Índice de Capítulo

    Os volumosos cabelos castanhos de Verion, úmidos após um banho, moviam-se suavemente com o vento. Apoiando-se de costas na parede de uma casa de madeira, aguardava que Charles e Mark viessem até a área da saída da vila. Carregava uma nova bolsa no ombro, uma bolsa de couro preta, dada pelo médico da vila.

    Ao lado, Jon passava a mão na barba por fazer que deixou crescer por puro descuido, tal como seu bigode, porque simplesmente esqueceu de raspar. Olhava para o céu azul, focando na mancha vermelha da lança.

    — Quando ainda estava na caverna, eu vi uma criança por lá… Acho que deve ter morrido, Charles e Mark não encontraram ela enquanto fugiam daquele lugar — disse com a voz baixa.

    — Também não vi nada quando estava voltando até a vila. — Verion abaixou a cabeça, soltando um suspiro. — Espero que eu não falhe de novo com as pessoas. Não acho aceitável eu ter desmaiado ontem.

    — Não precisa se cobrar tanto, você é só um garoto novo. Não dá para resolver tudo sozinho, nunca dá. — Jon tocou levemente no ombro dele, ainda olhando para o céu. — Você disse que ficou mais forte depois desses cabelos brancos aparecerem, então se foque no que vier pela frente, você é um Velgo, pense no futuro.

    “Ah… esperam demais de mim por causa desse sobrenome, eu não sou tudo isso.”

    “Cara… vai acontecer tanta coisa ruim desse jeito daqui pra frente?”

    “Aludra foi destruída e dezenas de pessoas de Harlon foram mortas por Circe… Isso tudo me deixa péssimo…”

    Desviando-se brevemente daqueles pensamentos, Verion ergueu a cabeça novamente, olhando diretamente para o guia.

    — Só uma pergunta: por que você mudou seu jeito de falar comigo de dois dias pra cá?

    — Mudei? — indagou, verdadeiramente curioso.

    — É, você falava de um jeito um pouquinho mais sério e formal no dia em que a gente se conheceu, agora tá parecendo diferente.

    — Oh… meus antigos alunos falavam a mesma coisa, pelo menos alguns deles.

    — Ué, você era um professor?

    — Eu trabalhava para o rei de Raptra, dava treinamento para alguns jovens que queriam fazer parte da Guarda Real de Raptra… Os outros que faziam esse trabalho no geral eram mais rigorosos e excessivamente agressivos com os alunos, então muitos preferiam estar comigo. Fiz isso por alguns anos e certos alunos disseram que fiquei mais próximo e legal com eles com o tempo. Acho que deve ser isso que você sentiu agora de alguma forma.

    — Você parou de fazer isso para virar um guia?

    — Tive alguns problemas com os capitães da guarda e preferi me afastar para seguir com minha vida sem essas pessoas me causando problemas. Virar um guia foi só um jeito de encontrar um pouco de paz e viajar pelo mundo. Honestamente não sinto falta da minha antiga profissão… era algo cansativo.

    — Entendi. — Verion baixou o olhar, olhando para as próprias mãos por um instante.

    — Verion, fico feliz de verdade que você esteja vivo. — O homem deixou de olhar o céu, voltando-se para o garoto. — Ontem quis te parar quando o vi exausto após curar muitas pessoas porque já vi muitas situações parecidas acabando de forma trágica. Alunos meus que acabaram se empenhando além dos seus limites e morreram muito cedo. Sabia que você estava fazendo aquilo porque é algo que ama, algo que é seu motivador de existir… mas não exagera assim sempre.

    — Não foi um exagero, salvar vidas é importante! — respondeu, enérgico.

    — Eu sei, bobão, mas me escuta: respeite seus limites ou vai se arrepender igual eu me arrependi. — Jon deu dois tapinhas na cabeça de Verion. — Pelo menos parece que você se recuperou depois desses cabelos brancos terem aparecido, então são menos chances de ter algum efeito colateral por seus excessos.

    “Se arrependeu…”

    Verion lembrou da luta na caverna e do que Jon fez lá. O guia havia conseguido matar dezoito das invocações limitadas de Circe de uma única vez, mas imediatamente depois foi ao chão, exaurido.

    “Talvez ele tenha danificado permanentemente o controle do Roha dele… Isso explicaria porque ele não conseguiu lutar em alto nível por muito tempo.”

    “Esse cara fica cada momento mais misterioso… trabalhava para o rei de uma nação, teve problemas com os capitães da guarda e parece ter destruído a consistência do próprio fluxo de Roha.”

    “Que que esse mano andou fazendo nos últimos anos?!”

    Encucado com as questões sobre a vida do guia, Verion nem notou a chegada daqueles que esperavam. Charles e Mark vieram, acompanhados de Nuni, a filha do prefeito.

    — Já vão embora mesmo? — Charles estendeu uma mochila para Jon, que a pegou.

    — Sim, eu e Verion vamos seguir viagem logo, precisamos chegar em Raptra o quanto antes.

    O guia checou o conteúdo da mochila, encontrando algum dinheiro, alimentos que poderiam durar por alguns dias, como muitos pães e frutas, uma pequena faca e um papel enrolado. Jon desenrolou o longo papel e deu um pequeno sorriso.

    — O que é isso? — Verion perguntou, observando com uma curiosidade evidente nos olhos.

    — Está explicado porque eles demoraram um pouco para chegar, isso é uma lista de nomes de moradores que assinaram em agradecimento ao que você fez por aqui. Você é popular, garoto. — Jon entregou para o jovem.

    Verion pegou a lista e começou a lê-la calmamente. Ao lado de cada nome havia uma mensagem curta. Cada uma delas trouxe algum conforto ao coração tão abalado.

    Seu pai estaria orgulhoso do seu esforço, não tenha dúvidas.

    As coisas de fato não aconteceram de maneira perfeita, mas está tudo bem, Velgo. Muito obrigada, você salvou minha mãe.

    Eu fiquei muito assustado, achei de verdade que ia morrer. Nunca imaginei que estaria respirando para escrever isso para você. Obrigado por tudo, Velgo.

    Seu penteado é meio feio, mas você é foda!

    “Ok, algum doido tinha que ter no meio!”

    Verion começou a rir, abrindo um grande sorriso enquanto continuava lendo tudo. Algumas coisas um tanto negativas apareceram no meio, mas mesmo assim no geral eram mais motivos para ele estar um pouco feliz.

    “Eu preciso ficar mais forte e nunca mais deixar ninguém morrer… Pelo menos tentar não deixar ninguém morrer.”

    “Não poder salvar a todos geralmente é uma lição que as pessoas aprendem depois de muito tempo. Aprendi essa quando era criança, mas vou pelo lado contrário e ignorar esse bom senso que me fizeram ter.”

    “Preciso ser tão incrível quanto a Yunneh para manter todos ao meu alcance vivos. Quero que o máximo de pessoas esteja aqui quando eu tornar toda a humanidade em semideuses para matarmos Aurelius.”

    Ao terminar, entregou a lista para que o guia a guardasse. Verion ainda estava com o coração pesado pelo acontecido com Aludra e o ódio crescente contra Circe e Aurelius, mas aquilo foi um pequeno respiro.

    — Assim até fazem eu me sentir importante… — Coçou a nuca, um pouco envergonhado.

    — Pode voltar na vila mais vezes? É que eu ainda tenho medo de agulhas… — disse a filha do prefeito, escondida atrás de Charles.

    — Ah, Nuni, não se preocupa, venho visitar vocês de novo em algum momento. Mas não precisa ficar com medo do Mark e as agulhas, ele também vai pode fazer isso. — Demonstrou o brilho dourado da Vitalidade na palma da mão.

    — Sim, sim… Verion e Jon me convidaram para seguir viagem com eles hoje mesmo, mas tenho que preparar umas coisas antes de viajar com Madallen até Vegarten. — O médico ajeitou o par de óculos, novos. — Vamos nos encontrar novamente… e quando isso acontecer, vou poder fazer igual a ele.

    Verion e Jon disseram que seguiriam a sudeste durante a tarde. Pretendiam tentar encontrar Jeremiah naquela direção e convidá-lo para seguir com eles, isso por vontade de Verion, que não especificou a verdadeira razão por querer buscá-lo.

    “Talvez eu consiga encontrar a Lyria de novo por aí… seria bom ter o Jeremiah ao nosso lado por segurança, ele é forte.”

    “Quero conversar com ela, mas se a Circe retomar o controle, é bom eu ter mais ajuda. Não que vá adiantar de muita coisa, né… Se essa deusa quiser mesmo, vai matar todo mundo.”

    “Se eu conseguir ter a Lyria ao meu lado… roubar o Ritual de Transcendência na fortaleza da Layla Zayn será muito mais fácil. Zayn pode ser a mais forte do mundo, mas apagá-la da existência faria toda essa força não adiantar de nada.”

    “Se a Lyria conseguir controlar o poder da deusa e for minha aliada…”

    Tinha uma ideia na cabeça, mas não tinha noção de como executá-la. Ter uma força tão esmagadora ao seu lado resolveria quase todos os seus problemas, mas nem mesmo sabia se seria possível fazer Lyria ter o controle total daquele corpo.

    “Eu quero ajudar. Aquele olhar era tão triste que machuca saber que não consigo fazer nada por ela agora… Não quero deixá-la carregar aquele sentimento de culpa. A única culpada é a Circe… e o miserável do Aurelius.”

    — Ei, Verion…

    — O que foi?

    — Você ficou todo sério e silencioso do nada… tá pensando no quê? Imposto de renda? — brincou Charles.

    — Só tava pensando no que fazer daqui em diante… A vida tem muitas opções! — Verion deu um sorriso um tanto sarcástico para o prefeito. — Não te falei isso, mas quando curei seu braço, também curei esse seu pulmão ferrado. Vê se fuma menos, por favor!

    — Adiaram seu câncer. — Mark deu um soco no ombro de Charles.

    — Ai, que isso?!

    — Você é pai e deveria continuar vivo para cuidar da sua filha, larga esse tabaco de uma vez… Essa é minha recomendação médica. — Mark riu da reação silenciosa e chateada do prefeito.

    Verion segurou firme em sua nova bolsa carregada no ombro, dizendo: — Precisamos ir agora, prometo que volto aqui em algum momento pra dar um oi!

    — Nos vemos em Raptra, Velgo.

    Acenos e desejos de sorte, isso marcou a despedida entre os breves visitantes em Harlon e seus moradores. Verion sentia-se apreensivo por ter vivido tantas coisas intensas e ter descoberto tantas verdades absurdas em um curto período de tempo naquela vila. Apesar de certamente ser um lugar que ficaria marcado em sua memória por péssimas razões, queria revisitar algum dia.

    Entretanto, agora era hora de seguir adiante para Confederação dos Ferroviários, onde pegariam um trem até Raptra. Cruzavam o milharal da vila, rumando a sudeste para reencontrar o mascarado.

    “Preciso agir ou Aurelius agirá primeiro.”

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota