Capítulo 108 — Noite de Provação
Dois dias antes da queda de Santa Marília…
A noite se estendia pelos céus imperiais, com a lua minguante humildemente se escondendo entre as nuvens. No quintal da “Roman Remédios”, Leonard residia sentado em um pequeno banco de madeira, acompanhado de Schumacher, Ren e a sua namorada Denise.
Porém, o clima não era um dos mais confortáveis. Tirando Ren, que estava muito entretido em entalhar uma batata com seu canivete, Schumacher parecia transtornado, ao ver que algo em seu chefe tinha mudado em dois dias. Ele sempre teve aquele ar de elegância e superioridade, típico de um herdeiro. Agora, seu olhar parecia bem mais desvairado e o seu silêncio era sepulcral. Não podia deixar de sentir algo ruim emanando dele.
Para Denise, as coisas pareciam bem piores. Seus olhos esverdeados tinham mudado de tonalidade, para algo bem mais amarelado. Sua respiração parecia mais pesada, veias ocasionalmente despontavam em sua têmpora e sua mente sempre parecia estar em outro lugar. Pela manhã, ele mal saiu do próprio quarto. Não fazia ideia de onde seu namorado passou a noite anterior. Ela sabia que Leonard tinha um affair com a empregada, mas nem Anastasia sabia onde ele tinha ido parar.
Surgindo das sombras, Malvius apareceu, segurando o que parecia ser uma enorme caixa de madeira lacrada. Denise imediatamente ergueu o lábio, em sinal de desprezo. Não havia ser humano que ela odiasse mais do que Malvius. Principalmente quando descobriu os componentes que ele usava em suas receitas. Embora fosse um alquimista habilidoso, isso veio com o detrimento da própria humanidade.
— Está tudo pronto, Sr. Bakir — disse Malvius, pondo a caixa sobre a mesa. — Posso perceber que a pílula se estabilizou bem em seu corpo.
— Pílula? — questionou Denise. — De que pílula você tá falando? O que você deu pra ele?
— Apenas um remédio para fazê-lo atingir seu verdadeiro potencial. Caso sua memória esteja em falha, eu sou um alquimista muito competente, mocinha.
Fagulhas azuis começaram a despontar entre seus dedos.
— É exatamente por isso que você não é confiável! Qualquer pílula que você entregar pra ele ou qualquer um da sua guarda pessoal PRECISA passar por mim antes!
Malvius deu dois passos assertivos na direção dela.
— Eu não fiz acordo nenhum com você, jovem. Eu fiz com o seu homem. Não tente agir como se sua presença tivesse qualquer tipo de valor ou relevância em nossos acordos.
As fagulhas em sua mão se transformaram em chamas. Assim que cerrou seu punho, a voz grossa e autoritária de Leonard se fez presente.
— DENISE! — bradou ele, sem levantar da cadeira. — Não estou com paciência para qualquer tipo de petulância. Desfaça sua alquimancia e fique quieta!
Aquelas palavras surgiram como um golpe. Seus olhos desiludidos encontraram seu namorado, que não parecia dar a mínima importância para as suas palavras. Vendo que não teria como protestar, apenas abaixou a cabeça e recuou para trás dele.
— Você conseguiu fazer o bastante? — questionou Leonard.
— Sim. Acredito que com a quantidade que tem aqui, você possa atingir seu grande objetivo.
— Entendo. E suas pesquisas? Como estão progredindo?
Malvius ajeitou os óculos em seu rosto, enquanto mantinha um singelo sorriso.
— Estão avançando como planejado, não se preocupe com isso.
Schumacher semicerrou os olhos. A forma como ele deixava oculto os resultados do seu trabalho o preocupavam.
— Seus homens informaram que a multidão convocada está vindo para cá. Pensou bem, antes de tomar essa decisão? — perguntou Malvius, retoricamente.
Finalmente, Leonard se levantou. Quando estirou seu corpo, Denise viu seus músculos traseiros se moverem de forma estranha, quase como se fossem independentes. Ela não queria mais estar ali.
— Eu não sou um homem que volta atrás. Pode reunir todos na frente da loja.
Aproximadamente trinta minutos se passaram. A frente da apoteca que outrora parecia um deserto, agora tinha aproximadamente duzentos e cinquenta homens e mulheres reunidos na frente dela. Todos ali possuíam um certo nível de conhecimento em combate, o que era visível na rigidez de suas mãos, seus olhares afiados e cicatrizes. Alguns eram ex-militares que entraram na vida de mercenários, outros eram traficantes, alguns guerrilheiros e tinham até mesmo alguns que não possuíam conhecimento profundo na arte da luta, apenas tinha visto a oportunidade.
Todas aquelas pessoas tinham se reunido em apenas doze horas. Havia um pequeno senso de hostilidade entre elas, pois não costumavam confiar em ninguém além de si mesmas. Suas mãos repousavam sobre os pomos das suas espadas, o cabo de suas adagas e as empunhaduras dos seus revólveres, para aqueles que tinham.
Garantindo que aqueles homens estiverem sob controle, vinte milicianos fortemente armados vigiavam o local, prontos para atirar caso qualquer coisa saísse do controle, o que aumentava ainda mais o senso de insegurança no local.
Quando um burburinho começou a surgir, Leonard saiu pela porta da frente junto com Malvius e Schumacher. Sua presença imediatamente silenciou todos ali. Alguns já tinham visto o herdeiro dos Bakir e sabiam que era um jovem habilidoso e promissor, mas naquele momento, algo nele parecia mais diferente. Parecia mais…perigoso.
— Eu gostaria de agradecer a presença de todos aqui esta noite. Normalmente, eu faria uma convocação como essa em um galpão ou na minha propriedade, mas o nível de confidencialidade dessa tarefa precisa permanecer em segredo até o momento certo. Caso o que eu esteja falando saia daqui de alguma forma, irei tomar providências sérias.
Ren arrastou a mesa para o lado de fora, posicionando a caixa misteriosa em cima da mesa.
— Sendo bem direto, eu irei derrubar toda a administração imperial de Santa Marília e estabelecer domínio total sobre a região. Seus recursos, sua mana e seu povo, pertencerão apenas a mim. Não ao Santo Império, nem as casas da alta nobreza.
Um silêncio seguido de burburinhos percorreu a área, pois aquelas palavras pareciam radicais ao extremo. Alguns até mesmo começaram a ridicularizá-lo.
— Sei o que vocês estão pensando, que eu provavelmente estou os enviando em uma missão suicida. Afinal, os inquisidores imperiais e até as Grandes Casas poderiam agir para nos reprimir e não teríamos força para contra-atacar. Não espero que vocês acreditem nas minhas palavras cegamente…você aí! — disse ele, apontando para uma pessoa no meio da multidão. — Aproxime-se.
Seus passos faziam os outros homens se afastarem. Havia uma energia pesada ao seu redor, como se a mana em seu corpo formasse uma camada poderosa em si. Seu corpo era forte, torneado e repleto de tatuagens esotéricas. Era um danês, barbudo, loiro e sem um dos olhos.
— O que você quer comigo, playboy — disse ele, com uma voz tão profunda quanto o abismo.
— Eu vi que você não tem fé nas minhas palavras, tanto que parecia estar contando piadas entre seus colegas.
O homem cruzou os braços. Leonard imediatamente identificou a mana de aura em seu corpo, fazendo jus ao seu porte físico e aparência.
— Eu não estaria te ridicularizando se você não dissesse besteiras. Pelo que escutei até agora, você é só um playboy entediado que quer comprar briga com o império.
Algumas risadas surgiram entre a multidão, envolvida em burburinhos. Schumacher cerrou os punhos, mas seu chefe apenas ergueu sua mão, indicando que estava tudo sob controle.
— Que tal isso? Por que você não reúne seus amigos ali e me provam que estou errado? Vocês são usuários de aura, correto? Acredito que sejam até mesmo os mais fortes entre essas pessoas. Se você me subjugar, eu te pago o equivalente a dois anos de salário e você pode simplesmente ir embora.
Um sorriso sinistro se formou no rosto do danês.
— Vai se arrepender disso, garoto!

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