


    Perdido em um labirinto natural, vagava por um milharal sem qualquer noção do tempo. O sussurro calmante do vento entre as espigas, a dança suave das plantas sob o vento e o imenso azul do céu traziam conforto.

    Tão imerso naquela paz profunda, questionou se era um sonho. Porém, a sensação era tão real que a ideia foi rapidamente descartada.

    A cada passo, a leveza que o abraçava era sutilmente perturbada. Pontos escuros começaram a se infiltrar no céu, como nuvens de tempestade em um dia que começou ensolarado. Essa invasão gradual dilacerou o encanto daquele sonho.

    De repente, uma mancha negra gigante se espalhou pelo céu, devorando a luz e pintando o mundo de cinza. A mente, antes tranquila, se agitou em busca da origem desse mal-estar que o consumia.

    — Você pode me ouvir? — disse, temerosa, a esposa dele, Maria.

    Tudo no sonho se desmanchou; foi tirado da ilusão causada pelo cansaço. O milharal tornou-se um vazio cinzento, no qual não sentia seus pés tocar. Flutuava diante da mulher de cabelos escuros, surgida bem diante de seus olhos.

    Tentou, uma, duas vezes, mas as palavras simplesmente não vinham. Abalado, apenas assentiu, sem reação.

    — Sei tudo que você fez depois que morri… Eu nem deveria ter o direito de saber disso, mas o Deus do Desconhecido interveio para me deixar ter essa última conversa quando você dormisse. Mark, sempre te amei por sua gentileza e pelo quanto se importava de coração e alma pelas pessoas ao seu redor.

    — Quando a antiga médica da vila foi embora, todos ficaram preocupados. Várias pessoas ficaram doentes e sem tratamento, e foi você quem se dispôs a estudar e virar um médico… mesmo já na metade da sua vida. Estivemos juntos desde antes disso, e gostei mesmo de vê-lo tão focado e inspirado pelas histórias dos outros médicos e inventores mundo afora, enquanto estudava para melhorar a vida das pessoas…

    — Mas não importava o quanto você estudasse ou se esforçasse aqui, essa vila têm muitas pessoas. Você se doou por inteiro, como sempre, mas essa última crise na vila não era como em todas as vezes anteriores. Mark, você até pode conseguir salvar todos em circunstâncias comuns, mas nunca vai conseguir salvar todos em grandes tragédias. Nem Elta Velgo fez isso. Sozinho não teria como.

    — Cortava meu coração te ver tão cansado quando algo muito ruim ocorria na vila, sempre se forçava além do limite… Meu desejo não era que ignorasse o sofrimento dos outros, mas que pudesse olhar para o sofrimento que carregava em seus próprios ombros. Um médico deve se preocupar com os outros, mas você percebeu perto daquele rio que há limites para isso.

    — Tinha medo de você acabar morrendo de exaustão! — Lágrimas escorriam pela face. — Eu e a Madallen te amamos, nunca tinha pensado em nós? Nunca imaginou como ficaríamos se te perdêssemos de um dia para o outro?

    Mark não respondeu, somente continuou ouvindo.

    — Se quer tanto ser um salvador nesse mundo horrível em que vivemos: trilhe o caminho da família Velgo. Siga a deusa Vegarten e cure os outros para além da medicina comum! Quero que possa ficar ao lado da nossa filha, agora que… vou partir. Sendo um médico qualquer, nunca vai ter tempo para estar com ela tanto quanto queria ver.

    — A Madallen tem bastante orgulho do pai cabeça-dura que tem… Vá atrás dela, por favor. — Maria o abraçou e, em tom solene, disse: — Se você morrer, nunca irei te perdoar!

    — Desculpa por tudo… Obrigado por ter me acompanhado durante tantos anos. — Retribuiu o abraço, caindo em lágrimas. — Eu te amo, Maria, e prometo que vou cuidar da nossa filha até o fim dos meus dias.

    Sabiam que aquele era o último abraço, o último toque de afeto que teriam naquela realidade cruel. O calor de seus corpos era apreciado por ambos, um desejo de que aquele reencontro fosse eterno. Porém, não seria. Mark sentiu o calor diminuir e o corpo de Maria se esvair, dando lugar a um vazio gélido. A segurou enquanto pôde e a beijou, como despedida.

    — Boa sorte — disseram um para o outro.

    Maria e o sonho se foram.


    O barulho de uma gargalhada alucinada o tirou daquele sono profundo. Levantou-se rapidamente, sentindo uma dor intensa no corpo inteiro. Logo à frente, uma cena bizarra se desenrolava.

    Charles, com um único braço, confrontava a criatura cara a cara. Chutava e desviava da investida de girassóis, tendo pele e carne arrancada a cada instante nas mínimas falhas que cometia. Por estar muito ferido, havia ficado mais forte e resistente, por influência da Definição da Aniquilação.

    Mark avistou a arma jogada no chão e correu para pegá-la. Uma nova sensação, ótima, o atingiu. O Roha que circulava pelo corpo estava mais intenso do que antes. Era sua hora de finalizar as coisas.

    Ao recolher a carabina do chão e erguê-la, foi imediatamente cortado pelos girassóis. Ignorando a dor, apontou diretamente para o alvo, nas chamas azuis e brancas. Colocou o dedo no gatilho e respirou fundo.

    — Meus pais me fizeram seu seguidor, então é hora de usar sua força: Quilionodora! — A aura vermelha o circundou e o disparo infestado de Roha foi efetuado.

    A criatura foi completamente destruída, finalizada. O corpo de tinta derreteu e as chamas coloridas se espalharam pelo ambiente antes de desaparecerem. Cada girassol ficou claro, em seus tons de amarelo natural, caindo pelo ambiente.

    Ofegante, abaixou a arma, surgindo um fraco sorriso em seus lábios. Limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto cansado.

    — Bom tiro, Mark! — elogiou o prefeito, que logo sentou no chão.

    — Você está bem?

    — Bem é uma palavra muito forte, né? — Riu, olhando para o braço cortado jogado ao lado.

    — De qualquer forma, não é hora de ficar sentado, precisamos achar os outros agora.

    Charles pensou: “Médicos costumavam indicar um bom tempo de descanso…”.


    Verion avançava por uma área escura, iluminando parcamente o percurso. Havia criado uma pequena esfera flamejante com suas capacidades de compressão do ar. Aprofundava-se na parte não destruída da montanha.

    — Jon?! Mark! Cadê vocês?!

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