Índice de Capítulo

    Jeremiah e o estranho inimigo estavam próximos. O vento carregado de poeira pelos golpes anteriores adentrava o sistema respiratório do mascarado, causando um breve desconforto. O sorriso ocultado foi acompanhado das palavras que trariam o calor ao salão.

    — Revelação: Inferno — disse, energicamente, cravando a espada no chão.

    Da lâmina vermelha, expandiram-se chamas escarlates por todo o salão, dominando por completo o solo do ambiente. O fogo fluía de forma não natural, descendo rumo ao chão infinitamente em vez de subir, como deveria ser.

    — Se o problema é ter que te acertar em um tempo muito curto, é só poder te acertar em todos os lugares ao mesmo tempo. — Jeremiah, envolto na aura vermelha de Quilionodora, colocou a mão na máscara e deu uma risada muito alegre.

    As chamas intensas queimavam as roupas brancas que estavam jogadas pelo chão, as incinerando. O loiro não era queimado pelo próprio ataque porque ninguém podia ser afetado pelas próprias criações elementais sem ser por escolha pessoal.

    A criatura decidiu permanecer intangível, imune aos toques físicos enquanto caminhava para trás, afastando-se em meio ao espaço escaldante.

    “Ele vai tentar ainda?”

    “Seria mais fácil se ele só aceitasse e morresse de uma vez.”

    “Será que ele acha mesmo que isso é só fogo normal? Ele vai ficar todo arrebentado se tocar nessa coisa, coitadinho… heheheh.”

    A aberração líquida rapidamente sumiu do campo de visão de Jeremiah, um movimento rápido. Instintivamente, acreditou que o inimigo estava planejando o atacar pelas costas. Virou-se, interceptando um golpe direto com uma mão. O impacto lhe fez sentir o braço e os ossos doerem, mas isso não era nada de assustador.

    “Entendi o que esse pateta tá tramando.”

    A coisa havia pulado, de cima para baixo, para conseguir atingi-lo sem tocar o chão. No momento em que entraria em contato com o fogo abaixo, tornou-se intocável outra vez. Antes que Jeremiah pudesse fazer qualquer coisa, novamente aquilo desapareceu de seu campo de visão.

    Balançou a mão por conta da dor, desprezando totalmente o adversário ao ponto de estar defendendo o próprio corpo com uma quantidade mediana de Roha.

    “Acho que isso quebrou um osso. Taaaanto faz, ele só tá me deixando mais forte e mais resistente com essa bobeira.”

    “Não é desse jeito que se vence um seguidor do Quilionodora.”

    Jeremiah começou a assoviar e se balançar no ritmo de uma música legal que ouviu no passado. Não tinha um pingo de preocupação, só curtia o momento.

    “Chega mais perto…”

    Quando a criação de Belphegor se aproximou outra vez, o loiro sussurrou o nome de Quilionodora, aumentando a intensidade da manifestação elemental e força física ainda mais. O fogo tornou-se repentinamente mais alto, apesar de sempre estar descendo.

    “Você vai começar a ter problemas aqui.”

    No momento em que seu corpo voltou a se materializar, tornando-se tangível, a criatura tocou na ponta da chama mais alta que se mexia pelo chão. Um mero contato foi o suficiente para decidir o destino daquela luta.

    Um clarão azulado explodiu, inundando o salão com uma luz gélida e fantasmagórica, enquanto um estrondo grave ecoava, fazendo o próprio ar estremecer.

    As chamas que antes brilhavam em tons alaranjados e avermelhados transformaram-se num cerúleo intenso. O calor que espalhavam agora tinha uma essência diferente, pareciam esfomeadas, querendo devorar algo.

    Afligidas pela Revelação, as paredes de pedra do salão começaram a se curvar, a se liquefazer, escorrendo como magma incandescente. O chão rachou, afundando-se em poças de rocha derretida. A aberração, agora afundada e presa no solo escaldante, contorceu-se em agonia.

    Jeremiah observou orgulhoso de seu trabalho, os olhos brilhavam alegres atrás da máscara enquanto o inimigo se debatia.

    — Você é bem burro, mas não me admira… Cê é tipo um copo d’água, né? Nem consigo ver um cérebro aí nesse montão de líquido esquisito.

    Enquanto falava, caminhava meio ao caos que havia criado. Protegia os pés da rocha derretida com Roha, já que aquilo não fazia parte de sua manifestação elemental, era o ambiente.

    Aproximou-se do inimigo agonizante, que agora só emitia grunhidos distorcidos de uma fúria impotente enquanto o fogo azul o tocava. O loiro se agachou diante dele, a alguns centímetros.

    — Não tá conseguindo ficar intocável de novo, né, engraçadinho? — Jeremiah colocou a mão na máscara. — Desde que nasci, nunca fui capaz de utilizar meu Roha como as outras pessoas. Eu tinha a mesma quantidade de Roha que os outros na média, mas não conseguia usar.

    O loiro continuou: — Apenas 1% de capacidade e eficiência geral no uso da minha energia, era disso que eu sofria até ter essa máscara e essa espada. Sempre me frustrou viver assim, me sentia injustiçado pela própria realidade, pra dizer o mínimo. Um certo assassino na minha infância riu da minha cara quando percebeu isso, e meu maior desejo sempre foi fazê-lo sofrer a mesma coisa que eu sofri. Então… quando atingi minha Revelação, essa vontade foi concretizada em um poder!

    Concluiu: — A cada segundo que esse fogo azul bizarro te toca, menos 1% de capacidade de utilizar seu Roha você terá até o fim da sua existência! E parece que cortar parte da sua capacidade está limitando sua habilidadezinha chata! O tempo tá passando colega, não vai revidar não?

    O uso de Roha podia ser entendido com uma analogia. Uma torneira totalmente aberta pode deixar sua água fluir livremente, em sua máxima capacidade. Entretanto, para alguém como Jeremiah, não importava o quão grande fosse o estoque de água, apenas podia abrir um pouco dessa torneira, apenas deixando pingar. Era isso que desejava para seus inimigos.

    Enquanto se divertia com a situação, percebeu que a ampulheta continuava intacta apesar do calor. E, inesperadamente, o objeto brilhou em um dourado intenso e a criatura brilhou em resposta.

    — Vish, tô entendendo nada, mas acho que isso quer dizer que vai revidar mesmo! Me mostra do que você é capaz! Consegue ficar mais forte?!

    “Aquele nome cravado no altar, Belphegor Nerose, ele deve ter feito essa coisa.”

    “Será que ele sabe que eu tô aqui agorinha? Deve ser isso, já que ampulheta tá ajudando essa coisa feia.”

    A criatura tornou-se sólida e se desprendeu do chão derretido, pulando novamente para uma das paredes. Seu Roha estava muito mais intenso, apesar da limitação imposta por Jeremiah. Um grito agudo veio, fazendo os ouvidos do loiro doerem brevemente.

    O coração dele acelerava de tanto ânimo, esperando o que iria acontecer a partir daquele momento, tomado pelo sentimento de antecipação. A espada não podia ser utilizada durante a Revelação, precisava continuar parada no mesmo ponto, mas confiava em seus punhos para solucionar a questão.

    “Vale a pena deixar as chamas azuis ativas por mais tempo!”

    Em um piscar de olhos, o mascarado sentiu-se paralisado e uma dor aguda. Uma intensa corrente elétrica havia o atingido diretamente na cabeça, lançada pelo monstro. Seu sorriso aumentou, enquanto regenerava o próprio cérebro que fora afetado pela eletricidade.

    — Perigo, finalmente! Eu vou te estraçalhar! — Jeremiah avançou de forma selvagem, sem qualquer plano, só queria acertar aquilo até ver virar pó.

    Cruzou o salão inteiro tão rápido, usando sua força física, que as chamas foram afastadas para os lados no caminho percorrido. Pulou em direção ao alvo, deixando o Roha fluir para os punhos.

    Uma explosão elétrica veio da criatura e Jeremiah não pretendeu desviar em qualquer momento. Os punhos foram envoltos em labareda escarlate que atravessou parte da eletricidade. Um soco direto no peito da criatura a afundou na parede derretida, fazendo mais do espaço desmoronar.

    Jeremiah atravessou uma mão na parede para não cair rumo chão, e outra usou para incendiar o buraco em que o inimigo estava com o máximo de força que conseguia. A pedra derreteu ainda mais rápido.

    Um estrondo.

    “Uh?”

    Quando percebeu, estava do outro lado do salão, caído de costas contra a parede. Todo seu corpo doía, mas os poderes de Quilionodora anestesiavam-no de parte daquelas sensações.

    “Quando foi que isso me acertou? Isso ficou muito mais rápido!”

    “Maneeeiro!”

    Sangue escorria de seus lábios, seus órgãos estavam danificados, porém a Definição da Aniquilação tornava aquilo banal. A criação de Bel precisaria de muito mais do que aquilo para deixá-lo incapacitado. O loiro levantou novamente e correu para o centro do salão.

    Um soco na cabeça, outro na barriga, um no pescoço e um chute nas costas; Jeremiah sentiu todos os golpes em um segundo.

    “…Olá.”

    A criatura foi agarrada pelo braço na tentativa seguinte de golpeá-lo. Foi ao chão, tendo a cabeça arrastada nas chamas azuis de um lado para o outro do salão.

    — Fica paradinho aí por mais uns segundos! — Os braços do inimigo, duros como aço, começaram a se rachar.

    “Essa coisa é fortinha até.”

    Estava precisando utilizar toda sua capacidade física para manter aquilo no chão, e mesmo assim era difícil. Sentia de pouco em pouco, a cada segundo a mais que mantinha aquela coisa na sua Revelação, as forças do alvo diminuindo.

    A eletricidade veio novamente, eletrocutando Jeremiah de forma contínua. Ele continuou regenerando o cérebro e o sistema nervoso, gastando grandes quantidades de energia no processo. Tudo que importava era mantê-lo no chão. Nunca foi atingido por um raio, mas tinha certeza de que a sensação deveria aquela.

    A pele queimava e o sangue borbulhava, aumentando ainda mais a força do mascarado. A cada ferimento novo, mais fácil ficava pressionar a criatura contra o chão. Era um esforço inútil naquele momento.

    Após mais alguns segundos, Jeremiah o largou e se afastou. Tinha um sorriso cínico por trás da máscara; já sabia que a criatura havia perdido mais de 60% de sua capacidade. Nem mesmo o aumento de força cedido pela ampulheta serviu para salvá-lo daquela situação.

    “Não preciso mais que isso continue.”

    O mascarado removeu a espada do chão e, rapidamente, as chamas voltaram a ser vermelhas e alaranjadas, antes de se apagarem. O que restava do salão era um aglomerado de pedras derretidas e poeira suspensa no ar.

    — 10, 9, 8, 7… — Jeremiah, queimado e ensanguentado, ergueu a lâmina e a engolfou na aura vermelha de Quilionodora. — 6, 5, 4, 3…

    O vento assoviava entre as árvores, intensificando a curiosidade. Jean, escondido atrás de uma árvore, apenas aguardava algo acontecer. Mantinha o olhar fixo na direção do salão subterrâneo.

    — Será que ele tá bem? — cochichou para si.

    Um clarão cegante iluminou e estremeceu os arredores. As árvores próximas foram curvadas pela onda de choque como palitos.

    “Quente…”

    Diretamente da explosão, as duas figuras subiram rumo às alturas. Jeremiah, em pleno ar, atravessou a espada no torso do inimigo com firmeza. Uma explosão escarlate acima moldou-se em um gigantesco “X” de fogo puro, iluminando o ambiente em vermelho.

    Eles caíram ao lado de Jean, o fazendo dar um pulo para o lado, surpreso.

    — Resolvido, Jeazinho. — O mascarado finalizou o alvo bem ali, aos seus pés, com um último golpe da espada. Prontamente colocou a arma de volta na bainha quando terminou o combate.

    — Você tá todo ferrado…

    — É por opção! — Jeremiah se regenerou completamente, como se não tivesse sido nada, e bocejou. — Gastei mais Roha nessa brincadeira do que pretendia, mas foi divertido.

    Jean ficou em silêncio por um momento, olhando as roupas e armadura dele cheias de sangue e poeira, também seus cabelos longos.

    — Você vai tomar um banho mais tarde — resmungou em um tom agressivo.

    — Beleza, mas antes tenho que fazer uma coisinha.

    Jeremiah retornou ao salão arruinado, caminhando calmamente até o altar, pelo menos o que sobrou dele. Olhou de perto e enxergou algo dourado entre suas rachaduras, era o disco descrito por Bel.

    “Só aqueles que trilham o caminho da perfeição podem extrair poder dessa coisa…”

    “Eu sou quase perfeito, vale a pena tentar!”

    “No pior dos casos eu vendo essa coisa pra algum rico doido.”

    Quebrou a estrutura avariada com as próprias mãos, removendo o objeto de lá. Observou fixamente por alguns segundos, certamente havia algo de especial naquilo, mas era difícil de descrever.

    Jeremiah voltou à superfície, encontrando diversas árvores congeladas e Jean de braços cruzados esperando.

    — Que foi? Ficou entediado e decidiu congelar umas coisas?

    — Não, besta, você começou um incêndio com suas explosões! — Apontou para o loiro, irritado.

    — Ah, foi mal, mas se você já resolveu não era tão sério assim. — Ele mostrou o disco dourado. — Se liga só nisso aqui.

    Eles conversaram brevemente sobre as descobertas feitas por Jeremiah no altar e sobre o monstro que ele derrotou. Enquanto estavam descontraídos, ouviram um barulho nas proximidades. Notaram atrás de um arbusto uma jovem extremamente pálida com cabelos negros como a noite.

    Lyria observava silenciosamente, uma expressão neutra no rosto.

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