PoV: Raúl Servantes

    — Que bosta, de mestre dos dados a mensageiro infame…

    A vida me dava muitos golpes e reviravoltas intrigantes, mas, dessa vez, era algo mais sério.

    Chico e Júlio não tinham nada a ver com essa história.

    — Que inferno! — praguejei novamente, cuspindo pro lado. — Por que essas merdas sempre acontecem?

    As ruas movimentadas de Rio Vivo eram um verdadeiro desfile de moda em dois extremos. De um lado, nas ruas que eu achava mais “aconchegantes”, era fácil ver um mendigo maltrapilho pedindo moedas ou alguém sendo arremessado de um bar, assim como faziam comigo com certa frequência.

    Do outro lado, senhoras-elefantes com vestidos coloridos eram acompanhadas por seus senhores ou criados engomados detentores de um jeito afeminado de se portar.

    Olhei rapidamente para o interior de uma loja de joias. Lá dentro, um senhor de cabelos brancos, com um monóculo dourado e uma barriga protuberante, laçava uma jovem loira que aparentava ter menos da metade de sua idade. “Dádivas do ouro!”, pensei.

    Será que um dia chegaria minha vez? Quem sabe pôr um colar perolado no pescoço da linda Mircella Mendes!

    Sorri, virando o olhar para uma padaria no outro lado da rua.

    Ali, uma criança com roupas velhas de algodão encardido pedia um pão para o padeiro, que a afugentava. Talvez fosse uma das crianças do orfanato Santa Helena. Pobres crianças…

    Lembrei de alguém me dizendo que o orfanato havia ganhado uma benfeitora poderosa.

    Talvez uma Clearton, ou uma Oliveira… Vai saber. Esses ricos fazem coisas estranhas. Quase certo que ajudar o orfanato daria algo muito maior.

    — Filhos das putas… — vociferei em voz alta, chamando a atenção de alguns transeuntes. — Sempre usando os mais fracos em seus propósitos políticos de merda.

    Reparei que várias pessoas me encaravam, então parei imediatamente de caminhar. Precisava beber algo, pelo menos um gole.

    Virei à esquerda na Rua dos Pássaros. Ali, no final, tinha o cruzamento com a Alameda Garcia e, logo à frente, o Galo de Ferro…

    Não faria mal uma pausa para uns copos e uns dados. Afinal de contas, não tenho certeza se terei outra oportunidade.

    As pessoas iam e vinham em um ritmo monótono. O mesmo todos os dias. Como seria viver de rotina? Não sei se eu suportaria. Não era eu. Mas não vou dizer que não gostaria de tentar. Uma casa, um comércio, uma família. O comércio poderia ser até um bar, com umas mesas de dados ou cartas, e bebidas boas de verdade. Seria um sonho. Talvez não tivesse a família, mas o bar seria ótimo!

    Andei por mais alguns metros e parei para observar a carruagem bem trabalhada, com madeiras que brilhavam contra o sol, peças de prata bem forjadas, com acabamento finíssimo!

    De certo um bem-nascido, talvez um Garcia empoderado ou um Ramos lambe-saco estivesse pela cidade pra lamber as bolas de um Clearton ou Hortêz.

    Tudo que sei é que eu queria estar no lugar dele, indo pra outro lugar.

    Talvez até pra Emerus! Viver na terra dos heróis! Dos reis e rainhas! O palco de combate dos Oito Reinos! Deve ser uma loucura. Aqui também não é diferente.

    Temos um rei que rodopia feito peão de criança, manipulado de todas as direções pelos Quatro Grandes…

    Continuei a caminhada até a esquina que dava pro bar.

    A Alameda Garcia, como sempre, estava cheia de carruagens passando pra todos os lados, com os mais diversos modelos.

    Indo da mais simples, sem cobertura e com madeiras pouco trabalhadas, às mais sofisticadas, com coberturas de couro ou tecido, acabamentos refinados, formas e cores variadas.

    O centro do poder e comércio! Rio Vivo! O ar aqui era diferente! Se bem que nunca saí daqui. Mas já ouvi alguém falando isso.

    Atravessei a avenida central da Alameda e virei à direita, já vendo o Galo de Ferro a alguns metros.

    À frente do bar, sempre tinham as mesmas coisas. O Santiago Javier caído ao lado da porta. Nosso eterno arauto! Era divertido chamar ele assim.

    Alguns cavalos mais à frente, presos na madeira cheia de cupim que projetaram em um dia de bebedeira. Acredito eu que até um vento mais forte quebrava as toras podres daquilo.

    Algumas gotas de sangue. Um nariz quebrado era parte do cotidiano do bar. E o cheiro de mijo e vômito… Isso era típico!

    Dessa vez tinha até um figurão com uma roupa chique e um chapéu que cobria a cara.

    Nada de extraordinário para o local. Segui em frente, já pensando em quem estaria lá dentro.

    Será que teria algum cachorro das Quatro Grandes me esperando?

    Talvez desse tempo pra tomar umas e dar no pé.

    Se Júlio ou Chico estivessem por lá, eu poderia alertá-los também. Ou será que isso seria ruim?

    Mas…

    E a carta?

    Que mensagem seria essa que um mensageiro conhecido não poderia levar?

    E, se fosse pessoal, por que o próprio gordo não marcou uma reunião formal? Medo de espionagem?

    E, se fosse o medo da espionagem, o quão valiosa seria essa carta? Enfim, a carta é só um papel. O quão valiosa seria a informação contida nela?

    Cheguei na porta dupla que me separava de minhas amadas mesas. A mão instintivamente procurou a sacola pendurada no cinto.

    Meus dados, companheiros fiéis, e mais duas ou três moedas de cobre. Mas era tudo que eu precisava pra sair daqui bêbado. A sorte vinha da fábrica.

    — Que se abram as portas do paraíso! — disse em voz alta, ensaiando um sorriso maroto no rosto, um disfarce típico pra ganhar tempo e ver quem estava dentro do recinto.

    Lá dentro estavam rostos conhecidos e rostos bem conhecidos.

    Talvez até perigosos.

    — ¡Qué suerte increíble! ¡Es Raúl! — gritou o primeiro cachorro Ramos, a família mais chupa-sacos dos Hortêz.

    — ¡Al menos no tenemos que buscar más! — respondeu mais baixo, já com uma tizona perolada em punho. — Don Damião dijo que debía estar en otro lugar. Entonces, ¿dónde está el mensaje?

    — Rapaz! — respondi sarcasticamente, botando a mão na cabeça como quem se esqueceu totalmente. — Que bom que você me lembrou! Tenho que ir!

    Dei passinhos curtos pra trás, tentando alcançar as maçanetas disfarçadamente, quando o terceiro homem, também com tabarda dos Ramos, levantou me apontando uma besta.

    — ¿No puedo creer que pensaras que ibas a salir vivo de aquí?

    As pessoas no bar estavam paralisadas. Ninguém falava nada, nem mesmo se mexia. Meu cérebro rodando mais que um giravento. A sensação de perigo fazia meu coração palpitar. A adrenalina subia. E a resposta pulou da minha boca como se meu corpo agisse sem o meu controle!

    — Na verdade pensei, mas, depois que vi essa espada atrás de você, tive certeza absoluta! — falei concentradamente, aproveitando o segundo de distração do besteiro, que instintivamente olhou pra trás, para correr e pular pelo portal que me tiraria da morte certa.

    Caí meio desajeitado do lado de fora, mas levantei em menos de um segundo, me adiantando para o meio das pessoas que passavam.

    Reparei que eles saíram juntos, com as armas embainhadas, como se fossem visitantes nobres de Rio Vivo. Mas não observei muito. Logo virei na Rua dos Prazeres. Bome carinhoso dado por Júlio para a rua Don Fernández Ruega.

    Divaguei sobre o homem que deu nome à rua. Teria sido um regente? De uma família Ruega que não é mais regente, ou talvez nem exista?

    Os jogos de poder dos nobres são muito traiçoeiros.

    Pessoas passando com todos os tipos de roupas, elegantes e esquisitas, em todos os lados. Esconderijo perfeito pra alguém comum como eu.

    Depois de uns metros dei outra olhada pra trás, pra ver apenas o cabeludo de bigodes, com um sabre de guarda dourada ainda na bainha. Ele estava andando rápido, então apressei o passo também.

    Virei na Rua Laparella, passando rápido entre um exército de burgueses comprando nas butiques mais caras da cidade. Ali, certamente não era onde eu poderia me esconder, então apressei o passo.

    Pouco à frente, desci a escadaria lateral no cruzamento com a Crismara, saindo no beco de Las Pulgas. Aquela ruela fedorenta abrigava um exército de mendigos. Joguei algumas moedas na entrada da rua e a onda de moribundos, parecendo galinhas avançando no milho, quase me arrastou.

    Andei um pouco mais rápido pra virar na “Passagen de los Ratos”, coisa que detesto. E quase fiquei grato quando vi o baixinho do nariz esticado correndo em minha direção com a tizona empunhada.

    Acelerei, como um rato quando vê o gato. Olhei pra trás pra ver o efeminado de longas madeixas escuras matar um dos mendigos com uma facada fria. Os demais dispararam para qualquer lado. Assim como eu.

    O que esses porras querem comigo? Eu só demorei um dia!

    — Pelos Sete Corações do Mundo! — exclamei quase que clamando pela proteção divina! — O que eu fiz?

    Mais à frente, vi que o caminho estava livre. Me alegrei ao pensar na minha sorte. Mais uma fuga vitoriosa!

    Mesmo assim… por que os Ramos iriam querer atrapalhar os Hortêz?

    Não fazia sentido!

    Mesmo assim, isso teria que ficar pra outra hora. Percebi que estava correndo menos do que deveria quando um dos mendigos já se aproximava de mim.

    Virei à direita na Rua Felija Mendes e me deparei com o besteiro já vindo em minha direção. Paralisei por um segundo, a flecha mirando em mim. Uma certa distância, mas nada muito legal pro meu gosto.

    Ouvi passos ao meu lado e instintivamente rolei pra trás em uma cambalhota rápida e bem treinada.

    Tive poucos segundos para levantar, observar o ambiente e perceber que o mendigo corredor havia levado uma flechada na perna. E agora estava deitado, agonizando, pedindo socorro.

    Eu tava sem saída. Agora era a hora da sorte me ajudar. Como sempre fazia nesses momentos.

    Atrás de mim, a antiga Igreja dos Corações do Mundo. Não dava mais tempo de pedir perdão aos deuses. Eu precisava de uma solução imediata.

    Os três mosqueteiros da morte se aproximavam, agora vagarosamente, um de cada lado.

    O sorriso na boca deles me lembrava as histórias de vampiros que ouvi na infância.

    O orfanato de Pescata, lugar onde passei a infância, não era amoroso como o Santa Helena. Não tínhamos benfeitores ou carinho. Sobrevivia quem fosse forte ou quem fosse esperto. Forte eu nunca fui. E, à noite, as histórias de terror serviam pra subjugar os fracos e burros.

    Eu nem lembrava o nome de todos os Corações do Mundo, mas seria grato a qualquer um que me salvasse.

    Olhei novamente para a igreja. Seu vitral enorme, com representações imaginárias de todos os Doze Corações, era majestoso e até mesmo suntuoso. Devia existir há mais de cem anos, mas estava intacto.

    E ali seria onde minha história se encerraria. Que merda de final idiota.

    E eu nem mesmo consegui decifrar a traição dos Ramos.

    Em um segundo, meu cérebro revirou e embrulhou minhas histórias em um flashback frenético de imagens, sons e até gostos. E tudo se apagou com o estalo seco e agudo que se seguiu.

    A vidraça se despedaçou com um estrondo ensurdecedor. Milhares de cacos coloridos voaram pelo ar, dançando na luz antes de se espalharem pelo chão, como joias que perderam seu valor. O rosto de vidro de um anjo se partiu em uma expressão de horror silencioso.

    Era uma oportunidade divina! Só poderia ser. A hora exata da corrida triunfante. Mas eu estava cercado.

    Impotente, não consegui força e coragem o suficiente pra iniciar minha fuga. Ao invés disso, fiquei ali, estático. Imaginando se me decapitariam. Ou talvez me eviscerassem. A única certeza?

    A morte havia chegado.

    Fechei os olhos, sorri, aceitando que havia acabado, mas satisfeito. Apesar de todos os momentos ruins, tudo foi muito bom! Poderia ser pior, mas foi muito bom!

    Ouvi o som da corda da besta disparando, seguido de um zumbido agudo da seta cortando o ar. O som passou como um flash, sobrevoando a centímetros do meu rosto.

    “Errou”, zombei em minha mente, ainda de olhos fechados.

    Ouvi o som que parecia ser um corpo caindo, seguido de um gemido sofrido e engasgado.

    Não consegui suportar a curiosidade e abri os olhos pra ver o cabeludo e o nanico caídos no chão e um sujeito esquisito de sobretudo de couro e um chapelão que cobria toda a cara.

    Ele estava tirando uma adaga do pescoço do dono dos bigodes enquanto o besteiro assassino tirava facas do bolso e as pregava nos ferimentos dos cadáveres.

    Logo percebi: estão plantando provas. Isso não vai prestar!

    — ¡Maldita sea, Juan, siempre llegas tarde! — protestou o besteiro, indicando que era aliado do sujeito de chapéu. — ¡Casi mato al mensajero!

    — Ya no me llames Juan, te dije que ahora me llamo Aspen. — respondeu o sujeito misterioso, parecendo apressado e um pouco nervoso. — Vámonos de aquí antes de que alguien nos vea juntos. ¡Ramon! ¡Sigue el plan!

    — Últimamente has estado muy raro — dizia o besteiro, rindo e vindo em minha direção. — ¿Podría ser que las uvas que tienes en el trasero te estén afectando?

    — Raúl Servantes! — Meu coração praticamente parou quando ouvi o besteiro dizer meu nome enquanto o tal “Aspen” sumia pelos becos e vielas. — Novamente sua sorte te salvou do pior! Continue sua missão! Dependemos disso!

    Ele se virou e caminhou em direção à rua de onde havia vindo.

    E, novamente, a disputa dos ricos matando os pobres.

    Olhei para o mendigo no chão, com um virote na perna, implorando pela ajuda do besteiro antes de levar um tiro no rosto e parar imediatamente de se mexer, enquanto o líquido rubro descia por seu rosto ainda corado.

    Juan “Aspen” e Ramon!

    Quem seriam esses dois?

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota