Índice de Capítulo

    A chuva caía pesada, golpeando o jardim.
    Escorria pelo rosto de Ian, grudava no casaco, escurecia o chão até virar lama.
    Danurem avançou como se nada daquilo importasse.

    O primeiro golpe veio leve demais para um homem daquele tamanho, uma provocação, uma espécie de aviso arrogante.
    Ian desviou com facilidade, o corpo fluindo por instinto.

    — Você sempre começa assim ou está sendo educado comigo? — provocou.

    O gigante não respondeu. O segundo ataque veio rápido e fundo, um arco direto que testava alcance, peso, intenção. Ian levantou o ombro e deixou o impacto ricochetear, ainda assim sentiu o choque tremer pela clavícula.

    Forte.
    Forte o bastante para matar alguém comum com aquilo.

    Ian devolveu um golpe curto no tronco, só para marcar território.

    — Ótima base — comentou. — Mas você anuncia demais quando acelera.

    — Você fala demais.

    — Já me disseram isso.

    A chuva intensificou, caindo em lâminas inclinadas.
    Cada passo de Danurem desalojava água e lama.
    Flores se espalhavam pelo ar, esmagadas sob o peso dele.

    Ele começou a pressionar, um predador ampliando território, levando Ian exatamente para onde queria.

    Ian continuava mais rápido. Mas cada desvio exigia milésimos que antes ele não precisava gastar. Ele sentia isso. O corpo estava obedecendo… atrasado.

    — Se continuar assim — disse Ian, escapando por pouco de um golpe que teria quebrado costelas — vai cansar primeiro. E eu detesto bater em gente cansada.

    O sorriso surgiu.
    Lento. Controlado. Cheio de intenção de ferir.

    A seguir, Danurem simplesmente desapareceu do lugar onde estava.

    Ele fechou a distância num salto bruto, sem anúncio, sem teste, sem hesitação humana.

    Ian girou para sair da linha, mas o pé escorregou na lama, meio segundo.
    O suficiente.

    A mão de Danurem agarrou o sobretudo, e o puxão arrancou Ian do eixo como se fosse um boneco.

    — Merda—

    Ian soltou o casaco e deu um giro no ar usando a força de Dan para se distanciar. A peça caiu na lama com o peso de algo morto.

    O jardim reagiu.
    Sussurros. Gente segurando o ar.
    Tudo ali sabia que a luta tinha acabado de começar de verdade.

    — Bom movimento — disse Ian, ajeitando os ombros.

    Danurem não riu.
    Seus olhos ardiam com um divertimento quase animal.

    Algo não encaixava no corpo de Ian.
    Os reflexos vinham atrasados.
    A força não respondia no tempo exato.

    Naira tinha razão.
    Ele estava pesado.
    Ele estava… lento.

    Ian mudou de postura.
    Voltou ao básico, ao essencial, ao que não traía.

    Quando Danurem avançou novamente, Ian já estava firme na lama, mais baixo, mais compacto.
    O soco passou como um martelo.
    Ian interceptou com o antebraço, desviou a força e devolveu com precisão cirúrgica com o dorso da mão.

    O golpe acertou a lateral do rosto de Danurem com um estalo seco.
    A água espalhou em um arco.

    O gigante recuou um passo.
    Um só.

    — Então você estava brincando — disse ele.

    — Não exatamente. — A respiração de Ian veio mais pesada. — Eu estava sendo otimista.

    Danurem veio com raiva, mas não descontrole.
    O tipo de raiva que sabe exatamente onde quer acertar.

    Ian recuou pelo jardim. Tulipas viraram pasta sob as botas dos dois. A lama tentava devorar seus pés, puxando cada movimento para baixo. Danurem tentou agarrá-lo duas vezes.

    Na terceira, os dedos roçaram o antebraço.
    Quase.
    Quase demais.

    — Você é forte — admitiu Ian, escapando.

    — Continue falando — rosnou Danurem. — Vai ficar mais prazeroso quando eu finalmente te acertar.

    E então ele acertou.

    O golpe atravessou a guarda de Ian como uma marreta.
    Ian ergueu o braço, mas a força passou direto, queimando até o ombro, apagando tudo por um segundo.

    Ele não deixou isso aparecer.

    — Esse foi bom — disse. — Não excelente. Mas bom.

    Danurem não reagiu. Só avançou novamente.

    O coreto estava próximo.
    A madeira gemeu quando ele pisou com força.
    Petálas e poeira caíram do teto, misturando-se à chuva.

    — Última chance de recuar — disse o Dan.

    — Última chance de parar de se segurar — respondeu Ian. — Eu não sou tão paciente quanto pareço.

    Mentira descarada.

    Danurem veio com tudo.

    Ian esperou até o último respiro.
    Depois, saiu da linha.

    O impacto veio como um trovão.

    A pedra atrás dele partiu em três pedaços.
    A estátua desabou, o rosto rachado, braços se desfazendo ao tocar a lama.

    Silêncio absoluto.

    O braço de Ian latejava como fogo. O peito queimava a cada respiração.

    — Chega — disse o rei, a voz cortando o ar.

    Danurem olhou os restos da estátua.
    Um sorriso genuíno, quase satisfeito consigo mesmo, abriu no rosto.

    — Você ganhou — declarou.

    Ian assentiu.

    — Você é forte, Guardião. Obrigado pelo duelo.

    — Você também é impressionante — disse Ian. — Digno do capitão da guarda.

    Enquanto o jardim recuperava o fôlego, Ian sentiu o peso real daquilo.
    Não era vitória.
    Nem domínio.

    E mesmo sem usar a mana…

    Ele sabia a verdade.

    Estava muito longe do que já fora.

    Fraco.


    Ian não se moveu.

    Permaneceu onde estava, enquanto os nobres se retiravam.

    Maelis observava de longe.

    A chuva escorrendo pelo cabelo, pelo rosto, pela camisa agora colada ao corpo. Ele respirava fundo, controlado, como se o mundo ao redor tivesse diminuído de volume.

    Ela conhecia aquele jardim. Conhecia aquelas tulipas.

    Não era um cenário neutro.

    Aquela terra retinha ordo. Sempre reteve. Um pedido do antigo rei, um detalhe que não teria passado despercebido nos mapas mais antigos de Cervalhion. Ali, o fluxo natural se acumulava, denso, pesado um terreno que favorecia força, impacto, presença bruta.

    Danurem lutava em casa.

    Ian não.

    E ainda assim… ele venceu.

    Maelis estreitou os olhos.

    Não foi uma vitória limpa. Nem confortável. Não foi a imagem gloriosa que as canções cantariam. Mas houve algo ali que não se fingia: controle. Escolha. Aceitação do risco.

    Ian se abaixou.

    Recolheu o sobretudo da lama com cuidado inesperado, como se aquela peça tivesse peso além do tecido. Sacudiu o excesso de água, e o dobrou sobre o braço, um leve atraso ocorreu, rápido demais para chamar atenção, lento demais para enganar alguém que soubesse olhar.

    Maelis soube.

    Antes de se afastar, ele ergueu o olhar.

    Lysvallis ainda estava ali.

    Ian fez apenas um aceno breve. Contido. Um gesto pequeno, que não pedia resposta nem explicação.

    Lys entendeu.

    Maelis viu.

    E foi ali que algo começou a incomodá-la de verdade.

    Aquele duelo não tinha sido improviso. Não tinha sido orgulho ferido. Não tinha sido impulso.

    Aedin o colocara ali de propósito. Um jardim de flores que amplificava ordo, uma plateia cheia demais, um capitão da guarda forte demais. Uma humilhação elegante, disfarçada de honra.

    O Guardião havia notado? Algo lhe dizia que sim.

    E mesmo assim aceitou o duelo.

    Ele começou a caminhar, atravessando o jardim encharcado, ignorando olhares, comentários, tentativas tímidas de aproximação. Passou por Maelis sem dizer uma palavra.

    Sem sequer olhar.

    Isso, mais do que o duelo, foi o que a deixou inquieta.

    Ela ficou ali, sob a chuva, enquanto o jardim esvaziava de vez.

    Por quê?

    Por que aceitar uma luta injusta?
    Por que se expor?
    Por que permitir que tentassem quebrá-lo em público?

    Maelis apertou os dedos contra o tecido do vestido.

    Ela não percebeu quando começou a andar.

    Primeiro foi só um passo, depois outro, acompanhando o fluxo natural dos convidados deixando o jardim. Quando deu por si, já atravessava os corredores de pedra do castelo, mantendo distância suficiente para não parecer deliberado, perto o bastante para não perdê-lo de vista.

    Ian caminhava sozinho.

    O sobretudo pendia sobre o braço, encharcado, a camisa escura colada ao corpo pela chuva, delineando mais do que Maelis pretendia notar. O cabelo, solto e molhado, escorria água pela nuca. Ele não parecia apressado. Nem tenso.

    Parecia… inteiro demais para alguém que acabara de sair de um duelo daqueles.

    Ao cruzarem o último arco antes do pátio externo, Ian parou.

    Virou-se com naturalidade, como se já soubesse.

    — Posso ajuda-la em algo? — perguntou, a voz calma, educada.

    Maelis travou por meio segundo.

    Os olhos dele estavam atentos, claros, sem julgamento. A proximidade súbita a deixou consciente demais da própria respiração, das mangas do vestido, do quanto ele parecia deslocado ali e ainda assim absurdamente à vontade.

    — Eu… — ela se recompôs rápido demais para não parecer nervosa. — Gostaria que me acompanhasse. Tenho algumas dúvidas sobre Altheria.

    Ele arqueou levemente a sobrancelha, surpreso, e então sorriu.

    — Eu adoraria — respondeu sem hesitar. — Mas, como pode ver, preciso trocar de roupa antes.

    O olhar dele desceu brevemente para si mesmo, para a camisa colada, a água pingando das mangas.

    — Claro — Maelis respondeu rápido demais, desviando o olhar. — Naturalmente.

    — Pode me acompanhar, se quiser — completou ele, no mesmo tom simples.

    O silêncio que se seguiu foi… denso.

    Maelis piscou, o cérebro demorando um instante a reorganizar a frase.

    — Acompanhar…?

    Ian percebeu tarde demais.

    — Ah — ele riu baixo, breve. — Quero dizer, até um local onde eu possa trocar de roupa. Nada além disso.

    Ela sentiu a tensão escorrer dos ombros e se irritou por ter congelado.

    — Entendo — disse, recuperando o controle. — Claro.

    Eles começaram a caminhar lado a lado, deixando o castelo para trás. A chuva diminuía aos poucos, virando um murmúrio constante sobre a pedra antiga.

    — As nobres que estavam com você… — Maelis começou, escolhendo o assunto com cuidado. — As de Altheria.

    — Sim?

    — Fiquei surpresa. — Ela hesitou, então seguiu. — Pela presença delas. E… pela beleza.

    Ian lançou-lhe um olhar rápido, divertido.

    — Qual delas chamou mais sua atenção?

    Maelis pensou por um instante.

    — A rainha — disse por fim. — cabelos brancos lisos até o meio das costas, orelhas… diferentes. Olhos azuis. Alta. Havia algo nela que fazia o ambiente… ajustar-se.

    — Lysvallis — Ian respondeu, sem cerimônia. — Ela faz isso.

    Maelis assentiu, depois continuou:

    — E a outra. Cabelos castanhos escuros, ondulados, rosto bem desenhado.

    — Hum.. preciso de mais informações

    — Que estava com um colar prata.

    — Alexia.

    — E havia mais uma — completou Maelis. — Pele clara, cabelos escuros ondulados, olhos alongados.

    Ian demorou um pouco mais para responder dessa vez.

    — Elenys.

    Maelis respirou fundo.

    — Confesso que não esperava encontrar mulheres assim representando Altheria.

    Ian inclinou a cabeça levemente na direção dela.

    — Curioso — disse. — Eu pensei exatamente o mesmo quando a vi hoje.

    Ela franziu o cenho.

    — A mim?

    — Sim. — O sorriso dele voltou, tranquilo. — Beleza não costuma se destacar tanto entre a nobreza daqui. Pelo menos não da forma que chama atenção sem esforço.

    — Está sendo gentil.

    — Estou sendo honesto.

    Eles caminharam mais alguns passos em silêncio, o som da água e das botas ecoando baixo.

    À frente, uma construção lateral se destacava, parcialmente iluminada.

    — Lady Maelis?

    Ela se virou.

    O cocheiro da casa estava parado próximo ao portão externo, segurando o chapéu junto ao peito, claramente surpreso por encontrá-la ali e ainda mais por vê-la deixando o baile àquela hora, sob a chuva.

    — Reconheci o brasão no vestido quando a senhora passou — explicou. — Já estou indo buscar a carruagem.

    Maelis piscou, como se só então percebesse o quanto havia se afastado do salão. Olhou de volta para o castelo iluminado, distante agora, e depois para Ian.

    — Obrigada — disse ao cocheiro, recuperando a postura. — Estarei aguardando.

    — Parece que é aqui que nos separamos — Ian falou tirando o excesso de agua do cabelo — Ainda não vai me falar onde posso te encontrar?

    — Já lhe disse Guardião — Ela deu um pequeno sorriso antes de responder — Eu que vou lhe encontrar.

    — Ian.

    — O que?

    — Me chame de Ian.

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