Capítulo 12: Tartaruga de Aço
O grito do metal foi a primeira coisa que Zeon ouviu através da interface neural. Não o som limpo de uma explosão externa, mas o gemido prolongado e agonizante de vigas de sustentação internas, com um quilômetro de comprimento, se torcendo sob uma força inimaginável para a qual não foram projetadas. A fortaleza inteira tremeu violentamente, e o chão maciço do Pavilhão de Adel moveu-se sob os pés pesados de seu Kation como o convés de um navio apanhado numa tempestade cósmica. Poeira acumulada de trezentos anos de silêncio e abandono choveu do teto gótico altíssimo, dançando nos feixes vermelhos e intermitentes das luzes de emergência como neve suja num inferno.
O caos irrompeu instantaneamente. Pelo comunicador de comando geral, uma cacofonia ensurdecedora de gritos de pânico, estática crepitante e relatórios de status aterrorizados explodiu em seus ouvidos. As unidades, ainda se espalhando pela vasta fortaleza-túmulo, estavam agora desorganizadas, aterrorizadas, presas em corredores que desabavam ou se abriam para o vácuo.
“Fomos atingidos em cheio no setor gama! Escudos de contenção estrutural falhando! Repito, falhando!”.
“…não consigo ver nada, apenas… vácuo! A parede externa simplesmente desapareceu!”.
“Onde está o inimigo?! De onde diabos eles estão atirando?! Não detecto nenhuma nave hostil próxima!”.
Em meio ao pandemônio crescente, a mente de Zeon, forjada em séculos de batalhas desesperadas, tornou-se um oásis de calma fria e letal. O soldado assumiu o controle total. O trauma pessoal, os fantasmas de Ganimedes, a raiva fervente pela traição — tudo foi brutalmente empurrado para o fundo, trancado firmemente na caixa de aço em sua alma. Havia apenas a missão. E a missão, naquele momento, reduzira-se ao mais primal dos imperativos: sobreviver.
Sua voz cortou a estática caótica do canal de comando, não com pânico, mas com a autoridade gélida e inquestionável de um homem que nascera e renascera no fogo da guerra. “Todas as unidades, silêncio de rádio imediato! Relatórios de danos apenas para os líderes de esquadrão designados! Formação tática ‘Tartaruga de Aço’, agora! Todos os doze mil homens, formem um perímetro defensivo circular e fechado ao redor da câmara principal de acesso! Infantaria de linha na linha de frente, usem os portões de acesso reforçados como pontos de estrangulamento naturais! Legionários de Ferro, atuem como âncoras fixas em cada setor designado! Unidades quadrúpedes de suporte, assumam posições elevadas de fogo de supressão nas galerias superiores! Engenheiros, desviem imediatamente toda a energia não essencial dos sistemas da fortaleza para os escudos estruturais remanescentes! Cruzados Kation, formem esquadrões de resposta rápida móvel e preencham agressivamente qualquer brecha que surgir! Movam-se! Agora!”.
Eles nos deixaram aqui para morrer. O pensamento foi uma constatação fria, desprovida de surpresa. Uma armadilha… Muito bem. Vamos fazer com que o maldito caçador sangre profusamente por sua refeição.
“Anya, Jax, comigo”, ele disse em seu canal de unidade privado, a voz agora um rosnado controlado. “Vamos dar as boas-vindas formais aos nossos convidados indesejados.”.
***
Os três mechas Kation da unidade DK-78B02, gigantes de dez metros de metal polido e poder de fogo concentrado, moveram-se em perfeita e instintiva sincronia pelos corredores agora caóticos. O ‘Espectro’ cinza-escuro de Zeon liderava o avanço tático, seu pesado canhão de pulso já zumbindo, carregado e pronto para disparar. À sua esquerda, o ‘Martelo’ massivo de Jax, um bruto imponente de metal e blindagem, bateu seu martelo de guerra sísmico ruidosamente no chão de obsidiana, um gesto primitivo e audível de desafio aberto contra o inimigo invisível. O ‘Vidente’ mais elegante de Anya, posicionado ligeiramente atrás e à direita, já estava escaneando ativamente o campo de batalha emergente, seus múltiplos sensores multiespectrais pintando um quadro tático detalhado diretamente na interface neural de Zeon.
Eles chegaram ao vasto corredor principal de acesso no exato momento em que a segunda onda de ataques inimigos começou. Mas não houve novas explosões diretas. O casco externo reforçado do Pavilhão, com metros de espessura de metal e cerâmica projetados para resistir a bombardeios orbitais, simplesmente… desapareceu em secções enormes e irregulares. Em seu lugar, portais de um negrume absoluto, que pareciam devorar ativamente a própria luz ambiente, abriram-se diretamente no vácuo, dezenas deles no início, depois centenas, um enxame crescente de feridas abertas e pulsantes na própria realidade. E deles, em silêncio absoluto, emergiram.
Eram os Nictis. Os lendários e temidos Apóstolos do Vazio.
Suas naves de guerra pairavam ameaçadoramente no espaço próximo, formas alienígenas que desafiavam a lógica e a geometria euclidiana, muito diferentes das embarcações angulares e funcionais da Hegemonia. Pirâmides colossais de obsidiana negra que não refletiam nenhuma luz, esferas perfeitas que pareciam conter galáxias moribundas em seu interior, suas superfícies ondulando lentamente como líquido escuro. Elas não disparavam lasers ou mísseis convencionais, mas sim feixes concentrados de pura entropia, raios de escuridão palpável que atingiam os escudos energéticos remanescentes do Pavilhão, fazendo-os chiar, ondular e falhar visivelmente sob o ataque, a energia da ordem lutando desesperadamente contra a força avassaladora do esquecimento entrópico.
E dos portais dimensionais abertos no casco da fortaleza, o exército do nada marchava implacavelmente para dentro.
A casta mais baixa, os Resonat, avançaram primeiro em ondas silenciosas e coordenadas. Eram autômatos esqueléticos e humanoides, com cerca de dois metros de altura, seus corpos finos feitos de um metal entrópico negro e fosco que parecia absorver a luz, movendo-se com uma graça insetoide perturbadora e em perfeito silêncio. Suas cabeças eram crânios alongados e sem traços faciais, dominados por uma única lente ocular grande e púrpura que pulsava lentamente com uma luz fria e morta. Eles carregavam rifles longos e angulares que não disparavam projéteis ou plasma, mas raios contínuos de energia púrpura escura que desfaziam a matéria a nível molecular. Onde os raios atingiam as paredes ou o chão, o metal reforçado não derretia nem explodia; ele simplesmente se desintegrava em nada com um som sibilante baixo e nauseante, deixando para trás apenas um vazio momentâneo.
“Escudos frontais! Dispersar fogo defensivo!”, gritou Zeon pelo canal geral, a urgência tingindo sua voz de comando.
O poderio tecnológico desesperado da Hegemonia respondeu instantaneamente. Os doze mil soldados — uma mistura caótica de humanos de linha em armaduras padrão, ciborgues veteranos pesadamente modificados e sintéticos de combate sem alma — formaram apressadamente a muralha defensiva improvisada. A infantaria de linha, em suas armaduras de poder cinzentas, formou a primeira barreira, seus escudos de energia pessoais erguidos em uníssono, criando uma parede cintilante contra a maré negra que avançava. Eles aguentaram bravamente o primeiro impacto. Os raios de energia púrpura dos Resonat atingiram a barreira, não com o estrondo explosivo do plasma, mas com um som sibilante e corrosivo, como ácido sendo derramado sobre dados corrompidos . Os escudos pessoais chiaram, cuspiram faíscas brilhantes, sobrecarregando visivelmente sob o ataque antinatural. Soldados gritavam em silêncio no vácuo parcial enquanto seus escudos falhavam; os raios roxos tocavam suas armaduras, não derretendo ou perfurando, mas simplesmente apagando pedaços de cerâmica e carne com uma eficiência terrível e silenciosa, deixando buracos perfeitamente lisos onde um braço ou um ombro costumava estar.
Atrás deles, os Legionários de Ferro, ciborgues imponentes cujos corpos eram mais máquina do que carne, agiam como âncoras de poder de fogo. Eles fincaram seus pés metálicos pesados no chão de obsidiana e abriram fogo coordenado com seus canhões de ombro integrados. Rajadas de plasma azul superaquecido rugiram, riscando a escuridão vermelha de emergência. Cada disparo que atingia um Resonat o vaporizava numa explosão brilhante e satisfatória, um contraste violento com as mortes silenciosas e apagadas que os Nictis infligiam. Mas para cada autômato que explodia em luz, três outros tomavam seu lugar, seu avanço silencioso, mecânico e implacável.
Correndo agachados entre as linhas de fogo cruzado, os Engenheiros de Combate, protegidos por armaduras pesadas e volumosas, travavam uma batalha perdida. Eles implantavam desesperadamente escudos de energia de emergência – barreiras maiores e temporárias – que brilhavam por alguns segundos preciosos antes de serem sobrecarregadas e desfeitas pela barragem entrópica. Outros tentavam freneticamente reparar as defesas danificadas, soldando placas sobre buracos que eram apagados da existência quase tão rápido quanto podiam ser consertados, seus movimentos frenéticos sob o fogo intenso. A batalha pela sobrevivência havia começado em fúria.

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