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    da carroça, Hermes conduzia os cavalos, mas seu corpo estava visivelmente curvado sob o peso de um cansaço que parecia ir além do físico. Seus ombros caíam, e por várias vezes, Teseu o viu balançar a cabeça bruscamente, lutando para manter os olhos abertos.

    A exaustão, um inimigo implacável, estava finalmente vencendo. Hermes puxou as rédeas suavemente, fazendo a carroça parar na beira da estrada. Ele se virou, seus olhos dourados turvos e sem o brilho habitual.

    — Teseu. — Sua voz era um murmúrio rouco, pesado de fadiga. — Preciso que conduza por um tempo.

    O garoto se surpreendeu. Seus olhos se arregalaram. Hermes, que parecia carregar o peso do mundo em seus ombros, estava lhe pedindo ajuda. Estava confiando nele. Uma onda de orgulho e um pavor silencioso se misturaram em seu peito.

    — E-eu não sei bem como fazer isso. — Teseu admitiu, a hesitação clara em sua voz.

    — Apenas segure as rédeas com firmeza e mantenha os cavalos na estrada de terra. Eles conhecem o caminho. — Hermes explicou, sua fala lenta. — Acorde-me em uma ou duas horas. Antes que a noite caia por completo.

    Teseu acenou positivamente, seu coração batendo um pouco mais rápido. Ele se sentou no banco da frente, e Hermes lhe passou as rédeas de couro. O deus caído então se moveu para a parte de trás da carroça e, sem cerimônia, desabou sobre um monte de feno, adormecendo quase que instantaneamente.

    A viagem recomeçou, agora sob o comando incerto de Teseu. Ágatha, sentindo sua ansiedade, sentou-se ao seu lado por um tempo, fazendo-lhe companhia. Conversaram pouco, suas vozes baixas para não acordar os outros, mas a presença dela era um conforto. No entanto, após algum tempo, um gemido febril veio de dentro da carroça. A febre de Sêneca estava aumentando novamente. Com um olhar preocupado para Teseu, Ágatha se desculpou e voltou para dentro para cuidar do filósofo, tentando dar a ele mais um pouco do chá de ervas que Callisto havia preparado.

    Teseu ficou sozinho na frente, o silêncio da noite o envolvendo. O tempo passou. A lua subiu, uma foice de prata em um céu de veludo negro. Ele se virou para observar Hermes, que permanecia totalmente desacordado, a respiração profunda e regular. Ele parecia mais jovem dormindo, a máscara de fúria e preocupação finalmente ausente de seu rosto. Teseu pensou em acordá-lo, como havia sido instruído. “Antes que a noite caia por completo.” Mas a noite já havia caído, e Hermes parecia tão exausto, tão quebrado. “Só mais um pouco”, pensou o garoto. “Ele precisa descansar.”

    A viagem seguiu em silêncio. Um bocejo veio com a brisa fria e substituiu por um momento o ruído único das rodas da carroça. A noite parecia estar começando a surtir efeitos no guia da viagem.

    Foi então que Teseu começou a notar. Uma fina camada de névoa começou a se formar, rastejando pela estrada, envolvendo as rodas da carroça em um abraço úmido e fantasmagórico. Ele olhou para trás, para falar com Ágatha, mas ela também havia adormecido, a cabeça apoiada suavemente contra um dos sacos. Aquilo era estranho. Ela não havia dito nada sobre estar cansada; muito pelo contrário, estava focada em cuidar de Sêneca.

    Voltou sua atenção para a frente novamente, tranquilo, ela merecia um descanso. A neblina estava se tornando mais densa, física. Um cheiro incomum começou a aparecer no ambiente. Parecia um aroma de ervas, relaxante e refrescante.

    Um barulho então veio da parte de trás da carroça, parecia que alguém estava acordando.

    Ele olhou mais uma vez, um arrepio percorreu sua espinha. Todos dormiam um sono pesado, quase antinatural. Nada diferente de poucos segundos atrás.

    Quando ele se virou para frente novamente, seu coração gelou. Ele puxou as rédeas com toda a sua força, fazendo os cavalos pararem bruscamente, relinchando com um pavor que ecoava o seu próprio.

    Parada no meio da estrada, a uns vinte metros de distância, estava uma figura. Era alta e esguia, completamente envolta em sombras, como se a própria escuridão tivesse se solidificado em uma forma humana. Não era possível discernir roupas, nem rosto, apenas um contorno que parecia absorver a luz da lua.

    Teseu sentiu o perigo em cada fibra de seu ser. Seu primeiro instinto foi gritar. Ele se virou, a boca se abrindo para berrar o nome de Hermes.

    Ele nunca emitiu um som.

    Uma mão fria e forte envolveu seu rosto, cobrindo sua boca e seu nariz com uma firmeza que o sufocou. O pânico explodiu em seu peito. Ele se debateu, mas foi inútil. Alguém estava atrás dele, alguém que havia se aproximado sem fazer um único ruído.

    Então, uma voz sussurrou em seu ouvido. Mas não era uma única voz. Eram dezenas, centenas de vozes, falando em uma harmonia dissonante e ecoante, como o vento em uma tumba.

    — Não temas, pequeno herói.

    Teseu congelou. As vozes eram calmas, quase gentis, o que tornava tudo ainda mais aterrorizante.

    — Não viemos para feri-lo. Só queremos ajudar.

    Percebendo a inutilidade disso, o garoto parou de lutar, seu corpo tremendo incontrolavelmente. A figura atrás dele pareceu sentir sua resignação, e o aperto em seu rosto se afrouxou, liberando-o. Com o coração martelando contra as costelas, Teseu se virou lentamente para encarar seu captor, mas não havia ninguém ali.

    Ele se virou de volta para a estrada, desesperado. A figura sombria que estava parada lá também havia desaparecido. Estava sozinho no meio da névoa.

    — Venha…

    A voz ecoou, não mais em seu ouvido, mas dentro de sua própria mente, chamando-o para um dos lados da floresta escura. Teseu hesitou, a resposta era óbvia e ele mais uma vez  sentiu vontade de pedir ajuda.

    — Nós podemos ajudar o velho, se vier conosco…

    Teseu engoliu em seco, seus olhos se arregalaram, o terror o paralisando. Seria realmente possível? 

    Ele olhou mais uma vez para seus amigos na carroça. Hermes, Ágatha, Sêneca. Todos dormindo um sono profundo e inabalável.

    — Eles não acordarão tão cedo. — A voz sussurrou em sua mente, respondendo ao seu medo não expresso. — Nossa conversa será breve.

    Lembrou-se da frase de Hermes para ele, “E o que você pode fazer?”. Ele apertou os punhos e olhou para baixo, reflexivo.

    Era verdade. O que ele tinha feito até agora por seus amigos? Devia isso a eles. Não podia permitir que o medo o impedisse de agir.

    O garoto estremeceu em resignação. Não tinha como lutar contra uma criatura que se movia como uma sombra e falava com a voz de uma legião. Torcendo para que não fosse um truque, para que aquilo não fosse o seu fim, ele desceu da carroça, seus pés tocando o chão com uma relutância temerosa. E, com o coração em um nó de pavor, ele seguiu o chamado, caminhando para dentro da floresta escura e enevoada. Talvez ele realmente pudesse ajudar seus amigos assim.

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