Capítulo XXXII - Ás de Espadas
Afastei-me da floresta a passos rápidos.
A paisagem noturna começa a mudar, e mergulhar em uma profunda escuridão. Nuvens começavam a cobrir a luz das luas, uma forte tempestade estava a caminho.
— Lefkó, assuma o controle. Vou ativar o “Ás de Espadas”. Lhe encontro no porto
— O quê? Espere! — Ela saiu do bolso interno do casaco e se enrolou no meu pescoço, e o apertou num gesto de protesto.
Levantei a carta, cuja ilustração mostrava uma espada cravada em uma pedra, e ao redor dela, armaduras e escudos quebrados.
Proclamei o poder da carta ao mesmo tempo que Lefkó mordeu o meu pescoço.
Meu olhar se tornou distante, me sentia um tanto zonzo, minha boca se abriu involuntariamente, e o meu corpo pendeu para frente. Quando recobrei os sentidos, eu não estava mais no meu corpo.
Eu estava um pouco acima dele, como se o observasse em terceira pessoa.
— Thomas! — gritou o meu corpo. A voz era minha, o timbre era meu, todavia não era eu quem falava.
Observei meu corpo quase cair no chão, antes de recobrar o equilíbrio e assumir um rosto irritado. Era Lefkó que agora assumia o controle de Thomas Nyrzyr.
Meu novo corpo não era humano.
Eu era uma águia de forma etérea, quase translúcida, composta de linhas de luzes pálidas e sombras finas. Não precisava bater asas para permanecer no ar; eu planava parado no mesmo lugar, como se levitasse.
Abri as asas.
Ganhei altitude sem dificuldade, e as árvores lá embaixo se tornaram pequenos pontos escondidos pelas nuvens de tempestade.
Não podia perder mais tempo. Precisava chegar ao porto o quanto antes.
As luzes das lanternas noturnas iluminavam o porto de Tianhang; os mastros dos grandes navios projetavam sombras distorcidas conforme as luas eram encobertas pelas nuvens de tempestade.
E lá estava ela.
Cercada por cerca de uma dezena de discípulos dos Hua Yuling e quase duas dúzias de guardas da cidade, Wen Qishu Mei não tinha rotas de fuga. Os cultivadores ocupavam a linha da frente; em seus rostos havia desde seriedade calculada até sorrisos abertamente maliciosos. Atrás deles, os guardas empunhavam lanças com visível apreensão, mas mantinham a formação, confiantes na vantagem numérica e na proteção que aquela fileira lhes oferecia.
Encurralada contra o casco imponente de um Zuò Chuán de seis mastros, Wen Qishu Mei mantinha a postura firme. Empunhava uma espada de lâmina única, levemente curvada, menor que as armas dos guardas, porém muito mais leve e feita para a velocidade. O vestido vermelho vibrante estava rasgado, encharcado e manchado de sujeira; o mesmo se aplicava aos cabelos outrora bem arrumados, agora soltos, molhados e sujos de lama. Um corte raso no ombro esquerdo ainda sangrava, e o líquido vermelho escorria por seu braço direito antes de pingar no chão.
Um dos anciãos dos Hua Yuling inclinou a cabeça, e os homens deram um único passo para frente antes de arregalaram os olhos. Seus corpos congelaram de temor, e sua confiança foi quebrada.
Tudo que Mei precisou fazer foi levantar sua espada, e a apontar para eles.
A sensação era semelhante à que experimentei na floresta, diante de Renyan. Era uma clara intenção assassina, direcionada para todos aqueles oponentes.
Todavia, a aura de Mei tinha outro aspecto. Era muito mais densa, no mínimo o dobro se comparada com a de Renyan.
Os cultivadores balançaram a cabeça, e colocaram a mão em seus rostos, confusos e atônitos pela visão. Os guardas pararam, enquanto os cultivadores avançaram. Quando o primeiro deles se aproximou um pouco demais, Mei moveu sua espada em um corte no ar.
A espada brilhou em tom avermelhado, e aproximou-se mortal do oponente. Em um reflexo rápido, ele juntou as mãos e criou um escudo dourado ao redor de si.
Não foi o bastante.
O golpe de Mei quebrou a barreira, que se fragmentou como vidro frágil antes de desaparecer totalmente. O corte superficial arrastou-se de um lado para o outro, do ombro esquerdo dele até a metade inferior do seu abdômen.
O homem cambaleou para trás e caiu de forma desajeitada, a expressão marcada mais pela incredulidade do que pela dor. Dois companheiros o seguraram pelos braços antes que ele caísse.
Todos mantiveram suas posições, até que um dos cultivadores, um jovem no fim dos vinte anos, avançou um passo. Lançou um olhar rápido ao ferido e, em seguida, se colocou em posição de duelo, e desafiou Mei para atacá-lo.
A chuva começou a cair naquele mesmo momento.
Mei parou por um instante, contemplou os céus, fechou os olhos como se fizesse uma prece rápida.
— Tio, me perdoe… — murmurou ela, em um tom baixo e melancólico.
Seus olhos castanhos cor de mel mudaram para uma cor mais avermelhada, como a brasa de uma fogueira. O sangue que escorria do ferimento parecia absorver a água da chuva, e cicatrizar a área. Apesar de estar cercada contra um inimigo que lhe parecia superior, seus olhos não transmitiam medo, pelo contrário, parecia que ela sorria confiante perante ao perigo iminente.
Ela atacou com a fúria de mil homens. A espada dela foi mais rápida que a reação do oponente para conjurar uma barreira. O cadáver ainda nem havia tocado o chão quando os demais cultivadores avançaram em conjunto.
Com golpes ágeis e fluídos, Mei defendia com graciosidade, cinco, até mesmo sete golpes dos oponentes ao mesmo tempo. Seus movimentos eram excepcionais; ela parecia não tocar o solo, deslizava pelo chão com a leveza de uma pena suspensa pelo vento da chuva.
Ainda assim, a cada defesa, perdia espaço. Passo a passo, Mei era empurrada para trás, cada vez mais encurralada contra o casco maciço do navio. Logo, não havia mais para onde recuar. Seus pés alcançaram a borda do cais; um único passo em falso significaria cair no mar, ou, no melhor dos casos, talvez, arriscar-se a agarrar uma das cordas e escalar até o convés da embarcação.
A chuva escorria por seu rosto, e mechas de cabelo solto cobriam parcialmente um de seus olhos.
Foi então que um cultivador avançou. Não havia rota de fuga aparente. As espadas colidiram no ar, o homem lançou todo o peso do corpo contra o golpe, e Mei começou a ceder lentamente. No instante seguinte, ela soltou a empunhadura com a mão livre e projetou a palma aberta para a frente.
Sem que Mei sequer o tocasse, o cultivador foi arremessado para cima, e caiu vários metros de distância.
Aquela técnica, somada à precisão e ao controle demonstrados ao longo de toda a luta, era, sem exagero, impressionante. À primeira vista, Mei me parecia o humano mais forte daquele mundo até agora. Era, claro, uma conclusão apressada, e equivocada.
Era como cair em um formigueiro e, ao testemunhar a disputa entre dois insetos, concluir que aquela formiga era o animal mais poderoso que existia.
Isso não significava, de forma alguma, que Mei fosse fraca. Pelo contrário. Duvido seriamente que, se Renyan tivesse lutado contra ela, teria saído vitorioso. Durante minha luta contra Renyan e os seus “capangas” — que na minha singela opinião, é a melhor palavra para descrevê-los — a única dificuldade real foi a minha própria imposição de limitar meus poderes para deixar a luta mais divertida. Ao observar Mei lutar, porém, eu tinha uma certeza, se eu a enfrentasse, precisaria de uma estratégia de verdade. Confiar apenas no improviso ou agir sem pensar não seria suficiente.
E, bem, não demorou muito para eu ter certeza das minhas reflexões internas.
Senti uma clara mudança no ar.
Era uma pressão súbita e esmagadora, densa como se o porto inteiro tivesse sido submerso em águas profundas, e o mar acima de nós tentasse nos esmagar. A chuva começou a pingar ao redor de Mei de forma irregular, e formou um círculo perfeito e seco ao seu redor, como se algo repelisse cada gota antes que tocasse o chão.
Alguns dos cultivadores deram meio passo para trás, instintivamente. Outros cerraram os seus dentes e fincaram os pés nas tábuas do cais, lutavam contra o impulso inconsciente de recuar. Os guardas, por sua vez, empalideceram de vez; suas mãos trêmulas. Eram homens comuns, treinados para lutar contra ladrões, batedores de carteira e todo outro tipo vil de bandido de meia tigela. Não estavam preparados contra Mei, não contra uma cultivadora que apresentava tamanha força.
Mei flexionou os joelhos.
Curvou levemente o corpo, ajustou a empunhadura da espada e fechou os olhos por um breve instante, puxando o ar em um respiro profundo e controlado. Não havia hesitação naquele gesto. Era preparação.
Então ela se moveu.
Uma dezena deles voou pelos ares como bonecos de pano quando a espada dela encontrou a formação que a encurralava.
Não era mais ela que estava na defensiva.
Os cultivadores tentavam se defender ao conjurar barreiras, ou bloquear os golpes da espada de Mei com suas lanças, espadas ou até mesmo as mãos. Nada parecia o bastante para pará-la.
Até que não havia mais oponentes em pé para desafiá-la.
Corpos espalhavam-se pelo cais, os gemidos dos muitos feridos era silenciado pelo barulho da tempestade. As tábuas de madeira estavam manchadas de sangue diluído pela chuva, e armas largadas rolavam lentamente até parar, empurradas pela inclinação irregular do piso encharcado.
O silêncio foi quebrado pela gargalhada do ancião de vestes amarelas.
— Wen Qishu Mei… — disse ele, ao avançar um passo em direção a ela. — Vejo que fui enganado. A senhorita e o seu tio fizeram um trabalho admirável ao esconder sua verdadeira face.
Mei endureceu o rosto, suas pupilas estavam vermelhas como o fogo, e ela olhava para o ancião como um touro enraivecido.
— Eu nunca me casaria com Renyan. — Ela cuspiu no chão.
— Foi-lhe oferecida uma oportunidade única para a sua família medíocre. — Ele gesticulava com as mãos, o rosto confiante, e a voz mansa. — A senhorita poderia acompanhar o seu futuro marido até o Mar do Dragão. Quem sabe… ascender ainda mais. São poucos os que alcançam a última camada do Primeiro Reino antes dos vinte anos. — Seus olhos percorreram Mei de cima a baixo.
Ele sorriu novamente, agora com orgulho exagerado.
— Nós, da seita Hua Yuling, poderíamos ajudá-la a romper esse limite. Avançar ao próximo reino.
Mei riu pela audácia da oferta.
— Ajuda? — questionou, em um tom retórico. — Vocês chamam de ajuda arrancar a vontade de alguém e acorrentá-la a um verme arrogante?
— Cuidado com as palavras — advertiu o ancião, a voz agora fria. — Renyan está destinado a grandes feitos.
A chuva parou. E em seu lugar, uma forte brisa que vinha do continente se iniciou, como o prenúncio de algo maior.
— Ainda assim, vocês recusaram o acordo. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Por quê? Por um órfão patético, morto com um único golpe? E por um estrangeiro que os abandonou na primeira oportunidade que teve?
Mei mordeu o lábio inferior, os olhos tremendo por um instante antes de se tornarem ainda mais incandescentes.
— Lingxin… — murmurou. — Meu único verdadeiro amigo. E vocês o mataram. Assim como mataram toda a minha família. Não há perdão para nenhum de vocês!
Ela avançou sem hesitar e ele reagiu de imediato. Com um gesto curto e preciso, o ancião conjurou uma barreira dourada, sólida e espessa, que se fechou ao seu redor num piscar de olhos.
A lâmina de Mei colidiu contra a barreira. O choque percorreu o braço dela até o ombro, fazendo seus pés deslizarem alguns centímetros sobre as tábuas encharcadas do cais.
Todavia a barreira não se partiu.
Diferente das defesas dos outros cultivadores, aquela não se quebrou como vidro frágil. Ela apenas ondulou, assim como a superfície de um lago que é atingido por uma pedra, antes de se estabilizar novamente.
— Senhorita, eu estou no Segundo Reino, não pode me derrotar. — Ele sorriu com ironia. — Vamos, pare com isso. Hua Yuling Kai está disposta a perdoar os crimes da Senhorita se aceitar nossa proposta.
— Qual proposta? Me casar com Renyan? — Ele ofegou um pouco, já exausta da luta anterior. — Prefiro morrer.
— É uma pena… — respondeu o ancião, suspirando com falsa resignação. — Mas não é inesperado.
Ele esticou os braços, reuniu o seu qi, e preparou-se para o contra-ataque.
Antes que ele pudesse atacar, uma neblina negra cobriu o cais.
— Ora, ora… — disse uma voz masculina, que ecoava no interior da névoa. — Parece que temos uma luta.
Eu a reconheci no mesmo instante.
Era a minha voz, mas não era eu quem falava.
— Faz tempo que não luto usando um corpo humano — continuou a voz, com um leve traço de divertimento. — Mas acho que isso vai ser… interessante.
A figura se revelou, ao sair da névoa.
Eram minhas roupas, minha fisionomia, meu corpo. Mas não era eu quem o controlava.
— Senhor Nasha Lyu, voltou para morrer? — O ancião virou-se surpreso.
— Meu mestre não está disponível no momento — falou Lefkó, que controlava o meu corpo, com uma piscadela sensual.

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