Índice de Capítulo

    Voltando para a rotina na Academia Fjorheim.

    Já fazia um mês e uma semana desde que pisei naquele lugar. O outono começava a dar as caras, tingindo as folhas das árvores do campus de dourado e vermelho.

    No campo de treinamento gramado, o som de impacto e respiração pesada cortava o ar da tarde.
    Eu e Shin estávamos suando, exaustos. Do outro lado, Levi estava impecável, com seus longos cabelos negros amarrados num coque alto e estiloso que nem parecia se mover com o vento.

    Ao redor, vários alunos conversavam sentados na grama ou assistiam. Lá no alto, num galho grosso de uma árvore, Sayra observava tudo, as pernas balançando e um sorriso divertido no rosto, como quem assiste a filhotes brincando de briga.

    Avancei.
    Explodi em velocidade para cima de Levi. Tentei uma sequência rápida de socos: rosto, costela, plexo.
    Vush. Vush. Vush.

    Levi nem descruzou os braços. Ele apenas girava o tronco milimetricamente.

    — Garoto Orquídea, não é elegante… — disse ele, com um suspiro de tédio. — Seus golpes precisam de refinamento. Estão largos demais. Sem precisão. Você luta como um briguento de bar, não como um Rankeado.

    Shin veio logo em seguida, aproveitando minha distração para lançar um chute alto visando a têmpora de Levi.
    Levi apenas inclinou a cabeça para trás. O pé de Shin passou raspando seu nariz.

    — Os dois ainda estão a quilômetros da verdadeira extravagância.

    Então, ele se moveu.
    Foi um movimento fluido, como água.
    Quando lancei mais um soco, ele descruzou os braços. Com uma mão, desviou meu punho; com a outra, segurou meu pulso e usou meu próprio impulso.
    Ele me puxou. Perdi o equilíbrio.

    Ao mesmo tempo, Shin tentou atacar pelas costas. Levi agachou-se numa rasteira giratória perfeita, esticando a perna longa.

    Pah.

    Shin foi ao chão. Eu fui arremessado e rolei na grama.

    Mas eu não parei.
    Levantei num pulo. Shin estava caído, vulnerável. Levi ia finalizar.
    Agora.

    Abri um portal negro ao lado de Shin, no chão.
    De dentro dele, a ponta de um bastão de madeira de treino saiu, arremessada por mim antes de eu cair.
    Shin, num reflexo absurdo, agarrou a madeira.
    O código genético dele ativou. A madeira escureceu, virando uma lâmina negra e densa de Matéria Escura.

    Ele girou no chão, cortando na direção das pernas de Levi.
    Levi saltou para trás.
    Eu já estava lá. Tinha me teleportado para as costas dele no ar.

    — AGORA! — gritei.

    Atacamos juntos. Shin por baixo, eu por cima. Um ataque em pinça perfeito.
    Naquele milésimo de segundo, Levi sorriu.
    E quando Levi sorria… significava que tínhamos perdido. Mas também significava que ele estava se divertindo.

    Foi rápido demais.
    Um golpe de palma aberta, seco, atingiu meu estômago no ar.
    Oof.
    Cuspi saliva, o ar saindo todo de uma vez.
    No mesmo movimento, ele usou a outra perna para chutar a lâmina de Shin, desarmando-o e derrubando-o de novo.

    Caímos na grama, derrotados, ofegantes, olhando para o céu azul.

    Levi estava de pé sobre nós, limpando uma poeira imaginária do ombro. O sorriso dele era orgulhoso.

    — Isso foi… quase aceitável. — Ele assentiu. — A coordenação espacial do teleporte com a criação de armas do Shin… foi maravilhoso. Estão melhorando o combate em equipe.

    Ele olhou para o lado. Na sombra de uma árvore próxima, Holi observava, com um caderno no colo, sorrindo e batendo palmas silenciosas.

    — Certo, jovens — decretou Levi. — Vão se hidratar. O suor excessivo estraga a pele. Por hoje é só.

    — Nem no dia de folga a gente tem sossego… — reclamou Shin, deitado, cobrindo os olhos com o braço.

    Levi apenas jogou o cabelo para trás e saiu andando em direção ao dormitório, provavelmente para mais uma sessão de pentear o cabelo.

    Sentei-me na grama, recuperando o fôlego.
    Foi quando senti aquele arrepio familiar.
    Olhei para a direita, perto do prédio principal.

    Lá estava ela.
    Ellume Willians.
    A garotinha de cabelos brancos. Ela me olhava. E sorria. Aquele sorriso doce, fixo, que não chegava a ser humano.
    Assim que viu que eu notei, ela acenou devagar e sumiu atrás de uma coluna.


    Fui em direção à Mansão Laranja para beber água. Holi guardou o caderno e veio saltitando ao meu lado.

    — Aonde vai agora, Ken?

    — Vou me hidratar… Depois vou até a Mansão Roxa. Preciso conversar sobre algo com a Maria Donroxye.

    Holi ajeitou os óculos imaginários (um tique que ela tinha quando ficava séria).

    — Hum… Sabe aquela garota que você me pediu para observar discretamente? A Ellume?

    Parei de andar.
    — Descobriu algo?

    — Bem… — Holi baixou o tom de voz. — Parece que ela é do Segundo Ano, apesar da aparência de criança. As notas dela nas provas teóricas são perfeitas, nota máxima em tudo. Mas… nos registros de combate prático? Nada. Zero.

    Ela olhou para os lados.

    — E o mais estranho: no arquivo da academia, onde deveria constar o Código Genético dela… está em branco. Diz “Não Identificado” ou “Inexistente”.

    — Inexistente? — franzi a testa. — Numa academia de elite?

    — Pois é. Você investiga bem, hein… — Holi comentou, e depois ficou levemente envergonhada, mudando de assunto rápido. — Bem… parece que aquela garota gosta de você, pelo jeito que te olha, né?

    — Acredito que não… — respondi, sentindo um calafrio. — O olhar dela não é de paixão, Holi. É de… fome. Ou curiosidade mórbida.

    Holi me olhou de esguelha, com um sorrisinho malicioso.

    — Hum. Falando em garotas… você sempre está junto daquela menina do Clã Misticia, a Mina, né? — Ela me cutucou com o cotovelo. — E aí? É o namorado dela?

    Quase engasguei com a própria saliva.
    — O quê?! Não… Não! Nada a ver.

    — Ah, qual é! Vocês vivem sumindo juntos.

    — É que ela é… complicada — tentei explicar, sem jeito. — Ela é muito tímida e socialmente desajeitada. Ela meio que decidiu que somos “rivais e amigos”, então ela me segue.

    — Por que não chama ela para o nosso grupo? O Levi ia adorar mais alguém para chamar de “Jovem Alguma Coisa”.

    — Ela quase nem conversa com outras pessoas, só comigo e com a Maria. Ainda tem que ter calma com isso… ela assusta fácil.

    Chegamos perto dos bebedouros.

    — Eu fico aqui, vou para a biblioteca — disse Holi. — Até amanhã, Ken!

    Despedi-me dela e fui até a torneira. A água gelada desceu rasgando, aliviando a sede do treino.
    Limpei a boca e me virei.

    E quase trombei com alguém.

    Uma garota estava parada atrás de mim. Silenciosa como um fantasma.
    Cabelos curtos e brancos sujos, olhos dourados de pupila fendida, pele pálida e cheiro de terra e sangue seco.

    Lyshera Noctialis.

    Ela estava me encarando. Ou melhor, farejando o ar ao meu redor.

    — Lyshera, né? — perguntei, dando um passo para trás. Nunca tinha trocado uma palavra com ela além da apresentação.

    Lyshera Noctialis é meu nome — disse ela. A voz era rouca, gutural. — Eu sou da mesma sala que você, Ken Orquídea.

    Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço. O nariz dela franziu.

    — Fique longe da garota de cabelos brancos.

    Travei.
    — A Ellume? Por quê?

    Lyshera estreitou os olhos dourados.
    — Todos exalam cheiros. Emoções, intenções, poder… tudo tem cheiro. — Ela apontou para o corredor onde Ellume tinha sumido. — Aquela garota… ela tem um cheiro desagradável. Cheiro de coisa que não deveria estar viva. Cheiro de mofo antigo.

    Aquilo me fez gelar. Lyshera tinha instintos animais devido ao código de transformação. Se ela dizia que algo fedia…

    Então, ela virou o rosto e olhou diretamente para o meu olho direito. O rosa.

    — E você… — Ela inclinou a cabeça, confusa. — Seu olho rosa exala um cheiro… similar ao dela.

    — O quê?

    — Não é podre como o dela. — corrigiu Lyshera rapidamente. — Mas é… vazio. O mesmo tipo de vazio. Só que o seu parece… limpo. O dela está estragado.

    Ela recuou, perdendo o interesse tão rápido quanto ganhou.
    — Só um aviso. Cuidado com o que você atrai.

    E saiu andando, as mãos nos bolsos, como se nada tivesse acontecido.
    Fiquei parado ali, com a água pingando do queixo, sentindo o peso daquelas palavras. Similar… mas limpo?


    Algum tempo depois.
    Mansão Roxa – Oficina de Maria Donroxye.

    O lugar continuava a bagunça de sempre, mas a área de trabalho de Maria estava limpa e iluminada por luzes cirúrgicas.

    Eu estava sentado numa cadeira reclinável. Maria, usando óculos de proteção que a deixavam com cara de cientista maluca (o que ela provavelmente era), estava debruçada sobre um microscópio enorme, analisando uma amostra.

    Minutos antes, ela tinha pingado um líquido ardente no meu olho rosa, me feito piscar várias vezes, e coletado a lágrima com um cotonete estéril. Agora, ela misturava essa amostra com reagentes vermelhos e roxos num tubo de ensaio.

    Ela agitou o tubo.
    A reação aconteceu.
    O líquido não ficou roxo, nem vermelho.
    Ficou Ciano. Um azul elétrico, brilhante, quase neon.

    Maria parou. Ela tirou os óculos, olhando para o tubo com uma expressão de choque absoluto. Era como se ela tivesse acabado de descobrir que a água não molha.

    Ela se virou para mim, o rosto sério, sem o traço da atrapalhada de sempre.

    — Ken… — começou ela. — Os membros do Clã da Escuridão possuem olhos roxos. É uma regra genética absoluta. Nunca, em mil anos de registros, houve alguém com heterocromia, especialmente dessa cor.

    Ela caminhou até um armário, pegou um livro grosso de capa de couro e folheou freneticamente até achar uma página.

    — A heterocromia, nas raras ocasiões em que ocorre com Códigos Oculares, é chamada de Síndrome de Dissincronia Arcóptica.

    Eu pisquei, confuso.
    — Síndrome de quê?

    — Dissincronia Arcóptica. — repetiu ela, didática. — É um rompimento. Uma falha elegante no código genético. Normalmente, significa que o usuário tem duas habilidades oculares conflitantes. Mas…

    Ela veio até mim, segurando o tubo ciano contra a luz.

    — O seu caso é diferente.

    Maria apontou para o meu olho roxo (o esquerdo).
    — Seu olho esquerdo segue o Códex comum da Escuridão. Genética padrão.

    Então, ela apontou para o direito. O rosa.
    Minha íris brilhou num tom suave sob a luz da sala, quase como se estivesse respirando.

    — Mas esse… — A voz de Maria baixou para um sussurro fascinado. — Esse não segue código algum. A reação ciano prova isso. Não há traços de linhagem ancestral nele.

    Ela me olhou nos olhos, séria.

    — Não é uma deformidade genética, Ken. Ele nasceu de Ausência.

    — Ausência?

    — Sim. De um espaço vazio. — Maria gesticulou, tentando encontrar as palavras. — É como se, biologicamente, você tivesse nascido “sem” esse olho no sentido de poder. Havia um vácuo ali. E o vazio… o universo detesta o vazio. Às vezes, o vazio cria coisas para se preencher.

    Ela suspirou, a mente correndo.

    — Em resumo: é como se esse olho não fosse “seu” por herança, mas tivesse “entrado” ou “nascido” em você para ocupar um espaço oco. Ele não exala a aura de um código genético ocular comum porque ele não vem dos seus pais. Ele vem de… outro lugar.

    Lembrei das palavras de Lyshera. “Cheiro de vazio.”
    Lembrei da minha mãe biológica, que Katarina dizia ter uma fenda rosa nos olhos.
    E lembrei de Ellume.

    — Maria… — perguntei, sentindo a boca seca. — O que isso significa na prática?

    Maria sorriu. Um sorriso de quem está diante do maior mistério de sua vida.

    — Significa que você não tem um limite definido pelas regras dos Clãs. Significa que esse olho… pode ser qualquer coisa. Ou nada. Estamos olhando para um abismo, Ken Orquídea. E ele está olhando de volta para nós.


    Eu já estava com a mão na maçaneta, pronto para sair, quando parei e olhei para trás.

    — E minha adaga?

    Maria, que já estava debruçada sobre outro projeto, levantou os óculos de proteção.
    — Ah, a Lâmina Voraz? Eu ainda vou analisá-la a fundo. Mas não se preocupe, estou guardando-a num cofre de estase. Estou esperando minha irmã me enviar um equipamento de espectrometria da Segunda Camada para eu analisar a liga metálica melhor… Aquilo não é ferro comum, Ken.

    Apenas concordei com a cabeça e saí da sala, deixando a cientista maluca e seus mistérios para trás.


    Os dias começaram a passar numa velocidade absurda, borrando-se uns nos outros.
    A cada manhã que eu acordava com o despertador gritando, parecia que o Exame de Reclassificação estava ainda mais próximo, respirando no meu pescoço.

    A rotina das aulas teóricas se misturava com treinos práticos intensivos. Sempre que sobrava um minuto livre, eu arrastava Shin para os campos de treino, sob a supervisão do professor Ative… ou do professor Ren, quando o universo decidia que precisávamos sofrer um pouco mais.

    O professor Ative, diferente de Ren, era tranquilo. Quase gentil. Sempre com aquele uniforme impecável e um sorriso leve, ele trazia uma abordagem técnica e calculista.

    — Vocês dois estão evoluindo numa curva exponencial. — comentou ele um dia, ajeitando os óculos enquanto Shin e eu recuperávamos o fôlego na grama. — É uma surpresa agradável. Mas, Ken…

    Ele se aproximou de mim, o olhar analítico.

    — Você ainda precisa trabalhar na estabilidade da formação do seu portal. — A voz dele era firme, mas não dura. — Lembre-se: usar o Armazenamento Dimensional como teleporte não é apenas “pular num buraco”. Cada salto desgasta o corpo, mas o que mais sofre é a mente. A desorientação espacial do Vórtice pode fritar seu cérebro se você não criar uma resistência mental.

    Ele então virou o olhar para Shin, com aquele jeito quase paternal de um mentor orgulhoso.

    — Já você, Shin… precisa aprimorar a precisão molecular ao transformar objetos com sua aura sombria. Criar uma espada é fácil. Mas se você conseguir transformar até mesmo uma simples folha seca numa lâmina capaz de cortar aço… você será um oponente aterrorizante.

    Fazia todo sentido. Estávamos fortes, mas éramos brutos. Precisávamos de polimento.


    Quando finalmente voltava para o dormitório, à noite, sentia o cansaço impregnado até na medula dos ossos. Meus músculos pareciam feitos de chumbo.

    — Ainda bem que hoje não preciso ir no prédio roxo… — resmunguei para mim mesmo, arrastando os pés pelo corredor acarpetado do Bloco C. — Se a Maria inventasse de coletar mais lágrimas minhas hoje, eu desmaiava.

    O corredor estava quase vazio àquela hora. A luz amarelada e suave das arandelas dava um tom sonolento e silencioso ao ambiente, como um hotel antigo.

    Foi quando eu a vi.

    Mais adiante, perto da porta do quarto dela, havia uma figura pequena sentada no chão, encostada na parede.
    Era Holi.

    Ela estava absorta, lendo um livro de capa dura que parecia grande demais para as mãos dela. Parecia uma cena de outro mundo — pequena, silenciosa, abraçando os joelhos, com o cabelo rosa espalhado sobre os ombros e o carpete, balançando levemente cada vez que ela virava a página.

    Quando me aproximei, o som dos meus passos a despertou. Ela deu um pequeno pulo de susto, fechando o livro com um estalo abafado e ficando imediatamente vermelha.

    — O que tá fazendo sentada no chão do corredor, Holi? — perguntei, parando e abaixando um pouco a cabeça para olhar no nível dela.

    Holi baixou ainda mais o rosto, quase se enfiando dentro da gola do próprio casaco do uniforme.

    — É que… — ela sussurrou, a voz tremendo de vergonha. — Minha colega de quarto… ela tá com um garoto lá dentro… E eles trancaram a porta.

    Ah.
    Entendi na hora.
    Minha mente preencheu as lacunas: Holi chegando cansada, tentando abrir a porta, ouvindo risadinhas ou sons suspeitos e fugindo em pânico social, escolhendo o corredor frio como refúgio para não atrapalhar.
    Era muito a cara dela.

    Sem pensar muito — e talvez com mais inocência do que a situação exigia — ofereci:

    — Quer esperar lá no meu quarto?

    Assim que as palavras saíram da minha boca, o peso delas bateu.
    Um garoto chamando uma garota para o quarto à noite.
    Mas já era tarde para voltar atrás.

    Holi ficou num tom de vermelho que eu nem sabia que existia, escondendo metade do rosto atrás da capa do livro.
    Mesmo assim, após hesitar por um segundo, ela se levantou, ajeitou a saia e concordou com um aceno tímido.

    — …Tá bom. Obrigada, Ken.

    Fomos andando juntos em silêncio até a porta 304. O som dos nossos passos parecia alto demais.

    Quando abri a porta, notei de imediato que Levi não estava — provavelmente tinha saído para alguma “missão noturna de cuidados com a pele” ou para se exibir em algum lugar. Mas a presença dele estava lá: o cheiro forte e amadeirado do shampoo caro dele e do sândalo ainda impregnava todo o ambiente.

    Holi entrou devagar, na ponta dos pés, quase como se tivesse medo de estar invadindo um santuário proibido.
    Ela se sentou na beira da minha cama (a de baixo), juntou as pernas e apertou o livro contra o peito como um escudo.

    Nosso quarto tinha uma pequena copa com uma chaleira elétrica. Fui até lá, grato por ter algo para fazer com as mãos.

    — Quer chá? Ou café? — perguntei por cima do ombro, tentando quebrar o clima estranho.

    — Tanto faz… — ela respondeu num fio de voz. — Chá, por favor.

    Enquanto a água fervia, assobiando baixinho, peguei as xícaras e me sentei na cadeira da escrivaninha de Levi, de frente para o espelho, mas virado para ela.

    O quarto mergulhou em silêncio.
    Não era um silêncio vazio. Era denso. Carregado.
    O reflexo no espelho mostrava Holi, encolhida na minha cama, e eu, sentado ali, tentando fingir que meu coração não estava batendo um pouco mais rápido do que o normal.

    Era inevitável.
    A proximidade. O isolamento. A luz baixa.
    Mesmo sem trocar palavras, era como se a estática no ar tivesse aumentado.

    Enquanto esperávamos a água, meus olhos, traidores, foram parar nela.

    Pensando bem… eu nunca tinha parado para observar a Holi de verdade, fora do caos das lutas ou das conversas em grupo.
    Ela era bonita. Muito bonita.
    Mas não daquele jeito gritante e perigoso da Mina ou da Solara. Era um tipo de beleza mais quieta. Mais sincera.
    Os cabelos rosa eram bem cuidados, brilhando como seda sob a luz fraca. A pele dela parecia macia. E o jeito dela se mover, cada gesto contido, até a forma elegante como segurava o livro… tudo denunciava: ela vinha da nobreza. Havia uma educação refinada em cada movimento, mesmo quando ela estava nervosa.

    Parecia que ela tinha saído direto de um daqueles romances antigos de capa dura que minha mãe adotiva, Katarina, tanto gostava de ler nas noites de inverno em Jotunheim.

    A lembrança me atingiu do nada, aquecendo meu peito.

    Katarina. A mulher mais bruta que eu conhecia. Caçadora, lenhadora, capaz de quebrar um lobo no meio com as mãos.
    Mas bastava um livro de romance cair na mão dela para ela se transformar em manteiga derretida.
    Eu já tinha visto aquela mulher enorme chorar escondido abraçada a um livro velho, fungando na cozinha de madrugada.
    Às vezes, quando terminava de ler, ela ficava tão animada que vinha me contar a história, os olhos verdes brilhando como os de uma garotinha… E o pai, Fernandes, só dava uma risada grave, balançava a cabeça e ia cortar lenha, como se já soubesse que o jantar ia atrasar por causa do “amor impossível do Duque”.

    Esse pensamento arrancou um sorriso genuíno e suave do meu rosto enquanto eu via o vapor subir da chaleira.

    O clima ainda estava meio denso, então, decidi usar a arma secreta contra o constrangimento: conversa fiada.

    — Está gostando da academia, Holi? — perguntei, a voz saindo mais calma do que eu esperava.

    Holi baixou um pouco o livro, revelando os olhos verdes grandes e brilhantes. Ela sorriu de volta, um sorriso pequeno e tímido.

    — Estou… — disse ela. — É difícil, mas… estou aprendendo muita coisa nova. Coisas que eu nunca veria na minha casa.

    Era uma resposta simples, mas a forma como ela disse, olhando nos meus olhos, fez o ar no quarto parecer um pouco menos pesado… e um pouco mais quente.

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