Capítulo 39: Verdades
Dois meses se passaram.
Sessenta dias de silêncio, luto e reconstrução.
A notícia correu pelas Dez Camadas como uma onda de choque elétrica.
A Grande Catástrofe da Academia Fjorheim.
Nunca, em séculos de história registrada, um santuário de ensino havia sido profanado dessa forma. Os números eram frios, mas a realidade era insuportável: mais de 400 alunos mortos ou desaparecidos nos escombros. Três professores confirmados mortos — incluindo Ative, o velocista que morreu protegendo seus alunos.
A professora Helena e o administrador do Prédio Azul, Marion Luipin, evaporaram. Desaparecidos sem deixar rastro.
A academia tentava se reerguer. Os guindastes mágicos trabalhavam dia e noite nos escombros do Prédio Principal.
O Vice-Diretor Hizu Jorney foi encontrado morto em seu escritório, sem cabeça. Para o público, ele foi a vítima trágica dos invasores. Mas, nos corredores escuros da política, teorias conspiratórias sussurravam que ele estava envolvido em algo muito maior… e que pagou o preço por falhar.
Mal sabiam eles que o buraco era muito mais fundo.
Enquanto o mundo lá fora debatia segurança e guerra, as aulas foram suspensas por tempo indeterminado.
A maioria dos alunos retornou para suas casas, buscando refúgio nas suas Camadas de origem. Mas alguns, os que não tinham para onde ir ou os que tinham motivos para ficar, permaneceram nos alojamentos silenciosos.
No alto das muralhas de pedra que cercavam o perímetro da academia.
O vento do fim da tarde era forte ali em cima, fazendo as bandeiras rasgadas dos Clãs estalarem como chicotes. O sol poente tingia o mundo de um laranja melancólico.
Holi estava sentada na mureta, as pernas balançando sobre o abismo. Ela olhava para o horizonte, onde o sol tocava a linha da terra.
Passos calmos e ritmados soaram na pedra.
Levi vinha caminhando. O vento bagunçava seus cabelos longos, mas ele sorria, como se até a brisa fosse uma fã pedindo autógrafo.
— Que surpresa… — disse ele, a voz arrastada e teatral. — Ver que o meu local secreto de observar a magnitude do astro-rei está ocupado por um rosto tão peculiar. E tão tímido.
Holi não se assustou. Ela não pulou. Não corou.
Ela continuou observando o sol, o rosto sério, desprovido da máscara de garota desajeitada.
— É magnífico mesmo… — respondeu ela. A voz não tremia. Era firme, polida. — Ver o sol daqui. Mesmo que a entrada de alunos nesta área seja estritamente proibida. Regras são sugestões para alguns, não é?
Levi parou a um metro dela. Ele a olhou de cima, com aquela soberba natural, e depois virou o rosto para o poente.
— Olhar para algo tão verdadeiro é uma experiência purificadora. O sol não pede desculpas por brilhar.
Um sorriso lento e afiado arqueou os lábios de Holi.
Ela se levantou. O movimento foi gracioso, imperial.
— A luz do sol é algo cruel, Levi. Ela não deixa nenhuma sombra se esconder. Nenhuma mentira sobreviver. — Ela se virou para ele, os olhos verdes brilhando com uma inteligência perigosa. — Você não é o único que anda investigando sobre a verdade nestes corredores.
Ela deu um passo à frente.
— Levi Gressi… Ou melhor… — Ela inclinou a cabeça. — Filho Bastardo de Sol’zher Asgard.
O vento parou por um segundo.
Levi não recuou. Ele fechou os olhos, o sorriso se alargando, e soltou uma risada baixa, que vibrou no peito.
— Inacreditável… — Ele abriu os olhos, que agora pareciam mais escuros. — Fico genuinamente surpreso que tenha descoberto. Ninguém olha para o bastardo de cabelo preto. Mas, vindo de você, faz sentido… Samira Rubri.
Ele fez uma reverência zombeteira.
— A Princesa do Palácio Rubi. A joia escondida do Poder Legislativo.
Holi — ou melhor, Samira — sorriu. Um sorriso malicioso, de quem acaba de ganhar um jogo de xadrez mental.
— No começo, eu duvidei. — admitiu ela, caminhando ao redor dele como uma predadora. — Todos os membros da Família Real de Asgard têm a pele morena, cabelos brancos ou dourados como o dia. Você… você é a noite. Mas após várias pesquisas, cruzamento de dados genéticos e subornos… a verdade apareceu. O sangue não mente, mesmo que a cor mude.
Levi bateu palmas. Lento. Irônico.
— Parabéns. Isso é… extravagante. Uma dedução digna da realeza. — Ele cruzou os braços. — Mas o que trouxe a Princesa do Rubi para esta academia de segunda categoria? Fugindo das obrigações do papai?
A expressão de Samira mudou.
O cinismo político desapareceu, substituído por algo mais visceral. Mais… febril.
— Curiosidade. E admiração. — Ela sussurrou. — Você conhece Don Verk Nosfea? O “Deus da Espada”?
Os olhos dela ficaram vidrados, as pupilas dilatadas.
— Sabe… todos falam dele no Palácio. Como ele é disciplinado. Como ele recusou ser o Líder do Clã da Escuridão. Recusou ser um dos Top 10. Recusou ser tutor dos meus irmãos… recusou o mundo.
Ela tocou o próprio rosto com as duas mãos, as bochechas corando não de timidez, mas de excitação.
— Até minha mãe… a Rainha do Rubi… ela se apaixonou por ele um dia. Mas eu? Eu o admiro. Muito. É uma obsessão pura. E quando descobri, pelos meus espiões, que ele teve um aluno… eu precisava ver.
Ela olhou para o vazio, lembrando de Ken.
— Quando descobri que era um garoto “normal”, aquele tal de Ken, fiquei um pouco chateada. Achei que o Don tinha perdido o juízo. Mas… — Ela mordeu o lábio inferior. — O que eu vi há dois meses… naquela arena… aquela aura rosa, aquela insanidade…
O rosto dela estava em êxtase. Uma adoração distorcida.
— Aquilo fez meu coração palpitar pela primeira vez. Não estou apaixonada, nada vulgar assim. Mas eu quero… Eu quero ver até onde a semente do Don Verk pode crescer. Eu quero estar lá quando ele quebrar de vez.
Levi observava a cena sem demonstrar reação. Ele conhecia aquele olhar. Era o olhar de quem vive no topo e precisa de entretenimento sangrento para se sentir vivo.
Samira se recompôs num estalo. A máscara de frieza voltou.
Ela ajeitou o cabelo rosa.
— Enfim. Já vi o que precisava. Partirei para o Palácio Rubi amanhã. Vou brincar de princesa obediente por um tempo, manipular alguns votos no Legislativo… até encontrar o Ken novamente.
Ela passou por Levi, indo em direção à escada da muralha.
Parou ao lado dele, sem olhá-lo.
— Foi um prazer atuar com você, “irmão” de realeza. Até mais, Levi.
Ela desceu, os passos sumindo na pedra.
Levi ficou sozinho.
Ele se virou para o horizonte. O sol tinha desaparecido, deixando apenas um rastro de sangue no céu.
Ele olhou para aquela luz moribunda — o símbolo de seu pai, o símbolo da casa que o rejeitou.
— “Extravagante”… — murmurou ele para o vento.
Mas, no fundo, ele sabia.
Toda essa intriga, os títulos, as princesas loucas e os bastardos esquecidos…
Tudo isso era insignificante. Poeira ao vento.
Perante a tempestade que estava se formando nas sombras do mundo.
Camada 1 – Asgard.
O Céu do Mundo.
O ar ali em cima era diferente. Rarefeito, puro e carregado de uma eletricidade estática que fazia a pele formigar.
Sobrevoando as agulhas de cristal verde do Palácio Esmeralda, o mundo parecia um tabuleiro de xadrez feito de joias.
Lá embaixo, nos portões colossais, a movimentação era solene.
Carruagens flutuantes de alto padrão, feitas de madeira branca e ouro, deslizavam pelas estradas ladeadas por jardins de flores que brilhavam com luz própria em tons de esmeralda. Representantes das Famílias Principais chegavam em comitivas silenciosas, ostentando estandartes que valiam mais que cidades inteiras nas camadas inferiores.
Entre eles, destacavam-se os Rankeadores.
Figuras envoltas em mantos brancos com linhas douradas, capuzes baixos escondendo rostos que o mundo temia ou adorava. Eles caminhavam em sincronia perfeita, uma marcha de fantasmas santos entrando no templo do julgamento.
Mas, enquanto a terra era silêncio e protocolo… o céu era caos e exibicionismo.
No alto, rasgando as nuvens, duas sombras aladas dançavam.
O primeiro dragão era uma montanha com asas.
Suas escamas eram de um cinza prateado tão opaco que pareciam talhadas em granito ancestral. Não brilhavam; absorviam a luz. Veios brilhantes, como lava adormecida, pulsavam fracos sob a “rocha” da pele dele.
A cada batida de asas, não se ouvia o vento. Ouvia-se um estalo seco e profundo, Crrrak, como se placas tectônicas estivessem se rearranjando no interior de uma caverna.
A cabeça era uma lança de pedra, angular e brutal, coroada por dois chifres que se arqueavam para trás, tentando rasgar o firmamento. Seus olhos eram fendas brancas, sem pupila, cegantes como o núcleo de uma estrela.
Quando ele voava, o som era um eco duplo — a realidade parecia gaguejar com o peso da sua existência.
Montado nele, firme como se fosse parte da rocha, estava um homem.
Sua armadura prateada refletia o sol de Asgard. O elmo era fechado, aerodinâmico. No centro do peito, o brasão brilhava: Uma mulher alada segurando uma espada numa mão e uma pena na outra.
O símbolo da Família Enola. Os Guardiões do Conhecimento e da Lei.
E ao lado dele, voando em espirais, estava o oposto perfeito.
O segundo dragão era uma lâmina viva.
Longo, esguio, com a textura de metal líquido recém-forjado. Ele ondulava no ar, vibrando com uma ansiedade elétrica.
Suas escamas hexagonais eram microscópicas, refletindo a luz em explosões de cor iridescente: azul-pálido, rosa elétrico, ouro suave… um espectro cromático que deslizava incessantemente pelo corpo da besta.
As patas eram finas, quase frágeis, mas os tendões saltavam como cordas de violino prontas para arrebentar.
O rabo, comprido como um chicote, terminava em lâminas aerodinâmicas naturais. Quando ele cortava o vento, não fazia barulho de impacto; ele assobiava. Um som agudo, musical, como uma flauta de vidro sendo tocada por um vendaval.
As asas eram o espetáculo final: enormes, desproporcionais, mas finas como papel de seda. As membranas translúcidas tinham um brilho de vidro. Quando a luz do sol passava por elas, projetava manchas coloridas e dançantes sobre as nuvens e o palácio lá embaixo, como um vitral em movimento.
Em suas costas, uma figura feminina.
A armadura dela era idêntica, moldada ao corpo, exibindo o mesmo brasão da pena e da espada.
Lá no alto, onde o ar era gelado, os dois cavaleiros se olharam através dos visores dos elmos.
Não precisaram de palavras. O desafio foi lançado no silêncio.
O homem segurou firme na escama grossa do pescoço de sua besta de pedra. Ele inclinou o corpo para a frente.
— KRÔH-DUN! — gritou ele. A voz, soou como um trovão de guerra.
O comando foi absoluto.
O Dragão de Pedra fechou as asas. Ele virou o bico para baixo e se deixou cair.
Não foi um planeio. Foi uma queda livre. Uma pedra de toneladas despencando do céu.
A mulher riu, um som distorcido pelo vento, e puxou as rédeas de luz de sua montaria.
O Dragão-Lâmina girou no próprio eixo e mergulhou atrás, cortando o ar com um assobio agudo que doía nos ouvidos.
Eles desceram.
Rápido. Rápido demais.
Lá embaixo, na pista de pouso elevada do Palácio Esmeralda, os serviçais e os dragões menores de transporte entraram em pânico.
As sombras dos dois monstros cresceram no chão em segundos.
O som do vento uivando e o eco duplo da pedra caindo anunciavam o desastre.
Eles passaram rasgando.
A metros das cabeças dos que esperavam.
A pressão do ar derrubou bandeiras, virou carruagens leves e fez Rankeadores experientes segurarem seus mantos.
No último segundo, antes de colidirem com a torre principal…
— VRA’AKH! — O homem gritou novamente.
As asas de pedra se abriram com um estrondo que sacudiu as janelas do palácio. O dragão freou no ar, a gravidade gemendo, e subiu numa curva vertical perfeita.
O Dragão-Lâmina fez o mesmo, suas asas de vidro espalhando um arco-íris sobre os convidados aterrorizados enquanto subia em espiral ao redor do parceiro.
Lá no alto, o homem ria, o som ecoando para baixo.
A dança dos dragões era um aviso: a Família Enola tinha chegado.
E a reunião no Palácio Esmeralda… estava apenas começando.

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