Capítulo 109: Canções e Risadas (2)
A sala ainda continuava vibrando alegremente. Risadas, palmas, e algumas vozes desafinadas se misturavam ao som alto da música na TV. O clima era leve, cheio de energia, cada um se revezando entre cantar, comer e provocar uns aos outros.
No entanto… eu ainda sentia a sacola, escondida debaixo da mesa, queimando as minhas mãos. O presente… Yuki estava ali, a alguns centímetros de mim, e eu ainda continuava sem saber quando seria a hora certa para entregar para ela.
— Ok, ok! — Kazuki ergueu a voz, animado. — Quem é agora?
O microfone foi passado de pessoa a pessoa, até parar em Mina.
— Hm… acho que — ela começou, arrastando a cabeça lentamente, enquanto sorria. — A Sasaki agora!
Mal essas palavras saíram de sua boca, um pequeno burburinho começou na sala.
— Eh? A Sasaki!?
— Sério!? Que legal!
— Mas será que ela vai aceitar…?
Olhei para ela, que logo arregalou os olhos, enquanto encarava o chão, quase como se quisesse esconder a cara dela ali.
— Hã!? E-eu…? Não… eu não… — ela murmurou, levantando as mãos, claramente nervosa. — E-eu não sei cantar e… vou estragar o clima…
A turma olhou para ela, um silêncio que durou apenas um segundo antes de começarem a incentivar ela.
— Pare com isso, Sasaki! Vamos! — Aiko respondeu, levantando a mão enquanto sorria. — Não tem problema!
— Não custa nada tentar! — Seiji e Sora murmuraram ao mesmo tempo, com a boca cheia de comida.
— Eu posso cantar junto também, se você quiser! — Akebi disse, olhando para ela.
Aos poucos, mais vozes se juntaram, incentivando Sasaki a pegar o microfone. Os olhos dela percorriam os rostos de cada um, como se procurasse algo, ou alguém, para se segurar.
Quando passaram por mim, não pensei duas vezes e também dei um pequeno sorriso de apoio para ela, tentando transmitir confiança.
Ela mordeu os lábios, um pouco hesitante se deveria ou não, e então suspirou. Ela assentiu, e pegou o microfone com as duas mãos.
— É isso! — um pequeno coro de vozes ecoou, junto de palmas e sorrisos.
Ela pegou o controle, escolhendo com calma uma música. As luzes se apagaram… e o som começou.
— T-tempo, pare só um pouco…
No início, a voz dela quase não saía. Era tímida, gaguejando levemente nas primeiras palavras. Alguns deram uma pequena risada baixa, mas logo começaram a bater palmas no ritmo, fazendo com que ela conseguisse ter mais confiança.
E então… ao chegar no refrão, tudo mudou.
“Hã!?”
Eu fiquei… sem palavras.
A voz dela então se abriu. Era firme e clara, quase… brilhante. Não havia mais hesitação ali. Cada nota parecia sair do fundo do seu peito.
A sala, assim como eu, paramos de bater palmas por um instante, em completo choque. Até que alguns começaram a cantar juntos bem alto, enquanto aplaudiam.
— Essa… é realmente a Sasaki? — alguém murmurou.
— Isso é incrível!
Eu apenas fiquei ali… sentado e impressionado também. Foi então que nossos olhares se cruzaram, e ali percebi. Aquele pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu no seu rosto.
Naquele instante, senti um pequeno alívio e calor no peito.
Ver Sasaki se soltando daquele jeito… era tão bom. Depois de tudo que tinha acontecido no festival, era como se um peso tivesse se soltado de seus ombros.
Era exatamente como Seiji havia dito.
“Tipo… mais leve? Não sei explicar, mas é como se ela tivesse saído de um lugar escuro, sabe?”
— Ainda bem… — murmurei, sorrindo para mim mesmo. Em silêncio, eu agradecia por aquilo estar acontecendo com ela.
E então, a música terminou. Sasaki estava sem fôlego, o seu rosto estava vermelho, mas ainda tinha um brilho diferente ali.
A tela da música desapareceu, dando lugar ao placar de pontuações. O número foi aumentando, até que a sala entrou em choque.
— O quê!? — dissemos praticamente ao mesmo tempo.
96 de 100.
Quase a pontuação máxima.
Logo a sala foi tomada por vozes, uns rindo e outros ainda impressionados.
— Como isso!? — Mina arregalou os olhos.
— Que incrível, a voz dela é realmente boa! — alguém disse.
— Não sabe cantar uma ova… — Akira murmurou, suspirando. — Primeiro a Mai, depois a Sasaki?
Mais risadas explodiram pela sala, enquanto Aiko, já no espírito competitivo, pegou o microfone e apontou para Sasaki.
— Eu não vou perder pra você!
Sasaki ficou surpresa, e então fez uma tímida reverência, escondendo metade do rosto com o cabelo. Ela claramente estava envergonhada com tanta atenção assim…
— O-obrigado… — ela murmurou, enquanto mais vozes se sobreporam na sala.
Akira então pegou o microfone da mão da Aiko, mostrando um pequeno sorriso provocativo.
— Acho que ninguém vai conseguir superar essa pontuação… — disse, olhando para Aiko. Ele então limpou a garganta. — Tá, quem é o próximo agora?
A turma se entreolhou, esperando que alguém tomasse a iniciativa. Até que Seiji, que ainda estava comendo… de algum jeito, ergueu o braço sem pensar duas vezes.
— Agora é a vez do Shin!
Meu corpo inteiro congelou.
— Hã!? Eu!? — comecei, a voz levemente mais alta do que deveria.
— O Shin? — várias vozes ecoaram, rindo.
— E-ei, espera aí! Eu também não sei cantar! — Tentei recusar, balançando a mão em pânico.
Mas algo me dizia que seria inútil resistir…
— A Sasaki e a Mai também disseram que não sabiam cantar… — Seiji me olhou, com aquele sorriso esquisito e olhar provocador. — Vai, vamos! Não tem como escapar!
“Ah, é isso!”
Uma ideia perfeita surgiu na minha mente.
Levantei da cadeira, sentindo alguns olhares curiosos em mim. Alguns até se inclinaram, parecendo animados.
— Oh, ele vai mesmo! — alguém disse.
Talvez pensando que eu iria pegar o microfone. Mas não era o caso.
Saí da mesa, indo em direção à porta da sala.
— Na verdade, tenho que ir no banheiro agora… — falei, coçando a nuca e forçando um sorriso desajeitado.
Só mais uns passos… só esticar a mão…
Mas meus planos foram por água a baixo ali mesmo.
Antes que eu abrisse a porta, uma mão firme tocou na maçaneta, fechando-a de novo. Virei o rosto devagar, quase em câmera lenta, e dei de cara com Takeshi.
— Você consegue aguentar… não é? — Takeshi apareceu do meu lado, me olhando como se soubesse que eu estava apenas inventando uma desculpa para não cantar.
— N-na verdade, acho que não consigo… Takeshi — respondi, esboçando um outro sorriso forçado, já sentindo que não iria funcionar.
Tudo na vã esperança de não cantar…
— Ele realmente queria escapar? — algumas risadas ecoaram pela sala, e foi aí que já sabia meu destino.
Olhei para Rintarou, tentando buscar algum apoio… no entanto, ele só ajeitou os óculos, e disse sem um pingo de piedade:
— Vamos, Shin. Vai ser bom.
Até ele…?
— Rintarou…! — Minha voz saiu baixa, quase em choro.
Meus olhos percorreram a sala, desesperados, parando em Yuki. Talvez ela pudesse ser a minha última esperança. É, talvez ela me ajudasse.
Mas o que encontrei… foi um sorriso leve, animado… quase curioso?
Ela realmente queria ver isso?
Ela queria me ver cantar…?
— Sério…? — murmurei, sem acreditar na reação dela.
Não havia mais como fugir. Era o fim da linha.
Afastei a mão da porta, voltando para a mesa com passos lentos. Peguei o microfone com as duas mãos, sem ânimo algum.
— Que isso acabe logo…
A sala explodiu em risadas e aplausos, enquanto escolhia uma música qualquer.
E enquanto isso… só conseguia pensar em como tinha me metido naquela situação.

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