Índice de Capítulo


    POV:


    O despertador tocou como se tivesse sido possuído por algum espírito maligno. 

    Não sei exatamente se ele tocou na hora certa ou se eu simplesmente ignorei o primeiro toque, algo que, aliás, não seria nenhuma novidade. 

    O fato é que acordei com um pulo e, no mesmo segundo, senti aquele frio na espinha típico de quem percebe imediatamente que está atrasada. Outra coisa, que também não era novidade…

    — Ai, merda…

    Joguei a coberta pro lado e fui rastejando até a beira da cama, como se isso acelerasse alguma coisa. 

    Me arrastei até o banheiro, o rosto ainda meio amassado, os pensamentos travados, a alma ainda tentando fazer login naquele dia.

    Enquanto escovava os dentes, me apoiei na pia e encarei meu reflexo. 

    Olheiras. Preguiça. 

    A expressão típica de “não era hoje que eu queria ser uma pessoa funcional”.

    E o pior: justo no dia da Feira do Livro.

    Grande ironia do universo.

    Corri de volta pro quarto, vesti uma calça preta e a blusa chumbo mais rápida de pegar. 

    O uniforme escolar era obrigatório, mas em certos momentos, podemos escolher ignorar certas regras, né?

    Afinal, outra dificuldade era achar onde eu tinha enfiado minhas meias. 

    Quando finalmente encontrei um par, o tempo tinha avançado de forma cruel.

    Na cozinha, joguei café quente dentro de um copo plástico preto e vermelho.

    Fiz isso tão rápido que quase derramei na mão, porque obviamente eu não estava olhando. 

    A bebida fumegou e o vapor subiu, borrando um pouco minha visão.

    Foi aí que ouvi o som.

    Um tamborilar insistente na janela da sala.

    Chuva.

    E não era aquela chuva simpática de manhã fresquinha. 

    Era tempestade mesmo. Parecia que um dilúvio estava caindo lá fora.

    “Alguém irritou São Pedro… pelo visto.”

    — É… claro… justo hoje — murmurei, revirando os olhos.

    Peguei o casaco mais resistente do armário e o guarda-chuva que sempre emperrava quando eu precisava abrir rápido. 

    Traguei o café num gole apenas aceitável para a sanidade humana. 

    Enfiei as folhas na pasta, botei no ombro e saí antes que o universo resolvesse me colocar mais algum obstáculo na frente.

    A rua estava cinza, como se alguém tivesse tirado a saturação do mundo. 

    Gotas enormes caíam com força, explodindo no chão em pequenas estrelas líquidas. 

    Parecia que o céu metralhava o chão com várias metralhadoras automáticas de água por minuto…

    Do outro lado da calçada, uma poça se acumulava como se quisesse virar um pequeno lago urbano.

    Caminhei apressada, segurando o guarda-chuva contra o vento que insistia em virar tudo contra mim. 

    Fui assim até o ponto de ônibus, onde a cena parecia até repetida do primeiro dia de aula… só que diferente.

    Da primeira vez, todos estavam espalhados em vários pequenos grupos, interagindo e convivendo com seus respectivos grupos. 

    Dessa vez, os estudantes estavam todos amontoados debaixo da cobertura, quase grudados, como se fossem um único organismo tentando fugir da água. 

    Mas a visão que realmente contrastava com a memória era outra: quase todos estavam mergulhados nos celulares. 

    Os olhos hipnotizados, a postura curvada, o mundo lá fora completamente ignorado.

    “Agora as coisas estão mais normais…”

    Eu mesma pensei, com uma mistura de alívio e melancolia. 

    Era como se a cidade estivesse voltando a ser aquilo que sempre foi: distraída demais para perceber qualquer coisa significativa.

    O ônibus chegou lento, espirrando água dos pneus. 

    Entrei, me sentei no primeiro lugar vazio e fui observando as gotinhas correndo pelo vidro durante todo o trajeto. 

    Pelo menos não houve nenhum atraso maior.

    Quando desci em frente à escola, já reconheci o vulto da Renata na entrada, ajeitando a mochila no ombro.

    — Dormiu bem? — ela perguntou, com aquele sorriso de quem já sabia a resposta.

    — Dormi… até demais — falei, me espreguiçando.

    Ela riu, e juntas fomos andando pelo pátio em direção ao prédio das salas. 

    Ela falava algumas banalidades sobre o final de semana, que foi cheio de leituras; o meu, cheio de tentativas frustradas de simular fórmulas geomágicas.

    Mas então algo começou a mudar no ar.

    Houve um burburinho… E um silêncio tomou conta do local.

    Aquele tipo de silêncio tenso que não é exatamente silêncio, mas uma suspensão coletiva.

    Renata foi a primeira a perceber a origem.

    — O que é aquilo…?

    Ao centro do pátio, um grupo grande de alunos se reuniram formando um círculo barulhento. 

    Gente empurrando, rindo e gritando. Tudo ao mesmo tempo.

    A energia era caótica demais. 

    E conforme nos aproximávamos, ouvíamos sons irregulares, como se alguém estivesse com dificuldades para respirar ou… ou lutando contra o próprio corpo.

    Quando finalmente chegamos perto, a cena ficou clara.

    Um garoto, não lembro de tê-lo visto antes, estava caído de joelhos no chão. Seus braços tremiam, o corpo dava espasmos rígidos, como se cada músculo tivesse vontade própria. 

    Ele gritava… mas não gritava de dor. Era como se os gritos fossem atravessados por risadas desconexas. 

    Com os sons partidos, sem ritmo e sentido.

    E as marcas.

    No pulso dele, manchas roxas profundas. E não só ali: pelas costas, pelo pescoço, uma espécie de desenho irregular subindo pela pele, como se fossem raízes de tinta apodrecida.

    Renata levou a mão à boca.

    Eu senti minha garganta fechar.

    Mas o pior não era o garoto.

    Era o público.

    Os alunos ao redor… estavam filmando.

    Alguns gargalhavam. Outros faziam piada.

    — Meu Deus… — murmurei, sem conseguir acreditar.

    Um deles disse, bem alto:

    — Maluco suicida!

    Outro riu e complementou:

    — Tinha que ser o especial…

    — Drogado…

    — Outro autista fazendo besteira como sempre… tudo normal nessa merda…

    Senti meu estômago embrulhar.

    “Forma estranha de começar o dia…”

    Professores finalmente chegaram, empurrando a multidão com autoridade. 

    Dois deles seguraram o garoto, que continuava tremendo como se lutasse contra algo que ninguém mais via, e o levaram às pressas para a diretoria.

    O círculo se dissipou tão rápido quanto tinha se formado.

    E a vida continuou, como se nada tivesse acontecido.

    Como se aquilo fosse só mais uma terça-feira comum.

    Renata respirou fundo, ainda chocada.

    — Você viu…? — ela perguntou.

    — Vi… — respondi baixinho. — Preferia não ter visto.

    — Não foi o primeiro caso, ocorreu algo semelhante algumas semanas atrás… — concluiu ela.

    — O que será que está acontecendo aqui… 

    Seguimos até a sala em silêncio. Meus pensamentos se embolaram com uma velocidade desconfortável. 

    As risadas alheias ecoavam na minha mente como um tipo de crueldade que eu não sabia explicar. 

    Algo naquela cena… era errado demais. No mundo, nas pessoas, no ar.

    Mas então lembrei.

    Era o dia da Feira do Livro.

    Não podia começar o dia carregando aquele peso todo. Não hoje.

    Me obriguei a colocar as emoções num canto da mente, como quem fecha um livro antes de dormir.

    Quando chegamos à sala, descobrimos que o professor da primeira aula tinha faltado. 

    O que significava: aula livre! 

    E, para nós, treino.

    Renata e eu nos afastamos da sala, fomos para o pátio e começamos a revisar os últimos comentários do professor Miguel. 

    A ideia de controlar o gasto de energia em combate. 

    Eu tinha que tentar entender como controlar a minha quantidade de pensamentos… Para que assim, não usasse QPs de mais em uma estrutura simples.

    “Lembre-se do Bonsai…”

    A voz dele ecoou na minha mente, como se estivesse ali.

    Passei os dedos pela minha marca literária, sentindo a pulsação leve de QP sob a pele. 

    Tentei aplicar o que lembrava do conceito: energia distribuída, não concentrada; equilíbrio interno antes de força externa.

    Renata testava pequenos encantamentos análogos, faíscas discretas de luz que se moldavam a símbolos suspensos. 

    Eu tentava conjurar formas geométricas mais estáveis, tetragonais e hexágonos que não dissipassem tão rápido.

    A aula passou num piscar de olhos.

    Quando o sinal tocou, todas as turmas se reuniram do lado de fora. 

    O pátio, o mesmo onde o garoto convulsionou no início da aula, agora parecia normal demais. 

    De um modo quase perturbador.

    Basicamente, apenas arrastaram o acontecimento para debaixo do tapete e seguiram com a vida.

    “Melhor ignorar isso…”

    Olhando ao redor, todas as turmas do ensino médio estavam sendo chamadas.

    Pegamos filas e seguimos em direção ao portão da escola. 

    A caminhada até o salão paroquial seria conjunta.

    O trajeto até lá era curto. 

    A chuva havia dado uma acalmada e apenas garoava levemente, e o vento ainda deixava o ar úmido. 

    A igreja principal da cidade surgia imponente quando dobramos a esquina. O caminho era relativamente rápido, caminhando em ritmo acelerado. 

    As oito turmas avançavam rapidamente como uma fila de formigas pela cidade. 

    Chegando lá, em menos de quinze minutos, e sem problemas maiores.

    As paredes brancas, o telhado avermelhado, a torre central com o relógio que eternamente marcava horários errados.

    Atrás dela, o salão paroquial se estendia como um grande corredor coberto. 

    A estrutura era aberta nas laterais, permitindo que o vento entrasse e carregasse consigo o cheiro de papel, poeira e… expectativa.

    Quando finalmente pisamos lá dentro, meus olhos se iluminaram.

    Barracas alinhadas formavam pequenos corredores improvisados. 

    Mesas com livros empilhados em diferentes alturas, lombadas coloridas, capas chamativas. 

    Estantes cheias até o limite, algumas tão velhas que pareciam prestes a desabar.

    E os vendedores.

    Gritavam suas ofertas como se estivessem num mercado medieval.

    — Promoção! Três mangás por 130!

    — Livros clássicos por preço de banana!

    — Últimas unidades de enciclopédias encantadas!

    O caos organizado.

    A melodia perfeita para qualquer leitor.

    Senti meu peito se aquecer, como se aquele lugar fosse uma extensão natural do meu corpo. 

    Renata sorriu ao meu lado, já com brilho nos olhos.

    — Vamos ver o que essa feira nos promete! — declarei, sentindo a animação pulsar.

    E, pela primeira vez naquele dia, algo dentro de mim ficou leve.

    A primeira coisa que senti ao entrar mais fundo na feira foi o cheiro.

    Não era apenas o cheiro de papel, embora esse sempre fosse o meu favorito, mas uma mistura confusa e estranhamente reconfortante de poeira leve, madeira antiga, café requentado e aquele perfume típico de tinta de impressão que grudava no ar como se tivesse vontade própria. 

    Cada respiração parecia me transportar para um espaço entre o real e o imaginário, como caminhar dentro de uma biblioteca viva.

    Além disso, havia o cheiro viciante de livro novo.

    Renata caminhava ao meu lado, com o casaco ainda meio úmido da chuva. A franja dela estava colada à testa, denunciando que o vento tinha sido implacável no caminho até ali. 

    Ela olhava ao redor com entusiasmo genuíno.

    — Cara… — ela comentou, abrindo um sorriso involuntário. — É maior do que no ano passado.

    — É… acho que colocaram mais barracas — respondi, olhando para o corredor central que parecia interminável.

    O salão paroquial sempre fora grande, mas havia algo diferente naquele ano, talvez a quantidade de vendedores, talvez a variedade de livros, talvez só a sensação de que tudo ali estava mais vivo, mais cheio, mais barulhento. 

    Como se os próprios livros tivessem vontade de ser escolhidos.

    Caminhamos devagar entre as barracas, desviando dos grupos de alunos que já se dispersaram e sumiram em diferentes direções. 

    Alguns professores observavam à distância, enquanto outros tentavam orientar as turmas, apontando horários e limites da área onde poderíamos circular.

    Uma barraca à esquerda chamava atenção por ter pilhas organizadas de clássicos: Machado, Clarice, Dostoiévski, Orwell. 

    A mulher que atendia usava óculos de grau enormes, equilibrados na ponta do nariz.

    — Promoção de clássicos! — ela anunciou para nós. — Leve dois, ganhe um marcador personalizado!

    — Tentador… — murmurei.

    Mas meus olhos já estavam sendo puxados por outra barraquinha à direita, onde um senhor de barba branca vendia edições antigas de fantasia. E… 

    — Aquilo é um fanbook de One Piece? — disse Renata, espantada e acelerando em direção a barraca como se o Luffy tivesse visto um prato de carnê.

    — Isso mesmo, pequenina. É a segunda edição do fanbook de One Piece, lançado no Japão em 2002, aqui no Brasil, chegou apenas em 2014. — explicou o senhor, que era o atendente da barraca.

    Me aproximei rapidamente, já que a Renata havia dado um pique na direção da barraca para ver o mangá.

    — Por Imu-Sama, quanto está custando esse negócio? — perguntou ela, já com o tom de medo pela resposta.

    — Então… Estou tendo que vender por trezentos e cinquenta, com o aumento de preços agora, precisei dar um aumento significativo…

    — Ah… Tudo bem, senhor. Eu te e-entendo, terei que deixar para outra hora — respondeu ela, como se tivesse tomado um banho d’água fria naquele momento.

    Fomos em diante para a próxima tenda…

    — Os valores são absurdos né… — disse, para ver se conseguia puxar assunto e distraí-la um pouco.

    — Sim… Tá horrível, tás louco — ela comentou, enquanto virava o rosto para uma barraca mais à frente. — Vamos pra aquele ali?

    Conseguia ver livros com capas desgastadas, lombadas tortas, páginas amareladas, tudo o que eu gostava. Justamente na direção que ela apontou…

    — Aí você me perde — eu disse para Renata, apontando para a bancada. — Isso aqui é meu ponto fraco.

    — Você tem uns trinta pontos fracos quando o assunto é livro — ela riu.

    — Ei! Calúnia.

    Olhei para as estantes improvisadas, atraída por títulos que eu já conhecia e outros completamente novos. 

    Meus dedos correram pela lombada de uma edição antiga de Crônicas do Reino do Salgueiro, que eu nem imaginava encontrar ali. 

    Era uma obra esgotada, raríssima, que eu só tinha visto em PDF ruim na internet.

    — Helena… — Renata me cutucou com o cotovelo. — Você tá babando.

    — Eu não tô babando. Só estou… apreciando.

    — Apreciando intensamente.

    Sorri e puxei o livro com cuidado, como se pudesse desintegrar na minha mão. A textura era firme, o papel tinha aquela aspereza deliciosa de livros antigos. 

    Uma preciosidade.

    — Quanto é esse? — perguntei para o vendedor.

    Ele olhou por cima dos óculos, avaliando o estado da capa com uma mão experiente.

    — Para estudante… cento e cinquenta.

    — CENTO E CINQUENTA?! — minha alma saiu do corpo por um instante.

    — Essa edição não circula mais. Tá nova pra idade que tem. Tô fazendo preço de amigo.

    — Eu tenho pena dos seus inimigos, então, misericórdia… — murmurei, colocando o livro de volta com tristeza plena.

    Renata riu da minha expressão sofrida.

    — Vamos olhar outras barracas antes de você vender um rim — disse ela, me puxando pelo braço.

    — Pois é… Hoje está de cair os butiá do bolso…

    Seguimos andando, passando por colegas que conversavam animadamente sobre possíveis compras, livros de romance, mangás, mistérios, enciclopédias de QP. 

    Alguns estudantes já estavam com bolsas extras cheias até a boca, como se tivessem recebido autorização divina para gastar sem limites.

    Eu, por outro lado, tinha um orçamento mais… pé no chão.

    Ou subterrâneo. Na verdade…

    — Ei, olha isso! — Renata apontou para uma barraca onde vendiam livros usados por quinze reais cada.

    Era um amontoado caótico de lombadas tortas, títulos escondidos, edições amassadas… mas ainda assim, ouro puro para qualquer leitor caçador de tesouros.

    — Achamos a minha área — falei com um brilho nos olhos.

    Renata mergulhou primeiro, empurrando pilhas com a delicadeza de um bulldozer. Eu me abaixei ao lado, começando a garimpar.

    Depois de alguns minutos, separei um livro de contos brasileiros do século passado; Uma coletânea desconhecida sobre mitos marítimos; E uma edição quase inteira de O Jardim das Almas, com apenas a capa meio torta, nada grave, na minha opinião.

    Renata achou três romances de fantasia voltados para o público jovem, todos com protagonistas que pareciam dramaticamente estilizados para agradar adolescentes. 

    O tipo de narrativa que ela amava maratonar.

    — Me pergunto se a gente devia estar com supervisão pra mexer nisso aqui — ela comentou, equilibrando três livros no braço. — Isso é praticamente um campo minado literário.

    — Campo minado… barato! O que é muito importante — respondi.

    Quando levantamos, notei que o barulho ao redor tinha aumentado, ou talvez eu só estivesse mais consciente dele agora. 

    Crianças, adolescentes, adultos e professores, todos caminhando entre as barracas como um formigueiro animado e desorganizado. 

    O ar estava mais quente, embora o clima lá fora ainda fosse úmido e frio. 

    A quantidade de pessoas acumuladas fazia o salão parecer menor do que realmente era.

    — Eita — Renata murmurou. — Tá mais cheio do que eu pensei.

    Assenti.

    De algum modo, parecia que a feira estava… pulsando.

    Não sei explicar melhor do que isso. 

    O ar tinha uma vibração estranha, como se cada conversa criasse um eco pequeno, e esse eco se acumulasse, e tudo se juntasse em um ruído contínuo que não dava para identificar de onde vinha.

    Talvez fosse só a aglomeração.

    Ou talvez fosse apenas minha imaginação, influenciada demais pelo que vimos mais cedo no pátio da escola.

    Tentei afastar o pensamento. 

    Não queria contaminar o dia com as imagens do garoto se contorcendo, com as pessoas rindo, com aquele sentimento de… desajuste.

    Era para ser um dia bom.

    — Vem — disse Renata, me chamando com o braço. — Vamos olhar aquela prateleira ali, tem uns de ficção científica.

    Caminhamos até uma barraca onde um vendedor magro, lia um livro enquanto ignorava completamente o caos ao redor. 

    A mesa dele era organizada demais, cada pilha com alturas milimetricamente iguais. Ele parecia o tipo de pessoa que sabia exatamente onde cada título estava.

    Enquanto Renata folheava alguns livros, eu bati o olho numa edição pequena e discreta: capa preta, título em azul metálico. As Cidades que Não Existem Mais.

    — Acho que já ouvi falar disso… — murmurei.

    Peguei o livro e o abri. As páginas tinham pequenas bordas desgastadas e algumas anotações escritas à lápis por algum leitor anterior. 

    Meu tipo favorito de achado.

    — Quanto? — perguntei ao vendedor.

    Ele não levantou os olhos.

    — Vinte e cinco.

    — Pago.

    Renata olhou para mim com uma sobrancelha arqueada.

    — Decisão rápida.

    — É que… combina comigo — respondi. — Lugares que não existem mais. Bem temático.

    — Meio deprimente, mas ok.

    Continuei andando com ela pelo meio do salão, absorvendo cada detalhe. 

    A igreja antiga vista por trás formava uma moldura bonita; o telhado alto do salão tinha pequenas lâmpadas amareladas penduradas; os vendedores gritavam ofertas. Tudo parecia vibrante.

    Eu gostava desse tipo de ambiente, um misto de bagunça e curiosidade.

    — Você vai querer comer algo depois? — Renata perguntou, enquanto desviávamos de um grupo de alunos da segunda série.

    — Acho que sim. Tô com fome desde as seis da manhã.

    — Você sempre tá com fome desde as seis da manhã.

    — E você sempre tá distraída que nem uma tansa.

    — Olha só a audácia — ela empurrou meu ombro, brincando.

    Rimos juntas.

    Percebi então algo curioso: pela primeira vez no dia, eu estava genuinamente relaxada.

    A cena no pátio parecia um fantasma distante, enfraquecido pelo cheiro de livros, pelo barulho das pessoas e pela energia calorosa da feira.

    Talvez, por um momento, eu realmente pudesse aproveitar.

    Talvez o dia pudesse ser leve, afinal.

    — Vamos ver aquele corredor ali — eu disse. — Parece ter livros de autores regionais. Minha mãe vive dizendo que eu devia ler mais coisas da nossa terra, sabe como é…

    — Ah, sim — Renata respondeu com um sorriso sarcástico. — “Valorize a literatura local, Helena!”

    — Exatamente isso — respondi, imitando o tom dramático da minha mãe.

    Entramos no corredor lateral, um pouco menos movimentado. Havia mesas mais simples, algumas feitas com tábuas sobre cavaletes improvisados. 

    Brochuras independentes, coletâneas de poemas regionais, livros artesanais com capas costuradas à mão.

    Uma senhora simpática explicou que muitos daqueles autores eram locais, estudantes universitários, professores aposentados, amantes da escrita. 

    Havia uma coleção chamada Vozes do Vale do Rio que me chamou atenção pela simplicidade.

    Comprei um exemplar pequeno, capa verde, título em dourado. Poemas sobre chuva, terra molhada, histórias de infância no interior.

    — Esse vai combinar bem com o clima de hoje — Renata comentou.

    — É — respondi, olhando pela abertura lateral do salão, onde ainda era possível ver o chão úmido lá fora. — Hoje tudo parece meio aquoso.

    Ela concordou com um aceno.

    Guardamos nossas compras nas mochilas e nos afastamos um pouco do corredor mais apertado. 

    A essa altura, quase todos os alunos da escola já estavam espalhados pelo salão, comprando, conversando, rindo, tirando fotos, fazendo bagunça. 

    Professores supervisionavam de longe com aquela mistura de paciência e exaustão que só um educador de escola pública domina.

    O ambiente continuava animado, ainda que… algo no ar estivesse um pouco estranho. A sensação não era negativa. Só… esquisita. 

    Como se um vento invisível estivesse mudando de direção.

    Talvez fosse só eu sendo paranoica.

    Ou talvez fosse o fato de que, nos últimos dias, parecia haver sempre uma sombra atrás da realidade. 

    Mas naquele momento, decidi ignorar.

    Queria aproveitar enquanto o mundo ainda permitia.

    — Ok, Helena — Renata disse, com uma expressão animada. — Última barraca antes de a gente procurar comida. Combinado?

    — Combinado.

    Seguimos até a última fileira. 

    Ali, uma barraca grande vendia colecionáveis, marcadores, adesivos literários, bottons e pôsteres. 

    Um paraíso visual. Renata correu direto para uma prateleira com marcadores temáticos.

    Eu fui para a caixa de bottons.

    Um deles me chamou atenção.

    Era simples: fundo branco, bordas pretas finas, e no centro, uma pequena pena preta desenhada como se tivesse sido esboçada às pressas.

    Peguei o botton com delicadeza.

    Não sei exatamente por quê.

    Mas senti… familiaridade.

    Como se aquela pena fosse parte de algo que já existia em mim, mas que eu ainda não tinha entendido por completo.

    “O que será que isso significa…?”

    Meus pensamentos foram interrompidos quando Renata me chamou:

    — Helena! Olha esse marcador de metal, que lindo!

    Sorri, ainda segurando o botton.

    Respirei fundo.

    E por um instante, tudo pareceu normal.

    Eu só queria aproveitar o momento. E assim o faria.

    — Tá. Vamos comer — falei, rindo. — Antes que eu compre mais coisas e tenha que vender outro órgão.

    Renata gargalhou. E seguimos adiante.


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