Capítulo 122 | Pérgaminho
Sêneca saiu da casa de Sávio quando o sol ainda estava baixo no horizonte, orientado pelo próprio para tal, sob o argumento de que a biblioteca estaria cheia antes que o Sol alcançasse o Zênite.
O ar da manhã estava frio e trazia um orvalho que tornava o calçamento de pedra escorregadio. Ele apertou o manto contra o corpo e iniciou a subida em direção à acrópole. Pérgamo era uma cidade que funcionava em degraus; para cada destino importante, era necessário vencer uma série de escadarias de mármore.
Mesmo cedo, a cidade já estava acordada. Homens de túnicas curtas limpavam a frente de suas lojas com vassouras de galhos secos. Escravos carregavam cestos pesados de azeitonas e pães para os mercados da ágora, a caminho contrário de Sêneca. O som rítmico de martelos batendo contra o bronze vinha das oficinas de ferreiros próximas, e o cheiro de fumaça de lenha se misturava ao odor de peixe salgado.
Sêneca observava o movimento das pessoas sem parar de caminhar. Ele via os detalhes: a textura do tecido das roupas, o brilho das moedas trocadas e a forma como os guardas de couraças polidas vigiavam as esquinas. Quanto tempo fazia desde que via algo assim? Uma cidade tão grande e viva.
Após uma longa subida que fez sua respiração ficar curta e seus joelhos latejarem, ele chegou à Grande Biblioteca. O edifício era imponente, com colunas jônicas que sustentavam um teto decorado com relevos de figuras históricas que não lhe eram muito conhecidas, provavelmente da Ásia menor. A entrada era larga e permitia que a luz do sol iluminasse o chão de mosaicos.
Dentro, o barulho da cidade foi substituído pelo som suave de pergaminhos sendo desenrolados e pelo eco de passos sobre o mármore. No ar, uma mistura de couro velho, papiro seco e cedro. Sêneca caminhou entre as prateleiras que chegavam até o teto, todas repletas de rolos de pergaminho etiquetados com selos de argila ou cera.
Dois homens de barbas longas e túnicas de linho escuro conversavam perto de uma mesa de carvalho. Eles seguravam pequenos pincéis e recipientes com tinta preta.
— Os registros da dinastia anterior estão começando a mofar na ala leste — disse o mais velho, com a voz baixa. — Se não trocarmos as capas de couro, a umidade vai destruir o que sobrou.
— Até quando aqueles palermas postergarão a derrubada dessa floresta? — respondeu o segundo homem. — Será que não percebem que a umidade crescente na cidade é um risco capital para os manuscritos?
Sêneca se aproximou, limpando a garganta para chamar a atenção. Os estudiosos pararam de falar e o observaram com desconfiança.
— Olá senhores, chamo-me Sêneca. Busco os registros sobre o poder dos Deuses e de outras deidades. — afirmou ele, mantendo a postura ereta. — Ouvi dizer que Pérgamo possui traduções de textos que não chegaram a Atenas ou Roma.
Os dois estudiosos se entreolharam por um momento, e então riram.
— Deuses? — O primeiro zombou.
— Vens à maior biblioteca do mundo em busca de fábulas? — O segundo completou e tinha no rosto mais que escárnio, desprezo.
Sêneca ergueu uma das sobrancelhas, mas não vacilou frente aos olhares troçantes.
— Não me encontro em demanda de lendas ou fabulações, mas de registros que perscrutem, com rigor analítico, a essência primordial do poder. — Sêneca cruzou os braços. — Estou plenamente convicto de que vós, na qualidade de estudiosos que sois, jamais relegaríeis ao desprezo um saber tão elementar e fundante quanto este.
Os dois pensadores, incomodados com a forma erudita que o homem respondera às suas zombarias, tossiram e alisaram suas longas barbas.
O estudioso mais velho arqueou uma sobrancelha, a pensar na autoridade que carregava a voz de Sêneca.
— O conhecimento que buscas pode residir na ala sul, onde a luz do sol não alcança as prateleiras. São textos difíceis e por muito esquecidos, escritos em dialetos que a maioria dos tradutores desconhece ou não se interessa.
O homem indicou um corredor estreito e escuro. Sêneca agradeceu com um aceno curto e seguiu na direção indicada. Ele passou por várias salas até chegar a uma seção onde a poeira sobre os pergaminhos era visivelmente mais grossa. Os rolos ali eram feitos de um papiro mais escuro e áspero, não sabia se pela sua própria natureza ou pela do tempo.
Perscrutou sobre as estantes, uma a uma, em busca de algo que remetesse à sua busca. Era difícil. Quando era capaz de entender alguma das escritas, pouco do que se via estava em grego comum, se decepcionava em perceber que o livro tratava de meras lendas antigas e contos sobre entidades menores como sátiros e ninfas.
Não parecia que seria capaz de encontrar nada que o ajudasse, pelo menos não naquela seção. Seus joelhos gritavam cada vez que tinha que se agachar para procurar numa prateleira mais baixa, e urravam novamente quando se erguia.
Ele suspirou. Então, chegou no final da seção, onde algo parecia diferente. Os títulos aqui eram realmente gregos. Um grego antigo, mas ainda cognoscível, com algum esforço.
Ele começou a passar os dedos pelas etiquetas de madeira presas aos rolos. Seus olhos percorreram títulos sobre cosmogonia e mecânica celestial, até que parou diante de um volume que tinha o couro da capa gasto pelo tempo. O título, escrito em letras gregas arcaicas e angulares, dizia: “Os Totens e a Ontologia do Poder Divino”.
Sua mente divagou para a voz de Hipnos: “Totem Deôntico”.
Sêneca puxou o rolo com cuidado, sentindo o peso do pergaminho de couro escuro, que era mais denso do que qualquer material comum. Ele o levou até uma mesa de pedra onde um feixe de luz revelava a poeira suspensa no ar.
Ao desenrolar o documento, o filósofo franziu o cenho; a caligrafia era angular e carregada de ligaturas arcaicas, o que dificultava a distinção entre as letras e exigia um esforço visual constante.
Não havia o nome de um autor, selo de linhagem ou qualquer identificação no início da obra, apenas o título e o texto que começava de maneira abrupta. Seus olhos focaram na introdução, e com algum desgaste leram. Basicamente, apresentava o conceito da Arché — a Essência Primordial. O texto afirmava, e enfatizava numa linguagem técnica e rebuscada, que os deuses não eram a fonte de seu próprio poder, mas apenas recipientes para a Arché, uma força que existia antes da fundação do mundo e da própria existência das divindades.
Com ambas as mãos nos rolos do pergaminho, ele o abriu mais um pouco e revelou outro trecho do escrito. No topo desse trecho, constava o que parecia ser o título de um capítulo: “A Natureza do Poder dos Deuses”

Suor frio brotou na testa de Sêneca enquanto ele lutava para decifrar a gramática truncada e os termos técnicos sobre a mecânica do poder divino. O autor descrevia que os deuses funcionavam apenas como lenha para a Arché. A divindade era o combustível físico necessário para que a Essência se manifestasse na realidade. De acordo com o rolo, a imortalidade de um deus era, na verdade, um processo de consumo, onde o poder da Arché queimava a integridade do portador até a sua exaustão total.
Sêneca sentiu as mãos tremerem e puxou um banco de madeira pesada para se sentar. Ele percebeu que precisaria de horas de concentração absoluta para traduzir mais daquele conteúdo, que transformava a natureza dos deuses em um mero fenômeno de combustão de forças primordiais.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.