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    ‘Morri.’

    …Pelo menos, na visão.

    Respirando fundo, me acalmei e revivi tudo o que havia acontecido em minha mente.

    ‘O velho é um lunático que não gosta de mentiras.’

    Isso ficou claro para mim depois que ele me matou por algo como mentir. Talvez ele nem se importasse com a mentira e só quisesse me matar?

    ‘Não, não é isso…’

    Recordando aqueles últimos momentos e como ele parecia enfurecido ao me pegar mentindo, pude perceber que ele genuinamente detestava mentirosos.

    Não entendia o motivo, mas anotei essa informação em minha mente.

    Havia algo mais importante que precisava notar.

    ‘…A melodia.’

    O velho disse algo sobre a melodia manter os fantoches afastados.

    Reproduzi a melodia em minha mente.

    Não era complicada. Na verdade, era bem simples, mas…

    ‘Maria tinha um carneirinho?’

    “Uh…?”

    Pensando na melodia novamente, minha expressão mudou. Parecia vagamente familiar antes, mas agora percebi que era realmente ‘Maria tinha um carneirinho’.

    Por que…?

    ‘Mais importante, uma melodia assim realmente pode afastar os fantoches?’

    Olhei ao redor e franzi a testa.

    Realmente não conseguia ver como tal melodia mantinha os fantoches afastados, mas o velho claramente vivia sem preocupações naquele porão.

    “Por outro lado, ele é forte. Talvez seja por isso que não é afetado.”

    Mas se ele fosse forte o suficiente para sobreviver até agora, provavelmente também seria forte o suficiente para escapar. Isso tornava sua afirmação um pouco mais realista para mim.

    Infelizmente, não tinha nada para tocar a melodia.

    Caso contrário, poderia ter testado.

    ‘O que devo fazer?’

    Mordi o lábio e olhei para meu relógio de bolso.

    Tique, taque—

    Era 00:14 da madrugada.

    Meu primeiro pensamento foi recuperar um pouco e esperar até dez minutos antes do reinício, então voltar ao velho. Assim, teríamos que aguentar apenas mais dez minutos antes que os fantoches parassem e fossem forçados a recuar.

    Mesmo se algo desse errado, nossas vidas não estariam em grande perigo.

    Pelo menos, não pelos fantoches.

    Quem realmente me preocupava era o velho.

    Quem sabia que outras manias ele tinha? Se quisesse nos matar, poderia fazê-lo facilmente.

    Precisava agir com cautela.

    Mordiscando meus lábios novamente, olhei para Pedrinho e suspirei. Gostaria de tê-lo mandado procurar uma saída, mas sair do palácio era a menor das minhas preocupações. O que me preocupava não eram as pessoas dentro do prédio, mas as de fora, que eram mais fortes, rápidas e poderosas.

    Mesmo se conseguíssemos sair, teríamos que nos preocupar com aqueles lá fora.

    A menos que Leon e os outros pudessem pensar em uma solução.

    ‘…O velho pode realmente ser a única saída.’

    Suspirei ao pensar nisso.

    “Hoo.”

    Respirando fundo, fechei os olhos e olhei para minha mão, onde outro frasco apareceu.

    Eu realmente não queria fazer isso, mas…

    ‘Só preciso ter certeza de que o velho está do nosso lado.’

    Após um momento de reflexão, abri a boca e Pedrinha derramou o conteúdo do frasco em minha boca.

    Tique, taque—

    Era 00:17 da madrugada.

    *

    ‘P-por que você faria isso? Achei que estávamos do mesmo lado… Como pôde? Como pôde…!?’

    ‘Mesmo lado? Ha…’

    ‘Você…’

    ‘Toren, há coisas que eu vejo— coisas tão além da sua compreensão, que rasgariam sua alma se você as visse. Elas me perseguem, implacavelmente, através do meu sono, invadem meus devaneios e me atormentam sempre que podem.’

    ‘Mas—’

    ‘Essas visões, essas verdades… Nunca as pedi, mas são minhas para carregar, me arrastando para o abismo, querendo ou não. Estou amaldiçoado a ver o que outros não podem nem imaginar, e é uma maldição que impregna cada momento da minha existência.’

    ‘…V-você, você enlouqueceu, Emmet! Enlouqueceu!’

    ‘Hmm, talvez eu tenha. Não, provavelmente sim.’

    ‘Uh…!’

    ‘Mas na minha loucura, sou são o suficiente para saber… saber que todos vocês devem morrer.’ 

    *

    Tique, taque—

    Era 00:21 da madrugada.

    Dang, da~

    Uma melodia familiar tocou no ar.

    “Haa… Haa…”

    Segurando meu peito, olhei para frente e me virei para ver o velho atrás de mim.

    “Você chegou mais rápido do que eu… esperava.”

    As mesmas palavras de antes.

    “E seus dois amigos? Você os abandonou?”

    “Sim.”

    Desta vez não menti.

    “Abandonei eles.”

    Porque sabia que ele odiava mentiras.

    “Hmm.”

    Os olhos do velho se estreitaram, e uma pressão poderosa envolveu meu corpo, me paralisando no local e me deixando sufocado.

    “…Você é bastante honesto.”

    Felizmente, a pressão não durou muito. Após um rápido olhar em minha direção, ela aliviou.

    “Gosto de pessoas honestas.”

    Suspirei aliviado ao ouvir suas palavras.

    Baque! Baque!

    No entanto, o alívio durou apenas um breve momento antes de ouvir o som abafado de passos vindo de cima.

    ‘Eles estão vindo.’

    “Hmph.”

    Com um grunhido baixo, o velho virou na direção oposta aos fantoches e se dirigiu à grande caixa no canto da sala. Olhei para ele com surpresa, mas antes que pudesse questionar o que ele fazia, suas mãos grandes agarraram a caixa e a empurraram para o lado, revelando outro alçapão.

    Clank!

    Abrindo o alçapão, o velho me olhou.

    “…Entre.”

    “Sim.”

    Acenando com a cabeça, verifiquei a hora.

    Era 00:23 da madrugada.

    Ao descer os pequenos degraus, virei-me e vi o velho me seguir, fechando o alçapão atrás de si e nos mergulhando em completa escuridão.

    A escuridão não durou muito, pois o velho acendeu uma pequena luz, iluminando o ambiente.

    Enquanto fazia isso, olhou para o alçapão e acenou com a mão.

    Crank!

    ‘Telecinese?’

    …Parecia ser o caso, pois ouvi a caixa acima se mover sobre o alçapão.

    “Me siga…”

    Passando por mim, o velho me levou escada abaixo até outra porta.

    Parando diante da porta, pude ouvir o som do piano ainda mais alto que antes.

    Da Dang~

    ‘É como imaginei. A melodia é a mesma.’

    Crua e ainda assim agradável aos ouvidos. Era sem dúvida ‘Maria tinha um carneirinho’.

    Clank—!

    “Entre.”

    Ao abrir a porta, fui recebido pela visão de um pequeno quarto. Uma cama de madeira velha encostada em uma parede, um pequeno armário próximo e um piano no canto. O espaço tinha um ar cru, inacabado, como se o tempo tivesse se esquecido dali.

    Teias de aranha pendiam nos cantos e poeira enchia o espaço.

    Ao olhar ao redor, também notei uma pequena caixa.

    Da Dang~

    ‘Ah, então é isso que produz o som.’

    Antes, imaginei que alguém estivesse tocando o piano, mas estava errado. Não havia mais ninguém ali.

    A caixa era a responsável pelo som.

    “…O que é isso?”

    “É um velho brinquedo meu.”

    O velho respondeu, colocando a lâmpada sobre a cama.

    “Afasta os fantoches.”

    “Ah.”

    De fato, ele já havia me dito isso antes.

    Mas…

    ‘Se realmente os afasta, por que ele ainda está aqui? Por que…’

    Como se percebesse minha dúvida, o velho se aproximou da caixa e a pegou.

    “Há um limite para quantos pode afastar de uma vez. Se estivéssemos em campo aberto, só afastaria algumas dezenas antes de parar de funcionar. O único motivo deste lugar ser seguro é porque não mais que uma dúzia de fantoches pode vir de uma vez, já que o espaço é estreito.”

    “Ah.”

    Tudo fez sentido de repente.

    Ainda assim, isso me fez questionar algo.

    “Por que essa melodia afasta os fantoches?”

    “…Não sei.”

    O velho respondeu, virando a cabeça para pegar um livro velho.

    “Não me lembro muito bem.”

    Ele esfregou a cabeça.

    “….!”

    Foi quando ele levantou a cabeça que finalmente notei. Talvez por estar escuro lá fora, mas agora, diante dele, pude vê-los.

    ‘Fios.’

    A quantidade esmagadora de fios presos ao velho. Um, dois, três, quatro… vinte, trinta…

    Quantos eram…?

    “Ah, você notou.”

    O velho baixou a mão para me mostrar os fios nela. Eram tantos.

    “A cada dia que você passa aqui, um fio se prende. A caixa e a música não ajudam… muito com os fios. Todos aparecem ao mesmo tempo, todo dia. Logo antes de tudo reiniciar.”

    “Então…”

    “…Não precisa se preocupar.”

    O velho apontou para a caixa.

    “Enquanto a caixa continuar tocando, os fios não forçarão você a se mover. Mas…”

    Com um sorriso amargo, o velho olhou para a caixa.

    “A caixa não tem muito tempo. Logo ficará sem energia, e quando chegar a hora…”

    O velho fechou os olhos, o significado de suas palavras claro para mim.

    “Eu… eu…”

    Fazendo uma careta, o velho esfregou a nuca.

    “…Perdi a conta de quanto tempo estou aqui. Acho que faz um mês. Talvez dois? Não sei. Perdi a noção.”

    ‘Isso parece condizer com o que sei.’

    Pelo que sabia, tudo isso começou cerca de um mês atrás.

    “Como as coisas ficaram assim?”

    “Foi eh… o casamento do filho mais velho. Ele ia se casar com sua noiva. Era para ser o casamento dele quando tudo aconteceu. Não me lembro muito. Por que não consigo lembrar?”

    Esfregando a cabeça novamente, o velho franziu a testa.

    “Ah, que se dane.”

    Acenando com a mão, o velho pareceu desistir de pensar. Virando-se para mim, cruzou os braços e se recostou na cama. Toda sua persona mudou para uma mais jovial.

    “Enfim, eu estava ficando muito solitário. É bom que alguém perto da minha idade tenha vindo. Hur, hur.” 

    Com uma risada, o velho bateu na coxa.

    No entanto, não ri.

    Idade similar?

    …Ele não conseguia ver através do meu disfarce?

    “Na verdade…”

    Estava prestes a remover minha máscara quando o velho riu novamente.

    “Quantos anos você tem? Eu tenho… vinte e oito.”

    Minha mão congelou no meio do movimento.

    O quê?

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