Índice de Capítulo

    Seguiam pela floresta carmesim, Verion à frente e Jean logo atrás. Estavam apressados tentando localizar qualquer coisa de útil que poderiam utilizar na receita para Jeremiah. O Velgo deu instruções básicas de como identificar certas plantas e confiou na capacidade de Jean para auxiliar na busca.

    Conforme percorriam terreno, encontraram um monte de alecrim e colheram para levar.

    — Sério que isso é importante? — perguntou Jean, uma curiosidade verdadeira em sua voz.

    — Alecrim vai ser bom pra recuperação dele no geral. A Vitalidade não fornece vitaminas e minerais, e acho que ele vai precisar disso pra recuperar o Roha mais rápido. Alecrim tem ferro, que é bom pro sangue, cálcio pra ajudar nos ossos, potássio pro sistema nervoso, pressão, músculos e umas coisas assim, também vitamina A e C pro sistema imunológico — disse com casualidade, nem pareceu ter pensado muito antes de responder.

    — Tá bom então, né. — Deu um sorriso fraco. — Acha que pegamos o suficiente?

    — Sim, só falta encontrar bardana… isso seria importante, a raiz também é nutritiva.

    A sorte estava ao lado deles, encontraram exatamente o que Verion tanto queria minutos depois. A planta de pouco mais de um metro de altura era bem fácil de reconhecer por sua aparência distinta. Suas folhas grandes eram acompanhadas, um pouco acima nos caules, por pequenas flores redondas verdes e roxas de aspecto espinhento.

    Ambos removeram suas folhas com cuidado, focando em recolher as mais jovens e saudáveis, que tinham um melhor gosto por serem menos amargas. Ao fim disso, Verion removeu a raiz da terra com o mesmo método que havia utilizado para a raiz do dente-de-leão.

    — Nossa, essa raiz parece uma batata doce marrom, que estranho — disse Jean, olhando por cima do ombro do garoto.

    — Acho que já temos o suficiente. — Com tudo guardado na bolsa de ombro, a fechou. — Já podemos voltar… Ei, você prestou atenção no caminho? Já esqueci por onde nós andamos!

    — Só me segue, eu lembro por onde passamos… e não é muito difícil. — Ele apontou para o céu na direção do local da batalha anterior.

    Ao ver melhor a fumaça obscura que ainda subia no horizonte, Verion soltou um sincero: — Aah…

    Iniciaram o retorno a passos rápidos e largos para percorrer o trajeto em pouco tempo. Permaneceram em relativo silêncio na maior parte do caminho, até que o Velgo decidiu abrir a boca para descobrir mais daquela figura.

    — Jean, o que você faz da vida? — perguntou com a voz leve e descontraída.

    — Nada de muito interessante, sou só o filho de um padeiro maluco da cabeça… Moro em um cantinho de Aludra que ninguém dá muita importância. Em resumo um irrelevante sem muitos sonhos e pretensões. — Abaixou a cabeça, um tanto pensativo. — Apenas saio por aí fazendo besteira com o Jeremiah, tipo caçar monstros para distrair minha cabeça dos meus problemas.

    — Você sabe o que aconteceu em Aludra? — Não conseguiu ocultar sua preocupação.

    — E aconteceu alguma coisa?

    “Isso talvez seja difícil pra ele também, mas é melhor eu dizer.”

    — Aludra não existe mais… tudo foi apagado da existência, só tem um abismo lá e mais nada.

    Involuntariamente, Jean parou de se mover e ficou parado no mesmo ponto. O absurdo daquela informação o travou.

    — Não é possível, como que isso aconteceria tão rápido? Eu estava lá há poucos dias atrás! — Ele encarou Verion com um olhar confuso. — Você tá falando sério?

    “Melhor ocultar algumas informações pra facilitar minha vida… Preciso evitar falar diretamente da Circe.”

    O Velgo acenou afirmativamente com a cabeça e complementou: — Alguém realizou esse ataque e destruiu não só Aludra como partes de outros países.

    Verion explicou que essa era a razão por trás do aparecimento da lança acima do país, o objeto vermelho que não sairia daqueles céus tão cedo. O ataque que dizimou a pequena cidade havia atravessado o mar a oés-noroeste e atingido nações do oriente. A lança de Layla Zayn era o que comprovava esse fato.

    Jean ficou atônito com a chuva de informações e a possibilidade da iminente destruição da nação de Quilionodora. Layla Zayn era uma figura da qual havia ouvido falar diversas vezes, mas não tinha muita noção sobre, como a maior parte da população de lá.

    Mesmo com dificuldades em aceitar a situação tão repentina, disse que deveriam se focar no bem-estar de Jeremiah, era a única coisa naquele momento em que poderiam intervir.

    Conforme retornavam, discutiram sobre uma possível razão para o território adjacente ao apagado não estar colapsando completamente para dentro da cratera. Pela lógica, nesse momento o céu já deveria estar completamente encoberto de poeira, impedindo o avanço da luz solar — tal como quando Circe havia atacado no passado —, mas estava acontecendo de outro jeito.

    Caverna do Acampamento Improvisado, 26/04/029, às 16:32.

    — Verion está demorando e você nem acordou… — Jon sussurrou diante de Jeremiah, segurando-se em seus próprios joelhos.

    Repentinamente som de passos vieram das proximidades, fazendo com que erguesse a cabeça, curioso. O Velgo havia retornado com a mochila lotada de coisas e uma nova figura para o grupo.

    — Tinha começado a pensar que ia precisar te procurar.

    — Não aconteceu nada de perigoso, só foi um pouco demorado achar o que eu queria encontrar. — Ele apontou para o jovem de óculos ao lado. — Esse aqui é o Jean, o amigo do Jeremiah.

    Jon ficou um pouco impressionado em saber que ele estava ileso, levando em conta o que havia ocorrido com o loiro. Estavam juntos, faria mais sentido, em sua concepção, que ele ao menos estivesse machucado no fim daquela situação.

    — Você curou ele?

    — Não, o Jean tava bem quando encontrei ele na floresta.

    — …O que aconteceu aqui? Quem atacou ele? — questionou, olhando-o diretamente nos olhos.

    Jean ignorou momentaneamente a urgência colocada naquelas palavras e se sentou ao lado de Jeremiah, observando o estado dele melhor. Vê-lo sem ferimentos e respirando foi um alívio, parecia que de fato tudo ficaria bem.

    As memórias do incidente retornavam em sua cabeça, ressurgindo enquanto formulava sua resposta.

    — Viemos aqui na floresta caçar uma criatura da qual ouvimos falar pela região. Diziam que ela era muito perigosa, mas o Jeremiah venceu sozinho em menos de 5 minutos, então não era lá grande coisa. — Levou a mão ao rosto, apoiando. — O problema veio depois disso, alguns minutos depois desse monstro ser morto. Vimos uma mulher de cabelos muitos escuros e uma pele bizarra de tão branca, era como olhar para uma folha de papel.

    — Verion, é aquela aberração que atacou a vila! — gritou o guia, imediatamente aflito com aquelas palavras.

    “É, meu pensamento estava certo, a Lyria tá aqui nessa floresta em algum lugar. Preciso encontrar ela…”

    O Velgo apenas assentiu e voltou novamente o olhar a Jean, dando a deixa para que ele continuasse a explicação dos eventos.

    — Quando ela apareceu, ficou parada atrás de um arbusto, só observando. O Jeremiah que foi maluco e se jogou nela querendo lutar sem nem tentar uma conversa primeiro. Acho que por causa da aparência estranha, ele deve ter pensado que era alguma outra criatura. No fim das contas, ele começou a perder e eu fui embora correndo pra não sobrar pra mim. Não sou tão forte quanto o Jeremiah, e se até ele não deu conta, não seria eu a conseguir isso.

    — Entendi… — respondeu baixo.

    O guia começou a tentar pensar em alguma forma de mantê-los seguros em caso de um novo ataque, mas nada parecia uma opção viável. Circe, quem acreditava ter realizado aquilo contra o loiro, era como uma arma de destruição em massa. Uma fuga não era realista, nem um pouco.

    — De qualquer jeito, vou começar a preparar a comida pro Jeremiah. — Verion saiu da caverna e passou a caminhar em direção a um lago próximo. — Não posso garantir que vai ser a coisa mais gostosa que ele já comeu na vida, mas posso garantir que vai ajudar.

    — Não vai muito longe, por favor — pediu Jon, com uma preocupação genuína permeando sua voz.

    — Vai ficar tudo bem, pode acreditar na minha intuição! — Ele acenou sem olhar para trás e seguiu caminho.

    Minutos depois, à margem do lago de água cristalina, Verion se ajoelhou, colocou a bolsa no chão e a abriu. De dentro, retirou as folhas da planta de dente-de-leão e suas raízes; retirou as folhas da bardana e sua raiz marrom de formato semelhante à de uma batata-doce. Também o alecrim.

    Enquanto se preparava para descascar, cortar e lavar aquelas coisas, ouviu um barulho. Eram passos calmos, não preocupados em se esconder ou mesmo em parecerem ameaçadores. Virando-se para trás, viu Jean estendendo para ele uma lâmina feita de gelo.

    — Você não ia descascar isso com as unhas, né? — perguntou em um tom irônico.

    — Na verdade eu ia usar o Vento pra arrancar a casca, mas isso é mais prático mesmo. Muito obrigado. — Verion pegou a lâmina de gelo em mãos e bocejou, já um pouco cansado daquele dia. — Foi o Jon que falou pra você aparecer aqui?

    — Na verdade eu que quis vir aqui, ele só apoiou a ideia porque disse que era melhor não te deixar sozinho. — Jean se deitou no chão ao lado dele e começou a olhar atento o céu. — E acho que o Jeremiah não ia querer saber que você morreu… Ele fala mal de você às vezes, mas dá pra saber que esse bobão te respeita de verdade.

    “Não sei que tipo de reação ele vai ter quando souber que Aludra foi destruída… Ele é bastante imprevisível.”

    “Será que se eu convencer a Lyria a fazer parte do meu grupo ele aceitaria? Nesse caso ela removeria aquela marca roxa do corpo do Jeremiah, mas não sei se ele vai levar isso com a maior amistosidade do mundo. Ela arrebentou ele todinho…”

    — Aahhh… às vezes eu queria que minha vida fosse boa e simples do jeito que era quando meu pai ainda não tinha morrido. — Descascava a raiz de bardana com precisão. — Tudo agora é estranhamente difícil e eu não tenho certeza se deveria mesmo acreditar que vai ficar tudo bem no futuro…

    — Existe sempre uma chance de tudo dar errado, mas se você se entregar muito a esse sentimento, essa chance vai se tornar uma certeza. Também perdi gente importante, só que é melhor continuar tentando, senão a vida não vale a pena mesmo. Você ainda tem uma irmã incrível… que o Jeremiah diz ter medo pra caramba dela. — Jean deu uma risada baixinha, unindo as mãos na altura da barriga. — Mesmo que não faça sentido, fique vivo por quem te ama.

    — Ei… eu tô desanimado, mas não no ponto de pensar em morrer… Não precisa me pedir pra continuar vivo.

    — Sóóó dizendo para ter certeza — respondeu em um tom brincalhão.

    Verion havia terminado de remover a casca daquela raiz e a deixou no chão, ao lado. Pegou as diversas raízes de dente-de-leão que colhera na floresta e as lavou na água fria do lago, removendo a terra e as impurezas. Essa não precisava de descasque.

    — Jean, você tem alguém que te ama? Alguém que você sente que vale a pena continuar vivendo pra ver feliz?

    — Não, ninguém em particular. Minha mãe morreu, meu pai era um cara problemático e as duas pessoas por quem me apaixonei nos últimos anos não viram nada de especial em mim. Na verdade acho que ser amado de qualquer forma é um luxo, então você deveria aproveitar, nem todo mundo tem isso. — Fechou os olhos quando a luz do sol deixou de ser bloqueada pelas nuvens e atingiu seus óculos.

    — Por que você continua então…? — Verion parou o que estava fazendo e olhou diretamente, ansioso por uma resposta.

    — Não faço a menor ideia… Tudo isso é bem ruim, mas é divertido estar andando por aí com o Jeremiah, por mais que ele saiba ser chato demais às vezes. — Forçou as unhas de uma mão contra a outra. — Acho que essa é a única coisa que sobrou pra mim, um amigo que pelo menos consegue me fazer sair de casa… Agora que eu não tenho mais uma casa, tecnicamente ele não vai precisar fazer essa parte de me tirar dela pra andar por aí.

    “Ele é legal…”

    — Acho que entendi…

    — Quer uma ajudinha com isso aí? Vou me sentir mal se eu só ficar deitado aqui enquanto você trabalha.

    — Já que quer ajudar, começar a cortar aquela folhas, por favor.

    — Certo.

    Caverna do Acampamento Improvisado, 26/04/029, às 16:58.

    — Aii… minha cabeça. Quem foi que passou uma carroça em cima de mim, hein? — resmungava Jeremiah, ainda abrindo os olhos, desnorteado.

    Ao recobrar a consciência totalmente e analisar os arredores, viu Jon ao seu lado. Seus pensamentos, ainda lentos, levaram uma eternidade para fazê-lo se lembrar de quem era aquele homem.

    — Boa tarde, bela adormecida — disse o guia, num tom descontraído.

    — Ei! — Ele bateu a mão no rosto para ter certeza. — Pera lá, cadê minha máscara e minha espada?!

    — Pode ficar calmo, eu guardei essas coisas quando o Verion te encontrou apagado na floresta. — Ele abriu a mochila e entregou ambos os objetos ao loiro.

    — Minha espadinha querida… o que fizeram com você?! — Jeremiah começou a lacrimejar e abraçar a arma com a metade da lâmina quebrada.

    Jon pensou: “Espadachins são estranhos mesmo.”

    — Voltamos! — Verion veio pela entrada da caverna juntamente de Jean.

    — Verver… teu cabelo tá com umas parte branca igual o da Yunneh! — Jeremiah gritou, empolgado e se levantou do chão. — Você ficou forte igual ela?

    “Por que eu sinto que se eu falar que sim ele vai querer lutar comigo agorinha?”

    “Tá é doido…”

    — E-eu só estou curando melhor! — Deu um sorriso um tanto trêmulo. — E… espera aí, volta pro chão, você precisa ficar de repouso e recuperar seu Roha.

    — O baixinho tem razão — enfatizou Jean, cruzando os braços.

    “Eu não sou tão baixo…”

    — Vamos mesmo ficar parados aqui enquanto aquela doida tá por aí na floresta?

    — Vamos, vamos sim! — Verion apontou o dedo para o meio do rosto de Jeremiah como uma mãe irritada. — Fica quieto que você precisa melhorar primeiro!

    O loiro, muito relutante, decidiu aceitar porque não sabia lidar muito bem com o Verion raivoso. Não era uma situação que viu tantas vezes.

    “A marca roxa tá se espalhando mais na pele dele…”

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