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    “Uma coisa que aprendi com Willmina, em meus profundos sonhos, era que o coração era dividido em várias partes. Como máscaras em um teatro mascarado de Charyçás. Há as máscaras dos heróis, as dos vilões.

    Mas o coração é mais complexo. Fonte de toda a emoção, ele também é da racionalidade. O cérebro é o pai de todas as emoções. O coração, o da mente. Parece confuso, certo? É porque é.

    A realidade é muito mais cruel do que palavras podem traduzir. Mas ouçam isto: o coração bondoso pode ser tão mais racional e maligno que a mente de um monstro.”

    Izandi, a Oniromante


    — Pai! — chamara Rheider Beesh, correndo para o pai. Nos meses que ficara fora, sua barba tinha crescido, e não somente ela, como também a altura. O garoto parecia ter ganhado uma cabeça há mais, mesmo que ainda fosse tão gordo quanto saíra. Já Theolor estava cada vez mais raivoso, com entradas cada vez maiores. Imaginou que ele gritaria com o rapaz, que descontaria o estresse da idiotice que seus vassalos fizeram, mas ele deixou de lado toda sua ira e abraçou seu filho com a força de um urso.

    — O que comeu para crescer tanto, pivete?!

    — Hahaha…

    Rheider Beesh retornara ao castelo do Olho que Chora com um séquito de quase duzentos homens. Willmina testemunhou o momento de ternura e tudo que conseguiu pensar foi “Por que não é comigo?” Por que não eram seus filhos e marido retornando para seu seio? Queria chorar, cair de joelhos e chorar aos pés da sua cama. No entanto, se controlou e não demonstrou essa dor. Engoliu-a, jogou para dentro do coração e deixou o tempo passar. Deveria estar feliz pela reunião deles, feliz com Rheider bagunçando os cabelos de Nianna.

    “O que posso fazer para tê-los de volta?”, pensara, mas também engoliu os pensamentos. Não, um não grande que deveria bastar. “Já usei de magia uma vez…” Massageou a barriga. Estava quase, quase lá. Sentia os chutes da criança, tão delicados e gentis que não pareciam chutes de verdade, mas como uma mão estendida chamando pela sua, por seus beijos, por seus afagos.

    Isso só pesava mais no seu coração.

    Como seria bom se a dor sumisse! E por isso, ajoelhou-se muitas horas perante seu altar particular. Era simples: um altar de madeira com um Sântico de capa de couro de ovelha e moldura de freixo, estátuas de porcelana dos símbolos dos Deuses e um jarro de unguento-sacro. Despejou o unguento sobre os símbolos e fez uma prece. Acendeu as velas e queimou folhas secas de figueiro-sacro e fez uma prece. Usou de sua voz e cantou preces, até a garganta ficar seca, e só lágrimas desciam seu rosto.

    Dai-nos força na dor, Mãe!

    Vós, que da vida és Milagre!

    Abençoa-me com três,

    Abençoa-os com vários!

    Batidas à porta ecoaram por sua casa. Willmina pôs força e se levantou, então secou as lágrimas com um lenço e pôs suas luvas de volta.

    — A quem — fungou e limpou os olhos novamente. — A quem devo?

    — Baronesa Zwaarkind, é a senhora? — falara uma voz masculina, ainda fina demais para ser de um homem feito.

    Willmina abriu e fechou os lábios várias vezes. Baronesa. Se não fosse por aquele dia; se tivesse sido mais forte e dito “Não!”, nada disso teria ocorrido. Lhe faltara força? Ela coçou a testa e mordeu o lábio.

    — Sim. Pode entrar.

    Ao ouvi-la, a porta rangeu e luz externa entrou na casa mal iluminadas por dois pares de velas de cera de abelha. O rapaz logo entrou. Tinha cabelos pretos e era imberbe, jovem como trigo antes de uma colheita descartada, pois ataduras e pontos cobriam várias partes do seu pescoço. Ainda assim, seus olhos lilases tinham a luz de um riso que ele tentava demonstrar para a mãe lamentosa à sua frente. Ele não o fez. Manteve-se cortês.

    — Cei Witernier, não?

    — Não sou mais merecedor do título de Cei, Vossa Graça — segurou o braço enfaixado com a mão livre. — Minha honra e alma foram maculadas não uma, mas duas vezes.

    Ele abaixou a cabeça e rangeu os dentes. Willmina suspirou alto, abaixando as sobrancelhas, e o Cei caiu de joelhos ainda fora de sua casa.

    — Não tenho como pedir perdão. Não há nada neste mundo que corrija meu erro, Vossa Graça. Nada.

    A ruiva abriu a boca, mas não disse nada.

    — Não tenho também mais o que dizer além disso, Vossa Graça — mordeu os lábios cheio de fúria. — Sei que minhas promessas e pedidos não valem mais de nada. Absolutamente nada… — Cerrou o punho. — Mas peço que tenha esperança. É só isso que posso pedir.

    — Minha filha. Minha estrelinha passou uma noite falando de você — enfim respondeu. O rapaz avermelhou de constrangimento, e então de vontade de chorar. — Por favor, entre. Minha alma pesaria ainda mais se ficasse do lado de fora.

    — Não mereço.

    — Não estou pedindo, rapaz. — Ergueu as costas. — Se fores ficar chorando aí fora, faça alguma coisa para mim aqui dentro. — Pôs as mãos na barriga.

    Ele se levantou, seus cabelos longos e sedosos balançando com a subida brusca. Willmina apertou os lábios e fechou os olhos.

    — Sabe fazer chá?

    — Sim.

    — E arrumar as malas de uma dama?

    — …Imagino que sim.

    — Portanto, conseguirá fazer algo por mim. Careço de forças a cada dia que passa.

    — Deseja que chame o medista?

    — Por agora, só chá.

    Ele apertou o braço mais uma vez, com força para quebrá-lo.

    — Certo.

    Cei Witernier entrou na casa e fechou os olhos. Deu uma olhadela com os olhos rápidos que Willmina reconhecia dos anos vivendo com seu esposo: os olhos de um caçador. Sabia que o rapaz tinha desenhado em sua mente uma fórmula primitiva de onde ficava cada coisa da casa. E que fosse assim, menos a explicar, menos a falar. Mas não conseguiria se permitir assim. Talvez fosse pela paixão pitoresca que a filha tivera, ou pelas camadas e camadas de faixas que cobriam as queimaduras, mas não conseguia enfurecer-se contra o garoto.

    “E porque me dará respostas.”

    Willmina olhou para o Cordão Umbilical da Mãe, feito em detalhes simples na porcelana no altar. “Mãe, que me dê forças. Sábia, que me dê um caminho. Pai, que me proteja. Guardião, que me observe.” Massageou o ventre. A água já borbulhava e o cheiro de algumas folhas secas e especiarias. Gostava da mistura de hortelã e alenísea, todavia a última era fortemente abortiva e tinha um gosto péssimo para seu humor atual.

    — Cei Witernier.

    — Sim, Vossa Graça.

    — Não use alenísea. É a de folhas em serra.

    — Certo.

    Ele destampou outro frasco, libertando o cheiro de sementes de girassol em conserva. Willmina fez um gesto para que o garoto as trouxesse. Estavam deliciosas, salgadas. Sua língua ficou preenchida de sal; poucos minutos depois, ele viera com uma xícara de chá de hortelã com mel.

    — Por favor, sente-se.

    Cei Witernier acenou e sentou-se à mesa, na cadeira de Bert. Era alto para a idade, mas estava torto como um anzol e encarando suas feridas como uma mãe de um filho morto.

    — Está de seu gosto, Vossa Graça?

    Willmina sorriu e tomou uma xícara.

    — Posso te revelar um segredo? Não gosto de chá, nenhum pouco. Sempre preferi suco ou vinho. Mas minha filha adora e, portanto, aprendi a gostar.

    — É uma história bela…

    — Assim, por favor, conte-me tudo. — Repousou a xícara. — Duque Theolor é um bom sire e um bom homem. o entanto, ele jamais me dará o sofrimento de ouvir tudo. Mas me conte. Quero ouvir como a perderam. Como? Quem? Por quê?! Quem!?!

    Trincou os dentes. “Não chore, Willmina! Não chore!”, pensou. O jovem Cei, o mais jovem membro a entrar para a guarda real de Aavier, não pensou no mesmo. Assim que juntou as mãos, duas lágrimas caíram nelas.

    — A senhorita Hydele estava muito melhor de saúde naqueles dias, tão bem que voltara a brandir com a mestra de armas Jenna.

    A mãe engoliu em seco e semicerrou os olhos.

    — Não eram treinos intensos, mas o suficiente para fazê-la suar. Muitos deles ajudei. Sua filha é talentosa, Vossa Graça. No entanto, no final de uma tarde proveitosa, Cei Ehrle Asseliers e uma comitiva de cavaleiros apareceram próximos de nós.

    “Aquele desgraçado! Bastardo imundo…”

    — Senhorita Hydele demonstrou uma generosidade grandiosa permitindo que eles fizessem parte do nosso acampamento, embora Cei Ehrle viesse manchado de sangue e com prisioneiros. Ainda mais bondosa fora ela levando comida para os prisioneiros. Todos eles tinham um sotaque hediondo, mas dentre eles havia um que falava woulevita como qualquer um de nós, um corcunda lacerado até a morte. Ele foi o único que a tratou bem o suficiente para aceitar sua bondade. Eu estava longe, treinando minha espada, quando voltei e pude ver isso por muito pouco. Fora o suficiente para aquecer meu coração e confirmar que jurei minha lealdade a uma pessoa com virtude no coração.’

    ‘Porém isso se revelou tolice. Dois dias depois, Cei Ehrle estava se preparando para ir embora, e senhorita Hydele estava cansada de mais um treino. Houveram despedidas e ela fora dormir cedo. E então, mesmo que o inverno mal tivesse acabado, estava quente como o verão.”

    Bateu os punhos nas coxas.

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