Capítulo 64 - Curvas
Serena também ficou surpresa com a revelação. Ela não se lembrava de Jaro ter comentado sobre um treinamento para sua magia. Mesmo sem ter uma boa impressão inicial de Elise, eacreditava que Jaro devia ter se esforçado para que ela aceitasse ensiná-la. Quando Elise finalmente se acomodou na cadeira, Serena inclinou o corpo e a cabeça em reverência.
— Por favor, aceite-me como sua discípula.
— Mas é claro que vou! — respondeu Elise, batendo no peito de orgulho. — Para não assustar vocês, hoje vou pegar leve e simplificar o máximo possível — completou, com um sorriso largo.
Jaro levantou a mão.
— Diga.
— Infelizmente eu não posso ficar hoje. Tenho um compromisso urgente. Mas prometo compensar na próxima aula — avisou ele, levantando-se.
— Sério, tomatinho…? — Ela suspirou. — Certo, não vou insistir… mas da próxima vez você não escapa. Aliás, toma isso. — Ela jogou um pequeno saco de pano para ele.
Jaro abriu o saquinho. Dentro, várias Gomas de Ouro, ainda mais do que antes.
— Eu não sei como agradecer, mestra… isso é muito. Não precisava.
— Relaxa. Sua mestra aqui consegue fazer dezenas dessas. Use com sabedoria — piscou ela.
— Mesmo assim, eu ainda vou retribuir.
— Você é muito cabeça dura.
— Um pouco. — Ele passou a mão na cabeça de Serena, num gesto carinhoso. — Até logo. A gente se encontra em casa.
Serena ficou corada. Ela era mais velha que ele… ainda assim, Jaro sempre dava um jeito de tratá-la como uma criança. Mas, por mais que tentasse, ela não conseguia se irritar com isso.
— N-não se preocupe. Vai lá. Eu vou dar o meu melhor aqui — garantiu ela, sorrindo.
Jaro retribuiu o sorriso por trás da máscara e saiu.
O silêncio que restou foi estranho, até que Elise comentou: — Você parece gostar dele.
Serena ficou vermelha, mas ergueu o rosto e respondeu: — Eu gosto…
— Haha! Eu nunca erro nessas coisas — provocou Elise, aproximando-se. — Pelo pouco que conheço dele, sei que ele deve ser difícil… mas não se preocupe. Sua mestra aqui vai te ensinar a domá-lo!
Domá-lo?! Por algum motivo, uma cena altamente imprópria surgiu na cabeça de Serena. Elise, percebendo sua reação, caiu na risada.
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A mata era densa, e a noite parecia engolir tudo. Um acampamento estava montado no meio da escuridão, com várias fogueiras iluminando rostos cansados. Alguns riam alto, outros bebiam, todos pareciam bem relaxados.
Um jovem de cabelos negros e olhos verdes estava sentado perto de uma das fogueiras, encarando as chamas como se tivesse algo enterrado lá dentro. Até que uma mulher loira de olhos azuis, com uma caneca de bebida na mão, se aproximou.
— Você sumiu por uns dias, Sam. Todos ficaram preocupados…
Sam só levantou o olhar. Não demonstrou surpresa, Apenas cansaço.
— Não aconteceu nada demais, Lorena… Só resolveram me ensinar a ficar na linha.
Lorena franziu o cenho. O grupo na fogueira ficou silencioso do nada. Até quem não estava prestando atenção, começou a ouvir. Sam respirou fundo. Helena o encarou de imediato.
— Tá… Kyle, fez o quê? Te deu suspensão? Mandou limpar merda de cavalo dos superiores?
Sam soltou uma risada curta, sem sorriso nenhum.
— Hah, queria eu que fosse só isso.
Ele puxou a camisa pra cima. O brilho da fogueira escorregou sobre a pele e revelou o buraco no peito, profundo, redondo, como se algo tivesse atravessado de dentro pra fora. O corte parecia recente, mas se regenerando.
Helena levou a mão à boca.
— Caramba… o que… aconteceu com você?
Sam soltou a camisa.
— Punição oficial. Dois minutos em combate contra Kyle.
Os outros guerreiros, das outras fogueiras, perceberam o clima e diminuíram o barulho.
— Ele podia ter me matado. Só não me matou porque sou o líder da Ordem dos Dragões. — Ele esfregou o rosto, exausto.
— Que merda! Como ele pode fazer isso?! Apesar de tudo que a gente já fez por esse maldito clã!
— Somos apenas armas aos olhos deles… Se a arma sai do controle. Eles simplesmente quebram a arma.
A fogueira estalou alto, como se respondesse às palavras dele. Então, ele ergueu a voz e concluiu: — No entanto, ouçam bem, meus camaradas! O dia da nossa vingança está chegando!
Mais de trezentas vozes explodiram em uníssono:
— VINGANÇA!!
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— …
— Será que é aqui mesmo?
Jaro parou diante de uma cabana. Ficava tão distante do centro do Distrito Azul que, ao redor, não havia outra casa, nem qualquer instalação, apenas uma pequena floresta, como se a escondesse do resto do mundo.
Apesar do isolamento, a cabana era bonita e parecia muito bem cuidada. Um aroma agradável escapava pelas frestas da madeira, atraindo Jaro ainda mais. Ele se aproximou e bateu na porta. No mesmo instante, a porta se abriu sozinha. Mesmo achando estranho, ele entrou.
— Senhorita Lila? — chamou, com a voz cautelosa.
O interior da cabana era surpreendentemente organizado e delicado. Quadros sofisticados estavam alinhados às paredes, uma pequena TV, sofá branco aconchegante e uma estante repleta de livros davam ao lugar uma imagem calma e de aconchego.
Mas nada chamava mais atenção do que Lila.
Ela estava sentada, tomando chá, com a máscara ligeiramente levantada, revelando a bochecha, os lábios e parte do nariz. Só aquele fragmento de pele já parecia tão macio; as curvas do rosto dela, eram suaves e perfeitas.
O coque negro que prendia seus cabelos, a postura elegante, o modo sereno como segurava a xícara. Para ele, tudo nela era lindo.
Seu coração disparou, em paralelo, a sua respiração ficou fora de ritmo. Ainda assim, Jaro tentou ao máximo não deixar transparecer o nervosismo que o dominava.
As mulheres daqui são de outro mundo… literalmente. Jaro pensou, deixando escapar um riso baixo. Um dia ainda quero ver ela nua. Admirando cada detalhe do corpo de Lila.
— Você está trinta minutos atrasado. Achei que não viria — disse ela, virando a xícara de chá de uma vez e deixando-a sobre a mesa.
— Perdão, é que sua cabana foi muito difícil de encontrar.
Lila pegou a espada que descansava ao lado da mesa, ainda na bainha de cedro, e apontou para Jaro.
— Eu não gosto de desculpas.
— Sim, senhora…
— Me siga.
Jaro assentiu e a acompanhou. Será que ela tá de mau humor? Ele a observou com mais atenção, enquanto ela caminhava calmamente. Não… por algum motivo sinto que ela está se divertindo com isso.
Ela entrou em um quarto. Havia uma cama, uma estante, um computador antigo, mas bem conservado, e histórias em quadrinhos espalhadas em uma pequena prateleira. Tinha títulos e capas variadas, histórias de super heróis, romamces, comédias..
Nunca imaginei que ela gostasse de ler histórias em quadrinhos.
O mascarado já não se surpreendia mais com elementos de sua terra neste mundo medieval. Já havia ficado claro que havia, ou houvera, outras reencarnações ou transmigrações de outros seres humanos de sua terra natal.
Até que, Jaro piscou, percebendo onde estava.
— E-esse… é seu quarto?!
— Claro.
— Mas… não é meio apertado pra gente treinar?
— Óbvio. Não é aqui que vamos treinar.
Ela se abaixou e pousou a mão no chão de madeira. Jaro não conseguiu evitar olhar. As roupas dela eram justas, e a calça destacava cada curva, principalmente a parte que ele tentava não encarar, a bunda dela. Ele forçou o olhar para o teto, mas seus olhos teimavam em voltar. Seu corpo, sua mente, tudo nele gritava o que queria.
Lila pressionou a mão contra o chão e, por alguns segundos, nada aconteceu… até que uma leve aura de mana percorreu o piso. Um alçapão surgiu, que estava perfeitamente camuflado antes. Ela o abriu.
— Para de me secar e vem logo — falou a mulher, enquanto descia as escadas.
— Eu não estav—
Ela apenas virou o rosto para ele e bastou um olhar para calá-lo. Ela tem olhos nas costas?! Jaro correu atrás.
As escadas eram escuras, mas ao final havia uma claridade. Quando passou pelo último degrau, ficou de boca aberta.
Era um grande salão enorme, escondido no subterrâneo da cabana. Bem maior do que parecia possível. Havia marcas de treinamento por todo canto, paredes amassadas, queimaduras no piso e no teto.
— Isso aqui é maior que o salão de treinamento da base de inteligência! — exclamou Jaro, perplexo com o tamanho do lugar.
— É. Mas ainda não é grande o suficiente pra mim — ela respondeu, ajeitando a espada na cintura. — Agora para de babar na minha sala de treinamento e pegue a sua espada.
— S-sim!

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