Índice de Capítulo

    As duas figuras misteriosas começaram a trocar palavras ali mesmo, no meio do campo de batalha, ignorando por completo a presença de Nytharia, Lysanthir e Cedric. Era como se nós não fossemos ameaças; éramos apenas mobília no cenário.

    — Eu te disse, Vena… — falou o homem de cabelos vermelhos, com um tom entediado e arrastado, girando a espada negra no pulso. — Não devíamos ter vindo pra cá agora. Olha só… mais ratos dos Palácios. Que surpresa desagradável.

    A mulher encapuzada — Vena — apenas girou levemente a cabeça. A sombra do capuz recuou o suficiente para revelar um queixo pálido e lábios finos, curvados numa expressão de frieza absoluta.

    — Acabe com isso logo e venha comigo, Seron.

    A voz dela era firme, madura, carregada de uma autoridade que não precisava gritar para ser obedecida.

    — O alto, de branco e preto, é do Clã da Luz. A mulher exala a energia morta do Palácio Esmeralda. E o outro… — Ela lançou um olhar de desprezo periférico para Cedric. — …só um qualquer de chapéu engraçado. Não merecem explicações. Só termina logo.

    Com isso, ela simplesmente virou as costas. O manto de sombras absorveu a luz da lua gigante enquanto ela começava a caminhar para longe, entre as árvores de carvão, como se o desfecho da luta já estivesse decidido e não valesse o tempo dela.

    Foi nesse instante que a realidade quebrou.

    Sem aviso, o homem — Seron — sumiu.
    Não houve movimento de pernas. Apenas um borrão. Um lampejo vermelho.

    BAM!

    Um estrondo sônico explodiu no ar.
    Lysanthir, um Rank 1020, foi lançado como uma bala de canhão para longe. Ele bateu contra uma árvore negra colossal com força suficiente para fazer rachaduras brilhantes subirem pelo tronco fossilizado.

    Cedric mal teve tempo de processar o som.
    O brilho da lâmina negra com flores vermelhas cortou o ar, mirando seu braço direito.
    O instinto de sobrevivência da Camada 8 gritou. Cedric se jogou para trás, esquivando-se por milímetros.

    Shhhk.

    Ainda assim, um corte fino surgiu em seu bíceps. A dor foi imediata, ardendo não como um corte de aço, mas como se fogo líquido tivesse tocado sua pele.

    — Filho da—! — rosnou ele, recuando e segurando o braço.

    Mas Seron já não estava mais com ele. Ele não perdia tempo.
    Seus olhos âmbar agora estavam cravados em Nytharia.

    Ele avançou como um raio. A espada desceu para partir a mulher ao meio.

    Mas Nytharia não recuou. Ela ergueu uma das mãos pálidas com firmeza, a palma aberta.
    Seus olhos azul-acinzentados brilharam numa tonalidade verde-escura, tóxica. A voz dela soou clara, sobrepondo-se ao som da batalha:

    Flor da Penumbra – Lótus de Jade Negra.

    O chão ao redor de Seron explodiu.
    Não em fogo, mas em escuridão. Uma névoa densa, viscosa como tinta óleo, espalhou-se instantaneamente, engolindo-o.

    No segundo seguinte, o avanço dele parou.
    O corpo de Seron tremeu.

    — O que—!?

    Ele cambaleou um passo para trás, tossindo.
    Sentiu o ar queimando a pele exposta, como se milhões de espinhos microscópicos estivessem perfurando seus poros.
    Sua visão, antes perfeita, turvou-se em cinza. O cheiro de ozônio sumiu. O som da floresta desapareceu.
    Tato. Olfato. Visão. Audição.
    A Lótus devorava os sentidos.

    — O que é isso…? — rosnou ele, os dentes cerrados, tentando encontrar um inimigo que não podia mais ver.

    — Quem é você? — perguntou Nytharia. Ela estava parada a dois metros dele, intocada, observando-o com um olhar analítico e frio. — Sua estrutura biológica… não parece a de um demônio. Nem de um humano.

    Seron riu. Uma risada rouca, vinda do meio da névoa cega.

    — Meu nome é Seron Vireth. — disse ele, respirando com dificuldade, mas com o sorriso voltando ao rosto. — Sou o que vocês chamam de “Erro Genético”.

    Cedric, que tentava se levantar, arregalou os olhos ao ouvir aquilo.
    — Erro Genético…? Merda… isso é lenda urbana.

    — Pode me chamar de Erro 314 — continuou Seron, a voz pingando escárnio. — Um número de série escolhido a dedo pelo meu mestre… para marcar minha imperfeição perfeita.

    — E quem é seu mestre? — pressionou Nytharia.

    Seron não respondeu.
    A névoa ao redor dele girou.

    Ele simplesmente desapareceu.

    Dessa vez, nem mesmo o deslocamento de ar avisou.
    Ele reapareceu atrás de Nytharia, a espada erguida.
    Mas antes que a lâmina tocasse o pescoço dela…

    LUZ.

    Um clarão dourado cortou a escuridão da Floresta Negra como uma lança divina.
    Lysanthir estava de volta.

    AFASTE-SE!

    Um feixe de energia concentrada acertou Seron no peito. O impacto foi devastador.
    Ele foi arremessado como uma pedra através de três árvores negras sucessivas. Os troncos explodiram em pó escuro ao contato.

    Seron caiu longe, levantando uma nuvem de cinzas. Ele se levantou devagar, limpando um filete de sangue da boca com as costas da mão.

    — Tsk… — Ele cuspiu sangue no chão branco. — Bem que a Vena disse… membros do Clã da Luz são um saco. Brilham demais.

    Seus olhos se fixaram em Lysanthir, que agora flutuava a alguns centímetros do chão, envolto por uma armadura translúcida de pura luz, brilhando como um farol de esperança naquele mundo morto.

    — Você… — disse Lysanthir, a aura tremendo ao seu redor pela força que estava exercendo.

    Ele não olhou para trás, mas gritou a ordem:

    — Nytharia, me dê suporte! Cedric… vá atrás da mulher! Não a deixe escapar! AGORA!

    Cedric se levantou, ignorando a dor no braço.
    Ele correu. No impulso, seu chapéu de penas caiu, revelando seus cabelos loiros brilhando sob a luz etérea de Lysanthir. Seus olhos verdes queimavam com determinação.
    Ele viu as costas de Vena se afastando.
    Eu pego ela!

    Mas antes que ele desse o terceiro passo…

    — Não vou deixar.

    A voz sussurrou no ouvido dele.
    Seron estava parado na frente de Cedric. Como se o espaço entre eles não existisse.

    Cedric arregalou os olhos. O reflexo assumiu.
    Com um grito, ele estocou a rapieira visando o coração do inimigo.
    — MORRA!

    Ting.

    A lâmina parou.
    Não no peito.
    No ar.

    Seron segurou a lâmina da rapieira com apenas dois dedos.
    O polegar e o indicador pinçaram o metal encantado como se fosse um palito de dente.

    — Lento.

    Com um movimento casual de pulso, ele arrancou a espada da mão de Cedric. O garoto gritou quando o metal rasgou a luva e a pele da palma.
    Em seguida, Seron jogou a arma longe, cravando-a numa árvore distante.

    — Droga—! — Cedric tentou recuar, desarmado.

    Mais uma vez, a luz brilhou.
    Lysanthir interceptou. Ele apareceu entre os dois, segurando o punho de Seron no ar antes que o soco atingisse o rosto de Cedric.

    Os olhos de gelo de Lysanthir encontraram os olhos âmbar de Seron.

    — Você não vai tocar nele!

    Mas Seron apenas sorriu.
    O sorriso de alguém que estava esperando exatamente por isso.

    — Patético.

    E naquele instante… aconteceu o impossível.

    A luz dourada que cobria o braço de Lysanthir começou a escurecer.
    Veias negras surgiram na energia pura. A luz foi drenada, corrompida, retorcida em algo oleoso e profano.

    — Q-quê…? — Lysanthir engasgou, sentindo sua própria energia se voltar contra ele. A armadura de luz vacilou e quebrou.

    Seron olhou para Lysanthir com puro desprezo.
    — Luz é só onda. E ondas podem ser quebradas.

    Para Lysanthir, o tempo parou. Ele viu o soco vindo.
    Um giro sutil de quadril, carregando a força de uma montanha.

    BOOM.

    O punho de Seron afundou no estômago de Lysanthir.
    A armadura estilhaçou. O ar foi expulso dos pulmões do professor num som horrível.
    O corpo de Lysanthir foi lançado verticalmente, subindo em direção à lua gigante como um foguete.

    Seron não esperou ele cair.
    Ele flexionou as pernas. O chão sob ele cedeu numa cratera.
    VUSH.
    Ele saltou. Um míssil sombrio perseguindo a luz.

    No ar, a cinquenta metros do chão, Seron alcançou Lysanthir.
    A espada negra desenhou um arco fatal, pronta para dividir o professor ao meio.

    Mas Lysanthir… ainda era um Rank 1020.

    No meio da agonia, ele girou no ar. Desviou da lâmina por centímetros.
    Seus olhos brilharam com uma fúria branca, cegante.
    Ele estendeu os braços abertos, como um anjo vingador.

    COROA DOS MIL REFLEXOS!

    O céu da Camada -50 se iluminou.
    Das costas de Lysanthir, dezenas de braços feitos de pura luz sólida se manifestaram, formando uma auréola gigantesca e letal. Espinhos de energia surgiram entre eles, girando e zunindo.

    — SAI DAQUI!

    A tempestade divina foi disparada à queima-roupa.

    Seron bufou, irritado, cruzando os braços para defender.
    — Tsc.

    Ele foi engolido pela chuva de luz.
    As explosões ressoaram como trovões, iluminando a floresta negra inteira. Seron foi empurrado de volta ao solo, caindo como um meteoro.

    Lysanthir pousou logo depois, com força, os joelhos afundando na terra negra.
    A armadura de luz sumiu. Ele arfava pesadamente, suor frio escorrendo, segurando o estômago onde o soco tinha acertado. A mancha negra da corrupção ainda estava lá, desvanecendo lentamente na roupa.

    Cedric correu até ele, segurando o braço ferido.
    — Ly! Você tá bem?!

    Nytharia veio logo atrás. Ela caminhava com a mesma graça etérea de sempre, o vestido impecável, como se o caos ao redor fosse apenas uma brisa leve.
    Ela olhou para a cratera onde Seron tinha caído.

    — Ele disse ser um Erro Genético… — murmurou ela, a voz analítica, ignorando o estado dos companheiros. — Mas sua aparência é extremamente humana. E a capacidade de corromper fótons…

    Ela estreitou os olhos.

    — Há algo muito errado nele. Precisamos analisá-lo com calma… se sobrevivermos.

    Enquanto isso, no lado oposto da floresta devastada…

    Seron se erguia com dificuldade entre os destroços das árvores carbonizadas. O corpo dele, antes imaculado, estava coberto de cortes fumegantes e queimaduras de luz. A respiração era pesada, chiada, e seus olhos âmbar estavam carregados de uma frustração infantil e violenta.

    — Tsk… não esperava esse tipo de ataque… — rosnou ele, limpando o sangue grosso que escorria dos lábios com as costas da mão. — Luz sólida… que truque barato.

    Do meio das sombras, onde a escuridão era mais densa, Vena surgiu.
    Não houve som de passos. A presença dela trazia uma pressão sutil, mas sufocante, como se a gravidade ao redor dela tivesse aumentado.

    — Eu avisei — disse ela com frieza, aproximando-se sem pressa. — Eles não foram mandados para uma Camada Inferior à toa. São a elite. Devem estar aqui investigando os corpos que deixamos para trás no atalho.

    Seron virou o rosto para ela, os olhos faiscando de excitação maníaca.
    — Eu tô muito feliz. É minha primeira luta séria. Finalmente algo que não quebra com um toque.

    Vena parou. Com um movimento lento e deliberado, ela levou as mãos ao capuz.
    E o retirou.

    Era uma beleza sombria, inquietante e trágica.
    Cabelos longos e lisos, negros como o vácuo entre as estrelas, emolduravam um rosto de pele clara, quase translúcida. Veios escuros, como raízes de veneno, serpenteavam elegantemente pelo pescoço e ombros, desaparecendo sob o manto.
    Mas eram os olhos que prendiam a alma.
    Roxos. Profundos.
    E no centro de cada pupila… uma fenda vertical rosada. Como uma rachadura brilhante num cristal amaldiçoado.

    Os mesmos olhos que Ken via no espelho.

    — Mate aqueles três — ordenou ela, a voz impassível. — Mas não se esforce muito. Você é valioso demais para se quebrar agora. Você é um dos preferidos Dele, afinal.

    Seron sorriu de lado. Um sorriso torto, selvagem e satisfeito.


    De volta à clareira, a tensão ainda vibrava no ar.
    Lysanthir caminhava até Cedric, ajudando o garoto a se firmar. Nytharia também se aproximava, os olhos varrendo a floresta.

    — Não tínhamos noção da presença de um “Erro Genético” neste setor — disse Lysanthir, a voz tensa. — Isso muda tudo. Precisa ser relatado imediatamente ao Palácio.

    Mas antes que qualquer um pudesse dizer mais, passos pesados ecoaram entre as árvores.
    Crunch. Crunch.

    Seron estava de volta.
    Ele caminhava despreocupado, girando o ombro ferido.

    Lysanthir ergueu o olhar, agora gelado. Cedric, ao lado, já preparava sua rapieira, ignorando a dor no braço, os olhos verdes brilhando com determinação suicida.

    — Parece que alguém voltou para apanhar mais, hein? — provocou Lysanthir, cerrando os punhos.

    Sem hesitar, o professor desapareceu.
    Um raio de luz cortou o espaço. Lysanthir avançou contra Seron numa velocidade que desafiava a física. Seu braço direito se transformou novamente numa lança radiante, afiada e implacável, visando o coração do inimigo.

    Mas, antes que a ponta de luz pudesse tocar a pele pálida…

    CLANG.

    O som não foi de impacto. Foi de parada absoluta.
    O ar ao redor de Seron estremeceu, distorcendo a imagem. A lança de luz parou no ar, suspensa a centímetros do peito dele por uma força invisível.

    — Pobrezinho… — zombou Seron, o rosto contorcido em desdém. — Achou mesmo que ia me acertar duas vezes com o mesmo truque?

    Com um único movimento casual, ele girou o punho e desferiu um golpe com as costas da mão na lateral da lança.
    A luz se desintegrou. Não quebrou — foi anulada.

    No segundo seguinte, a mão de Seron disparou e agarrou o pescoço de Lysanthir.
    O impacto foi brutal. Ele levantou o Rank 1020 do chão como se fosse um boneco de pano, os pés de Lysanthir balançando inutilmente no ar.

    A expressão de Seron era a de um predador no auge do domínio.
    Ele apertava a traqueia de Lysanthir, os olhos fixos nos dele. O mundo ao redor parecia desaparecer — só restava o brilho roxo e impiedoso daquele olhar artificial.

    — Está se perguntando como eu parei seu ataque, né? — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro carinhoso, carregado de veneno. — Já que você vai morrer mesmo… não vejo problema em explicar. É a minha “falha”.

    Ele ergueu a outra mão lentamente, a espada negra apontando para o peito de Lysanthir. Não o cortava, apenas pressionava o tecido da roupa com uma provocação insuportável.

    — Eu posso reverter a causalidade de qualquer ataque — direto ou indireto. Faço fogo virar gelo… impacto vira inércia… e tudo que tenta me atingir com intenção letal simplesmente desacelera infinitamente quando entra no meu campo pessoal. — Seus lábios se curvaram. — Claro, é um erro genético… e como qualquer erro, tem falhas, tem delays. Mas contra lixo como você?

    A ponta da espada rasgou levemente a pele de Lysanthir. Uma gota de sangue escorreu.

    — …Você não tem a mínima chance.

    Antes que ele pudesse perfurar o coração, um zumbido agudo cortou o ar.
    Uma rapieira voou girando na direção da cabeça dele.

    Seron nem piscou. Apenas inclinou o pescoço levemente para o lado.
    A espada passou zunindo por sua orelha, errando por milímetros.

    — Você ouviu o que eu disse? — murmurou ele, voltando a encarar Lysanthir, ignorando Cedric. — Eu podia parar essa lâmina no ar, transformar o metal em pó… mas decidi desviar. Apenas por capricho. Porque eu posso.

    Ele puxou o braço da espada para trás, pronto para decapitar Lysanthir.

    — Por ter me ferido antes… vou te matar rápido. Considere um favor.

    Mas foi então que Cedric riu.
    Um riso afiado, ofegante, mas transbordando confiança.

    — Caiu direitinho, seu otário de merda.

    Seron franziu a testa.
    Cedric, desarmado e longe, ergueu as duas mãos para o céu… e fechou os punhos com força.

    De repente, o ar brilhou.
    Dezenas de linhas brancas, finas como teias de aranha e invisíveis até aquele momento, surgiram ao redor de Seron. Elas estavam conectadas à rapieira que passou por ele — e a várias árvores ao redor.
    Ele estava dentro da teia.

    As linhas se moveram num único comando, convergindo violentamente sobre o braço que segurava Lysanthir.

    CHAK.

    Um som úmido e seco ao mesmo tempo.
    O braço de Seron foi decepado na altura do ombro. Caiu no chão com um baque surdo, a mão ainda segurando o pescoço de Lysanthir.

    O professor caiu de joelhos, tossindo, livre do aperto.
    Cedric puxou a própria rapieira de volta usando uma das linhas, a arma voando para sua mão.
    — CORRE, LY!

    Lysanthir recuou, cambaleando para longe.

    Seron olhou para o próprio ombro.
    Nenhuma gota de sangue escorria. A carne era cinza, morta, seca como madeira velha.
    Ele olhou para o braço no chão.
    A expressão dele mudou. A arrogância sumiu, substituída pela fúria de um vulcão em erupção.

    — …Desgraçado. — murmurou entre os dentes cerrados.

    Cedric não esperou. Ele avançou com precisão cirúrgica, suas linhas dançando pelo campo de batalha.
    Vush! Vush!
    As linhas cortavam o ar e acertavam Seron, abrindo pequenos cortes pelo corpo dele. O “Erro Genético” estava lento, confuso pela perda do membro. Ele desviava, mas a raiva o deixava previsível.

    Cedric viu a abertura.
    Sem hesitar, ele mergulhou para o ponto cego de Seron, a rapieira preparada para perfurar o crânio.

    — ACABOU!

    Mas então…
    O céu escureceu sobre ele.

    THUMP.

    Algo caiu do alto das árvores, pesado como uma âncora.
    Vena.
    Ela pousou entre Cedric e Seron.

    O braço esquerdo dela saiu lentamente de dentro do manto.
    Mas o que apareceu não era um braço humano.
    Era uma garra monstruosa. Uma crosta negra espessa, pulsando com veios violeta, dedos longos e deformados. Uma armadura viva, biológica e aterrorizante.

    Com um único movimento fluido, Vena interceptou a estocada de Cedric. Ela segurou a lâmina da rapieira encantada com a mão mutada.

    CRACK.

    A lâmina de aço de elite se partiu como vidro barato.

    Cedric arregalou os olhos, segurando apenas o cabo.
    — O qu—

    Sem esperar, Vena girou o corpo. O braço negro se moveu como um chicote.
    Ela acertou um soco — ou uma patada — no rosto de Cedric.

    O impacto foi brutal. O som de osso estalando foi audível.
    Cedric voou por vários metros, batendo e rolando no chão de cinzas até parar de joelhos, atordoado, o sangue escorrendo pelo nariz quebrado.

    A floresta ficou em silêncio.

    Vena não perseguiu. Ela se virou para Seron.
    Havia uma decepção escancarada e fria em seu rosto pálido.

    — Inacreditável… — disse ela, a voz baixa e perigosa. — Eu realmente não achei que você fosse incompetente a ponto de perder um braço para isso.

    Seron rosnou, segurando o ombro amputado, os olhos queimando de humilhação.
    — Eu me distraí! Aquele verme usou um truque sujo!

    Vena suspirou. Um suspiro longo, de uma mãe exausta de lidar com uma criança birrenta e perigosa.

    — O que esperar de alguém que tem apenas um ano de idade, não é? A maturidade não se cria em laboratório.

    Cedric, tentando focar a visão turva, arregalou os olhos.
    — Um… ano? — murmurou, o sangue pingando no chão. — Aquela coisa… é um bebê?

    — É. — Vena respondeu sem paciência, ajeitando o manto sobre o braço monstruoso. — Vamos embora, Seron. Depois cuidamos do seu braço. O mestre tem peças sobressalentes.

    Ela começou a caminhar, resmungando consigo mesma, alto o suficiente para ser ouvida:

    — Desde o começo… eu devia ter trazido meu filho. Pelo menos ele herdou meu sangue de verdade. Ele é mais competente do que essas cópias baratas.

    Seron bufou, chutando o próprio braço decepado para longe.

    — O quê? Aquele mimado? Ele não e diferente de mim não? — Ele riu, amargo. — Me comparar com ele é… ridículo. Merda…

    Vena parou e lançou um olhar que fez Seron calar a boca instantaneamente.

    — Agora vamos, temos que subir para buscar meu verdadeiro filho.

    Ela voltou a caminhar entre as árvores de carvão, e Seron a seguiu de má vontade, como um cão chutado.

    Cedric ouviu ” Agora vamos, temos que subir para buscar meu verdadeiro filho” .tentou se levantar. A fúria e a confusão ferviam nele.
    — Espera! Volta aqui! Quem é seu filho?!

    Ele tentou dar um passo, cambaleando.
    Mas uma mão suave e firme pousou em seu ombro, impedindo-o.

    Era Nytharia.

    Ela estava parada ali, o vestido impecável, observando as costas de Vena desaparecerem na névoa.

    — Não. — disse ela. A voz era serena, mas a ordem era absoluta. — Não agora, Cedric Valveron. Não temos chance contra eles… ainda.

    Cedric cerrou os dentes, frustrado, assistindo impotente enquanto os dois monstros desapareciam na escuridão da Camada -50, levando consigo mistérios que poderiam abalar o mundo lá em cima.

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