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    Sêneca encarou a mulher sentada na pedra.

    O mundo ao redor parecia brilhar com uma intensidade dolorosa. Depois da escuridão absoluta do Tártaro, a luz do sol nas ruínas de Tróia agia como agulhas em seus olhos. Ele piscou, tentando limpar a visão, mas a imagem da mulher de cabelos púrpura permanecia nítida, imperturbável.

    O vento soprava, levantava a poeira e movia as mechas escuras que cobriam parcialmente o rosto dela. A cada movimento do cabelo, a cicatriz grotesca em seu pescoço ficava mais visível. Era uma marca de queimadura, rosada e enrugada, que repuxava a pele da mandíbula até a clavícula. Ela o observava como uma criança observa um inseto que acabou de encontrar no jardim. Com curiosidade, mas pronta para arrancar as asas.

    Ele tentou se levantar mas seus músculos não responderam. O corpo parecia feito de chumbo, e seus ossos ainda vibravam com o eco do som das correntes gigantescas que ele ouvira no vazio. A areia sob suas mãos estava quente, real, áspera contra a pele das palmas.

    Sêneca olhou para suas próprias mãos. Elas tremiam. A experiência vívida de agora a pouco ainda martelava em sua mente. O homem com asas na testa, Hipnos. Um Deus.

    A moça, atestada a incapacidade do homem de se erguer, levou a mão aos lábios e sorriu.

    — Quem é você? — Sêneca perguntou numa voz que saiu arranhada, seca, como se ele tivesse engolido vidro.

    Os lábios dela se moveram, mas o som que saiu não parecia pertencer àquele corpo.

    Sêneca… meu pequeno Sêneca…

    O sangue de Sêneca gelou. O coração dele falhou uma batida.

    A voz era doce, cansada, rouca por uma tosse crônica que ele conhecia melhor do que a própria respiração. Era a voz de sua mãe. O mesmo tom que ela usava para acordá-lo nas manhãs frias antes de descerem para as minas de Therma. O mesmo tom que ela usou antes de desaparecer na escuridão.

    — O que… — Sêneca recuou, arrastando-se na areia para longe dela. — Co-como você…

    A mulher inclinou a cabeça para o outro lado, fascinada pela reação dele. A expressão dela mudou num piscar de olhos, uma transformação facial tão rápida que a fez parecer outra pessoa. Os olhos se arregalaram em pânico simulado, tão grandes que pareceram infantis, a boca tremeu, o queixo caiu.

    Socorro! Por favor, alguém me ajude! Eles estão vindo! — gritou ela.

    Agora era a voz de uma criança. Aguda, estridente, cheia de terror puro. Era a mesma voz que eles ouviram na praia, no momento em que chegaram a Tróia. O grito que fez Hermes mudar o curso. O grito que os atraiu para a armadilha.

    O queixo de Sêneca caiu.

    — Foi você… — disse ele sentindo a raiva tomar o lugar do medo. — Não havia criança nenhuma. Você nos atraiu para cá. Você fez a minha cabeça girar.

    A mulher riu. Dessa vez, a risada era dela mesma. Um som cristalino, mas vazio de calor, que ecoou entre as pedras mortas da cidade. Era quase elegante, mas tinha um quê sinistro que não se podia ignorar.

    — Atraí — admitiu ela, voltando ao seu tom natural. A voz dela tinha uma qualidade estranha, reverberante, como se ela estivesse falando de dentro de um poço fundo. — Endimião gosta de visitas mas prefere que elas estejam… dóceis. Dormindo. Sonhando com coisas bonitas ou terríveis. Ele gosta do silêncio para trabalhar a sua arte.

    — En-Endimião? — Sêneca engoliu em seco.

    Ela sorriu de novo, sem intenção de responder.

    Ela desceu da pedra em um salto fluido, como uma dançarina, parando a dois passos dele. Era alta, maior do que parecia sentada, e sua sombra cobriu o corpo de Sêneca.

    — Mas você… — Ela se agachou, ficando cara a cara com ele. O cheiro dela era de maresia e ozônio.  — Você é um problema. Acordou cedo demais…

    Sêneca sustentou o olhar dela. Ele ainda sentia a presença daquelas correntes enormes em sua mente. Comparado àquilo, a mulher à sua frente, por mais estranha que fosse, era algo que ele podia tocar. Algo que poderia compreender e racionalizar.

    — O que você quer? — ele perguntou, fechando a mão cheia de areia, pronto para jogar nos olhos dela.

    — Respostas — disse ela. Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. Os dedos eram frios como gelo. — O feitiço é perfeito. A moeda dá o maior desejo ou o pior medo. Ela prende a alma em um laço perfeito. Deveria ter mantido você preso para sempre. Mas então… o poder parou de te afetar. O laço se soltou.

    Ela apertou a bochecha dele, as unhas longas cravaram-se na pele, desenhando meias-luas vermelhas.

    — E mesmo assim, você continuou gritando — sussurrou ela, aproximando o rosto do dele. — Balbuciando enquanto dormia. Dizendo que não sabia, que iria ‘soltá-lo’. Estou curiosa… O que a sua mente tão especial criou que nem o mestre dos sonhos conseguiu controlar?

    Sêneca se lembrou da voz nas profundezas. Acorde.

    — Eu não vi nada — mentiu Sêneca. — Apenas pesadelos. Apenas o passado.

    A mulher estreitou os olhos. A cicatriz no pescoço dela pulsou, mudando de um rosa pálido para um vermelho vivo.

    Mentiroso — ela sibilou. A voz agora era a do próprio Sêneca.

    — Eu sou Eco. Eu ouço tudo. Eu repito tudo. E eu sei quando uma voz treme com a mentira. Eu posso arrancar a verdade de você, pedaço por pedaço.

    Ela se levantou, imponente.

    — Posso gritar com a voz de um titã — disse ela, a própria voz ganhando volume, fazendo o ar vibrar. — Posso gritar tão alto que seus ouvidos vão estourar para dentro do crânio e seu encéfalo vai escorrer pelo nariz.

    Ela abriu a boca. A garganta dela se expandiu de forma grotesca. O ar ao redor dela distorceu, como numa miragem de calor. Sêneca sentiu uma pressão brutal nos tímpanos, um zumbido agudo que progredia a uma dor insuportável. Ele levou as mãos aos ouvidos, encolhendo-se.

    Mas o grito não veio.

    BOOM.

    Um estrondo sacudiu o chão. A areia pulou.

    O som veio do centro das ruínas, longe da praia, mas foi forte o suficiente para fazer pedras rolarem das colinas próximas e derrubar uma coluna precária a cem metros dali. Uma nuvem de poeira subiu ao longe, cobrindo o sol por um momento.

    A mulher fechou a boca imediatamente. A distorção no ar cessou. Ela olhou para a direção do barulho, os olhos arregalados de verdade dessa vez. O medo em seu rosto era genuíno. Ela conhecia aquele tipo de poder, e ele não pertencia ao seu mestre.

    — Não… — ela murmurou, a voz falhando. — Já? Ele falhou com o outro também?

    Sêneca aproveitou a distração. A pressão nos ouvidos diminuiu. Ele tentou se levantar, preparar os punhos, usar a areia que guardava na mão.

    Mas a mulher foi mais rápida. Seus reflexos não eram humanos.

    Ela se virou para ele, a frustração contorcia suas feições belas em uma máscara de ódio.

    — O tempo de conversa acabou — disse ela.

    Ela agarrou Sêneca pelo pescoço com uma força que não condizia com os braços finos dela. Sêneca sentiu seus pés saírem do chão e finalmente percebeu quão maior ela era. O ar foi cortado de seus pulmões instantaneamente. Ele agarrou o pulso dela com as duas mãos, tentando se soltar, chutando o ar, mas era como tentar dobrar uma barra de ferro.

    Ela começou a andar, arrastando-o como se ele fosse um boneco de pano sem peso, caminhando em direção às ruínas e ao local da explosão.

    Sêneca tentou gritar, mas apenas um chiado saiu de sua garganta esmagada. Sua visão começou a escurecer nas bordas.

    — Agora você vai gritar acordado — disse ela, forçando mais o aperto, enquanto arrastava Sêneca entre as sombras dos escombros de Tróia.

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