Índice de Capítulo

    Narrador: Azazel

    Empunhando a própria espinha, agora transfigurada em uma arma viva, Azazel se erguia olhando o mundo ao seu redor.
    Althaia a observava em silêncio.
    Os olhos rubros da criatura ainda guardavam um vestígio do brilho sereno que um dia fora de Li Wang…
    Mas o que estava diante dela já não pertencia a nenhum domínio humano.

    Azazel desapareceu num piscar de olhos.

    O ar pareceu se partir ao meio antes mesmo que o som o acompanhasse, e então veio o impacto.
    Um corte diagonal rasgou o espaço, a foice cantando em um timbre grotesco enquanto atravessava o ar e atingia Althaia com uma força desumana.

    O golpe foi tão brutal que arrancou o machado de suas mãos, arremessando-a como uma boneca de trapo.
    O corpo dela voou por dezenas de metros antes de se chocar contra uma rocha colossal, que tremeu com o impacto e se despedaçou sob o peso da colisão.
    Fragmentos de pedra voaram em todas as direções, e uma nuvem densa de poeira engoliu o campo

    Lethos recuou, alarmado.
    A esfera flutuava acima de Azazel, os espinhos vibrando em tensão.

    De seu núcleo, um gás cinzento começou a se espalhar pelo campo, denso, entorpecente, sonífero, turvando os sentidos e drenando o vigor de quem o inalasse.

    Azazel ergueu o rosto para a esfera.
    Observou-a por um instante.
    Mas em seus olhos não havia receio, apenas desinteresse.
    Não via perigo algum naquela coisa frágil.

    O zunido agudo que ela emitia, contudo, atravessava o ar como uma agulha. Um som irritante, insistente, como um zumbido de mosca próximo ao ouvido.
    Azazel permaneceu imóvel, impassível.
    Mesmo irritado, não se dignou a agir.

    Althaia se ergueu.
    Lenta, mas firme. O sangue escorria-lhe da testa; os cabelos brancos, antes imaculados, estavam manchados de terra e cinzas.

    E, pela primeira vez, seu rosto mostrava algo que ninguém ali jamais vira:
    Ódio.

    Ela correu como um raio em direção ao machado, agarrou-o com ambas as mãos e, girando o corpo em um arco perfeito de fúria, destruiu a esfera de Lethos com um único golpe.
    O impacto da lâmina despedaçou o artefato como vidro. Uma explosão de energia iluminou o campo, espalhando faíscas e cessando o gás num sopro.

    Lethos ficou paralisado.
    Os olhos arregalados misturavam fúria e incredulidade.

    — Você ficou louca?! — gritou, avançando um passo. — Nós vamos morrer! Precisamos lutar juntos!

    Althaia virou o rosto devagar.
    Os olhos, antes calmos, agora queimavam em um tom alaranjado intenso.
    Sua pele parecia mais pálida, como se algo estivesse crescendo por dentro dela, distorcendo o que restava de humanidade.

    O sorriso gentil desaparecera.
    Tudo que restava era fúria contida, e uma sede insaciável por combate.

    — Se você interferir… — disse ela num tom baixo, grave, como o roçar de uma lâmina sendo desembainhada — eu. vou. te. matar.

    Lethos recuou.
    Ele a conhecia.
    Ou melhor… achava que conhecia.

    A garotinha doce se fora.
    Diante dele, restava apenas Althaia Kray, o pecado da Ira.
    E ela havia despertado.

    O ar ao redor de Althaia começou a vibrar.
    Como se a própria atmosfera recuasse, amedrontada.
    Sua pele, antes alva como neve, escurecia em um tom rubro incandescente, como ferro em brasa prestes a se romper.
    As veias saltavam sob a pele, percorrendo-lhe o corpo como fios ardentes, pulsando em ritmo descontrolado, um coração tomado pela fúria.

    A cada respiração, nuvens de vapor escapavam de seus lábios infantis, aquele era o hálito de uma fera prestes a devorar o mundo.
    E embora sua aparência ainda fosse a mesma, algo em sua postura, no olhar e nos movimentos, lembrava a presença de uma criatura selvagem.
    Havia algo de animal ali, um instinto primitivo libertando-se sob forma humana.

    O chão sob seus pés trincava.
    O calor emanado fazia a grama secar, e o vento parecia se afastar dela, recusando-se a tocá-la.

    Lethos deu um passo atrás.
    O olhar congelado em incredulidade; pela primeira vez desde o início do combate, sentiu um medo que não era apenas medo, era algo que rasgava a carne e puxava a alma para fora.

    — O Modo Berserker? — sussurrou, incrédulo.

    Apenas o som das respirações pesadas preenchia o espaço entre eles.
    O vapor subia como névoa flamejante.
    E o ar… o ar queimava.
    Tudo nela exalava ira absoluta, e ainda assim, ela não gritava.
    Não sorria.
    Não tremia.

    Ela era apenas ódio.

    E sabia que, a partir daquele momento, tudo que tocasse seria destruído.

    Lethos engoliu em seco.
    — Isso é loucura…

    Althaia então ergueu o machado com uma só mão.
    E quando o fincou no chão novamente, o impacto fez o solo tremer como se um gigante pisasse na terra.

    O riso ecoou novamente, gutural e dissonante, rasgando o ar como vidro trincando.
    Mas desta vez, não era apenas Azazel que ria.
    Era Li Wang também.
    Duas vozes saindo de uma só garganta, uma feminina e humana, outra grotesca e cavernosa, misturadas em uma harmonia doentia.

    Garota… — Disse Azazel, com a voz reverberando em camadas. — Você acha que é a única que sabe usar este truque…?

    A respiração que escapava pelas frestas da máscara demoníaca começou a se tornar em vapor fervente, espesso e pulsante, como se algo dentro dela estivesse prestes a explodir.
    O ar ao redor chispeava; o chão estalava, fendido como madeira forçada até o colapso.

    Althaia, pela primeira vez na vida, recuou um passo.
    Seus olhos rubros estreitaram-se num foco letal, mas havia algo novo: irritação, surpresa, desconfiança. Ela reajustou a empunhadura do machado, em guarda.

    As auras se chocavam no ar, como dois lobos prestes a se devorarem.

    Lethos, imóvel, murmurou sem perceber:

    — Isso é o Modo Berserker? Mas… como? Como ela é capaz de usar isso? Isso não… Isso não é possível… — concluiu, sentindo pela primeira vez o arrepio da dúvida subir-lhe pela espinha.

    Azazel ergueu a foice com um gesto solene, quase teatral, deixando-a vibrar no ar como se fosse parte de um ritual antigo e proibido.
    Sua presença consumia tudo, não havia som de pássaros, não havia vento, só o peso absoluto de algo que não deveria existir.

    Essa garota… — disse ele, com a voz dupla saindo por trás da máscara grotesca. — Ela sequer sabia o que carregava dentro de si. Uma força tão vasta, tão abissal… que poderia ter mudado tudo. Mas não soube usar. Não soube entender. Não soube comandar.

    Azazel girou a lâmina uma vez, como se testasse o próprio corpo.

    Por isso, agora eu a tomo. E usarei tudo que ela tem, tudo que ela é, da melhor forma possível: para destruir. Para matar todos que eu quiser. Cada inimigo… cada inocente… cada mundo que ela tentou salvar.
    Sua voz curvou-se, sarcástica e quase paternal:
    A garota que sempre fez o que achou justo… que arriscou tudo para salvar os outros… será lembrada como a faísca da extinção da vida.

    Lethos ainda recuava, passo a passo, como se o que via diante de si não fosse apenas uma entidade… mas uma maldição viva.
    O ar parecia pesar toneladas.

    Althaia deu um passo à frente, os olhos incandescentes fixos na figura à sua frente.
    Seu tom foi baixo, firme… e carregado de desafio:
    — Então diga… quem é você, afinal?

    Azazel virou lentamente a cabeça em sua direção.
    Eu…

    A terra vibrou sob seus pés.
    A máscara se contorceu em um esboço grotesco de sorriso. — Sou a ruína.

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