Capítulo 084 - Farejar da raposa!
Capítulo 084 – Farejar da raposa!
Por todos os lados, as bandeiras e os brasões multicoloridos que tremulavam ao vento cortante, que vinha do norte, refletiam a heráldica das grandes linhagens em cima das atalaias. Aqueles estandartes dançavam como serpentes, o clã Alvorada, sua bandeira tinha sob um fundo verde-escuro com um belo e chamativo sol no meio, com tiras diagonais onduladas de cor alaranjada do centro até as pontas.
Já a bandeira do próprio reino de Sihêon mudou diversas vezes, parte dos seus reis desejava modificá-las ao seu bel-prazer, principalmente para aproximar o símbolo de seus clãs de nascença. Eram bandeiras onde, sobre um campo dividido entre negro profundo e vermelho escarlate, um sol estilizado de lâminas alternadas convergia para o centro, onde se erguia uma grande cruz.
Enquanto no mais alto as bandeiras e os estandartes serpenteavam com o vento, nos corredores abaixo, Ayel, Kord e Yelena atravessavam o enorme pátio externo. Era possível escutar o tilintar distante das armaduras dos guardas que estavam postados pelos cômodos.
Ayel caminhava à frente, mantinha seus passos firmes e determinados, o bárbaro passava com uma enorme presença com seus ombros erguidos, seus cabelos ruivos, naquele momento, já bem médios, balançavam lentamente com o vento.
Kord seguia alguns passos atrás, mantendo uma distância respeitosa, mas protetora, e Yelena caminhava com passos bastante leves e silenciosos, quase felinos.
Era um contraste notável com os dois homens, a sentinela estava de cabeça erguida, e seus olhos claros varriam o ambiente com uma precisão cirúrgica.
— Alguma ideia do motivo dessa visita tão inesperada? — Dissera a líder da guarda real.
A pele de Yelena era tão branca que quase parecia translúcida, destacava-se contra o seu manto escuro da Guarda Real que ela carregava sobre os seus ombros.
— Era algo que eu também gostaria de saber. — O Imperador retrucou.
— Perdão em relação à quarentena, se eu puder fazer um palpite. — O comentário do Lâmina-fria ecoou no corredor enquanto eles seguiam pelo corredor principal.
Kord passara a mão para manter que seus cabelos continuassem alinhados para trás, ele coçava a garganta enquanto observava os três passarem pelo portão monumental de madeira entalhada que levava ao grande salão do trono.
À frente do trono, estavam Mudamir e Dalila, eles aguardavam ansiosamente, estáticos como se fossem estátuas.
O trio da coroa passou a se acomodar, Alvorada subira as escadas e então repousou no trono pesado, e então, lançara um olhar frio a Mudamir e Dalila, seus olhos fixaram primeiro no líder dos algozes e logo depois em sua aprendiz.
Ele avaliava, julgava e tentava ler suas posturas.
Já Kord, fincou os pés junto aos primeiros degraus do trono, o guerreiro havia posicionado-se de tamanha forma a conseguir uma visão clara de toda a sala. Ele não confiava em Mudamir, mas conhecia brevemente a natureza de Dalila, talvez o suficiente para compreender o motivo de ela ter sido convocada.
Yelena movimentou-se à direita do monarca, suas mãos estavam cruzadas na frente do seu corpo. Ela estava alerta, a loira não gostava daquela situação, não gostava de ter algozes tão próximos do imperador, mas confiava em Ayel, confiava em sua capacidade de lidar contra qualquer possível ameaça.
O preconceito contra os homens e mulheres de Maut Ka Mandir ainda estava muito forte, o próprio tribal consumia-se em ódio, por muitas vezes, precisou ser acalmado por Victoria Belomonte, mas ela não estava lá naquele momento.
Em um momento, Mudamir curvou-se lentamente, era um gesto de respeito que não era exagerado, mas também não era totalmente subserviente. Existira tamanha dignidade em sua reverência. Quando sua voz saiu de seu corpo, soava como se suas palavras fossem cuidadosamente escolhidas antes de serem pronunciadas.
— É um imenso prazer estar em sua presença, meu imperador.
Assim que dito, o homem encarou bem todos que estavam no recinto, os três no trono e os guardas espalhados pelos cantos todos. Dalila estava ao seu lado e continuava sendo uma sombra do seu mentor.
A pele caramelo da garota algoz destacava seus olhos intensos e grandes que observavam tudo com bastante curiosidade.
O silêncio era denso no hall, atravessado justamente pelo estalar das chamas distantes.
A tensão era notável, como se a qualquer movimento errado pudesse desencadear algum tipo de violência imediata.
Era perceptível o tato do patriarca dos algozes, que destacava-se pela elegância dos gestos e, acima de tudo, sua máscara de porcelana branca em forma de raposa que ocultava o seu rosto.
O imperador não respondeu imediatamente, estudou o homem posto em sua frente por alguns longos segundos. O bárbaro não gostava do uso de máscaras, não lhe agradava quando observava Anusha portando uma, como não agradava ver novamente um homem em sua frente com uma máscara assim.
— Fale, Mudamir. — Dissera finalmente Ayel, com sua voz grave e direta. As palavras do imperador ecoaram pelo salão, carregadas de autoridade, juntando uma ameaça sutil.
Aquele homem não estava disposto a perdoar facilmente, não estava disposto a esquecer a traição vinda de Anusha, tanto que ainda carregava cicatrizes daquela fatídica tarde.
— Ayel Alvorada, já escutei todos os seus títulos, era Ayel o Destruidor, se tornou Ayel, o Rei Bárbaro e agora… Ayel, o Imperador Bárbaro, eu preciso dizer o quanto isso é impressionante e admirável.
Os trajes em couro que Mudamir vestia eram discretos, bastante sombrios, como se ele estivesse tentando se fundir com as sombras. Combinavam com seus movimentos. Ele mantinha suas mãos visíveis para demonstrar que não portava armas consigo, mas todos naquele salão sabiam que um algoz não precisava ter armamento visível para ser considerado perigoso.
Seus cabelos escapavam sob o capuz e eram ondulados.
— Como sabe, imperador, estive longe. Viajava a trabalho e estive fora de Maut Ka Mandir nos últimos dois anos.
O homem com a máscara de porcelana confiou em sua própria história, ele já havia perdido o seu verdadeiro nome, afinal. Precisava explicar para a corte o motivo do grande “Sumiço de Mudamir”, prontamente ele continuou:
— Venho aqui sem negar o fardo que todos nós carregamos. Mas… eu preciso clamar, em nome dos que permanecem leais.
Ayel soltou um riso, um pouco forçado, ele mantinha um ódio no olhar que não cessaria tão facilmente. Yelena colocara sua mão sobre o seu ombro e ele a encarou, tentara ficar um pouco mais racional, inquietou-se.
— Anusha quebrou nosso pacto sagrado, mas os demais algozes jamais concordariam com a sua traição… Venho humildemente solicitar a remissão, não somente pelo valor do nosso ofício… Mas pelo engenho e sofrimento dos inocentes que acabaram punidos junto ao culpado.
A frase de Mudamir soou melancólica e melodiosa, suas palavras eram polidas e educadas, carregavam sim, uma emoção bastante genuína. Ele não estava apenas fazendo um discurso por fazer.
— Lealdade não é apenas uma palavra, Mudamir. Cada membro da guilda ressoa nos atos do homem que você escolheu para representar Maut Ka Mandir. — bradou Yelena, que estava em silêncio até então e não conseguia mais se conter.
— Exatamente… Escelsa sentinela. Por isso mesmo estou aqui para ofertar tanto a minha vida quanto a de uma das minhas aprendizes, Dalila, para jurarmos de novo fidelidade à coroa. Que sobre nós recaia qualquer responsabilidade, e que os dignos possam retornar ao vosso serviço.
Dalila conhecia Ayel, já haviam conversado diversas vezes em ocasiões regressas, aquela familiaridade, embora um pouco limitada, fazia com que a algoz se sentisse um pouco mais à vontade, até mais que o seu próprio mentor. Ainda assim, ela sentia que estava em um terreno perigoso, percebeu que qualquer palavra errada e qualquer movimento suspeito seriam o suficiente. Ao escutar o seu mentor, ela engoliu seco.
A oferta do senhor de Maut Ka Mandir era audaciosa, soava praticamente como um pedido de desespero.
— Palavras são vento, máscaras não revelam intenções. — Dissera Kord, cada uma de suas palavras soou com uma dureza característica de um guerreiro.
Ayel encarou o guerreiro, que prosseguiu com sua pergunta.
— O que garante que não estão tramando outro golpe sob juramento? — indagou Lâmina-fria.
— Senhor Kord, nós nunca traímos o nosso juramento. — Dalila dera um passo à frente, intervindo por seu mentor. — Fomos criados para fazer o que fazemos, mesmo quando a coroa desconfia de nós, e, de qualquer forma, o preço pelo erro de Anusha já foi muito alto… Muitos tombaram sem sequer saber o motivo disso.
Com um simples movimento do seu pescoço, o imperador encarou a algoz.
— Sofreram — disse Ayel finalmente, sua voz era cortante. — Não vou contestar isso, mas quer que eu aceite penitências vazias? Por que deveria confiar em vidas veladas?
— Porque compreendemos o peso do pacto. — Respondeu prontamente Mudamir enquanto se ajoelhava no chão. — Deixe que a guilda prove que ainda somos úteis à vossa coroa, majestade.
Então, o tribal ruivo apoiou-se no encosto do seu trono, batia repetidamente seus dedos sobre os braços de metal. O bárbaro estava pensando, avaliava, pesava todas as opções e suas possibilidades.
O líder dos algozes permaneceu ajoelhado diante do trono, embora sua postura tenha mudado levemente, como se o homem estivesse se preparando para algo importante. Ele retirou lentamente de dentro do manto um envelope selado com uma cera escarlate marcada pelo símbolo da guilda, a cera estava rompida.
Aquele envelope era antigo, amassado, como se estivesse guardado por muito, muito tempo.
Mudamir estendeu as mãos trêmulas, erguendo essa carta em direção a Ayel. Kord prontamente andou até o algoz e a pegou.
— Quando estávamos esvaziando os cômodos do Anusha, encontramos isso. — O patriarca algoz disse, com sua voz contida. — E, dentro dessa carta… Respostas que julgo serem vitais.
Ayel sequer movera a mão quando Kord tentou entregar-lhe a carta. A expressão do bárbaro era fria.
— Pouco me importam as palavras de um traidor morto. — O jovem Alvorada manteve sua voz seca. — Cartas de última hora são raramente honestas… Não preciso de véus que cubram a verdade.
— A carta cita Crono. — disse o algoz, erguendo-se. Encarando o imperador, voltando à sua postura ereta e nobre. — A carta o nomeia como mandante do crime vindo de Anusha… Também ensina como entrar em sua torre.
Esse nome ecoou como um açoite, o semblante de Ayel contraiu completamente, consumido por uma chama de fúria em seus olhos. Ele se levantou, tomando rapidamente a carta que estava sendo segurada por Lâmina-fria.
— Crono? — perguntou Ayel, sua voz rouca, abrupta, carregada de uma emoção que era difícil de controlar. — Tem certeza?
Mudamir não tinha sua expressão à mostra devido à máscara de raposa que estava logo à frente do seu rosto, mas seus ombros se mexeram e o som que saiu era como se ele estivesse rindo bem baixinho.
— Então… Imperador, podemos falar do perdão ao meu povo?

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