Índice de Capítulo

    Karl despertou com o ronco insistente do próprio estômago.

    Por um instante, pensou que ainda estivesse caindo.

    Aquela sensação de vazio no peito, a ausência de chão, o corpo suspenso no ar, fazendo seus dedos se contraírem contra a pedra fria. O ar pareceu escapar dos pulmões antes mesmo que ele inspirasse.

    Então veio o som.

    Clac.

    Clac-clac.

    Estralos secos, mecânicos, ecoando em intervalos regulares. Pequenas patas de metal raspando contra a rocha. O barulho se movia pelas paredes, pelo teto, por lugares que ele não conseguia enxergar.

    As aranhas.

    Karl abriu os olhos de vez.

    O teto do “templo” se é que merecia esse nome era alto demais para transmitir conforto. Arcos de pedra escura se fechavam acima dele como uma concha invertida, gravados com linhas e símbolos que não pareciam feitos para serem admirados, mas para funcionar. Nada ali parecia decorativo.

    Ele piscou algumas vezes, tentando entender quanto tempo havia passado desde a queda. Desde o impacto.

    Não conseguiu.

    Ali embaixo, o tempo não se comportava como devia.

    — Filho… que bom que acordou.

    A voz de Laura veio baixa, próxima demais. Karl virou o rosto e a viu ajoelhada ao seu lado, os ombros levemente curvados, o cansaço estampado nas linhas do rosto. Havia alívio ali e algo mais contido, algo que ela não queria mostrar.

    — Eu já estava ficando preocupada.

    Karl engoliu em seco antes de falar.

    — O que houve? — a própria voz saiu rouca.

    Laura hesitou.

    — Estamos ficando sem comida — disse por fim. — Pensei em ir buscar os mantimentos que caíram conosco no túnel, mas…

    Ela desviou o olhar.

    Karl acompanhou o movimento e viu Lyra.

    A garota estava alguns metros adiante, de pé diante de um painel incrustado na parede. Os dedos percorriam as runas com cuidado quase íntimo, como se estivesse lendo algo que só ela conseguia ver. Seus lábios se moviam sem som, e os olhos brilhavam com uma atenção que não combinava com o lugar, nem com a situação.

    — Preciso de alguém para cuidar do Gustav na minha ausência — continuou Laura, mais baixo. — Mas essa menina… não sei, filho. Acho que tem algo errado com ela.

    Karl ficou em silêncio.

    Observou Lyra por mais um segundo do que deveria.

    — Entendi.

    Ele se levantou devagar, sentindo os músculos reclamarem. Ajeitou as roupas sujas, mais por hábito do que por necessidade.

    — Mas acho melhor a senhora ficar com ele.

    Laura franziu o cenho imediatamente.

    — Karl—

    — Eu não sei primeiros socorros como você — completou, antes que ela terminasse — e você não se move tão bem quanto eu nesses túneis escuros.

    — Não é seguro — insistiu. — Nem sabemos o que são aquelas criaturas de metal lá fora.

    — Eu sei.

    Karl respirou fundo. O ar ali tinha gosto de pó antigo e ferro frio.

    — Mas não temos tempo. Precisamos achar um jeito de sair daqui… e rápido. Antes que morramos de fome.

    Laura não respondeu. Apenas assentiu, derrotada pela lógica que odiava aceitar.

    Karl tocou o ombro dela brevemente, um gesto rápido e seguiu em direção à saída. Lyra nem percebeu quando ele passou; seus olhos permaneciam presos às runas, como se o mundo tivesse diminuído ao redor dela.

    O caminho de volta ao túnel estava movimentado.

    Movimentado demais.

    Para uma cidade subterrânea “morta”, havia atividade em excesso.

    Pequenas aranhas de metal cruzavam os corredores em padrões irregulares, carregando placas de metal, fragmentos de estruturas antigas, peças que Karl não reconhecia. Alguns escalavam paredes verticais com facilidade absurda. Outros desapareciam em fendas estreitas, reaparecendo segundos depois em outro ponto.

    Não havia pressa. Não havia hesitação.

    Tudo funcionava.

    Karl diminuiu o passo em um corredor observando.

    — Que merda de lugar é esse…?

    Então o espaço se abriu.

    À frente dele, a cidade se revelou por completo.

    Um domo colossal de pedra entalhada envolvia tudo, erguendo-se em curvas suaves até desaparecer na escuridão superior. As inscrições que cobriam as paredes não pareciam artísticas eram técnicas, precisas, repetidas com variações mínimas, como se obedecessem a uma lógica matemática.

    Metal e rocha dominavam o cenário.

    Plataformas suspensas quebradas. Passarelas rachadas ligando setores diferentes como cicatrizes antigas. Torres partidas ao meio. Escadarias que levavam a nada.

    Karl avançou até uma pequena ponte de metal que cruzava um vão profundo. Ao chegar ao centro, parou.

    Dali, a cidade se estendia abaixo dele.

    Era enorme.

    Casas destruídas se amontoavam em níveis diferentes, formando um labirinto de ruínas. Entre elas, as aranhas metálicas se moviam sem cessar, pequenas demais para a escala daquele lugar e ainda assim responsáveis por mantê-lo inteiro.

    Karl sentiu algo estranho no peito.

    Ele sempre vivera no subsolo. Túneis, cavernas, corredores estreitos. Achava que conhecia o peso da terra acima da cabeça.

    Mas aquilo…

    Aquilo o fazia se sentir pequeno de um jeito novo.

    Foi então que viu as árvores.

    No nível mais baixo da cidade, onde algumas estruturas estavam surpreendentemente preservadas, havia manchas escuras se erguendo da pedra. Troncos retorcidos. Copas densas. Raízes rompendo placas antigas.

    Vivas.

    — O quê…?

    Piscou. Esfregou os olhos com força.

    As árvores continuavam lá.

    — Não…

    Como algo assim sobrevivia ali embaixo? Sem sol. Sem chuva. Sem ciclos naturais. E ainda assim… cresciam.

    A pergunta ficou martelando enquanto ele retomava o caminho. Agora, prestava atenção a tudo. Os autômatos não apenas limpavam, reforçavam, substituíam, ajustavam. Mantinham.

    A cidade estava em ruínas.

    Mas não abandonada.

    Por quanto tempo aquilo funcionava sem ninguém?

    Karl engoliu em seco ao avistar a entrada do túnel à frente. A abertura escura parecia engolir a luz artificial da cidade, como uma boca esperando.

    Ele apressou o passo.

    Seja o que fosse aquele lugar… não estava morto.


    O caminho de volta pelo túnel pareceu mais curto.

    O som das botas contra a pedra irregular ajudava a manter os pensamentos alinhados. Respirar. Inspirar. Expirar. Mas a sua mente continuava inquieta.

    Ivar.

    Gustav.

    Lyra.

    A mãe.

    Ele tinha sobrevivido. Não por mérito, por acaso. E isso pesava mais do que qualquer ferimento. Ele passou pelas armadilhas desativadas, agora procurando materiais uteis que pudessem usar, mas não demorou muito para que os corpos surgissem à frente,

    Ele diminuiu o passo. Algo estava errado.

    Não soube dizer o quê de imediato. Apenas aquela sensação incômoda de que a memória e a realidade não estavam no mesmo lugar.

    Os corpos não estavam exatamente como ele lembrava.

    Um braço fora de posição. Uma perna virada num ângulo diferente. Pequenas alterações. Coisas que não importariam… se ele não estivesse atento demais.

    — Deve ter sido as criaturas… — murmurou.

    As aranhas de metal.

    Era fácil culpar aquilo. Precisava ser aquilo.

    Karl seguiu antes que o pensamento se desfizesse.

    As caixas estavam ali. Puxou uma delas, ajoelhando-se. A madeira cedeu, rangendo, mas resistiu.

    Dentro: frutas esmagadas. Algumas perdidas. Outras aproveitáveis. Pães duros. Carne seca intacta.

    Alívio. Agora eles teriam ao menos alguns dias de comida.

    O cheiro veio logo depois. Ferro. Suor. Sangue seco.

    O estômago revirou.

    — Aguenta… — sussurrou.

    Separou o que ainda servia com cuidado quase cerimonial. Cada item salvo parecia um pedido de desculpa.

    Ivar estava perto demais.

    Karl evitou olhar. Sabia exatamente onde ele estava. Sabia como o rosto deveria estar, mas não conseguiu reunir coragem suficiente para olhar.

    — Eu volto — disse, baixo. — Prometo.

    Enterrá-lo. Antes que as aranhas levassem o corpo. Antes que a ruína o reclamasse também.

    Com tudo reunido, fechou a caixa quebrada e começou a arrastá-la.

    O som das tábuas raspando na pedra encheu o túnel. Ritmo. Movimento. Vida.

    Não pensar. Só ir. Aos poucos a luz artificial voltou a iluminar o túnel. Assim que alcançou a saída, parou para respirar, aliviando a tensão.

    Foi então que ouviu.

    Um som atrás dele.

    Baixo.

    Úmido.

    Karl congelou.

    O arrastar cessou. O silêncio ficou pesado demais.

    Ele virou devagar.

    Os corpos se mexiam. estavam agora próximos da abertura.

    Espasmos. Dedos contraindo. Um ombro tremendo. Uma luz branca, fraca, envolvendo-os como névoa doente.

    O coração disparou.

    Um deles se ergueu.

    Lento. Desajeitado. Forçando articulações mortas.

    Ivar.

    A cabeça pendia para o lado. Os olhos estavam abertos, vazios… mas não completamente.

    — …N-não — sussurrou Karl.

    Havia algo ali. Algo que não deveria existir.

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