O cheiro vinha antes de tudo.

    Noah Kraus sentia aquele odor todos os dias, impregnado em sua pele, em suas roupas, em seus pulmões. Era uma mistura de lixo fermentado, plástico queimado e restos de comida podre. Não importava quantas vezes esfregasse as mãos, o cheiro não saía.

    Ele empurrava um carrinho metálico cheio de sacos pretos por um beco estreito de Berlim. As rodas rangiam como se também estivessem cansadas de existir.

    — Anda logo, Kraus — rosnou o supervisor atrás dele. — Você acha que o lixo vai se limpar sozinho?

    Noah não respondeu.

    Nunca respondia.

    Ele só abaixou a cabeça e continuou andando.

    Aos vinte e dois anos, sua vida já parecia ter acabado.

    Morava em um quarto menor que um banheiro, com infiltrações no teto e um aquecedor quebrado. O aluguel estava três meses atrasado. A geladeira só tinha duas coisas dentro: um pão duro e um iogurte vencido há dez dias.

    Ele sabia disso porque lia a data todas as noites antes de comer.

    Comia mesmo assim.

    Não por escolha.
    Mas porque a fome não pergunta.

    Noah não tinha amigos. Não tinha família por perto. Não tinha ninguém que ligasse para saber se ele ainda estava vivo.

    E talvez fosse exatamente por isso que ninguém percebeu quando ele quase parou de existir.

    O metrô estava lotado naquela noite.

    Corpos se empurravam, vozes se misturavam, anúncios ecoavam no teto da estação como zombarias metálicas.

    Noah segurava a alça acima da cabeça com a mão calejada, os olhos baixos, contando as estações mentalmente.

    Faltavam duas para chegar em casa.

    Ele pensava no pão duro.
    Pensava se o mofo dava para arrancar.

    Então aconteceu.

    Um impacto forte nas costas.

    Noah cambaleou para frente.

    O mundo perdeu o equilíbrio.

    O pé dele escorregou exatamente quando o apito do metrô soou.

    Um empurrão.

    Não um acidente.

    Um empurrão consciente.

    Ele sentiu os dedos na sua jaqueta.

    Sentiu o corpo ser lançado.

    O ar saiu dos seus pulmões.

    O chão desapareceu.

    Por um segundo infinito, Noah Kraus flutuou.

    E então…

    O farol do metrô iluminou seu rosto.

    O rugido do trem explodiu no túnel.

    E a última coisa que ele pensou não foi em vingança.

    Foi:

    “Então… é assim que eu termino.”

    O impacto veio.

    E Noah Kraus deixou de existir.

    Noah acordou respirando.

    Foi a primeira coisa que percebeu.

    Ar entrando nos pulmões.
    Ar quente.
    Ar limpo.

    Ele abriu os olhos lentamente, como quem teme descobrir que ainda está morto.

    O teto acima dele era de madeira clara, sustentado por vigas grossas e bem tratadas. Pequenas rachaduras deixavam passar filetes de luz dourada do amanhecer. O cheiro no ar não era de lixo, nem de mofo, nem de ferrugem.

    Era um cheiro de pão fresco.

    Noah ficou imóvel.

    O corpo não doía.

    Não havia o peso esmagador da fome.
    Não havia o frio que sempre mordia seus ossos.

    Ele levou a mão ao peito.

    Sentiu o coração bater.

    — …Eu… — a voz saiu rouca, mas viva.

    Ele se sentou devagar.

    O quarto era simples, mas limpo. Uma cama firme, coberta por um cobertor de lã grossa. Uma pequena mesa com uma vela apagada. Um par de botas de couro bem cuidado ao lado da porta.

    Era humilde.

    Mas era… digno.

    Noah olhou para as próprias mãos.

    Não estavam mais rachadas, nem feridas. Ainda tinham calos — sinais de trabalho — mas pareciam mãos de alguém que vivia, não de alguém que sobrevivia.

    Ele se levantou.

    As pernas não tremeram.

    Não houve tontura.

    O corpo obedecia.

    Ele caminhou até a pequena janela de madeira e a abriu.

    Lá fora, viu uma vila.

    Casas de pedra clara, telhados de madeira, fumaça subindo de chaminés. Pessoas andavam pela rua de terra batida carregando cestos, rindo, discutindo preços. Crianças corriam atrás de galinhas.

    O sol iluminava tudo com uma calma quase irreal.

    — …Onde eu estou? — murmurou.

    A resposta veio do próprio corpo.

    Memórias que não eram dele… mas agora eram.

    Noah sentiu imagens surgirem na mente como um livro sendo aberto.

    Noah Kraus.
    Camponês.
    Carpinteiro da vila de Eidenfall.

    Ele piscou.

    Ele tinha uma casa.

    Tinha um trabalho.

    Tinha comida.

    E — o pensamento o deixou sem fôlego — tinha moedas guardadas em uma pequena caixa de madeira ao lado da cama.

    Ele a abriu.

    Dentro, algumas moedas de cobre e prata brilharam à luz da manhã.

    Não era riqueza.

    Mas era estabilidade.

    E para alguém que vivia comendo comida vencida, aquilo era… luxo.

    Três dias se passaram.

    E nada aconteceu.

    Noah acordava cedo, comia pão quente e sopa grossa, vestia roupas simples mas limpas e caminhava até a oficina de carpintaria da vila.

    Trabalhava lixando tábuas, cortando madeira, consertando portas e janelas.

    As pessoas o cumprimentavam.

    — Bom dia, Kraus.
    — Obrigado pelo conserto, ficou ótimo.
    — Você trabalha rápido.

    Ele não sabia como reagir.

    Mas assentia.

    E, estranhamente… dormia em paz.

    Na noite do terceiro dia, Noah lavava as mãos numa bacia de metal.

    A água refletia seu rosto — o mesmo rosto de sempre. Cabelos loiros acinzentados, olhos azul-gelo, expressão calma.

    Então, sem aviso…

    O mundo tremeu.

    Um som ecoou dentro da cabeça dele.

    Frio. Metálico. Inumano.

    《Bem-vindo, Jogador Noah Kraus》

    A bacia caiu no chão.

    A água se espalhou.

    Noah deu um passo para trás, o coração disparando.

    — Q-Quem está aí…?

    A voz continuou.

    《Sistema da Herança Mortal ativado》

    《Condição oculta cumprida: Morte por Descarte》

    《Classe Única desbloqueada》

    As letras começaram a surgir diante dos olhos dele, brilhando no ar.

    Noah estava tremendo.

    Porque ele entendeu.

    Aquilo…

    Não era uma vida nova.

    Era um jogo.

    E ele… tinha acabado de entrar nele.

    O ar da casa parecia pesado.

    Não era mais apenas silêncio.
    Era expectativa.

    As letras flutuavam diante dos olhos de Noah, emitindo um brilho frio, azul-acinzentado, como hologramas vivos.

    Ele piscou, achando que ia desaparecer.

    Mas não desapareceu.

    《Jogador: Noah Kraus》
    Rank: F — O mais baixo da vila

    Um arrepio percorreu sua espinha.

    Mais linhas surgiram, uma a uma.

    Atributos Iniciais:
    Força: 3
    Agilidade: 3
    Vitalidade: 4
    Mana: 1
    Sorte: 0

    Classe: Camponês
    Habilidade Única: Herança dos Mortos

    Noah sentiu o estômago se contrair.

    — …O que… é isso?

    Aquilo não fazia sentido.
    Não era sonho.
    Não era imaginação.

    Era… uma interface.

    Uma realidade que não pedia permissão para existir.

    Antes que pudesse pensar mais, novas letras surgiram, pulsando lentamente.

    《O jogador deseja tentar a sorte na Roleta do Sofrimento?》
    Giros restantes hoje: 7

    Noah engoliu em seco.

    Ele lembrava da sua morte.
    Lembrava do trem.
    Lembrava do impacto.

    E agora estava ali.

    Se aquilo fosse um jogo…
    então ele já estava jogando.

    Ele fechou os olhos por um segundo.

    — …Sim — murmurou.

    As letras vibraram.

    《Roleta iniciada》

    O ar à frente dele se distorceu, como se o espaço estivesse sendo torcido.

    Um círculo invisível começou a girar, acompanhado por um som seco, mecânico, que parecia vir de dentro da cabeça dele.

    Clique.
    Clique.
    Clique.

    Então parou.

    《Recompensa obtida》

    Uma luz branca explodiu no ar.

    E algo surgiu.

    Uma pequena foice de cabo curto, lâmina simples e curva, com marcas de uso nas laterais.

    Ela flutuava diante dele, girando lentamente.

    Mini-Foice do Camponês
    Raridade: Comum
    Rank: F
    +4 Força

    Noah arregalou os olhos.

    — …Agora pouco… isso não estava aqui…

    Ele estendeu a mão.

    No instante em que seus dedos tocaram o cabo da foice—

    Uma dor desconfortável explodiu pelos nervos.

    Não era insuportável.
    Mas era irritante.
    Ardente.
    Como bater o dedinho do pé com força na quina de uma mesa.

    Noah travou os dentes.

    O coração disparou.

    Dois segundos.

    E então… passou.

    Ele respirou fundo, olhando a arma na própria mão.

    O sistema voltou a brilhar.

    《Missão Diária Disponível》
    Derrote um Goblin da Floresta — Rank F
    Falha resultará em: Parada cardíaca imediata

    — O quê…?

    As palavras pareciam mais frias que o ar.

    Antes que pudesse dar um passo atrás—

    Uma sombra azulada surgiu sob seus pés.

    Ela se espalhou como fumaça líquida, subindo por suas pernas, envolvendo sua cintura, o peito e os ombros.

    O frio atravessou sua pele.

    — E-espera…!

    A sombra engoliu seu corpo.

    A casa, a vila, o mundo—

    Tudo desapareceu.

    Noah sentiu o chão retornar sob seus pés.

    Agora ele estava em meio a árvores altas, raízes retorcidas e um cheiro forte de musgo úmido.

    À sua frente…

    Um goblin de pele verde-escura, olhos amarelados e dentes tortos rosnava, segurando um punhal enferrujado.

    O monstro inclinou a cabeça lentamente.

    E sorriu.

    A primeira luta de Noah Kraus havia começado.

    O silêncio da floresta era pesado.

    Folhas altas escondiam o céu, e uma névoa fina rastejava entre as raízes grossas das árvores. O ar cheirava a terra molhada e sangue velho.

    Noah sentiu o peso da Mini-Foice em sua mão.

    Era leve.

    Mas naquele momento… parecia a coisa mais pesada do mundo.

    À sua frente, o goblin mostrava os dentes tortos num sorriso nojento. A criatura inclinou a cabeça, como se estivesse se divertindo com o medo dele.

    E então avançou.

    Rápido.

    Muito mais rápido do que Noah esperava.

    O punhal enferrujado veio em linha reta para o peito dele.

    Noah deu um passo para trás por instinto.

    O metal passou raspando pelo tecido de sua camisa.

    O coração dele disparou.

    — Droga…!

    Ele ergueu a foice com as duas mãos e atacou desajeitadamente.

    A lâmina cortou o ar.

    O goblin pulou para o lado e soltou um grunhido agudo.

    — Krrsh!

    Ele veio de novo.

    O punhal acertou o braço de Noah de leve, abrindo um corte raso.

    A dor foi real.

    O sangue também.

    — Isso… não é um jogo… — Noah murmurou, ofegante.

    O goblin riu.

    E atacou mais uma vez.

    Noah não recuou.

    Ele avançou.

    Os dois colidiram.

    O corpo pequeno do goblin bateu contra o dele, e os dois rolaram pelo chão.

    Noah sentiu o bafo quente da criatura no rosto.

    O punhal desceu.

    Noah segurou o pulso do goblin com força.

    A lâmina tremeu a centímetros do seu olho.

    Os dedos dele… não cederam.

    E Noah percebeu.

    Eu… sou mais forte do que deveria ser.

    Ele empurrou.

    O braço do goblin foi lançado para o lado.

    Noah ergueu a foice.

    E desceu.

    A lâmina entrou no ombro da criatura, rasgando a carne verde.

    O goblin gritou.

    Noah puxou e golpeou de novo.

    No pescoço.

    Um jato quente de sangue espirrou.

    O corpo do goblin caiu no chão, tremendo, até parar.

    O silêncio voltou.

    Noah ficou parado, respirando pesado, as mãos tremendo.

    Ele tinha matado.

    De verdade.

    O corpo começou a brilhar.

    Uma luz escura saiu do cadáver e entrou no peito de Noah.

    Ele sentiu como se algo estivesse sendo arrancado e enfiado dentro dele ao mesmo tempo.

    — A… aah…!

    A visão dele explodiu.

    Ele não estava mais na floresta.

    Ele estava vendo através de outros olhos.

    Olhos amarelos.

    Ele era o goblin.

    Ele viu mãos pequenas segurando punhais.

    Ele viu pessoas.

    Camponeses.

    Viajantes.

    Uma criança correndo.

    Ele viu o próprio corpo pulando das árvores.

    Ele viu gritos.

    Sangue.

    Ele sentiu o prazer distorcido de caçar.

    Ele sentiu o medo das vítimas.

    E então…

    Ele viu a si mesmo.

    Viu Noah Kraus levantar a foice.

    Viu o golpe.

    Viu a morte.

    — N-não… — Noah gritou.

    A visão explodiu.

    Ele caiu de joelhos na floresta, vomitando no chão.

    O corpo inteiro tremia.

    As mãos apertavam a terra.

    A respiração vinha em soluços.

    — Isso… estava dentro dele… dentro de mim…?

    Uma nova janela surgiu.

    《Herança da Morte ativada》
    Criatura absorvida: Goblin da Floresta (Rank F)
    Atributos herdados: +4 Força, +2 Agilidade
    Memórias absorvidas: Concluído
    Traço racial adquirido: Visão Noturna (Rank F)

    O corpo de Noah queimou por dentro.

    Os músculos contraíram.

    O coração bateu mais forte.

    Ele sentiu como se os ossos estivessem sendo reforçados por dentro.

    Quando se levantou…

    O mundo parecia diferente.

    Mais nítido.

    Mais próximo.

    Mais leve.

    Ele apertou o punho.

    O ar se instalou ao redor dos dedos.

    Meu corpo…

    Ele estava pelo menos duas vezes mais forte do que antes.

    Noah Kraus respirou fundo, olhando para o cadáver do goblin aos seus pés.

    E entendeu.

    Aquilo não era só um sistema.

    Era um caminho sem volta.

    E ele… tinha acabado de dar o primeiro passo.

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