Índice de Capítulo

    Enquanto Jeremiah ainda estava caído, Pierluigi avançou contra Verion. O garoto viu a luminosidade se aproximando de seu rosto em um piscar de olhos, sem qualquer chance de Jon ou Jean fazerem algo a respeito.

    “Ela…”

    Lyria entrou no caminho, com uma foice de tinta cristalizada, e segurou o golpe do homem, fazendo-o se desequilibrar. Ele deu um passo para trás, chiando pelos dentes com raiva. Ela girou a arma e a segurou com ambas as mãos firmemente.

    — Garota pálida, quem é você? — Pierluigi colocou a mão sobre o núcleo da armadura e o brilho mudou para roxo.

    — Eu não tenho certeza de como responder essa pergunta, mas ninguém aqui tem direito de tocar um dedo no Verion. Não me importo com seus motivos ou se eles fazem sentido ou não, se tentar de novo encostar nele eu te mato. — A voz dela soava séria e perigosa, mas também protetora.

    — Hehe, acho que tenho algo mais interessante a fazer agora do que assustar essa criança. Você parece forte, acha que consegue fazer alguma coisa contra mim?

    — Com certeza consigo e parece que você vai me obrigar a lutar. — Respirou fundo e deixou o Roha fluir para a foice de forma descontrolada. — Desculpa por isso.

    O homem grisalho deu uma gargalhada e também se preparou para o início da luta. O Roha fluía pela armadura tecnológica e a eletricidade se espalhava pelo ambiente. Um brilho roxeado irradiava do núcleo.

    — Merda… — Um arrepio percorreu o corpo do guia quando sentiu que um ataque poderoso do Elemento Raio estava prestes a acontecer. Os olhos rapidamente visaram os pontos importantes. — Raptra!

    Dos pés à cabeça, foi recoberto por uma aura esverdeada ao entoar o nome do Deus da Caça. Os sentidos foram amplificados momentaneamente: visão, audição, tato e olfato. Jon pulou por cima dos bancos e mesas do vagão, agarrando Verion e Jean pelo braço em poucos instantes. Arrastou ambos consigo para fora do vagão, seguindo adiante por dezenas de outros até o meio do trem, próximo ao vagão onde ficavam os cozinheiros.

    — Ahh, isso foi rápido — disse Verion, incapaz de esconder o quão surpreendido havia ficado.

    — E o Jeremiah? Vai deixar ele lá? — Jean perguntou, ainda um pouco tonto pelos movimentos rápidos.

    A energia verde se dissipou do guia e ele ficou ofegante, tendo que se sentar em um dos bancos daquele vagão. O local estava vazio, mas com sinais de que uma luta ocorreu em seu interior.

    — Os monstros que lidem com os monstros, o Jeremiah sai vivo dessa… inteiro não sei, mas sai!

    No penúltimo vagão, Jeremiah se erguia do chão outra vez. Sua pele e suas roupas permaneciam acinzentadas por conta da magia que utilizava para aumentar sua resistência. Olhou para trás ao perceber passos lentos se aproximarem. Elemenope ergueu a espada branca e entrou em guarda, esperando para bloquear algum ataque físico caso viesse até ela.

    — Quem é você?

    — Uma amiga do Jon… não precisa se preocupar comigo, estou do seu lado.

    Um clarão iluminou o vagão e cegou todos, menos os dois que se desafiavam. Lyria foi atingida por uma grande descarga elétrica, mas tudo que fez contra ela foi borbulhar a tinta que compunha seu corpo. A dor era fraca, então ela avançou.

    Lyria o atingiu em cheio na lateral da armadura, criando um pequeno amasso na estrutura mesmo que protegida pelo Roha. Ela proferiu o nome do Deus do Enigma, surgindo logo atrás dele com uma sequência violenta de golpes que retorceu ainda mais do metal.

    Não importava o quanto Pierluigi tentasse acompanhar os movimentos, ela sempre surgia fora do campo de visão dele. Lyria arremessou a foice contra a cabeça dele, a parte mais desprotegida, e a foice foi completamente pulverizada. A corrente elétrica estava ainda mais violenta.

    “A única vantagem de dividir esse corpo com a Circe… é que posso usar os Elementos e as Definições Divinas que ela possui… Só não com a mesma proficiência.”

    “Verion me ensinou sobre essas coisas nos últimos dias, mas isso ainda dá um pouco de medo.”

    — Ei, você tá bem Lyria?! — Jeremiah se aproximou um pouco mais de ambos, ignorando Elemenope.

    — S-sim… — Formou uma nova foice de tinta cristalizada e se concentrou nos movimentos inimigos.

    Pierluigi silenciosamente passava a mão protegida pelos amassados, avaliando os danos das batidas. Nenhum ataque foi capaz de cortar, meramente retorceram o metal. Ele fechou os olhos por alguns instante e abriu novamente para falar uma única coisa.

    — Revelação: Aprimoramento! — Sua armadura foi tomada por um brilho roxo e mudou completamente, tornando-se ainda mais moderna. O núcleo agora tinha uma força ainda maior para amplificar a eletricidade, e cabeça estava coberta por um capacete.

    A palma da mão foi levantada em um movimento despretensioso e um feixe parecido com um raio atingiu Lyria em cheio, a jogando com tudo no chão. Ela soltou um grunhido de dor e parte da tinta evaporou. Um buraco na altura do seu torso foi aberto e começou a pingar. O líquido preto escorria e os olhos delas delatavam sua reação interna com aquilo.

    Rangeu os dentes, atravessou os dedos no próprio corpo para pegar seu livro em mãos. Enquanto abria em suas páginas do meio, outro raio roxo veio em sua direção. Jeremiah a empurrou com a perna, derrubando ela no chão para fora do alcance do ataque.

    — Arghh! — O loiro ficou momentaneamente paralisado com os efeitos da eletricidade confundindo seu sistema nervoso. Forçou o corpo a agir com dois passos adiante após regenerar as partes afetadas.

    Jeremiah pensou: “Se não fosse o fortalecimento de matéria no meu corpo, eu com certeza ia ter tido um problema maior. Qual é a desse velho maluco?!”

    — Você é mais forte do que aparenta, mas ainda é fraco se comparado a mim. Ambos são uma vergonha, deveriam admitir.

    O barulho de papel sendo folheado tragou a atenção de Pierluigi para baixo, era Lyria. Abruptamente, o ar foi tomado de letras roxas que flutuavam livremente. Formavam palavras, uniam-se com um único objetivo.

    — Nem tudo se vence com força bruta… Minhas habilidades são mais eficazes, mesmo que eu não saiba lidar com meu Roha — afirmou Lyria, com um fraco sorriso no canto dos lábios.

    Palavras de medo e agonia, representações do sofrimento vivenciado na prisão do livro, atingiram a armadura, tingindo-a em púrpura. A coloração se espalhava vagarosamente, mas era certeza de que seria um problema até para aquele homem quando chegasse o momento certo.

    Um novo ataque estava para vir.

    — Quilionodora — gritou Jeremiah, sendo envolto por uma intensa aura vermelha. Com um movimento rápido, bateu no braço da armadura de baixo para cima, desviando o feixe do alvo.

    — Jeremiah, é melhor você se afastar… por favor — avisou Lyria, um tom preocupado em sua voz. — Eu resolvo isso.

    — Tem certeza disso?

    — Sim, vai ficar tudo bem…

    Jeremiah decidiu confiar no julgamento dela e seguiu correndo na direção dos vagões em que os outros estavam. Conforme cruzava o trem, pensava sobre a situação. Provavelmente aquele homem era do Grau Avançado I. Era uma luta muito difícil que talvez pudesse tentar se estivesse sozinho, por conta de sua Revelação, mas com pessoas o acompanhando seria problemático. Desativou o fortalecimento que acinzentava seu corpo para poupar energia e continuou caminho.

    No penúltimo vagão a situação prosseguia para suas etapas mais violentas. Elemenope via tudo silenciosamente, ainda em guarda.

    Repentinamente, toda a luminosidade e som foi dilacerada e devorada por uma escuridão abismal. O Elemento Oculto engolfou o vagão em sua presença aterradora, esmagando dois sentidos do inimigo. Lyria avançou junto das palavras que pintavam a armadura em roxo.

    Sua foice foi erguida com violência e descida com uma brutalidade ainda maior. O Roha que fluía descontrolado pela ponta da lâmina causou um amassado na armadura, e algo aconteceu. Um campo elétrico se expandiu e tomou conta do vagão inteiro. Todo o corpo de Lyria fervilhava e partes evaporavam no ambiente.

    A dor trouxe ainda mais ódio aos seus pensamento turvos e nebulosos. Proclamou outra vez o nome do Deus do Enigma, sua voz sendo a única permitida a violar o silêncio imposto. Surgiu logo atrás do homem e guiou as palavras do livro com a foice, batendo diretamente nas costas, ainda tentando resistir ao campo.

    — Para! — Sentiu o coração de tinta acelerar, tomada por um frenesi.

    Lyria atacava sem parar surgindo de todas as direções, desviando instintivamente dos socos que o homem tentava dar no escuro. O corpo de tinta evaporava e os golpes ficavam cada vez mais rápidos, espalhando e intensificando o roxo mais e mais. Dentre o líquido negro que respingava, caiu uma única gota de sangue humano; uma anomalia.

    Era o suficiente.

    Com um toque direto no púrpura pela mão que sucumbia à eletricidade, uma enorme fissura se abriu na armadura com o apagamento da existência. Lyria foi ao chão logo depois, sentindo a consciência prestes a se esvair.

    — Ótimo, finalmente tenho um jeito de atingir a carne dele… O aparecimento desse capacete atrapalhou — disse Elemenope com a voz mansa ao caminhar adiante.

    “A voz dela ignorou o silêncio do Oculto…”

    “Quem ela é?”

    O ambiente voltou ao normal, luz e som em seu estado verdadeiro. Foi nesse instante que Pierluigi viu a mulher de cabelos cinzas volumosos que andava em sua direção com expressão de desinteressada.

    — Quem é você?!

    — Ninguém muito importante, só vim te matar. — Apontou a espada branca na direção das fraturas geradas por Lyria.

    Pierluigi concentrou uma quantidade avassaladora de Roha nas duas mãos da armadura, unindo-as para um golpe extremo. Tudo no vagão começou a derreter e queimar na mera presença daquilo. Lyria lutava no chão para preservar a própria forma e não ser completamente destruída.

    O núcleo da armadura irradiava uma forte luz à medida que mais e mais alertas de segurança eram dados pelo sistema daquele traje. Um risco de sobrecarga inevitável, acreditava que era um preço justo naquele momento; sentia algo de muito errado naquela figura e na espada que portava.

    Um enorme raio atravessou o vagão, dizimando quase tudo em temperaturas grandiosas. A exceção era Elemenope, que seguiu com uma corrida breve e leve, como se nada tivesse a tocado. Cravou a espada branca direto na barriga do homem.

    — Ahh… Essa coisa ignorou meu Roha?! — Pierluigi se contorceu de dor, curvando-se para frente.

    — Essa espada corta qualquer carne e osso sem resistência, não importa quem seja. Seu Roha é irrelevante… Por isso estava quietinha esperando minha oportunidade. Sou fraca, não conseguiria atravessar essa parte de aço… infelizmente essa lâmina não corta isso como papel também.

    — Sua aberração! Tem algo de muito errado com você! Como não ficou com um arranhão sequer?

    — Abaixe seu tom de voz — ordenou em um tom agressivo, girando a espada por dentro dele. — O que quer agora? Te dou duas opções…

    — Q-quais? — perguntou com a voz já fraca, angustiado com as dores dos ferimentos internos.

    — Fique aqui e sua vida será encerrada. Pule do trem e viva. — Puxou a espada para fora, deixando o sangue sair e cobrir o chão ao redor.

    O homem não pensou duas vezes, correu para longe e saltou para fora do trem na primeira oportunidade, caindo em meio a terras inabitadas nos quilômetros iniciais da jornada pelos trilhos.

    O sangue escorreu, indo até os restos de Lyria, infiltrando-se na tinta. De forma bizarra, a tinta consumiu o sangue e começou a se reconstruir rapidamente para reformar o corpo completo.

    — Hm… que bom que você tem um jeito de se recuperar, só precisa de sangue fresco então. — Estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.

    — Qual seu nome?

    — Elemenope Razzas — respondeu com uma confiança forjada na voz.

    O livro de Lyria estava intacto apesar de tudo, como se uma força o protegesse de ser queimado ou destruído. Também no chão do vagão, estava caído o disco dourado de Jeremiah, igualmente sem avarias.

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