Capítulo 112 | Profecia de Estrada
O sol estava alto e castigava a terra seca da estrada. A poeira subia a cada passo que o grupo dava, cobrindo as botas e a barra das roupas de uma camada fina e marrom. Um curto assobio do vento assombrava aquele trecho, unido apenas ao calor e ao som ritmado das solas contra o solo batido.
Licaão caminhava na frente com seus ombros largos a bloquear parte da visão da estrada. Ele mantinha um ritmo constante, rápido, sem demonstrar cansaço, embora o suor escorresse pelo seu pescoço. Atrás dele, Teseu e Plutarco tentavam acompanhar o passo. Plutarco, ainda desacostumado ao esforço físico incessante de horas de viagem a pé, ofegava e limpava a testa com a manga da túnica, enquanto Teseu mantinha os olhos fixos nas costas do homem à sua frente.
O silêncio durava horas. Teseu não aguentava mais apenas caminhar.
— Licaão — chamou Teseu.
O homem grande não parou. Apenas soltou um grunhido baixo, indicando que ouvia.
— Por que você nos ajudou em Pella? — Teseu perguntou numa voz rouca pela desidratação.
Plutarco, que caminhava ao lado de Teseu, estendeu a mão e tocou o ombro do garoto.
— Teseu, não é o momento — sussurrou o cronista. — Ele está de mau humor desde que saímos da cidade. Deixe-o em paz.
Teseu ignorou o aviso. Ele apressou o passo até ficar quase ao lado de Licaão, embora mantivesse uma distância segura.
— Eu preciso entender — insistiu Teseu. — Primeiro, você me perseguiu para me matar, e só não conseguiu por que uns homens estranhos com cascos me salvaram.
Licaão bufou em resposta.
— Depois, nós lutamos e quase matamos um ao outro. Na terceira vez, lutamos lado a lado contra os soldados. E quando eu estava inconsciente, você ajudou Plutarco a me carregar para fora da cidade.
Licaão continuou olhando para a estrada com duras feições.
— Você podia ter fugido — continuou Teseu. — Ninguém o impediria. Você é mais forte e mais rápido que nós. Mas você ficou. Por quê?
Licaão parou de repente. A poeira assentou ao redor de suas botas. Ele se virou para Teseu. Havia irritação em seus olhos, mas ela diminuiu quando ele notou a expressão do rapaz. Teseu não estava zombando ou desafiando. Ele parecia genuinamente confuso.
Licaão cruzou os braços.
— Você tem a chave, garoto. A conexão com a minha maldição. Se eu me afastar demais, posso perder o controle outra vez. É apenas interesse.
Teseu balançou a cabeça.
— Não é verdade. Eu sinto a ligação, sei que ela existe. Mas você viveu um ano sem mim. Você nunca precisou da minha presença para manter a sua forma. Você está mentindo.
Licaão estreitou os olhos.
— Acredite no que quiser — disse Licaão, virando as costas novamente. — Mas não fique para trás pensando nisso.
Ele retomou a caminhada com passos pesados. Teseu ficou parado por um segundo, observando-o se afastar. Havia algo que Licaão não dizia. O motivo real estava escondido, mas Teseu não conseguia decifrar o que era.
Foi então que Teseu percebeu outro problema. Eles caminhavam há dias na direção sul, mas Licaão não havia dito qual era o destino e só agora este fato o incomodava.
— Para onde estamos… — Teseu começou a perguntar.
— Esperem — disse Plutarco, interrompendo o pensamento do jovem.
O cronista apontou para a frente. Cerca de cinquenta metros adiante, na margem esquerda da estrada, havia uma grande pedra calcária. Sentado nela estava um homem.
Era um velho. Suas roupas eram trapos cinzentos e sujos. Ele tinha cabelos longos, brancos e desgrenhados que caíam sobre o rosto. Ele estava imóvel, olhando para os próprios pés descalços.
Licaão diminuiu o passo, mas não parou. Ele levou a mão discretamente ao cabo de uma faca presa em seu cinto.
— Ignorem — ordenou Licaão em voz baixa. — É provavelmente um pedinte. Ou uma isca para ladrões de estrada. Fiquem atentos aos arbustos.
Teseu e Plutarco assentiram. Eles endureceram os ombros e ficaram alertas, varrendo o perímetro com o olhar enquanto se aproximavam da pedra.
Quando passaram pelo velho, ele levantou a cabeça. Seus olhos eram brancos, velados pela catarata, mas ele parecia enxergar exatamente onde Teseu estava.
O velho se ergueu com uma destreza que desafiava sua idade aparente, avançou e agarrou o braço de Teseu. Seus dedos eram magros e fortes como garras de uma ave.

— Herói! — exclamou o velho, com a voz falha. — Eu esperei tanto. Os céus me mostraram que você passaria aqui.
Teseu estacou. Licaão reagiu imediatamente. Ele girou o corpo e chutou a base da pedra onde o velho estivera sentado, fazendo um barulho seco e ameaçador.
— Solte-o — rosnou Licaão.
O velho gemeu e se recolheu, assustado, mas não largou o rapaz.
— Nãão… Nãão me deeixem assim… — sua voz trêmula era digna de dó.
Licaão estalou a língua.
— Vamos embora, Teseu. É apenas um velho louco. Não perca seu tempo.
Teseu olhou para a mão do velho em seu braço, depois para o rosto dele, e viu urgência na expressão do homem, não loucura.
— Espere — disse Teseu. Ele não se soltou.
— A mensagem deve ser entregue — disse o velho, ignorando Licaão. — Ouçam a profecia.
Licaão bufou e voltou a caminhar, afastando-se deles. Plutarco parecia nervoso, olhando para os lados, esperando um ataque de bandidos que viria a qualquer momento. Ele estava abraçado aos seus papeis e tabuletas, temendo que fossem estas as primeiras coisas a serem roubadas.
— Fale — disse Teseu.
O velho respirou fundo. Ele abriu a boca e gritou, sua voz ecoou, trêmula e dramática, muito mais alto do que seu corpo frágil parecia permitir:
— O Rei Amaldiçoado busca seu trono de ossos, mas somente a Espada Bastarda cortará o pescoço divino!
Licaão parou.
O corpo do homem grande ficou rígido. Ele não se moveu por um instante. Então, ele se virou lentamente. Seus olhos estavam arregalados. As pupilas haviam diminuído e a íris estava amarela.
Licaão marchou de volta até eles a passos pesados e furiosos, empurrou Teseu para o lado e agarrou o velho pelo colarinho, sacudindo-o com violência.
— Explique! — ordenou Licaão com dentes à mostra. Seus caninos pareciam maiores.
— Eu não sei! — engasgou o velho. — Eu não sei o que significa! Foi o que me revelaram!
— QUEM? — o grito selvagem de Licaão soou como o rugido de um lobo das montanhas.
Teseu avançou e segurou o braço de Licaão.
— Solte ele, Licaão! Você vai matá-lo!
Licaão olhou para Teseu com olhos arregalados, depois para o velho assustado. Ele afrouxou o aperto, mas não o soltou completamente. Ele aproximou o rosto do velho.
— Onde você ouviu isso?
O velho tossiu, recuperando o fôlego.
— Se querem saber mais… devem ir para o oeste — sussurrou o velho, tremendo. — Vão para Delfos. Subam além do Monte Parnaso. Encontrem o Acorrentado.
— Quem é o Acorrentado? — perguntou Plutarco, aproximando-se com sua pena e pergaminho na mão.
— Somente indo até lá poderão descobrir — respondeu o velho.
— Solte-o de uma vez Licaão, ele é apenas um pobre senhor. — Pediu Teseu, a figura assustada do ancião o inquietava.
Licaão soltou o velho com um empurrão e se virou para Teseu e Plutarco, passando a mão pelo rosto, visivelmente perturbado.
— Isso é impossível — murmurou Licaão para si mesmo. — Ninguém sabe sobre a espada.
— Devemos ir? — perguntou Teseu. — Delfos não é longe daqui, mas o caminho é um desvio completo da rota para o sul que estamos seguindo.
Licaão olhou para o oeste, onde as montanhas se erguiam no horizonte.
— Se ele sabe sobre a espada… — começou Licaão, mas parou. Ele se virou bruscamente para interrogar o velho novamente. — Ei, você disse que…
Calou-se.
A pedra estava vazia. A estrada ao redor deles estava deserta.
Teseu olhou em volta, girando o corpo. Não havia ninguém. Não havia arbustos grandes o suficiente por perto para esconder um homem. Ele olhou para o chão. A poeira mostrava as marcas das botas de Licaão, as sandálias de Teseu e Plutarco. Mas não havia pegadas do velho.
Era como se ele nunca estivesse ali.
— Ele sumiu — os dedos de Plutarco tremiam levemente, mas seguiam anotando em sua tabuleta.
Licaão olhou para o local onde o velho estava. Ele cerrou os punhos.
— Garoto… — sussurrou Licaão com uma determinação feroz.
Teseu se virou para ele, surpreso.
— Vamos para Delfos, e quando eu tiver minhas próprias respostas, darei a você as suas.

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