— O que você tá fazendo aqui? — ele perguntou, com um tom sério e um olhar que eu nunca tinha visto antes.

    — Eu vim atrás de você, não é óbvio? A igreja está atrás de nós. Agora estão nos chamando de demônios.

    — Você acha que eu não sei disso? — ele respondeu, sem alterar a voz. — Eu realmente não me importo de ser visto como um demônio. Ainda mais agora, que sou o líder da minha própria igreja.

    Atrás dele, o espectro se manifestava com mais força. O cachorro que ele chamava de Kaiser parecia maior do que da última vez. Os pelos eram densos, quase sólidos, e as marcas de fogo não tremeluziam — queimavam de forma constante, como se aquilo fosse o estado natural dele. Os olhos da criatura emanavam algo violento. A pressão daquela presença fazia cada instinto do meu corpo gritar para eu recuar.

    — Do que você tá falando? — gritei, forçando minha voz a sair enquanto resistia àquela sensação esmagadora. — Você ficou maluco ou o quê?

    — O que você sabe sobre os espectros, Miguel? — ele perguntou, inclinando levemente a cabeça. — O que você sabe sobre o mundo fora da cidade?

    Não houve tempo para reagir. Em um piscar de olhos, ele estava na minha frente. Senti o calor antes mesmo de perceber o movimento. Ele se abaixou até ficar na altura do meu rosto, seus olhos fixos nos meus, frios, atentos.

    — Vou te mostrar um pouco do que realmente é um espectro.

    O toque foi leve. Apenas a ponta do dedo encostando na minha testa. Ainda assim, no mesmo instante, meu corpo inteiro começou a esquentar. Não era como fogo comum — vinha de dentro. Linhas vermelhas se espalharam sob minha pele, pulsando como veias incandescentes.

    — Flame.

    A dor veio de uma vez. Brutal. Total. Era como se meus órgãos estivessem derretendo lentamente, se deformando dentro de mim. Minhas pernas cederam, e eu caí no chão, incapaz de manter qualquer postura. Abri a boca para gritar, mas nenhum som saiu. Meu corpo simplesmente não respondia.

    — Olha, Miguel — a voz dele soou distante, quase casual. — Eu não te odeio. Mas também não me importaria de te matar aqui agora. Só que tenho coisas mais importantes pra fazer… então vou deixar o trabalho com os dois aí.

    O chão sob seus pés começou a borbulhar. A pedra escureceu, rachou, e, em um instante, ele desapareceu, engolido pelo próprio calor que havia criado.

    Quando ele sumiu, a dor cessou de forma abrupta. Restava apenas um calor residual, fraco, como se tudo aquilo nunca tivesse acontecido. Respirei fundo, ainda no chão, tentando entender se meu corpo estava inteiro.

    Foi então que ouvi passos.

    Os dois homens atrás de mim se levantaram, estalando o pescoço e os ombros. Apoiei-me na lança para ficar de pé, sentindo as pernas pesadas, mas funcionais. A luta ainda não tinha acabado.

    Virei-me para eles. Ambos sorriam.

    — E no fim das contas parece que você realmente conhecia o senhor Kaiser — disse um deles, pegando o porrete do chão. Ao lado dele, o espectro se manifestava: um lobo de porte robusto, atento, os músculos retesados, pronto para atacar. — Mas já que ele te quer morto… que assim seja.

    O segundo brutamontes também se posicionou, o próprio espectro surgindo ao seu lado. O beco ficou pesado outra vez.

    Segurei a lança com mais firmeza.

    O lobo saltou junto, baixo, rápido, ocupando o pouco espaço do beco. Meu corpo reagiu por instinto, mas não como antes. Quando dei meio passo para trás, uma fisgada atravessou minha cabeça, como se algo estivesse sendo apertado por dentro do crânio. Minha visão falhou por um segundo.

    Rolei para o lado e senti o impacto do porrete acertando o chão onde eu estava. A vibração subiu pelo braço que segurava a lança, e o choque fez meus dedos formigarem.

    “Merda.”

    O calor residual do ataque do Kaiser ainda estava ali. Cada movimento mais brusco fazia o peito arder, como se eu estivesse respirando brasas. Minha cabeça latejava.

    Tentei avançar.

    O segundo veio por trás, rápido demais. Senti o deslocamento de ar, tentei girar o corpo, mas a dor explodiu atrás dos olhos. Meu movimento saiu atrasado. A barra de metal acertou minha costela de raspão, arrancando o ar dos meus pulmões.

    “Não dá.”

    Eu tinha certeza.

    Eu não ia ganhar.

    Não naquele estado. Não contra dois. Não depois do que o Kaiser tinha feito comigo.

    Outro golpe veio. Bloqueei com o cabo da lança, mas meus braços falharam. O impacto me empurrou contra a parede do beco, a pedra áspera raspando minhas costas.

    A dor de cabeça pulsou forte, quase me fazendo ajoelhar.

    “Se eu continuar aqui, eu morro.”

    No instante em que eles avançaram juntos, eu tomei minha decisão.

    Corri.

    Empurrei o primeiro com o ombro, ignorando a dor no peito, e disparei pelo beco, ouvindo os passos pesados atrás de mim e os rosnados ecoando como sombras coladas às minhas costas. Minha respiração saiu descompassada, cada inspiração queimando.

    A cidade passava borrada. Virei uma esquina quase caindo.

    — Ele tá fugindo! — ouvi um deles rir. — Não vai longe!

    Minhas pernas já começavam a falhar quando vi uma porta se abrir à minha direita.

    — Entra, menino — disse uma voz fraca.

    Não pensei.

    Me joguei para dentro no mesmo instante em que algo passou zunindo atrás de mim. A porta se fechou rápido, trancada com um estalo seco. Ouvi os passos correndo do lado de fora.

    — Droga, onde ele foi?

    Os passos se afastaram depois de alguns segundos que pareceram minutos.

    Dentro da casa, eu caí de joelhos.

    A dor veio toda de uma vez. A cabeça parecia prestes a rachar. Minha visão escureceu nas bordas, e precisei apoiar a testa no chão para não apagar.

    — Calma… calma… — a senhora dizia, apoiando a mão trêmula no meu ombro. — Eles já foram.

    Respirei fundo, várias vezes, até o mundo parar de girar.

    Quando consegui levantar o rosto, vi melhor onde estava. A casa era simples, pequena, com cheiro de chá e madeira velha. A senhora era baixa, curvada pelo tempo, os cabelos brancos presos num coque frouxo. Os olhos, no entanto, eram atentos demais para alguém que parecia tão frágil.

    — Você tá muito machucado, garotinho. Deixa eu te ajudar — disse ela, enquanto me auxiliava a levantar e me sentava no sofá.

    — Quer me contar por que estão te perseguindo? — perguntou, com uma voz suave.

    Eu apenas neguei com a cabeça. Ela pareceu aceitar a resposta e entrou em outro cômodo da casa. Depois de alguns momentos, voltou com várias ataduras. Em seu ombro, havia uma pequena coruja branca.

    Não sei dizer exatamente por quê, mas ela me transmitia uma calma tão verdadeira que fez quase todo o meu corpo relaxar. A senhora se sentou ao meu lado no sofá e começou a tratar meus arranhões com muito cuidado.

    — Obrigado… — agradeci timidamente. Achava estranho alguém me ajudar daquela forma, ainda mais alguém que claramente não sabia nada sobre mim. — Perdão pela pergunta, mas por que a senhora me ajudou?

    — Hehe… uma velha senhora não pode acudir um rapaz bonito? — disse, sorrindo.

    Dei um leve sorriso tímido.

    — Mas, deixando as brincadeiras de lado, eu agi por impulso quando te vi. Seu rosto me lembra muito o do meu antigo filho.

    A expressão dela se fechou por um instante, atravessada por tristeza e solidão, mas logo voltou àquela calma gentil de antes.

    Enquanto cuidava dos meus ferimentos, percebi que a coruja havia decidido pousar sobre a minha cabeça. A senhora, por sua vez, murmurava repetidamente a mesma frase, quase de forma automática.

    — Perdão, senhora, mas o que a senhora está repetindo?

    Ela riu de leve.

    — Você ouviu meus murmúrios? Que garotinho perspicaz. São encantamentos. Algo que meu espectro me ensinou. Ela inclinou um pouco o ombro. — A propósito, acho que não apresentei, não é? Esta é Toriel.

    No instante em que disse o nome, a coruja soltou um som suave, que soou quase como um cumprimento.

    Aquilo me fez gelar.

    O ritmo daquele “encantamento”… a cadência das palavras… me lembrava demais do que o Gui havia usado mais cedo.

    — Espera, você disse que seu espectro te ensinou isso? Você… consegue se comunicar com ele?

    Ela me olhou como se a pergunta fosse a coisa mais natural do mundo.

    — Mas é claro, afinal eles são partes de nós não é?

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