A fúria da batalha irrompeu no corredor principal do Pavilhão, transformando a arquitetura gótica e silenciosa num inferno de luzes piscantes, ecos ensurdecedores de disparos e o cheiro acre de ozônio e metal vaporizado. A formação ‘Tartaruga de Aço’, embora montada às pressas por unidades assustadas e desmoralizadas, mantinha-se firme por enquanto. A disciplina implacável da Hegemonia, gravada a fogo em cada soldado, erguia-se como uma barreira frágil contra o avanço silencioso e alienígena dos Nictis. O ar sibilava com os feixes de energia púrpura dos Resonat, que não explodiam ao impacto, mas simplesmente apagavam pedaços da realidade, deixando buracos perfeitamente lisos nas colunas de obsidiana e buracos ainda mais terríveis nas fileiras da infantaria.

    “Eles estão a desfazer a cobertura!”, gritou um líder de esquadrão pelo canal geral, a sua voz tingida de pânico. “Os escudos de energia não aguentam este tipo de ataque por muito tempo!”

    “Jax, fogo de supressão contínuo no portal principal! Não deixe que se concentrem!”, ordenou Zeon, a sua voz cortando o caos com uma autoridade gelada. O seu próprio canhão de pulso disparou duas vezes, e duas esferas de plasma azul desintegraram uma linha de Resonats que tentava flanquear a posição dos Legionários de Ferro. “Anya, encontre uma posição de tiro elevada e segura. Prioridade aos alvos de alto valor. Quero os líderes de esquadrão deles mortos antes que deem mais um passo para dentro!”.

    “Entendido, Capitão!”, responderam as duas vozes quase em uníssono, a de Jax vibrando com uma ansiedade fervorosa pela batalha, a de Anya calma e focada como o clique de um mecanismo de precisão.

    O canhão de plasma pesado montado no braço do ‘Martelo’ de Jax rugiu, liberando uma esfera massiva de energia superaquecida, um sol em miniatura que atravessou o corredor e atingiu em cheio um grupo compacto de Resonats que emergia do portal principal. A explosão foi magnífica, uma flor ofuscante de fogo branco-azulado que iluminou momentaneamente todo o corredor e vaporizou uma dúzia de autômatos. Mas, da fumaça dissipante, mais deles emergiram, passando pelos restos incandescentes dos seus companheiros, aparentemente ilesos e completamente indiferentes à destruição.

    “Eles não sentem medo!”, disse Jax pelo comunicador, a sua voz uma mistura estranha de admiração relutante e horror crescente. “Eles nem sequer hesitam! Simplesmente continuam avançando!”.

    “Eles não sentem nada, garoto”, rosnou Zeon em resposta, um desprezo gélido endurecendo a sua voz. Ele disparou outra rajada de pulso. “São apenas engrenagens numa máquina de aniquilação. E até a maior e mais complexa das máquinas emperra se você atirar nos lugares certos.”.

    Como se para provar o ponto dele, o ‘Vidente’ esguio de Anya ativou os seus propulsores de manobra, saltando agilmente com uma explosão controlada de gás, para as vigas treliçadas superiores do teto gótico altíssimo. A sua forma ágil desapareceu nas sombras densas como um fantasma metálico. Segundos depois, um som agudo e distinto — crack-thoom — cortou o caos da batalha abaixo, um som que Zeon conhecia bem. O som da morte entregue a quilômetros de distância. Um Resonat ligeiramente diferente, que parecia estar a coordenar um esquadrão com gestos subtis da sua mão esquelética, teve a sua cabeça desintegrada instantaneamente por um projétil cinético invisível viajando a velocidade hipersônica. O tiro perfeito do rifle Gauss de Anya.

    “Estou na viga leste”, relatou Anya, a sua voz calma no canal privado. “Vejo outro coordenador no flanco esquerdo… alvo adquirido.”

    Outro crack-thoom ecoou, mal audível acima da batalha. “Alvo eliminado. Mas eles estão a adaptar-se, Capitão. Estão a começar a usar as colunas como cobertura. Estão a adaptar-se ao terreno”.

    “Entendido, Vidente. Continue a caça”, murmurou Zeon. Um inimigo a menos. Milhares ainda por vir.

    Mas então, como se a primeira onda de autômatos fosse apenas um teste para as suas defesas, a segunda casta Nictis chegou. E com eles, as leis da física começaram a falhar. Os Declinationes emergiram dos portais, não em enxames, mas em grupos táticos de três. Eram visivelmente maiores que os Resonats, com quase três metros de altura, as suas armaduras negras mais grossas e ornamentadas com estranhos glifos geométricos que pareciam contorcer-se e mudar sob a luz vermelha piscante, como se a própria armadura estivesse viva. Eles empunhavam foices de energia longas e curvas, de um púrpura escuro e pulsante, e em vez de rifles, projetavam a energia entrópica diretamente das suas mãos livres em arcos crepitantes que apagavam secções inteiras das barricadas dos engenheiros. A sua habilidade mais aterrorizante e desconcertante, no entanto, era a aparente capacidade de manipular o espaço ao seu redor.

    “O que diabos é isso?!”, gritou um Legionário de Ferro pelo canal geral. “Os meus disparos… estão a errar! A mira está travada, mas o plasma… ele… ele curvou-se!”

    “Capitão, estou a detetar flutuações gravitacionais e espaciais anómalas e localizadas em torno das unidades inimigas maiores!”, a voz de Anya soou urgentemente pelo canal, o seu tom calmo agora tingido com alarme técnico. “Os Declinationes… Os seus escudos não são de energia convencional. Eles estão a distorcer ativamente o espaço! Dobrando a realidade local! As nossas armas de plasma e energia estão a ser desviadas antes do impacto!” .

    Zeon viu com os seus próprios olhos. Uma rajada concentrada de disparos de plasma da infantaria pesada, que deveria ter obliterado um Declinationes, curvou-se inexplicavelmente ao redor da sua forma escura, como água a contornar uma pedra num rio, dissipando-se inofensivamente nas paredes distantes. As suas armas de energia, a espinha dorsal do poder de fogo da Hegemonia, eram inúteis contra eles.

    “Mudem imediatamente para munição cinética maciça!”, ordenou Zeon para todas as unidades, a sua mente tática a recalcular desesperadamente. “Legionários de Ferro, usem os vossos projéteis sólidos! Jax, concentra o fogo de supressão dos quadrúpedes nos Declinationes! Saturarem a área! Anya, tenta encontrar a frequência de ressonância dos seus escudos espaciais! Se pudermos sobrecarregá-los com a frequência harmónica certa…”.

    A batalha transformou-se numa dança mortal, claustrofóbica e cada vez mais desesperadora nos corredores góticos do Pavilhão. O tempo perdeu completamente o significado, medido apenas pelos níveis de munição que diminuíam rapidamente nos visores dos Kations e pelos novos e constantes alertas de danos que piscavam erraticamente nos consoles. Por um período tenso que esticou os nervos de todos até ao limite absoluto, a formação defensiva da Hegemonia resistiu bravamente, mas começou a ceder sob a pressão da física alienígena.

    O Kation de Jax era uma fortaleza móvel na entrada principal, agora focado nos Declinationes. Ele avançou, o seu martelo sísmico erguido. “Pela vontade de Adel!”, rugiu ele, batendo a arma massiva contra o Declinationes mais próximo. Mas o impacto foi… abafado. O espaço distorceu-se, e a onda de choque, que deveria ter pulverizado o autômato, foi dispersa, apenas fazendo o Nictis cambalear ligeiramente.

    “Capitão! Ele… ele absorveu! O martelo mal o arranhou!”, gritou Jax, a sua fúria a transformar-se em frustração.

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