Índice de Capítulo

    Ponto de Vista de Saki:

    O campo de batalha inteiro foi silenciado. A aura conjunta emanada de todos os 10 soberanos era densa e poderosa, mas apesar da sua força, nossos joelhos permaneceram levantados, prontos para seja lá o que viesse.

    A chegada de Frost, apesar de esperada, se tornou um desafio ainda mais impossível. Não se tratava mais apenas dos soberanos ou apenas do rei, ambos estavam juntos, raivosos com a mentira verdadeira em suas mentes.

    — Eles finalmente deram as caras! — caminhando lentamente para fora de uma fenda no espaço à frente dos soberanos — Os vermes que causam terror no nosso mundo!

    — Vermes? — Drisco deixou escapar.

    — O reinado de medo acaba hoje! — passando seus olhos malignos por nós, o rei caminhou para o exato ponto central abaixo da torre flutuante — Mas a sua queda deve ser apreciada!

    “BLAM!” Um ataque luminoso de grandes holofotes erguidos sobre prédios nos atingiu, destacando os 3 malfeitores.

    — O público deve testemunhar a sua desgraça!

    De repente, nossos corpos, o dos soberanos e do rei foram desmanchados e Noelle, Akira e eu reaparecemos em uma sala branca e vazia.

    — Mas o que é que ta acontecendo? — Akira perguntou, assim como eu, olhando para todos os cantos vazios da sala.

    POVO ANTARIANO! EIS AQUI UM PRESENTE! — A voz de Frost ecoou pela sala — HÁ CERCA DE UM ANO, O LANÇAMENTO MUNDIAL DOS CELULARES FOI UM GRANDE SUCESSO E PARA COMEMORAR A NOVA REVOLUÇÃO DA COMUNICAÇÃO, VENHO ANUNCIAR O PRIMEIRO REALITY SHOW DA INTERNET! “A BATALHA DOS SOBERANOS!”

    — Você só pode ta de sacanagem… — eu estava incrédula. Não havia palavras para descrever o que estava sentindo.

    Não posso negar que senti falta da internet e de mexer no meu celular, mas com tanta acontecendo desde que vim para cá, isso nunca acabou sendo um incômodo.

    — Do que ele ta falando? — meu amigo perguntou.

    — É um artefato mágico muito poderoso… — disse em um tom sombrio e misterioso.

    SEI QUE PARA MUITOS, ISSO PODE SER DESRESPEITOSO, COMO “BRINCAR COM A COMIDA”, MAS POR ISSO ESTOU AQUI. ESTOU AQUI PARA GARANTIR QUE ESSE DEMÔNIO NÃO SAIA IMPUNE!

    — Esse negócio de demônio já ta enchendo o saco…

    POIS BEM, VAMOS DAR INÍCIO AO SHOW!

    E AÍ, ME DIGAM, SENTIRAM SAUDADES?! — uma voz não tão estranha substituiu Frost — VOCÊS QUEREM UMA NOVIDADE? EU, PACHIRU, SEREI O SEU APRESENTADOR!

    Eu já o conhecia, nos vimos algumas vezes nos corredores da antiga base dos soberanos. Mesquinho, vaidoso, chato e pra piorar, achava que eu era apaixonada nele.

    SEI QUE ESTÃO APLAUDINDO AÍ DE SUAS CASAS, ENTÃO VAMOS COMEÇAR LOGO! ANTES DE TUDO, VAMOS ESCLARECER AS REGRAS! UM: CADA BATALHA SERÁ UM CONTRA UM, SEM INTERVENÇÕES. CASO ALGUÉM INTERFIRA NA BATALHA, OS SOBERANOS ESTARÃO LIVRES PARA INVADIR A ARENA E ELIMINAR OS PARTICIPANTES! DOIS: ANTARES É, ACIMA DE TUDO, UM GOVERNO JUSTO, ENTÃO, DEPOIS DE  CADA LUTA, OS LUTADORES PASSARÃO POR UMA CÂMARA CURATIVA, OS PREPARANDO PARA A PRÓXIMA RODADA! TRÊS: O COMBATE TERMINA COM A RENDIÇÃO OU MORTE DO OPONENTE! E POR ÚLTIMO: ABSOLUTAMENTE TUDO ESTÁ LIBERADO! SEJA TRAPAÇA OU GOLPE BAIXO, USEM TUDO QUE ESTIVEREM AO SEU ALCANCE PARA VENCER!

    — Isso é ridículo… — enquanto Pachiru fazia o seu showzinho, três portas luminosas surgiram a nossa frente e acima delas, um pequeno visor indicando qual soberano estava por trás da porta.

    — A gente pode escolher? — perguntou, meu amigo.

    — Parece que sim… — suspirei por um segundo — bem, eu nunca os conheci, mas li suas fichas algumas vezes, então se podemos escolher com quem lutar, vamos escolher direito.

    Poucos minutos antes de atravessarmos a porta, compartilhei todo o conhecimento que tinha sobre os soberanos que pude me lembrar e em seguida, decidimos quem iria atravessar cada porta.

    Da esquerda para a direita, estavam os soberanos de ranque 10, 9 e 8 respectivamente. A nossa escolha mais certa foi a de que eu iria lidar com o ranque 10, Akira com o 9 e Noelle com a 8, todos com uma certa confiança de iriamos derrotá-los.

    — Beleza, tá todo mundo pronto? — conferi meus amigos por um instante.

    Eles afirmaram com a cabeça, com olhares firmes e determinados. Tínhamos apenas que passar para a próxima luta, nos aproximando cada vez mais da coroa carmesim, a nossa única regra era simples: sem mortes.

    Nos posicionamos perpendicularmente em frente as portas, a um passo das batalhas. Eu olhei para a outra ponta da sala, na terceira porta, encarando Noelle com um olhar preocupado.

    — Se cuida! — o suor frio escorria pelo meu rosto, deslizando entre meus dedos trêmulos, não por conta das batalhas difíceis que eu estava prestes a enfrentar, mas pelas batalhas difíceis que ela iria enfrentar.

    — Você também! — deu com um sorriso singelo.

    — Não esqueçam que eu tô aqui, valeu? — meu amigo brincou.

    — Vê se não morre, cabeção!

    — Por favor! — Noelle riu junto a nós.

    OLHA ISSO, PESSOAL! ELES ESTÃO RINDO BEM EM FRENTE AS PORTAS DOS SEUS ADVERSÁRIOS! SERÁ QUE TÊM UM PLANO MALIGNO PARA DERROTÁ-LOS? O QUE SERÁ QUE ESSAS CRIATURAS VIS ESTÃO PRESTES A FAZER?

    Tentando ignorar sua voz irritante, atravessamos as portas de luz.

    Um clarão tomou a minha visão e confesso que um quê de nostalgia tomou conta de mim, lembrando de como eu vim parar neste mundo contra a minha vontade. Pus meu braço contra a que me atacava de cima, enquanto escutava os gritos do narrador.

    RESPEITÁVEL PÚBLICO! A MINHA DIREITA, UMA MULHER, QUE APESAR DA SUA BELEZA INIGUALÁVEL, É TÃO DIABÓLICA QUANTO A PRÓPRIA RAINHA DO INFERNO!  UMA CRIATURA VIL E MALIGNA. A MULHER POR TRÁS DO RUIM! O DEMÔNIO PÚRPURA! SAKI NAKAMURA!

    Eu caminhei para o centro da arena. Um único piso branco, imenso e redondo cobria o espaço da batalha, sua superfície áspera como cimento me tranquilizava, afinal, escorregar ali seria o meu fim. Olhando ao redor, eu procurei as paredes no infinito espaço holográfico que nos envolvia, trazendo uma sensação de vazio, como se eu fosse lutar no espaço. E eu permaneci ali, esperando o meu oponente.

    E A MINHA ESQUERDA, UM ANDROIDE, UMA MÁQUINA DE GUERRA! CABEÇA ERGUIDA, ENGRENAGENS RODANDO, POSTURA LETAL! O SOBERANO INCANSÁVEL, GAAAAAANMAAAAA!

    Enquanto era apresentado, o som metálico e ritmado dos seus passos ecoava na arena. As juntas rangiam, e cada movimento liberava um sutil chiado elétrico. No centro de seu peito, uma gema azulada vibrava em sincronia com o som de uma batida. A cabeça era uma coroa de espinhos composta por pedras de mana, e entre as aberturas do elmo, uma fenda triangular brilhava em tons índigo, observando o ambiente sem emoção, mas com cálculo. Em seus membros inferiores, apesar de não ser humano, parece que ele optou pela decência e vestiu, em sua cintura, um pano vermelho que se estendia até o seu joelho. 

    Os ridículos efeitos sonoros de palmas soaram através das caixas de som espalhadas na arena.

    — Fico triste que essa é a primeira vez que nos encontramos — eu tirava a minha mochila enquanto me apresentava, a jogando em um canto qualquer da arena.

    — A minha ausência devida a missão me livrou do desprazer de conhecer você — disse em um tom reto e seco.

    — Um robô com senso de humor? — ri levianamente.

    — É automata! — Ganma avançou violentamente com jatos propulsores sob seus pés.

    Em meio a sua trajetória, o automata girou, alterando sua posição e acertando o chão com a sola do seu pé.

    — Meio lento, não acha? — debochei ao me esquivar sem dificuldade para as suas costas.

    Liberação: 10% — Ganma ergueu seu cotovelo e abriu completamente a palma da sua mão.

    A escotilha em sua palma se abriu, liberando uma intensa e concentrada energia. Seu torso girou como um tufão, apesar de seu quadril permanecer imóvel.

    — 10%? — perguntei enfurecida ao segurar seu braço — quem você pensa que eu sou? — arremessando seu corpo magro no chão.

    Antes que a poeira gerada pelo piso rachado abaixasse, eu rugi em um golpe poderoso em seu crânio metálico.

    — Tudo bem! — a voz robótica do soberano soou ilesa — Vou acabar com isso rapidamente! — ele ameaçou enquanto ajeitava a sua postura a alguns metros de mim.

    — Ótimo, não vou aguentar esse cara falando por muito tempo! — eu, de verdade, não suportava a voz daquele narrador.

    Liberação: 85% — os cristais de Ganma cresceram exponencialmente e seu corpo não parava de liberar energia.

    — Continua me subestimando? — questionei desapontada ao vê-lo disparar em minha direção.

    Seu punho ágil e poderoso se chocou com o meu, iniciando uma sequência de golpes múltiplos anulando uns aos outros.

    90% — ele aumentava sua força desesperadamente — 100% — seus punhos começaram a pesar como pilares maciços de aço, o que me forçou a agir rápido.

    No breve segundo entre um de seus golpes, seus propulsores se silenciaram, o chão vibrou e eu me movi. Em um leve movimento de pêndulo, eu acertei um gancho no estômago falso do automata e o empurrei com um soco direto no rosto.

    — Não me leva a mal, cara, você é bem forte, mas na força bruta… — eu incendiava meus ombros com as chamas purpuras, rindo com certa arrogância — nenhum de vocês vai conseguir me parar!

    — Meus limites vão além dos 100%, demônio — ele se levantava com certa dificuldade — não ouse subestimar um soberano!

    Seu corpo se modificou sutilmente e o som de algumas peças se retraindo permeava a arena. Pequenos espaços foram abertos em sua lataria, como se quisesse, de alguma forma, melhorar sua aerodinâmica.

    Liberação: 120%. Postura da Formiga! — em um piscar de olhos, o soberano desapareceu, eu escutava seus passos velozes em volta de mim, correndo como se procurasse uma abertura em minha guarda.

    Eu apenas esperava calmamente pelo seu ataque, movimentando meus pés sutilmente como se estivesse alterando a minha postura.

    Exatamente como eu imaginava, os circuitos programados daquele automata seria capaz de identificar uma falha em instantes, mas não conseguiria diferenciar uma falha de uma isca.

    Investida Avançada! — com a palma da sua mão estirada, Ganma mirou seu golpe direto no meu coração.

    Felizmente, os treinos com a Noelle aprimoraram meus reflexos significativamente, o que me permitiu girar meu corpo em um soco verticalmente para baixo, fazendo o chassi do soberano quicar no chão.

    Eu o acertei mais uma vez, transformando seu corpo em uma bola de basquete.

    Canhão das Chamas Caóticas! — com um poderoso soco em sua cabeça, uma onda de magia roxa obliterou parte do corpo do meu oponente, restando apenas seus pés e canelas.

    QUE GOLPE FOI ESSE, SENHORAS E SENHORES? — A voz de Pachiru não se calava — O SOBERANO AUTOMATA FOI COMPLETAMENTE ANULADO PELO DEMÔNIO PÚRPURA E ELA AVANÇA PARA O PRÓXIMO ANDAR!

    Eu quase conseguia escutar as vaias pelos alto-falantes.

    — Pensei que não gritasse o nome dos ataques — ignorando o narrador, Anzu me perguntou enquanto eu pegava a minha mochila.

    — Pois é, mas tá todo mundo usando, não é?

    — Te conhecendo, isso vai ficar cada vez mais ridículo…

    A porta luminosa surgiu novamente do outro lado da sala e sem mais delongas, a atravessamos.

    Ponto de Vista de Akira:

    Ao atravessar a porta de luz, fui imediatamente recebido pelos gritos do narrador.

    — VINDO DIRETAMENTE DE UMA FLORESTA EM VERDENA! VEM AÍ, O HOMEM FORJADO NAS FORNALHAS DO JARDIM! UM ESPÍRITO TRAVESSO E INCONSEQUENTE! QUEIMANDO OS SALÕES CELESTIAIS, AKIRA VALEBORNE!

    C-Como ele sabe disso? — apesar da apresentação enaltecedora, fiquei surpreso com as informações que ele não deveria ter.

    A arena cilíndrica de pedra polida, com marcas antigas de correntes cravadas no chão, estava completamente vazia, apenas os meus passos ecoavam em meio ao cenário. As luzes eram frias e azuladas, lembrando uma masmorra. 

    E AGORA, EM UMA BATALHA DE ESTRANGEIROS, O SOBERANO NASCIDO ALÉM DAS FRONTEIRAS DO CONTINENTE! AQUELE QUE APRISIONA AS SUAS VONTADES, PUNINDO CADA PASSO DOS SEUS OPONENTES. O JUIZ, O JÚRI E O EXECUTOR, TAAAAAANG!

    Tang caminhava calmamente, surgindo da luz retangular do outro lado da arena, com o capuz cobrindo parte do rosto e uma adaga pendendo dos dedos. Removendo seu capuz, apresentava um homem de aparência cansada, mas perigosa. O manto acinzentado que vestia parecia pesado, marcado por costuras antigas e fendas que denunciavam um longo histórico de batalhas. Sobre o peito, as dobras da vestimenta se cruzavam em camadas assimétricas, presas por um cinto vermelho-escuro, puído nas bordas, o único traço de cor viva naqueles trajes.

    Suas mangas eram largas, mas rasgadas o bastante para revelar antebraços cobertos por correntes finas e metálicas que tilintavam a cada pequeno movimento. Suas botas, altas e firmes, estavam cobertas por um fino pó, como se ele tivesse cruzado desertos e ruínas antes de chegar. Em seus tornozelos, mais correntes o cercava, causando um barulho levemente irritante ao serem arrastadas pelo chão.

    Tang levava uma segunda adaga longa presa na cintura, a lâmina coberta por inscrições quase apagadas. O punho estava gasto, moldado ao formato exato da sua mão. Além de tudo, tinha seus olhos castanhos, numa cor muito próxima a da sua pele, cansados, com seus cabelos escuros e mechas grossas, todos com um aspecto cansado e antigo.

    — Ótimo, você não parece o tipo de cara que fica enrolando! — eu girava meu bastão agilmente pelo meu corpo — Vamo logo com isso, velhote!

    De repente, escutei o som de um clique, um cadeado se fechando, seguido de um peso repentino no meu pescoço, como se algo estivesse me puxando.

    — Que merda foi essa? — questionei, alisando meu pescoço, confuso.

    — Cada escolha é um fardo a ser carregado — deixando o cabo da adaga deslizar até a ponta dos seus dedos, Tang sacou sua segunda adaga, em uma postura aberta e relaxada — Você será capaz de suportar esse fardo?

    Em um piscar de olhos, o soberano apareceu ao meu lado, erguendo suas adagas acima dos ombros. Meus olhos o acompanharam rapidamente, vendo as adagas de Tang cortarem o ar. Eu bloqueei os golpes seguintes com o meu cajado, golpes precisos, econômicos, quase sem desperdício de movimento. Ele definitivamente era experiente e sabia como se mover e impor pressão em uma batalha.

    Novamente, escutei um clique em meu pescoço, mas não era como se eu pudesse me dar o luxo de me perder em meus pensamentos naquele momento.

    O SOBERANO AUTOMATA FOI COMPLETAMENTE ANULADO PELO DEMÔNIO PÚRPURA E ELA AVANÇA PARA O PRÓXIMO A DAR! — escutei o narrador exclamar através dos altos falantes.

    — O quê? Mas já? — eu estava desacreditado— Palma Flamejante! — com uma breve abertura durante os seus golpes, o afastei com a palma da minha mão, explodindo seu ágil bloqueio com as adagas.

    — Eu não sei se você é rápido, ou eu que tô velho… — ele coçava sua cabeça, como se estivesse entediado — Mas pelo que eu tô vendo, essa luta não vai demorar muito.

    — Você fala pouco, mas só fala coisa sem sentido, não é? — Eu girei meu braço brevemente, sentindo um leve incomodo. Além dos meus movimentos limitados, senti algo incomum, um calor anormal vindo do meu bastão.

    — Um ataque verbal, uma defesa simples e um contra-ataque responsivo. Cada uma das suas escolhas gera uma consequência.

    — Já chega de papo! — eu avancei em uma explosão ardente, incendiando meu bastão e o atacando com ferocidade, devolvendo a pressão que ele havia imposto antes.

    Mais um clique soou, mas eu não me importei, seus movimentos ágeis eram difíceis de ultrapassar, o cheiro das brasas e do metal aquecido começava a tomar conta da arena, o ruído de suas correntes balançando a cada golpe já estava repetitivo e o meu corpo, por alguma razão, estava pesado demais para continuar naquela situação.

    — Ok, Ok! — me afastei rapidamente, sentindo meu pescoço pender para frente — Isso não tá indo pra lugar nenhum.

    — Prefere parar? — perguntou com um sorriso, apesar de seu corpo também aparentar um certo cansaço.

    — Sim… — mais uma vez, o clique estalou em minha mente, e eu finalmente percebi o que aquilo era.

    Olhando em direção ao espaço entre meu pescoço e minha clavícula, senti um colar de correntes incompleto se formando em volta de mim. Dezenas de pequenos anéis metálicos pesavam o meu pescoço e restringia levianamente os meus movimentos, cada um deles representando as consequências das minhas decisões em campo.

    — Entendeu agora? O peso das suas escolhas escravizam a sua alma, quando não for mais capaz de suportar, o seu corpo cederá de vez.

    — Por que os velhos sempre têm esse papinho filosófico? — eu estralava meu pescoço enquanto caminhava para o lado — Isso aqui não é uma batalha de ideais ou nada do tipo.

    — Haha… Me perdoe… — ele acompanhou meu movimento, girando em volta do centro da arena — Você está certo, eu esqueci porque estou aqui. Vamos só deixar isso de lado, nós, soberanos, só precisamos matar vocês e reestabelecer a paz.

    — Tsc! — eu já estava farto dessa lavagem cerebral estúpida.

    Tang e eu avançamos simultaneamente. Nenhum dos dois recuou. Nenhum dos dois piscou. Era como se ambos tivéssemos deixado de nos segurar e a batalha se tornou ainda mais quente.

    Aproveitando a média distância que eu conseguia obter por conta da minha arma, eu desferia rajadas de fogo em pequenos intervalos entre os meus golpes, diminuindo o seu tempo de contra ataque e o forçando a usar mais movimentos.

    O peso em meu pescoço aumentava a cada decisão e eu sentia que a corrente estava prestes a se fechar. Eu não conseguiria manter o ritmo com meus braços e pernas parecendo juntas enferrujadas e eu sabia que meu próximo golpe deveria ser o último.

    — Sabe, o seu truque é meio falho, não acha? — comentei em meio aos nossos golpes.

    — Falta pouco pra você entender o que a consequência de suas ações significam.

    — Pra você, parece cada escolha é como uma prisão, mas isso não faz o menor sentido.

    Tomando um pequeno impulso com uma explosão em meus pés, arremessei meu bastão contra o soberano. Como esperado de sua habilidade, ele o bloqueou em um ângulo preciso, fazendo com que minha arma voasse para trás.

    Desviando de seus golpes com certa dificuldade, conduzi a batalha para perto do bastão enquanto o enrolava com palavras.

    — Se você pode escolher pelo que lutar e como lutar, isso não deveria significar liberdade?

    — Quando crescer, verá que a liberdade não passa de uma ilusão. Todos, sem exceção, são escravos de alguma coisa.

    — Que papinho de idoso! — o provoquei.

    Corte do Executor! — Tang disparou com seus braços em um formato de “X” em direção a minha guarda aberta.

    Era tudo ou nada, um movimento arriscado que custaria a minha vida, mesmo assim, eu apostava nas consequências das minhas escolhas.

    Disparo da Fênix! — Estendendo a palma da minha mão para o soberano, incendiei meu corpo em chamas azuis.

    Sua experiência e astúcia o levaram a olhar pra trás, encarando uma enorme labareda de fogo azul em formato de pássaro, incinerando toda a arena entre o meu bastão e eu. O choque entre nossos golpes fazia o ambiente tremer e antes que meu corpo parasse de funcionar, tomei a minha última decisão.

    No instante em que o fogo se moldou em asas, o ar pareceu parar.

    EXPLOSÃO DA FORJA ARDENTE! — Com meu punho envolto as chamas azuladas, afundei as costas do soberano no chão, rachando o piso irregular da arena.

    O som das chamas se apagando em suas vestes denunciava a minha vitória, enquanto o peso das correntes desaparecia e meus movimentos voltavam a se libertar.

    ESPETACULAR! QUER DIZER, TERRÍVEL! O SOBERANO TANG TAMBÉM FOI DERROTADO RAPIDAMENTE! E AKIRA VALEBORNE AVANÇA PARA O PRÓXIMO ANDAR!

    — Esse bastão que o Merlin me deu é bem útil… — eu caminhei até o meu bastão — Quem diria que ele seria capaz de armazenar calor.

    — Liberdade, não é? — Tang se erguia lentamente, sentando de pernas cruzadas com sua cabeça baixa, aceitando sua derrota — E ainda assim… escolheu o caminho de um demônio…

    — Aaa… — dei um suspiro cansado, avançando para a porta de luz a minha frente — Se eu fosse um demônio, não acha que eu teria te matado?

    Eu atravessei a porta, ignorando qualquer resposta que ele poderia dar. Meu corpo sentiu um alívio extremo ao passar para o outro lado, lavando todo o cansaço e ferida causado pela batalha.

    — Demorou, ein? — a voz de Saki soou na mesma hora.

    — Por que achou que eu ia ganhar daquele cara? — me juntei ao seu lado, aguardando a nossa amiga bruxa.

    — Na real, eu sabia que ganharia do Ganma e a Noelle ganharia da esquentadinha, então o Tang foi o que sobrou pra você…

    — Você só pode tá de sacanagem…

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