Capítulo 49 – Eu Sou a Ruína
Narrador: Azazel
Empunhando a própria espinha, agora transfigurada em uma arma viva, Azazel se erguia olhando o mundo ao seu redor.
Althaia a observava em silêncio.
Os olhos rubros da criatura ainda guardavam um vestígio do brilho sereno que um dia fora de Li Wang…
Mas o que estava diante dela já não pertencia a nenhum domínio humano.
Azazel desapareceu num piscar de olhos.
O ar pareceu se partir ao meio antes mesmo que o som o acompanhasse, e então veio o impacto.
Um corte diagonal rasgou o espaço, a foice cantando em um timbre grotesco enquanto atravessava o ar e atingia Althaia com uma força desumana.
O golpe foi tão brutal que arrancou o machado de suas mãos, arremessando-a como uma boneca de trapo.
O corpo dela voou por dezenas de metros antes de se chocar contra uma rocha colossal, que tremeu com o impacto e se despedaçou sob o peso da colisão.
Fragmentos de pedra voaram em todas as direções, e uma nuvem densa de poeira engoliu o campo
Lethos recuou, alarmado.
A esfera flutuava acima de Azazel, os espinhos vibrando em tensão.
De seu núcleo, um gás cinzento começou a se espalhar pelo campo, denso, entorpecente, sonífero, turvando os sentidos e drenando o vigor de quem o inalasse.
Azazel ergueu o rosto para a esfera.
Observou-a por um instante.
Mas em seus olhos não havia receio, apenas desinteresse.
Não via perigo algum naquela coisa frágil.
O zunido agudo que ela emitia, contudo, atravessava o ar como uma agulha. Um som irritante, insistente, como um zumbido de mosca próximo ao ouvido.
Azazel permaneceu imóvel, impassível.
Mesmo irritado, não se dignou a agir.
Althaia se ergueu.
Lenta, mas firme. O sangue escorria-lhe da testa; os cabelos brancos, antes imaculados, estavam manchados de terra e cinzas.
E, pela primeira vez, seu rosto mostrava algo que ninguém ali jamais vira:
Ódio.
Ela correu como um raio em direção ao machado, agarrou-o com ambas as mãos e, girando o corpo em um arco perfeito de fúria, destruiu a esfera de Lethos com um único golpe.
O impacto da lâmina despedaçou o artefato como vidro. Uma explosão de energia iluminou o campo, espalhando faíscas e cessando o gás num sopro.
Lethos ficou paralisado.
Os olhos arregalados misturavam fúria e incredulidade.
— Você ficou louca?! — gritou, avançando um passo. — Nós vamos morrer! Precisamos lutar juntos!
Althaia virou o rosto devagar.
Os olhos, antes calmos, agora queimavam em um tom alaranjado intenso.
Sua pele parecia mais pálida, como se algo estivesse crescendo por dentro dela, distorcendo o que restava de humanidade.
O sorriso gentil desaparecera.
Tudo que restava era fúria contida, e uma sede insaciável por combate.
— Se você interferir… — disse ela num tom baixo, grave, como o roçar de uma lâmina sendo desembainhada — eu. vou. te. matar.
Lethos recuou.
Ele a conhecia.
Ou melhor… achava que conhecia.
A garotinha doce se fora.
Diante dele, restava apenas Althaia Kray, o pecado da Ira.
E ela havia despertado.
O ar ao redor de Althaia começou a vibrar.
Como se a própria atmosfera recuasse, amedrontada.
Sua pele, antes alva como neve, escurecia em um tom rubro incandescente, como ferro em brasa prestes a se romper.
As veias saltavam sob a pele, percorrendo-lhe o corpo como fios ardentes, pulsando em ritmo descontrolado, um coração tomado pela fúria.
A cada respiração, nuvens de vapor escapavam de seus lábios infantis, aquele era o hálito de uma fera prestes a devorar o mundo.
E embora sua aparência ainda fosse a mesma, algo em sua postura, no olhar e nos movimentos, lembrava a presença de uma criatura selvagem.
Havia algo de animal ali, um instinto primitivo libertando-se sob forma humana.
O chão sob seus pés trincava.
O calor emanado fazia a grama secar, e o vento parecia se afastar dela, recusando-se a tocá-la.
Lethos deu um passo atrás.
O olhar congelado em incredulidade; pela primeira vez desde o início do combate, sentiu um medo que não era apenas medo, era algo que rasgava a carne e puxava a alma para fora.
— O Modo Berserker? — sussurrou, incrédulo.
Apenas o som das respirações pesadas preenchia o espaço entre eles.
O vapor subia como névoa flamejante.
E o ar… o ar queimava.
Tudo nela exalava ira absoluta, e ainda assim, ela não gritava.
Não sorria.
Não tremia.
Ela era apenas ódio.
E sabia que, a partir daquele momento, tudo que tocasse seria destruído.
Lethos engoliu em seco.
— Isso é loucura…
Althaia então ergueu o machado com uma só mão.
E quando o fincou no chão novamente, o impacto fez o solo tremer como se um gigante pisasse na terra.
O riso ecoou novamente, gutural e dissonante, rasgando o ar como vidro trincando.
Mas desta vez, não era apenas Azazel que ria.
Era Li Wang também.
Duas vozes saindo de uma só garganta, uma feminina e humana, outra grotesca e cavernosa, misturadas em uma harmonia doentia.
— Garota… — Disse Azazel, com a voz reverberando em camadas. — Você acha que é a única que sabe usar este truque…?
A respiração que escapava pelas frestas da máscara demoníaca começou a se tornar em vapor fervente, espesso e pulsante, como se algo dentro dela estivesse prestes a explodir.
O ar ao redor chispeava; o chão estalava, fendido como madeira forçada até o colapso.
Althaia, pela primeira vez na vida, recuou um passo.
Seus olhos rubros estreitaram-se num foco letal, mas havia algo novo: irritação, surpresa, desconfiança. Ela reajustou a empunhadura do machado, em guarda.
As auras se chocavam no ar, como dois lobos prestes a se devorarem.
Lethos, imóvel, murmurou sem perceber:
— Isso é o Modo Berserker? Mas… como? Como ela é capaz de usar isso? Isso não… Isso não é possível… — concluiu, sentindo pela primeira vez o arrepio da dúvida subir-lhe pela espinha.
Azazel ergueu a foice com um gesto solene, quase teatral, deixando-a vibrar no ar como se fosse parte de um ritual antigo e proibido.
Sua presença consumia tudo, não havia som de pássaros, não havia vento, só o peso absoluto de algo que não deveria existir.
— Essa garota… — disse ele, com a voz dupla saindo por trás da máscara grotesca. — Ela sequer sabia o que carregava dentro de si. Uma força tão vasta, tão abissal… que poderia ter mudado tudo. Mas não soube usar. Não soube entender. Não soube comandar.
Azazel girou a lâmina uma vez, como se testasse o próprio corpo.
— Por isso, agora eu a tomo. E usarei tudo que ela tem, tudo que ela é, da melhor forma possível: para destruir. Para matar todos que eu quiser. Cada inimigo… cada inocente… cada mundo que ela tentou salvar.
Sua voz curvou-se, sarcástica e quase paternal:
— A garota que sempre fez o que achou justo… que arriscou tudo para salvar os outros… será lembrada como a faísca da extinção da vida.
Lethos ainda recuava, passo a passo, como se o que via diante de si não fosse apenas uma entidade… mas uma maldição viva.
O ar parecia pesar toneladas.
Althaia deu um passo à frente, os olhos incandescentes fixos na figura à sua frente.
Seu tom foi baixo, firme… e carregado de desafio:
— Então diga… quem é você, afinal?
Azazel virou lentamente a cabeça em sua direção.
— Eu…
A terra vibrou sob seus pés.
A máscara se contorceu em um esboço grotesco de sorriso. — Sou a ruína.

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