Capítulo 108 - Baile
A música da primeira dança espalhou-se pelo salão em acordes longos e contidos, sustentados por cordas suaves e um compasso pensado mais para conduzir corpos do que para impressionar ou roubar atenção. Não era uma melodia exuberante era estratégica. Um convite à observação.
Ian guiou Maelis até o centro do salão enquanto outros casais se alinhavam ao redor, formando um círculo elegante de movimento e expectativa. O espaço pareceu se reorganizar em torno deles sem esforço algum.
Maelis apoiou a mão no ombro dele, sentindo sob os dedos a firmeza tranquila que contrastava com a tensão latente no ar. Ainda tentava decifrar aquele gesto inesperado.
Ian segurou a mão quente dela com firmeza serena. Um toque seguro, deliberado. Não havia hesitação.
Ele inclinou-se o bastante para falar sem ser ouvido pelos outros casais, próximo demais para ser apenas protocolo.
— Me permite conduzi-la nesta dança? — perguntou, já assumindo a posição correta, como se a resposta fosse apenas uma formalidade.
Maelis arqueou uma sobrancelha, um sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Você me traz até aqui… — murmurou — e ainda pergunta?
Os primeiros passos começaram.
Os movimentos dela eram precisos, firmes, sem exagero ou ornamentação desnecessária. Não havia esforço para chamar atenção, ela simplesmente ocupava o espaço, como alguém que não pede permissão para existir. O vestido acompanhava cada giro com elegância controlada, e sua postura dizia mais do que qualquer adorno.
Os olhares do salão se voltaram para eles quase instantaneamente.
— Parece que chamamos atenção. — comentou Maelis, a voz baixa, enquanto se moviam em perfeita sintonia.
— Depois daquela entrada… — Ian respondeu, conduzindo-a com leveza — achei que essa fosse exatamente a sua intenção.
— E era.
Ian deixou escapar um sorriso curto, quase imperceptível.
— Então vamos fazer você brilhar ainda mais.
— O que vo—
A mudança súbita no ritmo a interrompeu.
Ian a girou com fluidez, aproveitando a aceleração da música, trazendo-a de volta para o centro do salão com um movimento limpo e confiante. Quando ela retornou para perto, ele a segurou por um instante a mais do que o necessário.
Agora sorria abertamente ao fitá-la, um sorriso genuíno, vivo, que a fez errar uma batida…
e não apenas ela.
— Você é uma bela chama. — disse, a voz baixa, puxando-a de volta para perto.
Maelis sustentou o olhar, surpresa por um breve segundo antes de recuperar o controle.
— O que foi isso, Guardião?
Eles giraram juntos. O salão fluía ao redor como um organismo único, tecidos, cores, perfumes e olhares em constante movimento. Por um instante raro, Maelis relaxou. Não pensou em estratégias. Nem em alianças. Apenas dançou.
Então seus olhos se desviaram.
E ela os viu.
Eldrik e Lysvallis dançavam a poucos passos dali.
O príncipe mantinha a postura impecável, cada gesto correto, aprendido desde cedo, digno do herdeiro de Cervalhion. Lysvallis o acompanhava com a mesma precisão, bela, distante, controlada como sempre. O par perfeito aos olhos da corte.
Mas algo não se encaixava.
Durante um giro mais amplo, o foco se deslocou.
Eldrik percebeu.
Não de imediato. Não de forma consciente.
Foi um detalhe.
O modo como os olhos de Lysvallis demoravam meio segundo a mais antes de retornar para ele.
Como, sempre que girava, o olhar dela buscava… outro ponto do salão.
Outro alguém.
Ian.
A constatação o atingiu como um golpe seco no peito.
Eldrik manteve o sorriso. Manteve o ritmo. Mas algo havia rachado por dentro.
Cada passo seguinte exigia esforço consciente.
Ela está aqui.
Dançando comigo.
Então por que não está comigo?
Num giro mais fechado, ele apertou um pouco mais a mão dela, não para ferir, apenas para trazê-la de volta.
Lysvallis percebeu.
E desviou o olhar.
Foi nesse exato momento que Maelis voltou a encarar Ian.
Ela não precisou de muito para entender.
— Obrigada. — disse, com suavidade.
— Pelo quê?
— Por me dar uma vingança tão doce. — Os olhos dela encontraram os dele, agora com um sorriso aberto, satisfeito. — Por existir no lugar errado… na hora exata.
A música começou a desacelerar.
Eles encerraram a dança com um último giro elegante, preciso, sob olhares atentos demais para serem casuais. Alguns aplausos surgiram entre os nobres, discretos, mas audíveis o suficiente para marcar presença.
Quando Maelis se afastou um passo, o efeito foi imediato.
Uma nobre aproximou-se primeiro.
— Guardião… foi lindo de se ver.
Depois outra.
Sorrisos calculados. Convites educados. Olhares avaliando possibilidades.
— Aceitaria a próxima dança? — perguntou uma delas.
Ian virou-se para Maelis antes de responder.
— Você se importa?
A pergunta cortou o burburinho ao redor.
Maelis piscou uma vez.
— Eu… — hesitou, então sorriu de verdade. — Não. Vá.
— Então volto depois. — disse ele, simples, antes de aceitar o novo convite.
Ela o observou se afastar ainda sorrindo, não por vaidade, mas por algo próximo de satisfação.
Do outro lado do salão, a música terminou para Eldrik e Lysvallis.
Ela se afastou primeiro.
— Preciso… — começou, sem concluir. — Aproveite a noite, príncipe.
Antes que ele pudesse responder, ela já se afastava, retornando à companhia de Elenys e Alexia.
Eldrik respirou fundo, prestes a segui-la, quando uma presença firme se interpôs em seu caminho.
— Cabeça erguida, príncipe. — disse Aura, estendendo a mão. — Agora não é hora de sangrar em público.
Ele piscou, surpreso.
— Aura…
— Se continuar assim, todos vão perceber. — continuou ela, firme. — E eles não merecem isso.
Eldrik endireitou os ombros. Respirou. Recuperou o controle.
Os instrumentos de corda preencheram o salão novamente. Com a primeira dança concluída, mais pessoas passaram a ocupar a pista. Ao longe, Eldrik viu Ian dançando com outra jovem.
— Obrigado. — disse, aceitando a mão de Aura.
— Não precisa agradecer, príncipe.
— Eu… — ele sorriu de leve, conduzindo-a. — Acho que já lhe pedi para me chamar de Eldrik.
— Em um ambiente como esse? — Aura lançou-lhe um olhar rápido antes de voltar a encarar a frente. — Não ousaria. Poderia gerar mal-entendidos.
Ele a girou com mais rapidez.
— Você está… diferente.
— Sem armadura? — Aura sorriu de lado. — É perturbador, eu sei.
— Não era bem essa a palavra que eu tinha em mente. — respondeu, conduzindo-a com mais confiança. — Eu diria que você está muito bonita.
— Cuidado, príncipe. — murmurou ela, enquanto a música acelerava. — Se elogiar demais, vou achar que está flertando.
Isso arrancou dele um sorriso contido.
— Só é bom dançar com alguém que está realmente presente.
Aura inclinou a cabeça, divertida.
— Então aproveite. — disse. — A música não dura para sempre.
Lysvallis observava o salão de um ponto mais afastado, ao lado de Elenys e Alexia.
A música seguia viva, preenchendo o espaço com movimento e brilho, mas o olhar dela estava fixo em apenas um ponto.
Ian.
Ele dançava novamente, agora com outra nobre, o corpo seguro, a condução precisa, confortável demais para alguém que, até pouco tempo atrás, evitava qualquer tipo de exposição social.
E antes disso… Maelis.
” O que foi aquilo?”
Lysvallis apertou os dedos em torno da taça que segurava, sem perceber.
— Ele dança bem. — Elenys comentou em voz baixa, quase para si mesma. — Não sabia que ele dançava assim.
Lys desviou o olhar por um instante.
— Ian sempre soube dançar.
— Desse jeito? — Elenys insistiu, franzindo levemente a testa. — tão próximo?
Alexia permaneceu em silêncio, observando.
Foi ela quem falou depois.
— Nós sabemos que isso pode fazer parte do plano. — disse, controlada. — A aproximação, a exposição… chamar atenção para ele.
— Eu sei. — Elenys assentiu. — Ainda assim…
Ela voltou a olhar para o salão.
Ian girou a parceira com facilidade, sorrindo de um jeito que Lys nunca tinha visto.
— É estranho. — Elenys continuou. — Ver alguém tão perto dele. Não achei que fosse acontecer assim. Não agora.
Alexia inclinou a cabeça, analisando.
— Não acho que seja só encenação. — disse. — Pelo menos… não toda.
Lysvallis a encarou.
— Você acha que ele está misturando as coisas?
— Acho que Ian sabe exatamente o que está fazendo. — Alexia respondeu. — Mas isso não significa que todas as consequências estejam sob controle.
O comentário ficou suspenso no ar.
Lysvallis voltou a olhar para o salão.
A nobre se afastou, e Ian se inclinou levemente em despedida, educado, correto. Por um instante, seus olhos cruzaram os dela.
Foi rápido.
Mas não o bastante para passar despercebido.
O aperto no peito de Lysvallis veio antes do pensamento racional.
Ela reconheceu.
— Isso está indo longe demais.

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