Capítulo 14: Camadas negativas
Voltando para as profundezas das Camadas Negativas.
Mais precisamente, na Camada -43.
Lá, onde a luz parecia ter desistido de existir por medo, Lysanthir e Cedric avançavam com passos firmes.
O ambiente não era escuro no sentido tradicional; era envolto por um ar espesso, tingido de um roxo doentio — uma névoa sufocante que flutuava e girava como se tivesse vontade própria, tentando encontrar brechas nas roupas para tocar a pele.
Ambos usavam máscaras de filtragem especiais cobrindo nariz e boca, mas, ainda assim, a sensação de que algo rastejava pelo ar e entrava nos pulmões era quase insuportável. O gosto metálico era constante.
— Que lugar bizarro… — murmurou Cedric, a voz abafada pela máscara, ajustando o filtro com irritação. — Esse ar… por que algumas dessas camadas negativas têm essa aparência, esse cheiro de decomposição?
A voz de Lysanthir cortou o silêncio, calma, direta e sem emoção:
— Ninguém sabe ao certo. Teorias dizem que são restos de “mundos” que não deram certo. Mas camadas como essa são classificadas como “Nível Perigo”. O ar aqui dissolve matéria orgânica fraca em horas. — Ele olhou de lado. — Só relaxa, a entrada para a Camada -44 está perto… E pode me chamar de Ly, é mais fácil.
Cedric assentiu, mas seus olhos azuis não paravam de varrer o ambiente. O chão era irregular, esponjoso, pulsando levemente como se a própria camada estivesse respirando sob suas botas.
Os dois seguiram em frente, atentos… ou pelo menos, achavam que estavam.
Eles não perceberam.
Algo se movia ali… rastejando nas sombras da névoa roxa, mimetizando-se ao caos.
Uma criatura gigantesca. Uma centopeia deformada, com dezenas — não, centenas — de patas afiadas arranhando as rochas silenciosamente. Sua carapaça era preta como carvão molhado e oleoso, e os dentes, vermelhos como sangue recém-derramado, reluziam em fileiras ameaçadoras na mandíbula que se abria.
E ela vinha direto atrás deles.
— Não consigo ver um palmo na frente do rosto! Como você se orienta aqui, Ly?! — reclamou Cedric, chutando uma pedra.
— Diferente de você, eu já vim aqui várias vezes. Já até…
Ele não terminou.
Um som cortante, como garras gigantes arranhando uma lousa de ferro, ecoou pela caverna.
CRAAASH!
A centopeia avançou numa velocidade absurda, engolindo a névoa, e atingiu Cedric como um trem de carga.
O garoto mal teve tempo de pensar. O reflexo salvou sua vida.
Ele puxou sua rapieira e a cravou entre os dentes da criatura no último milésimo de segundo.
CLANG.
Metal contra quitina.
Mas a força bruta foi demais. Ele foi arrastado. Rápido. Violento. As botas dele rasgaram o chão enquanto ele era empurrado para trás.
— Cedric! — gritou Lysanthir, girando nos calcanhares.
No mesmo instante, luz explodiu de seus pés.
Não era uma luz comum; era densa, sólida. Rastros dourados ficaram suspensos no ar enquanto ele disparava atrás da criatura com uma velocidade tão intensa que a névoa roxa se partia ao seu redor, criando um vácuo.
Cedric, por sua vez, estava literalmente pendurado por um fio.
A rapieira cravada na mandíbula da besta era sua única âncora. Com um esforço sobre-humano nas pernas, ele empurrou o corpo contra a criatura, usando a inércia para pular.
Ele girou no ar, puxou a espada e recuou alguns metros, pousando agachado.
O rosto estava suado sob a máscara, os olhos afiados como a lâmina que segurava.
— Maldita… desgraçada. — Ele cuspiu no chão.
A centopeia ergueu a parte frontal do corpo, ficando com quase quatro metros de altura. Sua boca grotesca se abriu, mandíbulas estalando, e soltou um chiado ensurdecedor que fez os ouvidos de Cedric zumbirem.
— Tá se achando só porque é grandona, é? — disse Cedric, girando sua rapieira no ar, a ponta da lâmina emitindo um brilho esverdeado.
De repente, o ar ao redor da criatura brilhou.
Milhares de fios prateados, finos como cabelo, se materializaram, cortando o espaço como uma teia de lâminas invisíveis.
— Meu Código Genético cria linhas cortantes através da minha rapieira. — Cedric sorriu de forma afiada por trás da máscara. — Se der mais um passo… vai virar carne moída. Mas é claro, como você é só uma besta irracional, não deve entender nada do que tô dizendo, né?! Hahahaha!
A centopeia não entendeu. E avançou sem hesitar.
SHHHK! SHHHK! SHHHK!
O som de carne sendo fatiada preencheu a caverna.
Os fios de Cedric cortaram a carapaça da criatura em dezenas de pedaços. Pedaços de carne negra voaram.
Mas ela não parou.
O corpo se regenerava. A carne escura borbulhava e se refazia numa velocidade grotesca, unindo-se antes mesmo de cair no chão.
— Ah, qual é?! — Cedric recuou, os olhos arregalados, já preparando outra técnica. — Regeneração?!
Mas ele não precisou.
A névoa acima deles explodiu.
Um clarão rompeu o ambiente, tão forte que cegou a visão por um instante, como se o próprio sol tivesse decidido cair na Camada -43.
De dentro da luz, um vulto surgiu. Rápido demais para os olhos acompanharem.
Lysanthir.
Seu corpo estava envolto por uma armadura feita de luz pura e sólida. Placas douradas cobriam seus ombros e peito, e cada movimento seu deixava rastros de fótons no ar.
Seu braço direito não existia mais como carne; ele havia se transformado em uma lança de energia gigantesca, brilhando com intensidade quase divina.
Com um grito abafado, ele desceu dos céus roxos como um martelo de julgamento.
— HAAAAAAAAH!
A lança atravessou a cabeça da centopeia.
Não houve resistência. A luz vaporizou a carne, a carapaça e a regeneração.
O impacto foi tão violento que criou uma cratera no solo esponjoso, dissipando completamente a névoa roxa num raio de cinquenta metros.
O chão tremeu. Rochedos se partiram. A luz engoliu tudo.
Silêncio.
Quando a poeira baixou, Cedric olhou a cena, ofegante, com a rapieira abaixada.
No centro da cratera, a centopeia não existia mais. Apenas cinzas.
E ali, Lysanthir se virou lentamente. A armadura de luz se desfez em partículas douradas que flutuaram para o céu, revelando seu terno impecável, sem um arranhão.
Cedric engoliu em seco.
— …Não é à toa que esse maluco é Rank 1020… — sussurrou, sentindo um respeito relutante crescer no peito.
Lysanthir ajeitou a luva, como se tivesse apenas espantado uma mosca.
— Vamos. A entrada está logo ali.
A luta tinha acabado… mas a descida para o verdadeiro inferno, a Camada -44, estava apenas começando.
Ainda com a adrenalina da batalha recente correndo em suas veias, Cedric e Lysanthir continuavam caminhando pela escuridão roxa e silenciosa. O som de seus passos ecoava entre as paredes úmidas da caverna, que agora se abriam num corredor natural gigantesco.
Pequenas gotas pingavam do teto.
Ping. Ping. Ping.
Como um metrônomo sombrio contando o tempo que lhes restava.
À frente, a névoa começou a girar, formando um vórtice descendente.
— Chegamos — disse Lysanthir, parando à beira do abismo. — O Vórtice para a -44.
Cedric olhou para baixo, para o espiral de escuridão.
— Espero que a Acara esteja de bom humor — murmurou ele. — Porque eu tenho a sensação de que vamos precisar de toda ajuda possível.
— Depois que eu falei que a Acara estava na Camada -44, a sua postura mudou completamente. Você ficou todo animadinho, não ficou?
A pergunta de Lysanthir veio do nada, cortando o silêncio opressivo da névoa roxa. A voz dele estava abafada pela máscara, mas o tom provocativo era nítido como cristal.
— Você ama ela?
Cedric tropeçou numa raiz invisível e quase engasgou com o próprio ar filtrado.
— O quê?! Claro que não! — resmungou ele, a voz subindo uma oitava. O rosto dele queimou de vergonha, visível até pelas orelhas que ficaram vermelhas. — Não é nada disso! De onde você tirou essa asneira? Eu só… admiro ela. Só isso, tá?
Lysanthir arqueou uma sobrancelha prateada, mantendo o ritmo tranquilo da caminhada.
— Hmm. Ela é a Chefe do Clã da Escuridão, sabe? A “Lâmina da Noite”. Meio difícil um romance desse tipo acontecer. Seria como um cão tentando namorar uma loba alfa.
Cedric bufou, virando o rosto para a escuridão lateral, tentando esconder o constrangimento.
— Já falei que não é isso… É que… — Ele suspirou, a voz ficando mais séria. — Ela é forte. Determinada. Desde que eu a vi no Palácio Esmeralda pela primeira vez, durante uma cerimônia, eu senti algo. Não amor romântico, não… mas uma admiração absoluta. Para alguém como eu, que precisou conquistar cada centímetro de chão com suor e sangue, admirar alguém como ela… é o mínimo. É uma inspiração.
Houve um breve silêncio. Apenas o som das botas esmagando o solo esponjoso e o zumbido da névoa preenchiam o ambiente.
— Mas… ela nasceu na família principal do clã — comentou Lysanthir, pensativo. — Aposto que muita coisa veio fácil para ela. Linhagem, recursos, mestres. E apesar dela ser a líder política, o Rank 8 ainda é o mais forte do Clã da Escuridão em poder bruto.
— Falou o cara do Clã da Luz! — retrucou Cedric, parando e cruzando os braços com sarcasmo afiado. — O senhor “nascido em berço de ouro”, que vive num palácio feito de luz e diamante. Você entende muito de dificuldade, né?
Lysanthir deu uma risadinha seca, quase imperceptível. Ele parou e olhou para o próprio traje — a mistura estranha de branco e preto.
— Na verdade, eu sei um pouco sobre as complexidades dos clãs… Só ouço coisas. Por causa da minha esposa.
Cedric piscou.
— O quê?
— Minha esposa. Ela é do Clã da Escuridão.
Cedric ficou estático, boquiaberto. A máscara quase caiu do rosto.
— O QUÊ?! SUA ESPOSA É DO CLÃ DA ESCURIDÃO?! — gritou ele, a voz ecoando na caverna. — Mas… você é da Luz! Tipo, literalmente! Um membro puro! Isso é… isso é praticamente proibido! Espera… isso explica aquelas partes pretas na sua roupa?! Você usa isso em homenagem a ela?!
Lysanthir manteve o olhar sério, voltado para frente. Não respondeu. Apenas continuou andando como se não tivesse soltado uma bomba diplomática no colo do garoto.
— Tsc… não fala nada, né? — murmurou Cedric, chutando uma pedrinha para longe com força. — Irritante do caramba. Misterioso de meia-tigela.
Alguns metros depois, a névoa começou a girar.
Eles encontraram o que pareciam ser bordas circulares no chão — um buraco largo, perfeitamente redondo e profundo, engolido pela escuridão roxa. O Vórtice.
Lysanthir parou na borda, a ponta da bota tocando o vazio.
— Chegamos. A descida para a -44.
Antes de pular, Lysanthir voltou a puxar conversa, o tom agora desprovido de sarcasmo.
— Você nasceu na Camada 8, né? Helheim. O esgoto do mundo, como dizem. E ainda assim, virou membro da elite do exército do Palácio Esmeralda. É um baita feito, garoto.
Cedric relaxou os ombros. O elogio o pegou desprevenido. Ele sorriu de lado, um sorriso nostálgico e um pouco triste.
— Eu tive que ralar muito pra isso. Nunca fui aceito por nenhuma academia de renome. Nunca tive um clã de apoio ou padrinhos mágicos. Só meus pais e minha espada. Mas me dediquei até o fim.
Lysanthir o observou com atenção. Seus olhos de gelo analisaram o garoto de cima a baixo.
“Um garoto que nasceu na Camada 8… e derrotou 15 oponentes abaixo do Rank 10.000 no teste de admissão. A técnica dele é suja, mas eficiente. Ele é mais forte do que aparenta.”
Cedric percebeu o olhar insistente. Ficou desconfortável.
— Por que tá me encarando assim, hein? Perdeu alguma coisa na minha cara?
Lysanthir soltou um leve suspiro. O sorriso sarcástico voltou ao canto da boca.
— Não. Só estava tentando entender, cientificamente… como alguém tão forte pode ser tão… baixinho.
Ele apontou para o chapéu de penas.
— Esse chapéu aí é compensação, né? Para parecer que você tem, sei lá, 1,70m?
Cedric travou. A veia na testa dele pulsou.
— MAS VAI SE FERRAR, SEU LUZINHA DE MERDA!!! — explodiu Cedric, sacando a rapieira pela metade. — VOCÊ ACHA QUE É O BONITÃO SÓ PORQUE TEM 1,90m E UMA ARMADURA BRILHANTE?! EU VOU CORTAR ESSE SEU CABELO PRATEADO!
Lysanthir deu uma leve risada, abafada pela máscara. Era raro vê-lo rir de verdade.
Sem esperar a fúria do “pequeno” espadachim, ele se jogou no buraco.
— Me espere, maldito! — gritou Cedric, pulando logo atrás.
A queda foi rápida.
O ar roxo e venenoso foi ficando para trás, como se tivesse medo de entrar ali.
Pouco a pouco, a escuridão se dissipou.
E quando os pés deles tocaram o chão… a visão foi um choque para os sentidos.
O chão sob suas botas… era branco.
Imaculado.
As paredes também.
O teto acima refletia a luz ambiente como uma abóbada polida de uma catedral esquecida.
Cedric arrancou a máscara do rosto, ofegante, puxando o ar puro — e frio.
— Mas… o que é isso?
Lysanthir olhou em volta com a mesma calma de sempre, seu reflexo distorcido no brilho suave das superfícies.
— Mármore. — disse ele. — A Camada -44… é inteira feita de mármore branco. Um mausoléu do tamanho de um continente.
Cedric piscou, impressionado. A luz refletia em tudo, criando um labirinto infinito de brancura.
A guerra contra o desconhecido continuava. Mas pelo menos, agora, estavam pisando em algo mais bonito do que névoa venenosa.
Por enquanto.
A Camada -44 era silenciosa. Um silêncio de túmulo.
Mas não estava vazia.
Enquanto caminhavam pelos corredores largos e gélidos, o som das botas ecoando como trovões distantes, Cedric começou a perceber os detalhes.
O mármore não estava perfeito.
Fragmentos de madeira apodrecida estavam espalhados pelo chão, quebrados e escurecidos pelo tempo. Alguns pedaços pareciam restos de portas ornamentadas, vigas de sustentação, móveis…
Eram ruínas de construções humanas. Ou algo que tentava imitar a humanidade.
— Olha ali — murmurou Lysanthir, parando e apontando com o queixo.
No fim de um corredor de teto abobadado, uma sala antiga se revelava.
As paredes estavam rachadas, grandes blocos do teto haviam caído, e um leve cheiro de mofo antigo contrastava com a esterilidade do mármore.
Quando passaram pelo arco do que restava da entrada… a visão os fez parar imediatamente. As mãos foram para as armas por instinto.
Mas não era um monstro.
No centro da sala, parada como se esperasse por eles há mil anos, estava ela.
A mulher era a perfeita encarnação do paradoxo: entre o etéreo e o fúnebre, o sagrado e o sombrio.
Seu rosto, branco como a porcelana mais fina, reluzia sob a fraca luz ambiente, trazendo uma beleza que parecia errada, fora deste mundo.
Olhos azul-acinzentados, frios como o mar no inverno, encaravam os dois com um silêncio tão profundo que fazia Cedric sentir como se tivesse pisado em um túmulo aberto sem permissão.
Seu cabelo negro, longo e brilhante, estava preso num coque tradicional complexo, adornado com discretos enfeites florais de um verde-musgo profundo — detalhes pequenos, mas impossíveis de ignorar na brancura da sala.
O vestido preto que usava era denso, de um tecido que parecia absorver a luz. Era tradicional, elegante, coberto por padrões florais verdes e dourados que pareciam se mover sutilmente quando ela respirava.
Não era só uma roupa. Era uma presença.
Ela fez uma reverência.
Com uma elegância exata, mecânica. Nem baixa demais para ser servil, nem alta demais para ser arrogante. Cada movimento parecia ter sido ensaiado por eras.
E quando começou a se aproximar, seus passos não faziam som no mármore.
Era como se flutuasse.
Ou pior. Como se assombrasse.
Sua voz cortou o silêncio como uma brisa gelada antes da tempestade. Baixa. Suave. Perfeita demais.
— Olá, Lysanthir Vauz… Cedric Valveron.
Cedric estremeceu. Ela sabia os nomes completos.
Um sorriso tênue, quase imperceptível, apareceu nos lábios dela, mas seus olhos continuavam vazios de calor humano.
— Eu sou Nytharia Vharan’Sei. Exploradora Oficial das Camadas Negativas… e Recoletora de Informações para o Palácio Esmeralda.
Vharan’Sei.
O sobrenome atingiu Lysanthir como um golpe físico.
Era o mesmo sobrenome do Rei do Palácio Esmeralda, Aesyr Vharan.
Uma parente? Uma serva? Ou algo criado por ele?
Nytharia inclinou a cabeça, os enfeites de musgo balançando.
— Estava esperando por vocês.

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