Capítulo 108 | A Garra e a Sombra
Sêneca respirava entre engasgos.
Hermes permaneceu imóvel. Sua mão ainda estava erguida, o fio da ponta de sua espada a centímetros do pescoço de Endimião. O brilho verde em seus olhos oscilava, lutando contra o instinto de matar e a necessidade de proteger.
Ele olhou para Sêneca. O rosto do amigo estava roxo. As pernas chutavam o ar inutilmente.
Hermes forçou um sorriso frio.
— Vá em frente — disse Hermes. Sua voz saiu firme, embora o suor escorresse por sua têmpora. — Mate-o.
Os olhos de Sêneca se arregalaram em terror absoluto. Eco piscou, confusa por um instante.
— Você acha que eu me importo com a vida de um mortal? — Hermes continuou, dando um passo minúsculo em direção a Endimião. — Eu desci ao Tártaro e o trouxe de volta uma vez. Posso fazer isso de novo. A alma dele pertence a mim, não a vocês. Quebre o pescoço dele. Me poupe o trabalho de carregá-lo.
Endimião observou o rosto de Hermes. Por um segundo, a dúvida cruzou seus olhos escuros.
Então, ele riu.
— Quase — disse Endimião. — Foi uma boa tentativa, Mensageiro. Mas se você realmente não se importasse, se realmente pudesse trazê-lo de volta com um estalar de dedos, minha cabeça já estaria rolando neste chão.
Endimião deu um passo para o lado, colocando-se fora de alcance, e ajeitou o manto sobre o ombro.
— Você hesitou — continuou ele. — E a hesitação é a marca da fraqueza.
Ele começou a caminhar em círculo ao redor de Hermes, mantendo uma distância segura.
— Mas não precisamos terminar assim, com sangue e ossos quebrados. Olhe para nós, Hermes.
Gesticulou dramaticamente para os dois.
— Olhe para o que representamos. Tânatos e Hipnos. A Morte e o Sono. Somos irmãos de essência.
Hermes tinha o cenho franzido, seus olhos acompanhavam o movimento de Endimião como um pêndulo.
— Juntos, poderíamos dominar a realidade por completo. Não haveria dor, nem medo da finitude. Apenas um descanso eterno e perfeito sob o nosso comando.
Hermes cuspiu no chão, perto dos pés descalços do feiticeiro.
— Eu não tenho interesse nos seus delírios — rosnou Hermes. — Não quero governar um cemitério, nem um dormitório. Eu quero consertar a bagunça que vocês criaram.
Eco, ainda segurando Sêneca, abriu a boca.
— Então deixe a moeda.
Era a voz de Hermes. O timbre, a cadência, a arrogância. Era uma cópia perfeita.
— Largue a moeda e o velho vive — continuou ela com a voz roubada. — Ou fique com ela e ele morre.
— Eu não vou entregar nada — disse Hermes, apertando o metal frio na mão.
Eco não respondeu com palavras. Ela apertou os dedos ao redor da traqueia de Sêneca. O ex-escravo emitiu um som agudo, desesperado.
A mão livre de Eco, que estava solta ao lado do corpo, se ergueu. Uma névoa púrpura envolveu a pele dela. Os dedos se alongaram, estalaram e se retorceram. A pele macia se rasgou, dando lugar a uma escama grossa e escura. As unhas tornaram-se lâminas de osso, longas e curvas.
Em segundos, a mão bela da ninfa tornou-se uma garra monstruosa.
Ela encostou a ponta da unha do dedo indicador na jugular de Sêneca. A pele do pescoço dele cedeu sob a pressão, e um fio de sangue escorreu.
— Escolha — disse ela, com a voz de Hermes.
Sêneca olhou para Hermes. Seus olhos lacrimejavam no que parecia ser aceitação. Ele estava dando a sua permissão, sua expressão era de despedida.
Hermes sentiu o peso da moeda. Sentiu o poder correndo em suas veias, a força capaz de destruir exércitos. Mas ele sabia que não seria rápido o suficiente. Antes que ele pudesse dar um passo, a garra abriria a garganta de Sêneca.
Vendo a hesitação de Hermes, Eco sorriu e forçou um pouco mais a sua garra. Sêneca gemeu sem voz e seu sangue escorreu pelo pescoço numa linha mais grossa.
— NÃO! — Hermes gritou.
Ele não podia perder mais um. Não depois de tudo. Estendeu o braço, abrindo a mão em sinal de rendição.
Hermes soltou o ar dos pulmões. Ele ordenou mentalmente que a moeda parasse. As veias negras que pulsavam em seu pescoço e braços começaram a recuar, a sumir sob a pele. O brilho verde necrótico em seus olhos apagou-se, e deixou apenas o dourado cansado. As vozes das almas silenciaram.
Ele caiu de joelhos no calçamento, exausto. A retirada súbita do poder deixou seu corpo trêmulo e fraco.
Endimião sorriu. Um sorriso largo e vitorioso.
Ele caminhou até Hermes. Passou o braço ao redor dos ombros do deus caído, como um velho amigo consolando o outro.
— Sábia decisão — disse Endimião. Ele bocejou, cobrindo a boca com a mão. — O amor é sempre a ruína dos heróis.
— A moeda, por favor.
Hermes olhou para a mão pálida à sua frente. Olhou para Sêneca, ainda suspenso pela garra de Eco. Lentamente, ele levantou a mão que segurava o artefato de Tânatos.
— Aaaaahhhhhhhh!
Um grito rasgou a escuridão. Um som distorcido, uma vibração sônica que fez o chão tremer.
Hermes tapou os ouvidos.
Pedaços de pedra caíram das ruínas ao redor. A própria estrutura da torre onde estavam vibrou violentamente.
Eco estava com os olhos arregalados, a boca aberta num ‘O’ de choque, mas o grito não era um ataque dela. Era de dor.
A mão monstruosa se abriu involuntariamente. Sêneca caiu no chão de pedra, tossindo e puxando o ar com força, levando as mãos ao pescoço ferido.
Eco tombou para frente.
Houve um som úmido de carne sendo rasgada e osso sendo deslocado.
Atrás do corpo caído da mulher, surgiu uma figura.
Ele pisou nas costas de Eco e puxou com força, libertando suas duas adagas cravadas profundamente na base da coluna dela. O sangue escuro espirrou na pedra. Magno.
O gatuno estava coberto de poeira e suor. Ele limpou a testa com o antebraço. Ao ver Hermes olhando, ele abriu um sorriso satisfeito e fez um sinal de positivo com o polegar.
O tempo pareceu parar por um segundo.
Endimião olhou para o corpo de sua serva, depois para Magno, chocado.
Hermes tinha os olhos arregalados, mas não perdeu um segundo.
A adrenalina inundou seu sistema. O medo virou fúria. A moeda de Tânatos em sua mão acendeu como um farol verde, brilhando mais forte do que nunca. As veias negras explodiram de volta em sua pele instantaneamente.
Endimião tentou recuar.
Hermes girou o corpo no chão e desferiu um corte ascendente com a xiphos. A lâmina zuniu.
Endimião colocou o cajado na frente num reflexo desesperado.
A espada divina encontrou a madeira mágica. Houve um estalo seco. O cajado se partiu ao meio. A lâmina continuou seu curso e rasgou o tecido do peito de Endimião, desenhando uma linha vermelha fina em sua pele pálida.
Endimião gemeu e tropeçou para trás. Ele olhou para o sangue em seu peito com incredulidade.
Hermes se levantou num salto e avançou como uma flecha.
Ele tentou agarrar o feiticeiro, mas Endimião, atento, dissolveu-se em névoa roxa um instante antes do contato.
Hermes atravessou a fumaça e rangeu os dentes. No mesmo instante, girou a cabeça, procurando por todos os lados por sinais do inimigo.
O brilho roxo surgiu no topo de uma pilastra alta, a vinte metros de distância, do outro lado do pátio. Endimião apareceu lá, com a mão sobre o peito sangrando e a outra mão na metade do cajado que ainda restava. Ele respirava com dificuldade tendo o rosto contorcido de ódio.
Hermes deu um passo à frente, pronto para persegui-lo.
— Você não entende, sonhador! — gritou Endimião lá de cima. Sua voz tremia. — Vocês perderam quando pisaram em meu domínio!
Ele ergueu o pedaço quebrado do cajado.
As nuvens negras acima deles giraram, formando um vórtice que se abriu bem em cima da posição de Hermes. Um feixe de luz roxa pura, sólida e silenciosa, desceu dos céus.
Hermes tentou saltar, mas foi tarde.
O raio atingiu o chão a dois metros dele. A força da explosão foi avassaladora. A pedra da torre se desintegrou. Hermes foi lançado para trás como uma boneca de pano, voando através do pátio até bater violentamente contra uma parede de escombros.
Ele caiu, atordoado. A poeira roxa cobriu a área onde ele estava.
Magno ainda ajudava Sêneca a se levantar, e tentava arrastá-lo para trás de uma cobertura.
Quando a poeira baixou, Hermes olhou para a cratera deixada pelo raio.
Algo se movia lá dentro.
Três sombras se levantaram da fumaça. Elas tinham formas humanas, mas seus corpos pareciam feitos de substância noturna e luz estelar sólida.
A primeira sombra assumiu a forma de um homem alto e magro, com uma túnica rasgada. A segunda sombra diminuiu e ganhou duas adagas nas mãos e uma bandana na cabeça. A terceira sombra cresceu, seus olhos brilhando com uma luz dourada falsa. Ela segurava uma espada.
Em um instante, aquela aura sobrenatural e luz estelar começaram a esmaecer, até que somente os corpos reais restassem. Sêneca, Magno e Hermes.

Os três clones olharam para o Hermes verdadeiro e sorriram em uníssono.

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