Capítulo 193: Vida e Morte
Com as asas de sombras nas costas, Renato voou alto.
Atravessou as nuvens feito um míssil, seguindo aquele rastro.
Não foi difícil.
Hiro deixava para trás um rastro com o odor da morte.
Finalmente, Renato aterrissou sobre o asfalto. Com a velocidade e a força do impacto, o asfalto se partiu.
Diante dele, caída no chão, desmaiada, estava Clara Lilithu.
A alguns metros adiante, os portões do prédio dela estavam abertos.
Parado, de pé, olhando a súcubo, estava o Hiro Zumbi,
Uma brisa gelada soprava.
Não se ouvia nenhum barulho. Era como se todos os pássaros e cães, e demais animais que fervilhavam pela cidade, estivessem mortos.
Não havia viva alma.
Renato sentiu seu coração ser apertado.
— Hiro, você…
— Não. — Ele ergueu os olhos para encarar o amigo, e Renato percebeu que aqueles olhos totalmente pretos estavam cheios de medo. — Ainda não. Mas…
— Hiro, me escuta…
— Não! — O Lacaio da Morte recuou como um gato assustado. — Eu não quero te machucar! Não quero! Não quero! Mas… eu vou… — A voz saiu chorosa e entrecortada. — Vou machucar todo mundo… !
— Hiro, eu confio que…
— Então pare de confiar, droga!
Hiro abriu as asas e voou em direção a Renato, e afundou os dois punhos no estômago do amigo.
Renato foi arremessado para trás, rolando sobre o asfalto áspero, com as pedras dilacerando sua pele.
Quando se levantou, mal podia respirar direito.
A dor no ventre era intensa, como se ele tivesse comido vidro.
— Eu confio… que você pode lutar contra isso… — Balbuciou Renato, com dificuldade.
Hiro o olhou com ódio.
— Precisa me matar, senão…
O braço direito de Hiro mudou. A carne apodrecida se contorceu e começou a mudar de forma, até se tornar como uma lâmina afiada, negra feito necrochorume.
—… eu mato todo mundo — completou. — Eu teria matado aquela súcubo que encontrei caída ali, se você não tivesse chegado a tempo. Eu teria matado!
— Encontrou ela caída ali?
Hiro não respondeu.
Apenas abriu as asas e, dando as costas para Renato, voou até Clara.
A lâmina de seu braço estava ameaçadoramente posicionada. Ele a afundaria no peito de Clara.
Mas Renato o deteve bem a tempo.
A Espada do Ódio colidiu contra a lâmina de Hiro, desviando-a e fazendo ela afundar no chão.
Renato pulou sobre ele e o abraçou, o tipo de abraço que segura firme e não deixa sair.
— Precisa me matar! — rosnou Hiro, com dentes cerrados. Saliva e sangue escorriam de sua boca. Seu hálito era de cadáver.
— Não! Você é meu amigo! Meu único amigo!
— Não sou mais. Seu amigo morreu, Renato. Sinto muito. Eu sou apenas… carne morta que se mexe. Sou uma marionete. Sou uma arma e nada mais. Se não me matar, eu te mato, e depois mato todas elas!
Algo rasgou a carne de Renato.
A lâmina de necrochorume estava penetrando em suas costelas.
Renato, por reflexo, deu um empurrão em Hiro, jogando-o para longe.
Depois, tocou com os dedos a lateral de seu corpo, abaixo do braço, e sentiu a umidade quente e viscosa do sangue.
Ele caiu com um joelho sobre o asfalto.
Por pouco seu coração não foi atingido.
Uma poça de sangue se formava no chão.
A visão falhou por alguns segundos.
A exaustão e os machucados de sua luta contra Peste e Guerra, acumulados e contidos todo esse tempo, caíram sobre ele tudo de uma vez, como as águas de uma barragem que, não suportando o peso que segura, se rompe.
O corpo formigava.
Seus músculos tremiam.
Ele pressionou a ferida nas costelas, para tentar conter o sangramento.
Hiro se aproximou.
— Você não aguenta mais lutar, Renato. Está no limite. É hora de morrer, finalmente. — No rosto dele, havia até uma micro expressão de piedade.
— Você protegeu elas! Lutou contra alguém mais forte do que você só para protegê-las! Se machucou todo pelo bem delas. Porque eu te pedi! Porque você é esse tipo de pessoa, Hiro! Você é bom! Foi o único que não me discriminou quando eu cheguei na escola! Todo mundo me evitava porque tinham medo de mim… mas você me chamou pra jogar Guitar Hero e comer o bolo de chocolate que a sua mãe fez! — Renato sorriu, em meio a expressão amarga de dor. — Você é esse tipo de pessoa, Hiro! Você ama sua mãe mais do que tudo! Você daria a sua vida por ela! Eu sei disso! E eu sei que ama seu pai tanto quanto ama ela, apesar de sempre reclamar que ele trabalha demais! Porque você é assim! Você não é uma ferramenta da Morte! Você é meu amigo, droga!
— Seu amigo está morto — respondeu ele, com uma única lágrima brotando num dos olhos.
E Hiro levantou a lâmina de necrochorume, preparando-se para cortar a cabeça daquele que foi, em vida, seu melhor amigo.
— É realmente um final triste para todos nós.
E moveu a lâmina, em direção ao pescoço de Renato.
Mas algo o impediu de executar o movimento com perfeição, e ele errou o golpe.
A mão de Clara Lilithu se agarrara em seu calcanhar, e ela o puxou para trás, desequilibrando o garoto zumbi e fazendo ele cair para no chão.
Renato se levantou.
Sua ferida nas costelas já tinha estancado e o sangramento tinha sido contido. Mas ainda doía para diabo! E ele mal conseguia respirar direito.
— Renato… — gemeu Clara, em meio a dor e agonia de desobedecer o pacto. — Mata ele. Pelo bem dele.
Hiro se levantou.
— Todas elas te amam muito — disse ele, com um sorriso amargo. — Ela está certa, Renato. Precisa me matar!
— Deve ter outro jeito!
— Não tem outro jeito, caralho! — gritou Hiro, impaciente e irritado. — Precisa me matar! Por favor! Eu tô te pedindo. Te implorando! Me mate! Isso… ser trazido de volta desse jeito… dói demais. Dói na alma. Dói até os ossos! E vai doer mais ainda se eu continuar ferindo você ou matar alguém que você ama.
— Hiro…
— Por isso, por favor, se você foi meu amigo de verdade, crave sua espada no meu coração. Só assim pra eu morrer.
Renato deixou lágrimas verterem por seus olhos. Ele apenas balançou a cabeça, em negação.
— Eu sei — disse Hiro. — É muito injusto. Mas só você pode fazer isso.
— Eu não quero…
— Eu sei. Eu também não ia querer estar no seu lugar. Mas precisa. Tô te pedindo, antes que eu perca o controle novamente.
— Me perdoe! — Renato fechou os olhos e, com a Espada do Pecado nas mãos, desferiu um golpe certeiro.
Sua lâmina negra penetrou no peito de Hiro, rasgou a carne podre e morta, até perfurar seu coração.
Os olhos de Hiro, que antes estavam completamente pretos, voltaram ao normal, com a parte branca e sua íris escura, porém humana, aparecendo.
Ele sorriu.
— Obrigado. Diga à minha mãe que eu amo ela! Diz pra ela! Por favor! Não pode esquecer! Diz que eu amo ela demais! Se esquecer…
— Eu digo.
— E diz pro meu pai… que eu sei que o motivo dele trabalhar tanto, é que ele só quer dar o melhor pra mim. Ele se sacrificar tanto pelo meu futuro, e eu nem vou ter futuro… é muito injusto… diz que eu amo ele! Diz que eu só queria… que ele me abraçasse mais…
— Eu digo, meu amigo. Eu digo.
E o cadáver de Hiro caiu no chão. Sua vida temporária já tinha lhe deixado. Mas, diferente de antes, ele parecia em paz.
Palavras do Autor:
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