Vilão da História
Estávamos deitados, os dois entrelaçados como sempre ficávamos ao final de mais um dia. Seus dedos brincavam com meu cabelo enquanto minha cabeça repousava em seu colo. Ela traçava círculos lentos sobre minha têmpora.
— Amor… Tem algo que eu queria te ensinar há muito tempo.
Abri os olhos. O rosto dela estava calmo, mas havia algo mais intenso nos seus olhos.
— Não pode esperar até sua vez de me ensinar? Ainda estou aprendendo com Maximus. Ele me tortura o dia inteiro. Não sei se tenho tempo pra mais um ensinamento…
Ela riu, baixinho.
— Isso não é uma técnica de combate. Nem magia. É… uma herança. Algo que só quem anda entre os vivos e os mortos pode compreender. — Ela se curvou lentamente e seus lábios roçaram minha testa. — Fecha os olhos.
Obedeci.
— O que você vai me mostrar?
— Um campo. — sussurrou ela. — Um campo de morte e dor. Onde tudo que existe… morre. Onde você poderá enxergar o fim de todas as coisas. Onde a essência das coisas te mostra como elas vão se apagar. Esse lugar existe dentro de você agora, amor. E ele tem um nome.
Senti um arrepio subir pela espinha. Meus olhos, mesmo fechados, viram alguma coisa. Um breu absoluto se abriu atrás da minha mente, como uma planície sem fim onde tudo silenciosamente se dissolvia. Eu senti folhas que apodreciam no instante em que nasciam, pessoas que desapareciam antes mesmo de terminar um gesto, estruturas que ruíam antes do primeiro tijolo ser posto. Era como se a morte estivesse em todas as coisas, à espera do seu tempo.
— Isso se chama… Ceifa Absoluta. — murmurou Perséfone. — Agora ela é sua.
Meus olhos se abriram com força. Pers ainda estava ali, mas havia lágrimas em seu rosto. Ela sabia o que tinha me dado.
Mas não tive tempo de perguntar mais nada.
A lembrança se desfez e me vi novamente diante do campo de batalha. O chão estilhaçando, a poeira ainda subia no ar após meu último golpe. Minhas mãos tremiam, envoltas da minha espada negra.
A Vontade da Deusa estremeceu em minhas mãos. Era como se ela sentisse a mesma coisa que eu: algo havia mudado. Não era mais só força bruta. Não era mais só fúria e destruição. Era algo maior. Algo entre a vida e a morte e entre reinos que não se conciliam.
Respirei fundo, sentindo minha mana morta reagir. As serpentes negras começaram a se enroscar pelo meu corpo novamente, feitas de pura eletricidade. Elas dançavam ao redor de mim como extensões da minha vontade. Eu não podia vacilar. Não mais. Não com ela assistindo. Não com Noctavellis de pé atrás de mim.
— Então venha, Abaddon. Me mostre o que você realmente é.
Ele sorriu. E veio.
O silêncio que antecedeu a próxima investida foi quase religioso. Minha respiração ecoava abafada pela névoa de poeira, e o calor da batalha parecia ferver sob minha pele como se o próprio inferno pulsasse dentro de mim. As serpentes negras que envolviam meu corpo crepitavam em expectativa, raios silenciosos que zuniam entre minhas costelas e ombros. Eu podia sentir o olhar dele sobre mim e, de repente, o vi.
Abaddon surgiu da poeira como um espectro em carne. Seus pés pisavam com firmeza o solo quebrado, e cada passo que dava parecia pesar mil quilos sobre o mundo. A fumaça se dissipava à sua volta e revelava seu novo corpo.
Ele sorriu, e o mundo pareceu encolher ao redor daquele gesto.
— Você me surpreendeu, Hades — disse ele, sua voz humana, mas carregada de uma força ancestral, como se mil demônios falassem através de sua garganta. — Faz séculos que não preciso assumir esta forma. Séculos que ninguém me obriga a usar todos os dons que carrego…
Firmei os pés no chão. A minha espada, a vontade da minha Deusa, pulsava em minha mão, sedenta. As serpentes negras se ergueram ao meu redor, silvando, os olhos brilhando com a mesma luz opaca dos meus. Eu sentia minha mana fervendo por dentro, mas também sentia o cansaço se acumulando. As fissuras no meu corpo pulsavam, e o chão embaixo de nós parecia cada vez mais frágil, como se o mundo temesse ser palco de algo tão final.
— Vai me contar a história toda, ou vamos terminar isso?
Ele sorriu de novo. Seus olhos brilharam.
— Tolo. Isso é a história.
E então ele avançou.
Nunca vi alguém se mover tão rápido.
Em um piscar de olhos, ele estava diante de mim. A aura ao redor do seu corpo era densa como mar profundo, feita de pecado e poder puro, um oceano negro de intenção assassina. O primeiro soco me atingiu como um raio. Fui lançado para trás, escorregando pelos destroços até parar em uma pilastra quebrada, meu sangue manchou o mármore.
Mas já me levantava antes que ele alcançasse o próximo passo. Teleportei atrás dele, espada erguida, e desci o corte com um grito de fúria. Ele virou a tempo de erguer os braços e bloquear, mas a força do impacto abriu uma cratera sob nós. A cidade toda estremeceu.
As serpentes se lançaram para mordê-lo. Ele as incinerou com um gesto.
Criaturas feitas de dor e escuridão não morriam com fogo, mas ele não usava fogo comum. Era poder puro, o sopro primordial dos primeiros demônios, canalizado em sua forma perfeita. Cada magia que eu lançava era rebatida com uma contraparte avassaladora. As ondas de energia colidiam no ar, criando muralhas invisíveis de destruição, rachando o espaço e fazendo o tempo tremer.
Mas eu não cedia.
A cada golpe, eu me adaptava. A cada corte, eu respondia. As serpentes se multiplicavam, saíam da minha pele como sombras ganhando vida. Elas giravam ao meu redor como espadas dançantes. Abaddon lançou uma rajada de energia púrpura direto no meu peito, mas teleportei antes do impacto, surgindo acima dele com a espada flamejando de mana morta, descendo como um julgamento.
Ele gritou e ergueu os dois braços para o alto.
Chamas negras surgiram atrás dele como asas abertas.
E foi como se o céu desabasse.
O impacto do nosso choque abriu um abismo na terra. Partes da cidade se desfizeram em rochas soltas, pilares ruíram. As muralhas tremeram. Em algum lugar, ouvi sinos e gritos. Mas meu mundo era ele. Abaddon. Aquele ser diante de mim.
— VOCÊ NÃO É UM IMPERADOR! — ele rugiu, cravando os olhos nos meus.
— ENTÃO VENHA ME DERRUBAR, DEMÔNIO! — respondi.
Nos lançamos um contra o outro mais uma vez. Espada contra mãos nuas. Aura contra mana. Dois mundos se chocando.
Ele me agarrou pela garganta e me ergueu no ar. Eu cravei minha espada em seu ombro, e ambos gritaram.
Sangue negro escorreu do ferimento dele. Gotas da minha vida pingaram de sua mão.
Fomos lançados para trás pela explosão de mana conjurada entre nós. Meus ossos doíam, mas eu não cedia. As serpentes se recompunham. A espada tremia de vontade.
E lá estava ele. Ainda de pé. Mas ofegante.
E eu também.
— Está… se divertindo, Abaddon? — provoquei, cuspindo sangue no chão e girando a lâmina.
Ele sorriu, cansado, mas com uma faísca animalesca nos olhos.
— Ainda não vi tudo o que você pode fazer… mas já entendi uma coisa, Hades.
— O quê?
Ele se inclinou à frente. A luz do sol poente refletia em seu rosto marcado pela batalha.
— Você… é perigoso demais para este mundo.
Sorri de volta.
— Eu sou a última coisa que este mundo precisa temer.
— Eu não imaginava que alguém tocado pela morte pudesse me fazer sangrar — ele disse, sorrindo enquanto limpava o canto da boca, onde um filete carmesim escorria.
— Eu sangro todos os dias para proteger este povo. Você… sangra por si mesmo — respondi, girando a Vontade da Deusa na mão, enquanto as serpentes de raio negro se arrastavam em espirais em torno de mim.
Abaddon avançou com um grito que reverberou como um trovão. Seus pés racharam o chão enquanto ele se impulsionava numa velocidade absurda. Teleportei para longe, para o alto de uma das torres em ruínas da muralha externa. Vi a fúria em seus olhos azuis quando ele me seguiu, saltando como um meteoro invertido.
Quando seu punho golpeou o topo da torre, toda a estrutura desmoronou e nós caímos com ela.
E então, eu me teleportei novamente, reaparecendo atrás dele, com minha lâmina já em arco. Mas ele girou, rápido demais, bloqueando com o antebraço. A lâmina rasgou carne, mas seu punho me atingiu com força brutal, me lançando através de uma parede.
A dor me consumiu por um instante. Meus ossos protestaram. Mas eu me levantei, cuspindo sangue e rindo.
— Esperava mais de um demônio — provoquei.
— Você vai se arrepender de ter aceitado este duelo.
Ele estendeu a mão para o céu. A mana ao redor se distorceu, como se o próprio tecido do mundo se curvasse ao seu comando. Um círculo mágico flamejante se abriu atrás dele e dele emergiu uma lança negra, pulsando com energia demoníaca, envolta em espinhos e fogo. Assim que a empunhou, o chão tremeu.
A essa altura, os soldados do império e os conselheiros assistiam à distância, em silêncio absoluto. A cidade inteira parecia contida em um único segundo que se esticava para sempre.
— Pois então venha — falei, e toda a minha mana morta convergiu ao meu redor como uma tempestade.
As serpentes de relâmpagos dançaram, zunindo, afiadas como navalhas vivas. Eu as disparei como projéteis, dezenas delas, com cada uma curvando-se com inteligência em direção ao seu peito.
Abaddon saltou no ar, girando a lança em círculos flamejantes que desintegravam as serpentes uma a uma, mas foi quando ele desviou o olhar por um segundo que eu me teleportei atrás dele.
Minha espada atravessou seu flanco. Um golpe limpo. Ele gritou, mas não caiu.
Com um urro furioso, ele segurou meu rosto com uma das mãos e me arrastou pelo ar, me lançando com tanta força que meu corpo só parou após atravessar três prédios em ruínas. Estava soterrado por pedras, mas antes que ele se aproximasse, ergui a mão. As sombras ao meu redor se tornaram braços, mãos espectrais gigantescas que se ergueram do chão, agarrando seus tornozelos.
E quando ele tentou se libertar, eu me teleportei de novo, bem acima dele, e desci com a espada envolta em aura negra e eletricidade.
O impacto rachou o chão. Abaddon foi lançado contra o solo com força titânica, e a terra tremeu. Poeira subiu. Detritos explodiram em todas as direções.
Por um momento, houve silêncio.
Apenas minha respiração e o som da poeira assentando. Minhas mãos tremiam. Meu corpo já estava além do limite. Mas ele ainda estava vivo.
A poeira começou a se dissipar lentamente.
E então, aquela maldita voz, agora mais suave, quase humana:
— Hmph… parece que você realmente merece o título de imperador.
Sua silhueta surgiu da poeira. Os chifres ainda estavam lá, mas os olhos brilhavam com uma calma perigosa. Havia um leve sorriso nos lábios ensanguentados. Sua lança desapareceu e em seu lugar, uma nova arma se formava: uma espada longa de cristal escarlate, pulsante como o coração de um titã.
— Agora… vamos dançar, como os escolhidos dos Deuses devem dançar.
Eu cerrei os punhos. A energia em meu corpo oscilava, instável, mas viva. Era mais do que apenas minha. Era minha vontade. Era a vontade dela. De Pers. Era a promessa que fiz ao povo de Noctavellis.
Avancei.
E a dança recomeçou.
Golpes mais rápidos do que qualquer olhar humano poderia captar. O chão se desintegrava sob nossos pés. Raios e fogo, sombras e explosões, tudo se misturava numa sinfonia apocalíptica.
Cada corte que eu fazia, ele rebatia. Cada investida dele, eu desviava por um triz. Não éramos mais homem contra demônio. Éramos duas forças elementares, duas vontades que recusavam morrer.
Meu corpo estava coberto de feridas. Cada movimento exigia mais do que eu possuía. Mas eu não podia parar.
Não enquanto ela estivesse me assistindo.
Não enquanto aquele trono ainda fosse meu.
Abaddon riu, com sangue escorrendo pelos dentes.
— Isso… ISSO É LUTA! ISSO É VIDA!
E então, nossos punhos se chocaram ao mesmo tempo. Mana, fúria e convicção explodiram em um clarão cegante.
Mas nada havia terminado ainda.
O instante em que a conjuração da Ceifa Absoluta se completou foi como abrir os olhos pela primeira vez.
O mundo mudou.
Não havia mais apenas formas, luzes e sombras. Eu via a essência de tudo: fios tênues, translúcidos, como traços de prata e cinza que se entrecruzavam no ar. Eram as linhas da morte, o destino final de cada coisa. Cada pedra, cada faísca, cada batida de asa de corvo ao longe tinha um traço único que, se cortado, extinguia aquela existência. Eram frágeis e eternos ao mesmo tempo, flutuando em padrões que minha mente nunca imaginaria compreender antes.
E ali, à minha frente, Abaddon estava coberto dessas linhas. Milhares delas, vibrando como cordas prestes a romper. Algumas espessas como cabos, outras finas como fios de cabelo. Todas pediam por uma lâmina.
— Então… é esse o presente dela. — murmurei, apertando a empunhadura da Vontade da Deusa. — Perséfone…
A lâmina se envolveu em sombras ainda mais densas, e minhas serpentes de raios negros começaram a deslizar por meu corpo como se estivessem farejando os fios. Elas não apenas viam as linhas comigo, elas ansiavam por mordê-las.
Abaddon, em sua forma humana, deu um passo à frente. Seus olhos azuis brilharam.
— Eu conheço esse olhar… — disse ele, abrindo os braços como se me convidasse. — Vem me cortar, Imperador.
Eu me movi.
O teleporte me levou direto ao seu flanco esquerdo. Minha espada cortou o ar… e uma das linhas que cruzavam seu ombro foi partida como seda. A reação foi imediata: o braço dele caiu, desprendido, antes que a mente dele percebesse.
Abaddon recuou com um rugido, mas seu corpo brilhou em tons carmesins, e o membro perdido cresceu de volta como se a carne fosse argila moldada. A regeneração era absurda. Injusta.
Ele avançou. A lança de cristal escarlate veio em um arco horizontal. Teleportei-me de novo, surgindo atrás dele. Cortei três linhas ao mesmo tempo: pescoço, coxa e a espinha. O corpo dele se desmontou como uma marionete sem fios.
E antes mesmo de tocar o chão… já se recompunha.
O sorriso dele se alargou.
— Continue… Hades. Continue. Veja até onde sua lâmina consegue me matar.
Nós desaparecemos aos olhos de qualquer espectador humano. Apenas clarões negros e vermelhos piscavam no campo, acompanhados de estrondos que faziam as muralhas de Noctavellis estremecerem.
Eu cortava. Sempre mirando as linhas mais vitais, arrancando membros, dividindo o tronco, separando a cabeça do corpo, dilacerando músculos que já não eram músculos, mas pura energia solidificada. A Ceifa Absoluta me mostrava onde e como.
Mas ele voltava. Sempre voltava.
Cada regeneração dele parecia mais rápida que a anterior. O corpo dele cuspia fumaça negra, as costuras de carne brilhavam por um segundo antes de desaparecerem, e a lança sempre voltava às mãos dele, como se também fosse parte de sua alma.
— ISSO É O QUE EU QUERIA! — rugiu Abaddon, depois de se regenerar pela décima vez. — UM INIMIGO QUE POSSA ME MATAR, MAS NÃO ME DERROTAR!
O chão ao redor de nós já era um mosaico de crateras, sangue negro e brasas. As linhas da morte cortadas brilhavam no ar por um instante antes de sumirem, deixando um rastro silencioso de destruição que só eu podia ver.
Comecei a perceber algo: quanto mais linhas eu cortava, mais a estrutura dele enfraquecia, ainda que ele se regenerasse. Era como se cada fio rompido fosse um pedaço de sua essência que nunca voltaria exatamente igual. Ele estava mais rápido… mas também mais instável.
Teleportei-me acima dele e desci num golpe vertical mirando três linhas que cruzavam seu peito. Elas se partiram de uma vez. O tronco dele explodiu em fragmentos de carne e fumaça, e eu o vi cair em pedaços.
E mesmo assim, dentro da nuvem negra, o corpo dele voltou a se moldar. A cada centímetro de regeneração, relâmpagos vermelhos percorriam sua pele, como se a energia que o mantinha fosse perigosa até para ele.
Ele se ergueu, respirando pesado. Pela primeira vez, vi suor em sua testa.
— Você está me quebrando… — admitiu, com um sorriso distorcido. — Mas se acha que pode cortar todas as minhas linhas… vai ter que sobreviver até o último fio.
Eu girei a espada.
— Então vamos ver quem cansa primeiro.
A cada golpe, a cada corte, a cada estilhaço do corpo de Abaddon se desfazendo, a mesma realidade me esmagava como uma marreta invisível: eu não conseguiria vencer assim. Não com minhas forças limitadas pela ilusão de Maximus.
Por mais que a Ceifa Absoluta me revelasse cada linha da morte, por mais que minha espada e minhas serpentes as partissem, ele voltava. Sempre voltava.
E então, algo começou a arder dentro de mim.
Havia dias, na minha existência anterior, em que o mundo parecia se abrir diante de mim. A carreira subindo, a sensação de propósito, a felicidade quase ao alcance dos dedos… e sempre, sempre, algo escorregava. Uma traição, um acidente, um erro que eu não vi chegar. Era como perseguir um reflexo no lago: quanto mais perto, mais ele se despedaçava na superfície.
Eu aprendi cedo que a felicidade não se conquista; ela se empresta. E comigo, ela sempre vinha com prazo de devolução. Cada momento de paz era seguido por algo que me arrancava para longe. Uma mão puxando meu tornozelo para dentro da água gelada. Uma lâmina atravessando meu peito. Uma bomba caindo em um dia ensolarado.
Agora… aqui, com Abaddon diante de mim, sinto o mesmo. Não importa o quanto eu avance, não importa quantas linhas eu corte… a vitória está sempre um passo adiante. Rindo e escapando.
Talvez seja o meu destino. Talvez Pers tenha me escolhido exatamente por isso. Talvez ela precise de alguém que saiba perder tudo e ainda assim levantar a espada.
Respirei fundo.
A mana morta se agitou, respondendo ao meu chamado. Mas não bastava. Eu precisava de mais.
Então, ignorei a dor e canalizei energia para os músculos, reforçando cada fibra de carne, cada tendão, cada osso. O poder fluiu como ácido, queimando de dentro para fora. As serpentes rugiram. A Vontade da Deusa pulsou, afiada como nunca.
Avancei.
O corte vem de baixo para cima, uma linha perfeita, rasgando a lateral de Abaddon. Antes que ele se regenere, giro o corpo e o atravesso com uma estocada no peito. As serpentes se enrolam em torno dele, mordendo e rasgando, e então eu teleporto aparecendo em ângulos diferentes, cada vez cortando uma linha diferente.
O corpo dele se desfaz por completo.
E é então que eu vejo.
No meio do ar, flutuando como se fosse a própria alma dele… Uma linha nova.
Não era como as outras.
Essa não tremia, não se dividia, não fugia de mim. Era espessa. Escura. Uma corda única no centro de tudo que Abaddon era.
O coração de sua existência.
E nesse momento eu entendi: essa era a linha final.
Mas, antes que eu me movesse, os pedaços dele começaram a se unir outra vez, e a linha desapareceu dentro de um novo corpo.
Abaddon estava inteiro de novo.
— Você… viu, não foi? — ele perguntou, a voz grave, abafada.
— Vi. — respondi.
— Então venha, Imperador. Tente.
Ele girou a espada de cristal escarlate e avançou, mais rápido que antes.
Cada vez que meus olhos seguiam as linhas da morte, um calor sufocante subia pela minha nuca e explodia atrás dos olhos. As pupilas latejavam como se estivessem queimando por dentro, e uma linha fina de sangue começou a escorrer pelo canto. O gosto ferroso inundou minha boca. Minha respiração tornou-se pesada, irregular. A pressão na minha cabeça aumentava, como se um punho invisível estivesse esmagando meu crânio por dentro, pronto para fazê-lo estourar.
Eu sabia que não poderia sustentar isso por muito tempo.
Se eu morresse aqui… se Abaddon me atravessasse e esse corpo caísse…
Eu renasceria. Eu acordaria outra vez no mundo criado por Maximus, voltaria ao início do teste, enfrentaria tudo de novo. Poderia repetir até vencer.
Mas a imagem que veio à minha mente não foi a de uma nova chance.
Foi a dela.
Perséfone.
A deusa de cabelos brancos e sorriso de aurora, ajoelhada ao meu lado, segurando meu corpo sem vida. As lágrimas escorrendo silenciosas, como sempre faziam quando eu morria. Ela nunca gritava. Nunca se desesperava. Apenas chorava, calada, e me olhava como se cada renascimento fosse um crime que eu cometia contra ela.
E entendi.
Não quero vencer morrendo.
Não quero que ela me receba mais uma vez, ensanguentada, com o mesmo olhar que corta mais fundo que qualquer lâmina.
Se for para acabar com isso, precisa ser agora. Preciso vencer aqui. Vencer sem morrer.
E para isso… preciso abandonar o que ainda me prende.
A hesitação.
A misericórdia.
A humanidade.
Respirei fundo.
A dor desapareceu, não porque se foi, mas porque eu a travei numa caixa dentro de mim. O ar ao meu redor ficou pesado, frio, silencioso. As serpentes que antes eram raios negros agora se tornaram espectros de fumaça viva, suas bocas abertas, dentes longos, olhos ocos. Elas não apenas sibilavam, elas murmuravam. Sussurros de um idioma que nenhum humano deveria entender.
Eu era um Ceifador.
Um vilão, se fosse preciso, na história que eles contarão depois.
Abaddon parou por um instante, observando. Sua expressão se contraiu. Pela primeira vez, vi a cautela substituir o deleite nos olhos dele.
— O que… você fez? — perguntou, a voz baixa.
— Deixei de ser o herói da sua história — respondi, erguendo a espada. — Agora sou o monstro que vai enterrá-la.
Eu avancei.
A distância entre nós se dissolveu em um piscar de olhos. Meus músculos, reforçados ao limite com mana, respondiam como máquinas de guerra. A espada desceu, e minha visão das linhas era absoluta, cada fio de Abaddon pulsando diante de mim, implorando para ser cortado.
A lâmina atravessou cinco delas de uma vez. Seu corpo se despedaçou, cada parte separada em ângulos que nem a regeneração dele poderia recompor de imediato. Mas eu não parei. Teleportei-me para o ponto onde sabia que ele reapareceria, e quando o tronco começou a se formar, cortei outra vez. E outra. E outra.
O corpo dele mal tinha tempo de existir antes de ser destruído de novo.
Abaddon rugia, e mesmo assim, cada grito vinha misturado com algo que antes não existia: frustração. Ele estava sempre no ataque, sempre no controle e agora era ele quem recuava, ele quem protegia, ele quem evitava meus golpes.
Ele tentou contra-atacar, a lâmina de cristal vermelho cortando o ar como uma foice de trovão, mas eu a desviei usando uma das serpentes espectrais, que se enrolou no braço dele e puxou com força. Em um só movimento, arranquei o membro inteiro, cortando a linha antes que pudesse regenerar.
O corpo dele começou a se despedaçar outra vez, e por um instante, ali no meio da carne e fumaça, eu vi.
A linha final.
Fixa. Imutável. Pulsando como um coração exposto no vazio.
Eu dei um passo.
Mas ele percebeu.
O corpo dele explodiu em chamas negras, afastando-me antes que eu pudesse tocá-la. Quando a fumaça baixou, ele estava inteiro de novo, arfando, sangue negro e suor escorrendo pela pele.
— Você… não vai alcançar isso. — disse, a voz mais baixa, mas carregada de ódio.
— Eu já alcancei. — sorri. — Agora é só questão de tempo.
O chão entre nós estava destruído, a arena inteira em ruínas. O céu girava em espirais de luz negra e vermelha. E nós, dois monstros, respirávamos como feras no final de uma caçada.
Mas a caça… ainda não havia terminado.
Lembrei-me então de como a figura da morte era pintada na Terra. Não como algo vago, não como um conceito distante, mas como uma presença. Um ser esquelético, envolto por um sobretudo negro como a noite sem estrelas, segurando uma foice capaz de ceifar não apenas vidas, mas a própria essência das coisas. Naquela antiga visão, ela não vinha antes nem depois.
Ela vinha quando era a hora.
O ar entre nós pareceu enrijecer. O ruído da batalha se apagou. E só havia uma verdade em minha mente:
Abaddon era a caça. Eu era o caçador.
Avancei.
A cada passo, minha aura se tornava mais pesada, mais opressora. As serpentes ao meu redor se multiplicavam, não mais como raios, mas como bocas famintas, cada uma abrindo fileiras de dentes feitos de mana morta. O chão estalava onde elas passavam, a pedra apodrecendo, a terra murchando, como se meu próprio avanço fosse um prenúncio de fim.
E então, ataquei.
O primeiro corte abriu o abdômen dele de lado a lado, rasgando carne e armadura. O segundo arrancou-lhe a arma das mãos. O terceiro… foi direto nas pernas. As serpentes, mais rápidas que qualquer reação, se enrolaram nelas, rasgando músculos, triturando ossos, mastigando como lobos sobre a presa.
Abaddon tombou.
A joelhada forçada o fez cair de bruços, e ele se apoiou nos braços, tentando se arrastar para trás. O corpo dele tremia de dor, mas os olhos ardiam com algo diferente. Não medo da morte… mas medo de mim.
Ele rugiu.
Depois gritou.
E então, como se quisesse cravar sua importância no mundo mesmo na derrota, vociferou:
— EU VOU ME CASAR COM A FILHA DO REI DEMÔNIO! EU NÃO… — ele cuspiu sangue — EU NÃO VOU MORRER DESSE JEITO!
A frase não me moveu. Nada mais nele me movia. Apenas avancei, cravando os pés sobre o solo rachado, e quando me aproximei o bastante para sentir o calor de seu hálito enfraquecido, ergui a Vontade da Deusa.
— Sua hora chegou. — minha voz saiu grave, lenta, sem emoção.
A lâmina entrou pela boca. Senti o osso do crânio ceder, ouvi o estalo seco ao atravessar a base do olho. Um lampejo de luz negra percorreu a espada e escapou pela ponta, saindo do outro lado da cabeça dele.
E ele ainda estava vivo.
Ele me encarava como se estivesse diante de algo mais perturbador do que o próprio Rei Demônio.
Como se, naquele instante, eu tivesse deixado de ser um homem, ou mesmo um guerreiro.
A lâmina permaneceu cravada, presa no crânio, enquanto as serpentes continuavam a devorar o que restava de suas pernas, subindo até o quadril. O sangue negro pingava sobre o chão, evaporando antes de tocar as pedras.
Eu inclinei o rosto para mais perto, para que ele visse de perto o brilho dos meus olhos tomados pela Ceifa Absoluta.
Ele tentou falar, mas a lâmina impedia qualquer palavra. Apenas um som gutural escapou.
E naquele momento… eu quase puxei a espada de volta para cortar aquela linha final.
Quase.
Mas algo no olhar dele dizia que, mesmo agora, ele tinha um último trunfo. E matar sem destruir aquilo seria perder a oportunidade de acabar com ele para sempre.
Então retirei a espada devagar, deixando-o cuspir sangue e arfar como um peixe fora d’água.
Ele caiu de lado, ofegante, mas ainda vivo. Ainda… perigosamente vivo.
— Ainda não é sua hora. — sussurrei. — Mas eu vou decidir quando será.
E me afastei um passo, as serpentes recolhendo-se lentamente, como predadores que sabem que o banquete ainda não terminou.
Então me virei a ele. Ele se levantou, ainda arfando, o corpo marcado pela luta, e eu disse, firme:
— Uma morte cheia de honras é como todo homem quer morrer.
Ele não tinha mais mana. O fogo que o cercava havia se extinguido, e restava apenas a força bruta. Fomos para os socos. Desviei de um direto de esquerda e, aproveitando a abertura, acertei um golpe seco no queixo dele, que ainda estava em processo de regeneração. O impacto ecoou pelo campo como um gongo final.
Ele caiu duro no chão, o corpo finalmente cedendo. Sem hesitar, caminhei até ele, ergui a Vontade da Deusa e, com um movimento único e decidido, finquei minha espada na linha final que a Ceifa Absoluta me mostrava.
Senti o mundo reagir ao corte. As bordas da realidade começaram a se desfazer, as cores escorrendo como tinta na água, e a paisagem do reino imaginário se fragmentando em pedaços de luz. Eu tinha completado o teste de Maximus.
Enquanto tudo ao meu redor desaparecia, uma nova luz dourada começou a preencher minha visão. Os sons da batalha sumiram, substituídos pelo farfalhar suave das pétalas. Eu estava voltando. Estávamos voltando.
E, quando os campos de girassóis começaram a se formar sob meus pés, a consciência me escapou como areia entre os dedos.

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