Capítulo 41: Alta cúpula
O silêncio que se seguiu à abertura da reunião foi curto, mas pesado o suficiente para esmagar a coragem dos servos.
Ninguém se mexeu. Ninguém tocou na comida.
Nos cantos do salão, os criados suavam frio, paralisados pelo protocolo. Nem mesmo o Rankeador Chefe fez menção de continuar.
O som de vidro raspando na mesa quebrou o gelo.
Lugone Enola levantou-se parcialmente, esticando o braço sobre a mesa de jade. Ele agarrou uma jarra de vinho de cristal.
Com uma calma irritante, serviu uma taça de prata para si mesmo. O líquido escuro gorgolejou, o único som no universo naquele momento. Depois, encheu a taça de sua irmã, Hergelle.
Ele bebeu um gole, suspirou satisfeito e recostou-se.
Então, uma porta lateral se abriu.
O rangido das dobradiças foi alto.
A maioria dos presentes virou o pescoço, curiosa e ofendida pelo atraso.
Lucios Svet, no entanto, permaneceu imóvel. Seus olhos de cristal continuavam fixos no centro da mesa, como se o mundo ao redor fosse irrelevante.
Vindo em uma cadeira de rodas feita de madeira escura e veludo, estava ela.
Gia Achlys. A filha de Acara.
Pequena, séria, com a perna faltante coberta pelo tecido do vestido.
Mas quem empurrava a cadeira fez o ar da sala ficar mais denso.
Todos sabiam quem era. E todos temiam o que ela representava.
Lady Yaeko.
Seu rosto estava oculto por uma máscara dourada, esculpida como um véu de nobreza rígido, adornada com arabescos delicados que cobriam suas expressões. Apenas a linha do maxilar e os lábios pintados de vermelho eram visíveis.
Seu cabelo, negro como nanquim, estava preso com grampos ornamentados e flores rubras frescas. Uma única mecha solta caía sobre o ombro, um toque de caos calculado na perfeição estética.
Ela exalava uma aura de elegância letal.
Seu corpo esguio era envolto por um quimono negro, ricamente bordado com fios de ouro e vermelho sangue, ilustrando dragões celestiais e fênix renascendo em meio a chamas. As mangas, longas e soltas, escondiam suas mãos, mesmo enquanto empurrava a cadeira. A parte interna do tecido, quando se movia, revelava um tom escarlate intenso — como o sangue oculto de sua história.
Ela era uma armadilha viva. Carregava duas espadas: uma longa lâmina dourada, pura e brilhante, presa às costas; e uma lâmina negra, mais curta e com entalhes sutis, repousando na cintura.
O som das rodas no mármore cessou.
Elas chegaram perto da mesa, bem ao lado de Lucios.
Yaeko soltou a cadeira de rodas. Com um movimento fluido, ela segurou o espaldar da pesada cadeira de mármore reservada para o convidado.
SCRAAAAPE.
O barulho da pedra sendo arrastada sem esforço foi agoniante. Ela removeu a cadeira como se fosse feita de papel e encaixou Gia no lugar.
Feito isso, Yaeko deslizou ao redor da mesa, passando por trás do Rankeador Chefe como um espectro de luxo.
E foi se sentar.
Literalmente ao lado de Lugone.
Lugone virou o rosto. Olhou-a de cima a baixo, um sorriso de predador nos lábios.
— Atrasada. Mas com estilo.
Com a chegada das duas, o protocolo foi quebrado. O jantar começou.
Cada convidado começou a se servir do vinho. Os criados, como se tivessem recebido um sinal invisível, avançaram rapidamente para servir os nobres.
Um criado aproximou-se de Lugone com uma travessa de faisão.
Lugone levantou a mão, num gesto seco de recusa.
— Não toque no meu prato. Eu me sirvo.
Ele pegou um garfo e espetou um pedaço grande de carne vermelha, ignorando os acompanhamentos refinados.
Nesse momento, a porta principal se abriu novamente, mas sem alarde.
Nytharia entrou em silêncio.
Ela não se sentou à mesa. Com as cicatrizes recentes no rosto brilhando sob a luz do lustre, ela caminhou até ficar de pé ao lado do Rankeador Chefe, ladeada pelas duas Guardiãs Cegas. Uma sentinela quebrada.
O som de talheres batendo nos pratos preencheu o salão.
Lugone comia com voracidade, mastigando grãos e carne. Gia era servida por criadas, comendo purê em porções minúsculas.
Lugone engoliu, limpou a boca com as costas da mão e quebrou o silêncio.
— Como pode… — começou ele, a voz projetada para que todos ouvissem. — Uma reunião de Cúpula, de tamanha importância… e somente o Clã da Luz parece “preocupado” de verdade. O resto parece que veio para um velório.
Elorin Svet sorriu, aquele sorriso que não chegava aos olhos.
— A pauta mais importante, Lorde Enola, será logicamente sobre a falha catastrófica da segurança. Como dois invasores das Camadas Negativas conseguiram subir sem serem detectados pelos radares das Famílias?
Lugone riu. Uma risada curta, cheia de farofa. Ele bateu a mão na mesa.
— Só você acha mesmo que eles subiram assim, de forma “normal”, né? Que fofo. Quanta inocência para um Svet.
Hergelle, ao lado dele, tentou intervir, tocando no braço do irmão.
— Irmão… acho que está sendo muito agras…
Lugone levantou a mão na cara dela, calando-a.
— Não. Eu não fico em silêncio. Se essa é a pauta… — Ele olhou para Nytharia, de pé, e depois para o Rankeador Chefe mascarado. — Por que vamos primeiro comer e fingir civilidade? Eu prefiro discutir com o estômago cheio de verdades.
O Patriarca da Família Willians ajeitou o monóculo, incomodado.
— Imagino que sua ansiedade seja pessoal, Lugone Enola… Já que a Academia Fjorheim é dirigida pelo seu irmão mais velho, Johan Enola. A falha recai sobre o seu sangue.
Lugone parou de mastigar. Ele olhou para o velho Willians com um desprezo absoluto.
— Eu estou cagando para o meu irmão desertor. Que ele morra abraçado aos alunos dele. Eu estou mais preocupado com a invasão em si. Com o fato de que a barreira entre os mundos virou uma peneira.
— É insensível da sua parte. — retrucou Elorin, mantendo a postura diplomática. — O Clã da Luz, sob ordens do meu irmão Lucios, está enviando todo o apoio para a reconstrução da academia. Além do mais, nesses dois meses, reforçamos as defesas em todas as camadas fronteiriças. Estamos agindo.
— Agindo? Reforçando cercas? — Lugone bufou. — Ainda com essa baboseira reativa.
Ele apontou o garfo na direção de Gia e de Yaeko.
— Além do mais… por que Acara Achlys e Una Mei não estão aqui? As duas mulheres mais perigosas do mundo faltaram. E mandaram quem? A filha aleijada e a “Flor Dourada” mascarada do Clã Misticia como tapa-buraco. É um insulto.
Lady Yaeko permaneceu em silêncio, nem a máscara se moveu. Ela continuou cortando a carne em seu prato com precisão cirúrgica.
Mas Gia levantou o olhar. Os olhos de ametista brilharam com uma frieza herdada da mãe.
— Como todos dizem mesmo… — A voz da menina era firme. — Lugone Enola, um nobre arrogante com boca de mercenário. Minha mãe, e a Senhorita Una Mei, estão cuidando pessoalmente da situação em Fjorheim. Elas não tiveram tempo para banquetes e hipocrisia.
Lugone soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
— Mentira! — Ele bateu na mesa, fazendo os cristais vibrarem. — Acara se preocupar com alunos? É a melhor piada da noite. Eu conheço a Acara. Mas mandar a filha defeituosa para uma reunião de Cúpula… mostra o quanto ela despreza este Conselho.
Elorin perdeu o sorriso. O rosto dele endureceu.
— Fique em silêncio, Enola. Está indo longe demais.
— Longe demais? — Lugone se levantou, derrubando a cadeira para trás. — Eu nem comecei a falar direito, Elorin! E tem mais… Onde está o anfitrião? Cadê o Rei Esmeralda? Hein, Nytharia? O dono da casa não vem jantar?
Nytharia virou o rosto marcado na direção dele. A expressão era vazia.
— Sua Majestade está em seus aposentos privados. Pediu que eu observasse e relata-se esta reunião. Ele confia no julgamento do Conselho.
Lugone olhou para ela. Depois olhou para a mesa lotada de dignitários.
Ele abriu os braços, num gesto teatral de desprezo.
— Todos aqui… — ele apontou um dedo acusador para os velhos conselheiros dos Palácios Rubi e Jade. — Não passam de nobres sem importância. Sanguessugas burocráticos.
— Ele olhou para Ysaria, que comia uvas em silêncio. — Tirando, logicamente, a Rank 9… e o mudo do Lucios… e a mascarada ali… o resto de vocês não é importante em porra nenhuma nesta mesa. Somos um zoológico sem dono!
O salão ficou mudo. O insulto pairou no ar, pesado e tóxico.
Lugone estava de pé, peito estufado, desafiando a sala inteira com um sorriso de pura arrogância.
Até que.
O Rankeador Chefe moveu-se.
Ele não se levantou.
Apenas ergueu a mão direita, envolta na manga larga e branca.
Um gesto simples. Palma aberta.
A pressão na sala aumentou cem vezes.
O ar ficou sólido.
Lugone sentiu os joelhos dobrarem contra a vontade. O sorriso dele travou. Ele foi forçado, por uma mão invisível e esmagadora, a se sentar novamente na cadeira.
O Rankeador Chefe baixou a mão.
A voz metálica e andrógena ressoou de dentro da máscara de estrela:
— Silêncio.
O Rankeador Chefe inclinou a máscara de estrela levemente para a frente.
A voz dele, preencheu cada canto do salão, abafando até a respiração dos presentes.
— Esta reunião, como todos sabem, foi adiada pela catástrofe. A invasão na Camada 4, em Midgard… — Ele fez uma pausa teatral. — Algo inadmissível. Muitos Ranks Altos estavam no local, e ainda assim falharam. Quatrocentas almas jovens, inocentes… futuros líderes, apagados.
Ele suspirou, um som de pena palpável e calculada.
— Entretanto, a convocação de emergência de todos aqui presentes se deve a algo… mais delicado. Algo que pode soar como uma mancha na história dos Palácios. — Ele olhou para a mesa. — Foi descoberta a existência de um fruto podre. A traidora Vena Nosfea, a mulher que massacrou as três famílias principais do Clã da Escuridão e roubou as Lâminas Gêmeas… ela teve um filho. Há dezesseis anos.
Um murmúrio explodiu na mesa como uma panela de pressão estourando.
Os nobres começaram a discutir entre si, gesticulando freneticamente. Os velhos conselheiros do Palácio Rubi, com suas barbas brancas tremendo de indignação, falavam em tons graves sobre “abominação” e “linhagem maldita”.
Lugone soltou um suspiro irônico, girando a taça de vinho. Lucios Svet e Lady Yaeko permaneceram estátuas de gelo, sem demonstrar reação.
Lugone olhou para Gia Achlys, um sorriso de escárnio nos lábios.
— Ora, ora… Quer dizer que o puríssimo Clã da Escuridão escondia sujeira debaixo do tapete de obsidiana? Que surpresa.
Um conselheiro idoso do Palácio Rubi levantou-se, batendo a bengala no chão.
— Isso eleva o nível da discussão! Se o Clã da Escuridão escondeu deliberadamente o filho de uma criminosa de Rank S, isso é Alta Traição contra os Três Palácios e a Lei das Camadas! Devem ser punidos!
Os murmúrios aumentaram. O cheiro de sangue político estava no ar.
Então, Nytharia deu um passo à frente.
Ela olhou para a menina na cadeira de rodas.
— Gia Achlys. — A voz dela era calma, mas inquisitiva. — Diga, sob a luz da verdade: Vocês escondiam o filho de Vena?
Gia fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, o brilho roxo das íris estava mais escuro, profundo como um poço.
— Não sabíamos da existência de nenhum filho de Vena. O Clã não protege traidores.
Uma das Guardiãs Cegas ao lado de Nytharia inclinou a cabeça e sussurrou algo no ouvido da Exploradora. Nytharia assentiu.
— O que ela diz é verdade. A pulsação não mente.
Os murmúrios diminuíram, mas a desconfiança permaneceu no ar como fumaça.
O conselheiro do Rubi sentou-se novamente, resmungando.
— Bem… Se o filho foi descoberto agora, onde ele está? Deve ser interrogado.
O Rankeador Chefe continuou, a voz sem emoção:
— Pelo que consta nos relatórios da invasão… o nome do filho de Vena Nosfea era Ken Orquídea. E ele foi listado como uma das vítimas fatais da Academia Fjorheim. Morto por um demônio de nível alto. Corpo não recuperado.
Lugone riu baixo.
— Isso é menos mal. Conveniente, eu diria. A família Nosfea já foi a Família Principal antes do massacre da Vena. Se esse tal de Ken estivesse vivo… ele seria o herdeiro legítimo do Clã da Escuridão, não é? Já que o Don Verk recusou o título na época, passando o fardo para a prima.
Gia virou o rosto para Lugone. O olhar dela era de uma seriedade adulta e assustadora.
Lugone percebeu e sorriu mais.
— O que foi, princesinha? Estou mentindo? — Ele tomou um gole de vinho. — Bromom Nosfea se casou com a própria irmã e primas para manter a linhagem pura. Um homem nojento, mas eficiente. Diziam que foi ele quem dominou a Camada -68 há quase um século… E você, Gia, não é muito diferente. Afinal, seu pai é o Ash Nosfea, não é? Tudo fica em família.
Gia permaneceu impassível, como se as palavras dele fossem vento.
Foi Elorin Svet quem falou, a voz suave mas cortante:
— Está sendo imprudente, Lugone. E vulgar. O herdeiro do Clã continuaria sendo Baeron. Ele carrega o sangue duplo, Achlys e Nosfea. Não haveria guerra de sucessão por causa de um bastardo morto.
— Não haveria? — Lugone inclinou-se para a frente. — O que Vena queria ao massacrar a própria família, hein? O que existe além de poder?
Ele bateu na mesa na direção de Gia.
— Me diga, Gia Achlys! O que foi o massacre de 16 anos atrás? Me diga que, mesmo você sendo a primogênita, o Clã nem sequer considera você como a próxima Chefe… não é?
— Ele apontou o garfo para ela. — Por preconceito? Por ser mulher? Não, claro que não. O Clã Misticia é liderado por uma mulher. Sua própria mãe lidera o seu. O problema é que você é uma aleijada. E seu irmão, Baeron… ele é inteligente demais para aceitar governar um barco que está afundando.
O Rankeador Chefe observava a discussão, a máscara brilhando.
— O Clã da Escuridão está entrando em uma fase de extinção. A estabilidade das Camadas está em risco.
O silêncio que se seguiu foi perturbador.
Até que, finalmente, a estátua de gelo falou.
Lucios Svet.
— Eu não vou perder meu tempo com algo tão inútil.
A voz dele era andrógena, melodiosa, mas tinha uma gravidade que fez os copos vibrarem.
Lugone parou de sorrir.
— Finalmente decidiu falar, é, Vossa Santidade?
Lucios levantou o olhar. Os olhos de cristal eram tão frios que fizeram Lugone recuar involuntariamente na cadeira.
Ele se virou para Nytharia.
— Eu descobri que… Lysanthir Vauz… foi morto nas Camadas Negativas. Por um demônio de nível alto.
Nytharia fez uma pequena reverência, tocando as cicatrizes no rosto.
— Isso mesmo, Lorde Svet. Minhas cicatrizes são a prova do sacrifício que ele fez para me salvar. Ele morreu como um herói.
Lucios estreitou os olhos.
— Eu desacredito que ele tenha morrido tão facilmente. Ele foi o único professor que eu valorizei. O único que me ensinou algo de verdade.
Lucios levantou-se da mesa. O movimento foi fluido, real. Elorin levantou-se junto.
— Rankeador Chefe… — disse Lucios, de costas. — Deveria falar tudo de uma vez, ao invés de soltar frases de efeito. E Gia Achlys… — Ele olhou para a menina por cima do ombro. — Eu te considero uma boa líder. Você tem a mente da sua mãe, mas sem a loucura. Seria uma excelente Chefe.
— E Lugone… — Ele nem olhou para o Enola. — Apenas seja menos arrogante. O barulho da sua voz me cansa. Se acontecer algo mais relevante, lerei nos relatórios.
Ele saiu do salão, o manto branco arrastando no chão, seguido por Elorin.
— Tsk… — Lugone estalou a língua, irritado, mas calado.
Ysaria Lysvane também se levantou, alisando o vestido azul.
— De fato. Foi uma perda de tempo. Se a reunião era sobre a invasão… Apenas agradeçam por não ter sido a camada inteira que sofreu. Apenas algumas almas infelizes que nunca conhecerão os prazeres do meu bordel.
Ela estava com a mão na maçaneta para sair.
Então, o Rankeador Chefe sorriu por baixo da máscara.
— De fato… eu deveria ser mais direto.
Ele ergueu a voz.
— Sol’Zher Asgard… O Rei dos Reis… Renunciou ao Rank 1.
O mundo parou.
Todos arregalaram os olhos. Ysaria travou na porta. Lugone derrubou o garfo. Os velhos do Rubi engasgaram.
Choque absoluto.
— E então… — continuou o Chefe, saboreando o caos. — Ele se auto-rebaixou para o Rank 2, que estava vago. Deixando o título de Rank 1 vazio pela primeira vez em 560 anos. A Família Asgard não detém mais o topo.
— Isso é ridículo! — gritou um nobre.
— Um absurdo! Blasfêmia!
O Rankeador Chefe levantou um dedo.
— E tem mais. O Rei recolheu um “filho perdido” da família Achlys. Alguém que muitos pensavam que não havia existido.
— Infrid Achlys teve um filho na mesma época que Vena a matou. O nome dele era Brander Estered. Mas foi mudado legalmente hoje, pelo próprio Rei, para Brander Achlys.
Ele olhou para Gia.
— O sobrinho de Acara. O novo peão no tabuleiro.

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