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    “Deve ter uma entrada lateral, arrombar a porta da frente é pedir para morrer”, ela pensou, enquanto circulava com cautela o perímetro de pedra gasta.

    Sua rápida busca deu frutos. Na lateral da estrutura, três janelas estavam com os vitrais completamente estilhaçados.

    Ela usou o braço mecânico para segurar as bordas afiadas dos cacos de vidro, enquanto o braço esquerdo a impulsionava para o interior do templo abandonado.

    Mirena pousou silenciosamente no chão de um cômodo apertado e tomado pela escuridão absoluta.

    Pelo formato da longa mesa central e dos canecos empoeirados, deduziu que estava na antiga cozinha do templo.

    — Não tem uma viva alma aqui. Graças a Lebkraut… — ela murmurou um agradecimento rápido e aliviado.

    Olhando pela fresta da porta, a vista não melhorou. O breu do cômodo principal era tão denso quanto o do que ela estava, quase impossível de enxergar algo.

    — Como eu vou investigar alguma coisa se não consigo enxergar um palmo à minha frente? Vou ter que voltar de dia?

    A frustração começava a crescer quando uma memória, quase literalmente, brilhou em sua mente. Dhaha tinha feito um truque útil na floresta.

    “Será que eu dou conta?”, ela se questionou, ao ajeitar a postura.

    Estendeu a mão esquerda e respirou fundo. Puxou a energia do próprio corpo e a focou no centro da própria palma.

    O carma obedeceu: começou a comprimir-se, primeiro como uma fagulha branca, que logo se expandiu com uma lufada de ar, até o tamanho de uma maçã. Era a lanterna perfeita, uma esfera de luz.

    O cenário revelado não condizia com um templo tradicional. O piso era de madeira podre, os bancos enfileirados de forma caótica, e um tapete esfarrapado rasgava o caminho do átrio até a porta lacrada.

    O mais bizarro, porém, eram as estátuas espalhadas pelos cantos. Figuras de animais esculpidas em um material completamente negro, desprovidas de qualquer detalhe ou profundidade.

    O chão estava forrado de livros. Cores, tamanhos e formatos misturavam-se à sujeira, mas um deles, encadernado em couro negro fosco, prendeu a atenção da ardenteriana.

    Ela abaixou-se e pegou o volume. A capa exibia símbolos rúnicos e ilustrações grotescas que escapavam a todos os seus anos de estudo acadêmico em Água-Ardente.

    O que mais assustou não foi o conteúdo indecifrável, mas o estado de conservação. As páginas não estavam amareladas ou roídas por insetos, pareciam ter saído de um escriba há poucos dias.

    — Humanos louvando deuses da tempestade não leem esse tipo de coisa… Isso não é um templo normal — ela sussurrou, guardando o livro no fundo do colete.

    Caminhou devagar até o altar principal. Ali, esquecido sob pesadas teias de aranha, repousava um livro antigo de capa azulada.

    Ao abri-lo, a imagem comida pelas traças de um falcão enfrentando uma tormenta ainda era visível. Aquilo, sim, era um livro de Stormlen.

    — Se isto é o original, então por que todo aquele lixo lá atrás… — ela deu tapinhas no próprio rosto, e sacudiu a cabeça para tentar espantar a confusão. — Foco, Mirena. Foco!

    O baque seco do fechar do livro fez um som metálico tilintar perto dos seus pés.

    A lateral do altar havia se movido uma fração de centímetro, o que revelou uma pequena fresta dissimulada na madeira. 

    Havia uma alavanca ali.

    Ela puxou o mecanismo com cuidado. O som de engrenagens estalou, destravando algo pesado no salão.

    Mirena voltou para a entrada principal, seus olhos varreram cada centímetro daquele ambiente sombrio.

    Notou, então, o detalhe crucial: os pés dos bancos estavam severamente riscados, e o assoalho de madeira sob eles apresentava marcas profundas de arrasto.

    — Pensa, Mirena, pensa… Alavancas escondidas, estátuas pretas, chão marcado de tanto afastar móveis… — ela coçou o queixo antes de estalar os dedos. — É isso!

    Usando a força do braço metálico, ela empurrou os pesados bancos para as laterais, limpando o caminho central.

    Caminhou até o altar, agarrou a ponta do tapete surrado e o arrastou com força em direção à porta da frente. A poeira subiu e revelou um enorme alçapão de ferro.

    A trava estava solta, exatamente como ela suspeitara após puxar a alavanca do altar.

    — Por que toda seita maluca precisa ter um porão escuro e aterrorizante? — ela reclamou, enquanto forçava os músculos para erguer a pesada tampa de ferro.

    O buraco revelou um túnel vertical e estreito, cuja única via de acesso era uma escada metálica que mergulhava no abismo absoluto.

    Não havia luz no fundo, o ar gélido que subiu do poço trouxe consigo um calafrio que percorreu sua espinha, igual a sensação que teve na caverna de Eldon.

    Uma presença pesada parecia emanar lá de baixo, não observando seus movimentos, mas encarando diretamente sua alma.

    “Respira fundo…”, ela ordenou a si mesma, ao tentar afastar a memória do mago pútrido e do cheiro de morte daquela noite.

    Ela desceu, degrau por degrau, o corpo tremendo. Ao tocar o chão, a chama de carma em sua mão pareceu lutar pela vida, encolhendo até iluminar quase nada, como se as sombras tentassem asfixiá-la.

    O cheiro de carne em putrefação invadiu suas narinas de forma brutal e causou um solavanco em seu estômago.

    “De onde vem esse cheiro maldito?”, ela pensou, enquanto forçava os lábios a permanecerem cerrados.

    Ela intensificou o fluxo de carma e fez a esfera de luz crescer e combater a escuridão opressora. O recinto se revelou.

    Era uma sala fechada. De um lado, uma enorme porta de aço, e do outro, um grande vidro espesso que separava-a de outro ambiente.

    Foi quando ela olhou para o chão, e o sangue em suas veias pareceu congelar.

    Cadáveres, não um ou dois, mas vários. Com a carne em estado avançado de decomposição, presos ao solo por correntes grossas de ferro enferrujado.

    Ela tapou a boca com as duas mãos e lutou contra o impulso quase incontrolável de vomitar ali mesmo.

    Evitando olhar para os mortos, aproximou-se da porta de aço. Um par de toques na superfície gelada confirmou o óbvio: força bruta não seria suficiente.

    — O último mago que encostei a mão foi o Dhaha… espero que funcione — ela concentrou o carma brilhante na palma da mão e a pressionou contra o metal. — [Caleidogênese]!

    O silêncio reinou, nada aconteceu. A porta não cedeu um milímetro.

    — O que foi? Essa droga não é metal? [Metalóxis]! — ela tentou novamente, frustrada.

    A porta riu da sua cara, permanecendo inflexível e fria.

    — Argh… claro, tinha que ser aço. Muito conveniente essa droga de porta!

    Depois de seu fracasso, Mirena decidiu que iria procurar outra forma de atravessar a porta.

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