Enquanto o corpo de Roberto jazia no chão, eu podia ver o olhar de Gui. Seus olhos, que antes eram sempre tão serenos, agora pareciam tomados por ódio.

    — Ei, Miguel… — ele perguntou, com um tom sério.

    — Oi, Gui — respondi, ainda caído no chão.

    — O quanto você viu? — Seu olhar se voltou para mim de forma ameaçadora. Quando tentei começar a falar, ele me interrompeu. — Você estava aqui o tempo todo, não é? Você viu ela chegando. Você poderia ter impedido ela… Me responde, por que você não fez nada?!

    Eu sinceramente não sabia o que dizer naquele momento. A sensação que eu sentia era de incapacidade; eu nem sequer conseguia responder às palavras do Gui. Depois disso, ele caminhou até o corpo de Ashley. Lentamente, ajoelhou-se, fechou seus olhos sem vida e, logo em seguida, cobriu seu corpo junto com a cabeça de seu irmão.

    Eu estava tão cansado que não conseguia mover um único músculo. Ao olhar à minha volta, podia ver os corpos de centenas de soldados mortos. A cobra que outrora os havia atacado tinha desaparecido, e só de pensar nela eu sentia um grande frio na barriga.

    Depois de tudo isso, meus olhos ficaram tão pesados quanto toneladas de aço. Quando finalmente os fechei por um momento, eu já não estava mais no campo de batalha.

    Eu estava sentado em uma grande colina. A grama verde e a árvore sob a qual eu me encontrava traziam um forte sentimento de nostalgia. Quando olhei para o lado, lá estava ela novamente… Ashley. Ela estava tão sorridente quanto de costume. Respirei aliviado, pensando que tudo aquilo tinha sido apenas um sonho ruim.

    De repente, ela olhou para mim e falou:

    — Ó, meu querido… ainda sofrendo?

    Aquela não era a voz de Ashley. Eu conhecia aquela voz, mas não sabia de onde ela vinha. Os cabelos de Ashley começaram a ficar cada vez mais brancos, e seus olhos passaram a emanar um estranho brilho verde.

    — Parece que nosso tempo acabou, meu pequeno… Até mais.

    Acordei assustado. Quando abri os olhos, percebi que não estava em casa. Ao olhar para os lados, vi que estava em um quarto com paredes de madeira. Ao meu lado havia um pequeno criado-mudo com um copo de água. Meu corpo estava todo enfaixado, e minha lança estava apoiada contra a parede próxima a mim.

    De repente, pela única porta do quarto, entrou um senhor. Era o avô de Ashley.

    — Olha, parece que o nosso garoto acordou! Bom dia, senhor Miguel! Está se sentindo melhor? — disse ele, com um grande e amigável sorriso no rosto.

    Ao olhar para ele, senti uma culpa esmagadora. Imediatamente tentei dizer algo.

    — Senhor… a Ash…

    Ele me interrompeu, ainda com aquele sorriso bondoso. Mas era possível perceber a melancolia e a tristeza em seus olhos; era como se ele tentasse escondê-las a todo custo.

    — Está tudo bem… Já me contaram o que aconteceu. Você se esforçou bastante, não é? É bom saber que ela tinha bons amigos… Mas, agora, voltando ao que interessa: como você está se sentindo? Melhor?

    Eu percebi o quanto ele tentava não pensar no ocorrido. O quanto ele se esforçava para lidar com aquilo. Então tentei fazer o mesmo.

    — Sim, sim… agradeço muito ao senhor por ter me ajudado, mas… e quanto às outras pessoas que estavam lá? — perguntei, enquanto me lembrava do olhar de Gui.

    — Infelizmente, todos estavam mortos. Você foi o único que encontrei. — Ele fez uma breve pausa. — Consegue se levantar? Preparei um café.

    Assenti com a cabeça e, com certa dificuldade, o segui pelo corredor da casa até a cozinha. Ela tinha uma decoração simples, com alguns quadros e fotos de família. Havia fotos de Ashley, de seus pais e de uma senhora que eu deduzi ser a antiga esposa do senhor Hazman.

    Ele pediu para que eu me sentasse à mesa enquanto preparava uma xícara de café e alguns biscoitos para mim.

    O senhor Hazman colocou a xícara à minha frente com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse me quebrar. O cheiro do café era forte, mas não me trouxe conforto. Ele se sentou do outro lado da mesa, demorando um pouco mais do que o normal, como se organizasse os próprios pensamentos.

    — Você dormiu por três dias, Miguel

    Minha mão travou por um instante em volta da xícara.

    — Três… dias?

    — Três dias desacordado. Febre alta, exaustão extrema. Seu corpo estava exausto. E, enquanto você dormia, muita coisa aconteceu.

    Levantei o olhar devagar.

    — A igreja.

    Ele assentiu.

    — Patrulhas. Muitas. Desde o segundo dia. Eles estão procurando por duas pessoas.

    Eu já sabia a resposta, mas mesmo assim perguntei:

    — Quem?

    — Um homem alto, branco, coberto de tatuagens e um garoto mais jovem e de cabelos cacheados… você.

    O silêncio caiu pesado entre nós.

    — Um dos soldados sobreviveu. Ferido, em choque. Foi ele quem contou tudo. Ele se referiu a vocês como o Demônio Serpente e O Demônio Canino.

    Meu estômago revirou.

    — A morte de um capitão da guarda da igreja não passa despercebida — disse Hazman, com a voz baixa. — Principalmente alguém com influência como Roberto. A história se espalhou rápido.

    Ele desviou o olhar para uma das fotos na parede. Ashley sorria nela.

    — Para a elite, para os altos círculos da igreja… vocês dois são monstros. Aberrações. Um aviso do que acontece quando “o povo errado” recebe poder demais. Eles estão com medo. Não de vocês especificamente… mas do que vocês representam.

    — E o resto das pessoas?

    Ele me olhou de volta.

    — As pessoas oprimidas? — Um sorriso triste apareceu em seu rosto. — Para elas, vocês são outra coisa. Heróis.

    Engoli em seco.

    — Elas não sabem o que realmente aconteceu — ele continuou. — Não viram o massacre. Não viram Ashley. Viram apenas soldados mortos. Viram a igreja sangrar. E isso… muda algo dentro das pessoas.

    Ele apoiou os cotovelos na mesa.

    — A igreja percebeu isso rápido demais. Por isso estão agindo com mais cautela. Menos violência aberta. Mais patrulhas. Mais controle. Eles sabem que um passo em falso agora pode gerar algo maior… uma revolta.

    Olhei para minhas mãos. Ainda tremiam.

    — Gui está vivo?

    Hazman demorou a responder.

    — Não o encontraram.

    Aquilo não me trouxe alívio. Trouxe tensão.

    — Miguel — ele disse, com um tom diferente, mais sério —, a partir de agora, as pessoas agora vão te enxergar de duas formas. Como um demônio… ou como um símbolo.

    Ele se levantou devagar.

    — E nenhum dos dois é seguro.

    O café esfriava à minha frente, intacto. Pela primeira vez desde que acordei, eu entendi: eu não estava me recuperando.

    Eu estava sendo caçado.

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