Capítulo 52 - 90 Dias Para o Inferno
Pensando sobre o ataque de Circe, que havia alcançado outra nação, Verion rememorou-se de um trecho do diário de Elta Velgo:
Layla Zayn arvorou-se em vigilante de todas as nações através de seu poder cataclísmico. Desde que ela fundou a ZNI, Zona Neutra Internacional, o mundo nunca mais foi o mesmo.
A mando de Rakka, A Calamidade, ela instituiu como lei que qualquer país agressor deveria ser investigado e ter seus líderes julgados. Caso os argumentos motivadores do ataque não lhe satisfizessem, o provocador do incidente deveria ser apagado.
E, não sendo surpresa alguma, isso ocasionou um genocídio. Etinova, a Terra dos Elfos, foi atingida por uma lança colossal quando entrou em guerra com Quilionodora.
No inicio pensou-se que havia restado uma única sobrevivente, a semideusa Nisha, mas ainda tinham muitos por lá. O mundo entrou em um período sem grandes conflitos pela primeira vez em sua história, mas não pelos motivos que eu gostaria.
“Qualquer país agressor deve ser investigado… Um período de investigação? Talvez estejamos seguros enquanto isso acontece.”
“Provavelmente vão questionar a Lisbeth por ela ser a líder do nosso país.”
Ele seguiu adiante.
As ruas da Vila de Harlon estavam desertas, completamente vazias. Os moradores abrigavam-se em suas casas, evitando a impetuosa onda de calor que recaía sobre a região. A grande lança no céu permanecia inerte, apenas paralisada sobre o céu escarlate.
Verion percorria os pequenos bairros arruinados, rumando ao centro da vila. A casa do prefeito Charles era seu alvo. Avançou para ela no exato momento em que a viu na virada de uma das esquinas.
Percebeu alguém entrar pela porta principal.
“Já vieram pra cá.”
Ao entrar no terreno ouviu uma conversa baixa e um tanto desesperançosa. Caminhava rumo a entrada do casarão enquanto escutava.
— O período de investigação deve perdurar por 90 dias a partir de hoje, e no dia final realizarão um julgamento no tribunal da ZNI — explicava o prefeito Charles, a voz cansada e sem vida.
— Eu era muito novo, mas ainda lembro da minha família falar sobre esse acontecimento. São memórias vagas, mas é algo inesquecível… Não esperava que essa lança acabaria acima da minha cabeça em algum momento da minha vida. — O guia, Jon, falava num tom indiferente, apesar da preocupação que carregava em seu peito.
— O que mais me irrita em toda essa situação é que isso aconteceu por causa de alguém que nem sabemos quem é. Essa figura de cabelos negros que atacou a vila… Esse ataque monstruoso que dizimou tudo a oeste-noroeste com toda certeza foi ocasionado por ela.
— Só pode ser coisa de uma deidade, não é? — indagou Jon.
Verion havia parado ao lado da porta, não querendo interromper o curso da conversa com sua presença. Acreditou que seria melhor aguardar mais um pouco para ouvir suas conclusões.
— Muito provavelmente é o caso, mas não vamos ter certeza de quem fez isso por enquanto. — O prefeito apoiou a mão de seu único braço no rosto. — Ai… que vida mais ferrada que tenho… Hahahah… Eu jurava que meu maior problema nos próximos anos seria lidar com essa vila, mas agora um pedaço do continente pode explodir e eu sou apenas um homem meio velho e irrelevante que não pode fazer nada sobre isso.
— Eh… Não adianta ficar pensando se você é relevante ou não. Layla Zayn pode fazer o que bem entender, alguém ser forte não muda isso. Nem Elta Velgo conseguiu fazer um arranhão nela, quem dirá nós.
— Uma única pessoa pode simplesmente achar razoável matar outras milhões em questão de minutos, milhões de pessoas inocentes que não têm qualquer envolvimento com o ataque dessa suposta deidade. Ela jogou essa lança contra Etinova tempos atrás e não duvido que faria de novo, já que nem parece que deu um peso na consciência dessa maluca.
Jon uniu as mãos enquanto pensava no que falar. O prefeito o observava em silêncio.
— Qual deve ser a razão para o ataque dela? Ela realizou esse massacre na vila e destruiu uma área enorme, mas não fazemos ideia do motivo. — Ele abaixou a cabeça brevemente. — Eu estive um pouco envolvido com investigações no meu antigo trabalho. Conheço algumas pessoas que ficariam animadas em buscar essa resposta.
— Tem alguma coisa faltando nessa história. Você disse que esteve diante dela na caverna… não ouviu nada que possa ser um indicativo?
— Não que eu me lembre. Estive na presença dela por menos de um minuto antes de misteriosamente aparecer aqui na vila. Nesse tempo não ouvi nada que indicasse uma razão para o ataque.
Alguns passos levaram o Velgo para dentro do casarão, no primeiro andar. O ambiente estava pintado em escarlate pelo brilho profundo da lança nos céus, porém, mesmo assim, era evidente quem havia chegado.
Verion estava com alguns cabelos intensamente brancos e suas roupas pareciam intactas, desconsiderando as manchas de sangue. Seu olhar pesado logo atraiu a atenção de ambos.
— V-você tá vivo? — Jon abriu um sorriso genuíno e se levantou do sofá em que estava, correndo até o garoto.
— Aparentemente é o caso, né… — Verion foi surpreendido por um abraço do guia. — Ai, tá tentando me matar de vez?
— Cabelo branco… Você foi amaldiçoado por ela? — Indagou, se afastando um pouco após parar o abraço.
— Uns anos atrás minha irmã também ficou com os cabelos assim depois de passar por uma situação tensa… Acho que aconteceu comigo também, seja lá o que isso signifique.
Verion na verdade já havia concluído que o aparecimento dos cabelos brancos da irmã indicavam sua morte. Ela também havia revivido, duas vezes, no passado. Não planejava falar abertamente sobre o caso porque isso levantaria muitas suspeitas.
“Essa investigação que vão fazer, com certeza vão chegar na informação desse evento na vila em algum momento, mesmo que demore muito. Alguém com uma aparência tão marcante é algo óbvio. Caso descubram que uma deusa queria especificamente me matar, vou acabar envolvido nesse assunto. Vão querer saber o que tem de tão especial em mim para que uma deidade tenha causado tanta destruição.”
“Se descobrirem sobre Aurelius estar habitando meu corpo, vou ser executado na mesma hora por Layla Zayn… Mas por enquanto, acredito que só a Lyria sabe dos objetivos de Circe…”
“Yunneh ficou bem mais forte depois dessas vezes que morreu e voltou por conta de Aurelius. Essa força nova que sinto deve ser isso então. Pelo menos isso serve pra cobrir aquele meu tempo sem treino…”
Verion notou o prefeito sem um dos braços, evidentemente por conta dos combates na caverna, e seguiu até ele. O ferimento estava assustador, não era um corte limpo, aquilo foi arrancado.
— Vegarten — proclamou o nome da Deusa da Vitalidade e um brilho dourado mais intenso do que antes surgiu, iluminando o andar.
Foi questão de um toque de alguns segundos e o braço estava lá novamente. A sensação de ter os nervos e carne reconstruídos rapidamente deixou Charles desnorteado por um momento, era uma sensação bizarra. Enquanto terminava de curar o homem, notou um pequeno brilho esbranquiçado dentre a energia dourada.
“Deve ser coisa do Aurelius.”
— Pronto — balbuciou, a voz desanimada.
— Sua cura ficou melhor… não tinha sido nada tão rápido quanto isso quando você curou o machucado que eu tive na testa.
— Deve ser coisa desses cabelos brancos, também aconteceu exatamente isso com minha irmã quando eles surgiram. — Verion olhou os arredores. — Onde tá o Mark?
— No segundo andar — respondeu Charles.
— Quero falar com ele… — Seguiu em direção às escadas, mas foi interrompido pelo prefeito que o segurou pela roupa branca.
— Antes, quero saber uma coisa. O que aconteceu lá depois desse ataque? Como você sobreviveu? Estava na área quando aquilo aconteceu…
Um breve silêncio foi quebrado pelo Velgo que respondeu sem qualquer peso de dúvida na voz: — Por algum motivo tinha mais alguém naquela caverna, um homem de cabelos dourados, foi ele quem sofreu esse ataque. Não faço ideia de quem seja esse cara, mas ele lutou no mesmo nível dela e os dois desapareceram enquanto lutavam. Eu estava perto, mas não morri por pouco.
“Bem, eu não menti sobre existir um homem de cabelos dourados na caverna. Ele estava lá… mais ou menos…”
A serenidade e certeza que Verion colocou em sua voz fez com que Jon e Charles aceitassem, pelo menos naquele momento, a informação passada para eles.
— Tinha mais alguém lá… — sussurrou mais para si do que para qualquer outro.
— Se o moleque tá aqui na nossa frente, deve ter sido isso mesmo. Ele não sairia vivo dessa sem alguma interferência externa. Mas isso deixa a situação ainda mais estranha… — O prefeito coçou a nuca, pensativo. — Vai lá falar com o Mark, eu e Jon vamos continuar conversando por aqui.
— Tudo bem.
O garoto seguiu até as escadas e passou a subir seus degraus lentamente. Seus passos pesavam e faziam a madeira ranger, denunciando sua iminente chegada ao segundo andar, onde Mark estava.
“Aludra… Meu povo…”
“Meu pai fez tantas coisas para cuidar daquela região e de suas pessoas, e agora não existe nada além de um vazio.”
Puxou a gola da túnica branca, respirando profundamente para superar a vontade de chorar que surgiu.
“Essa coisa que estou sentindo… Talvez eu sinta coisas ainda piores por causa do desgraçado do Aurelius.”
“Não estou preparado pra isso, ninguém nesse mundo estaria, mas não posso parar por nada.”
“A morte do meu pai e desses inocentes não pode ser em vão! Eu e a Yunneh vamos acabar com tudo isso, Circe e Aurelius precisam ser parados.”
Passou pela porta do segundo andar, tendo visão plena do ambiente. A mesa continuava com a comida que haviam comido pouco tempo antes, as cadeiras nos mesmos lugares que deixaram. Olhando para o lado, viu o médico sentado no sofá com Madallen deitada, desacordada e com um ferimento assustador no torso. Sangue escorria lentamente por um rasgo na camisa.
— Eu voltei…
— Velgo.

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