Capítulo 124 | Prece Noturna
As trevas tomaram a cidade numa frieza desmedida. O vento soprava do norte, trazendo o cheiro úmido da floresta para dentro das ruas de pedra. Hermes estava deitado em um catre de madeira no quarto que lhes fora cedido. Seus olhos estavam fixos nas vigas de madeira do teto, enquanto ele revisava mentalmente as poucas informações que colhera durante o dia.
Estéril, era como havia sido a investigação. Ele caminhara pelos setores administrativos e ouvira as fofocas de criados e aristocratas. O Rei de Pérgamo estava morrendo, consumido por uma febre que os curandeiros não conseguiam baixar. Por conta disso, os herdeiros do trono agiam como se o pai já estivesse enterrado, disputavam a posse de terras e tesouros e ignoravam completamente o fato de que a floresta avançava sobre as muralhas da cidade.
Para Hermes, esse caos político e humano era um ruído irritante que mascarava o verdadeiro perigo que sondava essa cidade.
Um estalo seco veio do corredor. Hermes sentou-se no catre de imediato. Seus sentidos, embora reduzidos à sua forma mortal, ainda eram aguçados para detectar movimentos furtivos. Ele ouviu o som de passos leves e o ranger quase imperceptível da porta da frente sendo aberta e fechada.
Sávio estava saindo. Estranho. “A essa hora?” Os olhos de Hermes se estreitaram.
Ele já estava com uma pulga atrás da orelha em relação a seu anfitrião e não perderia a oportunidade de entender melhor seus arredores. Olhou em volta, Sêneca e Magno ainda dormiam profundamente, o dia deles havia sido cansativo.
Levantou-se, calçou suas sandálias de couro e pegou sua espada curta. Ele saiu da casa segundos depois, fundindo-se às sombras das paredes externas. À frente, via a silhueta de Sávio, envolta em um manto escuro, que descia a rua em direção à cidade baixa.
O homem caminhava com pressa, olhando para os lados a cada esquina. O trajeto terminou diante de uma estrutura de mármore cujas colunas estavam cobertas por trepadeiras de folhas escuras: o Templo de Afrodite.
Hermes lembrou-se do que Magno dissera sobre as novas sacerdotisas e a obsessão dos homens da cidade. Seus lábios se curvaram para baixo, e ele se viu balançando a cabeça em reprovação. Sávio tinha uma mulher jovem e dedicada em casa, mas ali estava ele, entrando em um templo conhecido agora por serviços que nada tinham de divinos. Não era ele o Deus dos julgamentos, mas havia aprendido a valorizar a fidelidade.
Hermes subiu na lateral de um prédio vizinho, escalando as pedras salientes até alcançar o telhado. De lá, ele tinha uma visão privilegiada do pátio interno do templo.
Sávio caminhou até o centro do pátio, onde uma estátua de Afrodite, com o rosto parcialmente desgastado pelo tempo, dominava o espaço. O homem caiu de joelhos sobre o mármore frio. Suas mãos estavam entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Sávio começou a rezar em voz baixa, e Hermes pôde ver o tremor em seus ombros. O rosto do homem estava contorcido em angústia.
A estátua da deusa pareceu despertar algo em Hermes. Seus pensamentos se tornaram mais analíticos, desconfiados. Não poderia se dar ao luxo de ignorar quaisquer sinais.

Ele se lembrou do encontro no mercado: a intervenção de Sávio fora conveniente demais, benevolente demais. Lembrou-se dos bustos de mármore na entrada da cidade, as feições de Sávio eram idênticas às da linhagem real de Pérgamo. O “homem comum” que vivia em uma casa humilde era uma peça que não se encaixava no tabuleiro. A forma como os recebera com tanto empenho e generosidade. Aquilo não o havia convencido desde o início, mas ele havia permitido que se seguisse, interessado em saber onde tudo iria levar.
Talvez, levasse ao usurpador. Mas, agora, vendo um homem desesperado em uma prece dedicada a um daqueles que o haviam derrubado, ele percebia que o buraco poderia ser bem mais embaixo.
Sávio se levantou e iniciou o caminho de volta, ao mesmo tempo, uma sombra se movimentava no topo dos telhados. O rapaz não pareceu perceber. Seus olhos acompanhavam os próprios pés e o calçamento, preocupados, angustiados.
Quando virou a primeira esquina, sentiu um frio que o paralisou. Um frio que contaminava seu rosto. Uma lâmina, extremamente afiada, estava colada ao seu rosto, brotando de trás da parede que ele acabara de ultrapassar.
O metal estava frio contra a pele do pescoço de Sávio. Ele parou de respirar por um segundo, os olhos arregalados fixos no vazio à frente. Hermes deu um passo para fora da escuridão lateral, mantendo a ponta da espada curta pressionada com firmeza o suficiente para que o homem sentisse o perigo, mas sem romper a epiderme.
— Pensei que estivesse em busca de prazer, não de perdão — disse Hermes. Sua voz era grave e constante, sem qualquer traço de hesitação. — Rezar para uma estátua desgastada no meio da noite é um hábito estranho para um homem que diz se contentar com tão pouco.
Sávio tentou engolir em seco, mas o movimento fez seu pescoço raspar na lâmina. Ele ergueu as mãos lentamente, em um sinal de rendição. Suor frio escorria de suas têmporas, apesar do vento gelado da noite.
— Hermes… Te-tenha calma… — balbuciou Sávio. Seu tom de voz, apesar da situação, pareceu mais polido que o de costume, mas também mais natural em sua inquietação.
— Eu estou calmo. — rebateu Hermes, aproximando o rosto do ouvido do homem. — Vamos falar sobre coincidências. Um “homem comum” que aparece exatamente no momento em que estrangeiros são atacados. Um “anfitrião generoso” que vive em uma casa discreta, mas que possui as mesmas feições de mármore dos bustos que guardam os portões desta pólis…
Hermes girou a espada ligeiramente, forçando Sávio a inclinar a cabeça para trás.
— Quem é você? E o que os deuses, ou quem quer que esteja controlando aquela floresta, prometeram a você em troca de nos manter sob seu teto?
Sávio fechou os olhos. Seus ombros tremiam quando ele soltou um suspiro longo e pesado. O tremor diminuiu e, aos poucos, seu olhar também.
— Ninguém me prometeu nada, Hermes — disse Sávio. Seu olhar era firme contra o algoz, sua voz, também. — Eu rezo porque é a única coisa que me restou. Meu pai está morrendo em um leito cercado de traidores. Meus irmãos estão prontos para rasgar este reino por uma coroa que logo será enterrada por raízes e galhos.
Ele abriu os olhos e encarou Hermes. Não havia mais a fachada de benevolência, mas a sinceridade que finalmente se revelava.
— Eu trouxe vocês para minha casa porque precisava de homens que não estivessem na folha de pagamento do meu pai ou sob a influência das sacerdotisas. Eu precisava de estrangeiros que pudessem me ajudar a partir.
Hermes não recuou a espada.
— Nome e título. Agora.
O homem sustentou o olhar dourado e frio de Hermes.
— Sávio é o nome que uso para poder amar a mulher que escolhi sem que me matem por isso — afirmou ele. — Mas meu nome de nascimento é Átalo. Eu sou o Príncipe Herdeiro de Pérgamo. E se você não me matar aqui mesmo, talvez ainda tenhamos uma chance de impedir que esta cidade seja devorada.
Hermes manteve a lâmina encostada no príncipe por mais alguns segundos, processando a confirmação daquela suspeita. O silêncio da rua era quebrado apenas pelo farfalhar das folhas próximas. Lentamente, ele recolheu a arma e a guardou na bainha de couro.
Os ombros de Átalo caíram, relaxados, e um suspiro longo escapou de seu peito quando ele levou uma das mãos ao próprio pescoço.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.