Índice de Capítulo

    O sol estava alto e castigava a terra seca da estrada. A poeira subia a cada passo que o grupo dava, cobrindo as botas e a barra das roupas de uma camada fina e marrom. Um curto assobio do vento assombrava aquele trecho, unido apenas ao calor e ao som ritmado das solas contra o solo batido.

    Licaão caminhava na frente com seus ombros largos a bloquear parte da visão da estrada. Ele mantinha um ritmo constante, rápido, sem demonstrar cansaço, embora o suor escorresse pelo seu pescoço. Atrás dele, Teseu e Plutarco tentavam acompanhar o passo. Plutarco, ainda desacostumado ao esforço físico incessante de horas de viagem a pé, ofegava e limpava a testa com a manga da túnica, enquanto Teseu mantinha os olhos fixos nas costas do homem à sua frente.

    O silêncio durava horas. Teseu não aguentava mais apenas caminhar.

    — Licaão — chamou Teseu.

    O homem grande não parou. Apenas soltou um grunhido baixo, indicando que ouvia.

    — Por que você nos ajudou em Pella? — Teseu perguntou numa voz rouca pela desidratação.

    Plutarco, que caminhava ao lado de Teseu, estendeu a mão e tocou o ombro do garoto.

    — Teseu, não é o momento — sussurrou o cronista. — Ele está de mau humor desde que saímos da cidade. Deixe-o em paz.

    Teseu ignorou o aviso. Ele apressou o passo até ficar quase ao lado de Licaão, embora mantivesse uma distância segura.

    — Eu preciso entender — insistiu Teseu. — Primeiro, você me perseguiu para me matar, e só não conseguiu por que uns homens estranhos com cascos me salvaram.

    Licaão bufou em resposta.

    — Depois, nós lutamos e quase matamos um ao outro. Na terceira vez, lutamos lado a lado contra os soldados. E quando eu estava inconsciente, você ajudou Plutarco a me carregar para fora da cidade.

    Licaão continuou olhando para a estrada com duras feições.

    — Você podia ter fugido — continuou Teseu. — Ninguém o impediria. Você é mais forte e mais rápido que nós. Mas você ficou. Por quê?

    Licaão parou de repente. A poeira assentou ao redor de suas botas. Ele se virou para Teseu. Havia irritação em seus olhos, mas ela diminuiu quando ele notou a expressão do rapaz. Teseu não estava zombando ou desafiando. Ele parecia genuinamente confuso.

    Licaão cruzou os braços.

    — Você tem a chave, garoto. A conexão com a minha maldição. Se eu me afastar demais, posso perder o controle outra vez. É apenas interesse.

    Teseu balançou a cabeça.

    — Não é verdade. Eu sinto a ligação, sei que ela existe. Mas você viveu um ano sem mim. Você nunca precisou da minha presença para manter a sua forma. Você está mentindo.

    Licaão estreitou os olhos.

    — Acredite no que quiser — disse Licaão, virando as costas novamente. — Mas não fique para trás pensando nisso.

    Ele retomou a caminhada com passos pesados. Teseu ficou parado por um segundo, observando-o se afastar. Havia algo que Licaão não dizia. O motivo real estava escondido, mas Teseu não conseguia decifrar o que era.

    Foi então que Teseu percebeu outro problema. Eles caminhavam há dias na direção sul, mas Licaão não havia dito qual era o destino e só agora este fato o incomodava.

    — Para onde estamos… — Teseu começou a perguntar.

    — Esperem — disse Plutarco, interrompendo o pensamento do jovem.

    O cronista apontou para a frente. Cerca de cinquenta metros adiante, na margem esquerda da estrada, havia uma grande pedra calcária. Sentado nela estava um homem.

    Era um velho. Suas roupas eram trapos cinzentos e sujos. Ele tinha cabelos longos, brancos e desgrenhados que caíam sobre o rosto. Ele estava imóvel, olhando para os próprios pés descalços.

    Licaão diminuiu o passo, mas não parou. Ele levou a mão discretamente ao cabo de uma faca presa em seu cinto.

    — Ignorem — ordenou Licaão em voz baixa. — É provavelmente um pedinte. Ou uma isca para ladrões de estrada. Fiquem atentos aos arbustos.

    Teseu e Plutarco assentiram. Eles endureceram os ombros e ficaram alertas, varrendo o perímetro com o olhar enquanto se aproximavam da pedra.

    Quando passaram pelo velho,  ele levantou a cabeça. Seus olhos eram brancos, velados pela catarata, mas ele parecia enxergar exatamente onde Teseu estava.

    O velho se ergueu com uma destreza que desafiava sua idade aparente, avançou e agarrou o braço de Teseu. Seus dedos eram magros e fortes como garras de uma ave.

    — Herói! — exclamou o velho, com a voz falha. — Eu esperei tanto. Os céus me mostraram que você passaria aqui.

    Teseu estacou. Licaão reagiu imediatamente. Ele girou o corpo e chutou a base da pedra onde o velho estivera sentado, fazendo um barulho seco e ameaçador.

    — Solte-o — rosnou Licaão.

    O velho gemeu e se recolheu, assustado, mas não largou o rapaz.

    — Nãão… Nãão me deeixem assim… — sua voz trêmula era digna de dó.

    Licaão estalou a língua.

    — Vamos embora, Teseu. É apenas um velho louco. Não perca seu tempo.

    Teseu olhou para a mão do velho em seu braço, depois para o rosto dele, e viu urgência na expressão do homem, não loucura.

    — Espere — disse Teseu. Ele não se soltou.

    — A mensagem deve ser entregue — disse o velho, ignorando Licaão. — Ouçam a profecia.

    Licaão bufou e voltou a caminhar, afastando-se deles. Plutarco parecia nervoso, olhando para os lados, esperando um ataque de bandidos que viria a qualquer momento. Ele estava abraçado aos seus papeis e tabuletas, temendo que fossem estas as primeiras coisas a serem roubadas.

    — Fale — disse Teseu.

    O velho respirou fundo. Ele abriu a boca e gritou, sua voz ecoou, trêmula e dramática, muito mais alto do que seu corpo frágil parecia permitir:

    O Rei Amaldiçoado busca seu trono de ossos, mas somente a Espada Bastarda cortará o pescoço divino!

    Licaão parou.

    O corpo do homem grande ficou rígido. Ele não se moveu por um instante. Então, ele se virou lentamente. Seus olhos estavam arregalados. As pupilas haviam diminuído e a íris estava amarela.

    Licaão marchou de volta até eles a passos pesados e furiosos, empurrou Teseu para o lado e agarrou o velho pelo colarinho, sacudindo-o com violência.

    — Explique! — ordenou Licaão com dentes à mostra. Seus caninos pareciam maiores.

    — Eu não sei! — engasgou o velho. — Eu não sei o que significa! Foi o que me revelaram!

    — QUEM? —  o grito selvagem de Licaão soou como o rugido de um lobo das montanhas.

    Teseu avançou e segurou o braço de Licaão.

    — Solte ele, Licaão! Você vai matá-lo!

    Licaão olhou para Teseu com olhos arregalados, depois para o velho assustado. Ele afrouxou o aperto, mas não o soltou completamente. Ele aproximou o rosto do velho.

    — Onde você ouviu isso?

    O velho tossiu, recuperando o fôlego.

    — Se querem saber mais… devem ir para o oeste — sussurrou o velho, tremendo. — Vão para Delfos. Subam além do Monte Parnaso. Encontrem o Acorrentado.

    — Quem é o Acorrentado? — perguntou Plutarco, aproximando-se com sua pena e pergaminho na mão.

    — Somente indo até lá poderão descobrir — respondeu o velho.

    — Solte-o de uma vez Licaão, ele é apenas um pobre senhor. — Pediu Teseu, a figura assustada do ancião o inquietava.

    Licaão soltou o velho com um empurrão e se virou para Teseu e Plutarco, passando a mão pelo rosto, visivelmente perturbado.

    — Isso é impossível — murmurou Licaão para si mesmo. — Ninguém sabe sobre a espada.

    — Devemos ir? — perguntou Teseu. — Delfos não é longe daqui, mas o caminho é um desvio completo da rota para o sul que estamos seguindo.

    Licaão olhou para o oeste, onde as montanhas se erguiam no horizonte.

    — Se ele sabe sobre a espada… — começou Licaão, mas parou. Ele se virou bruscamente para interrogar o velho novamente. — Ei, você disse que…

    Calou-se.

    A pedra estava vazia. A estrada ao redor deles estava deserta.

    Teseu olhou em volta, girando o corpo. Não havia ninguém. Não havia arbustos grandes o suficiente por perto para esconder um homem. Ele olhou para o chão. A poeira mostrava as marcas das botas de Licaão, as sandálias de Teseu e Plutarco. Mas não havia pegadas do velho.

    Era como se ele nunca estivesse ali.

    — Ele sumiu — os dedos de Plutarco tremiam levemente, mas seguiam anotando em sua tabuleta.

    Licaão olhou para o local onde o velho estava. Ele cerrou os punhos.

    — Garoto… — sussurrou Licaão com uma determinação feroz.

    Teseu se virou para ele, surpreso.

     — Vamos para Delfos, e quando eu tiver minhas próprias respostas, darei a você as suas.

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