Capítulo 114 - Persistência.
O alimento foi distribuído sem cerimônia alguma.
Nada de palavras. Nada de rituais.
Pães partidos à mão. Um pouco de carne seca, rasgada em tiras finas demais para saciar a fome, mas suficientes para enganar o estômago por mais algumas horas. O tipo de comida que não confortava, apenas adiava o colapso.
O templo parecia maior em silêncio.
Sem vozes, sem passos ecoando, as paredes curvas davam a impressão de se afastar, como se o espaço respirasse junto deles. O som mais alto vinha do mastigar contido, do roçar ocasional de tecido contra pedra, da respiração irregular de Gustav tentando encontrar um ritmo que não sentisse tanta dor.
Karl comia devagar.
Os olhos baixos. A expressão neutra demais para ser apenas cansaço. Cada movimento parecia automático, mecânico, como se alguém estivesse puxando fios invisíveis. Não levantou o olhar uma única vez.
Foi Gustav, ainda tentando se acostumar com a dor, quem quebrou o silêncio.
— Karl…
A voz saiu cuidadosa. Sem cobrança. Sem acusação.
— O que aconteceu lá fora?
Karl parou de mastigar.
Ficou imóvel por alguns segundos, o pão suspenso entre os dedos, como se estivesse decidindo se valia a pena continuar respirando daquele jeito. Então engoliu em seco.
— Os corpos… — começou, a voz baixa demais para ecoar. — Eles não estavam como eu lembrava.
Laura ergueu o rosto imediatamente.
— Como assim?
Karl inspirou fundo, como quem tenta puxar ar de um lugar que já não tem oxigênio.
— Alguns tinham mudado de posição. Eu achei que fossem aquelas criaturas metálicas… — uma pausa curta. — Até ver um deles se levantar.
O silêncio caiu pesado demais para o espaço.
Denso. Concreto.
Gustav franziu o cenho.
— Um… o quê?
Karl ergueu o olhar pela primeira vez.
— Ivar.
Laura levou a mão à cabeça, como se o nome tivesse peso físico.
— Não — murmurou. — Não pode ser…
— Ele estava andando — continuou Karl, sem emoção aparente. — Mal. Como se o corpo não lembrasse como funcionava. Mas… falava. Tentava.
Gustav apertou o pedaço de madeira que usava como bengala.
— …Igual a Rallen?
Karl assentiu.
— Exatamente.
O nome caiu como uma lâmina.
Gustav fechou os olhos por um instante. Laura já estava se levantando, o rosto pálido, a respiração curta demais para disfarçar.
— Nós precisamos sair daqui — disse ela, firme, urgente demais para ser apenas lógica. — Agora.
— Concordo — respondeu Gustav, forçando-se a ficar de pé. A perna reclamou, ardendo, mas ele aguentou. — Não ficamos mais um minuto do que o necessário.
Lyra piscou algumas vezes, confusa, tentando reorganizar o que tinha acabado de ouvir.
— Espera… — disse. — Os corpos estavam… vivos?
— Não — respondeu Karl. — Não estavam.
Ela franziu a testa.
— Então o que—
— Não importa agora — interrompeu Laura, já reunindo o pouco que tinham. — Depois a gente conversa. Primeiro saímos daqui.
Karl não respondeu à pergunta de Lyra.
Levantou-se também. Voltou a organizar os suprimentos com movimentos mecânicos. Ajustou a caixa. Redistribuiu o peso. Amarrou o que podia com tiras improvisadas. Gustav testava passos curtos, apoiado na muleta, determinado a não se tornar um peso morto.
Lyra observou por um momento. Depois se aproximou de Karl em silêncio e começou a ajudar.
Quando finalmente deixaram o templo, a visão à frente deles fez qualquer senso de urgência ganhar um novo peso.
A cidade se estendia muito além do que parecia de dentro.
Estruturas quebradas até onde a vista alcançava. Pontes interrompidas. Níveis sobre níveis de ruínas empilhadas, como camadas de uma história que ninguém mais lembrava. O domo acima parecia distante demais, alto demais, um céu falso e inalcançável.
Não havia um caminho óbvio.
Nem uma direção clara.
Apenas uma imensidão de pedra, metal… e um silêncio funcional demais para ser conforto.
Karl apertou os dedos ao redor da alça da caixa.
— Então vamos andar.
Sair dali não seria rápido.
Nem simples.
Karl e Lyra tomaram a dianteira. Laura seguia logo atrás, apoiando Gustav com cuidado calculado. As ruas de pedra se alternavam entre trechos iluminados por cristais antigos, luzes frias, esverdeadas e corredores mergulhados em escuridão total, onde cada passo parecia uma decisão errada esperando para acontecer.
O silêncio era quebrado apenas pelo som irregular dos passos e pela respiração pesada de Gustav.
A cidade parecia não ter fim.
Horas se passaram sem direção clara. Encontraram a primeira abertura: Karl e Lyra avançaram, desarmando armadilhas antigas, apenas para descobrir um túnel igual ao que os trouxera até ali, longo demais, vertical demais.
Voltaram.
Depois outra abertura. E outra. E mais uma.
Cinco ao todo.
Arcos de pedra lisa, escurecidos pelo tempo, com subidas cada vez mais íngremes, como gargantas que se fechavam para cima.
Karl parou diante do quinto túnel, girando lentamente o corpo.
Nada.
— Precisamos parar um pouco — disse Laura, por fim, quebrando o peso do silêncio.
Karl abriu a boca quase no mesmo instante.
— Agora não. Só mais um pouco.
— Karl… — Gustav apoiou as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade. — Eu não quero ser um peso. Mas não consigo acompanhar muito mais.
Lyra, alguns passos à frente, virou-se abruptamente.
— Eu consigo — disse, embora o peito subisse e descesse rápido demais para sustentar a afirmação.
Karl observou os três.
O impulso foi negar.
Mas o corpo deles estava dizendo outra coisa.
— Tudo bem — cedeu, por fim. — Tentem montar um abrigo aqui. Algo provisório. Eu vou andar mais um pouco… só para ver se encontro outra abertura. Algo diferente.
— Claro que não! — Laura respondeu de imediato.
— Nem pensar! — Lyra disse ao mesmo tempo.
Karl piscou, surpreso com a sincronia.
— É perigoso — Laura continuou, firme. — Você não vai sair sozinho.
— E não faz sentido ir sem alguém que consiga observar — completou Lyra, irritada. — Você ainda não conhece padrões rúnicos. Nem detalhes.
Karl passou a mão pelo rosto.
— Eu sei que é perigoso. Mas andar a cidade inteira esperando tropeçar numa saída não é um plano. Até lá, a comida acaba. A água acaba. E a gente morre aqui embaixo.
Silêncio.
Lyra deu um passo à frente.
— Então eu vou com você.
Laura abriu a boca para protestar… e parou.
O olhar da garota era determinado demais para discussão.
— Dois é menos pior que um — concluiu Karl.
Eles se afastaram sem cerimônia.
No começo, caminharam em silêncio. O tipo de silêncio que não era confortável, mas também não era hostil.
— Eu devia ter ido com você buscar os mantimentos — disse Lyra, por fim.
Karl parou.
— O quê?
— Eu estava presa no mural — ela disse. — Eu sabia disso. Mas mesmo assim… devia ter ido.
Aquilo puxou Karl de volta. Dos pensamentos escuros. Da imagem que insistia em retornar.
— Eu também não fui justo com você — admitiu. — Eu devia ter chamado. Ou explicado melhor.
Lyra assentiu, sem olhar para ele.
— Eu não sou boa em perceber quando as pessoas precisam de ajuda. Mas isso não significa que eu não queira ajudar.
Continuaram andando.
— Conseguiu tirar algo útil do mural? — Karl perguntou.
Os olhos dela se acenderam.
— Algumas coisas. As runas não eram nomes. São contextuais. Como uma saudação longa. Um “bem-vindo” que também diz quem você é… e o que espera encontrar.
— Um mural de boas-vindas?
— É como se a cidade estivesse se apresentando.
Ela ia continuar quando parou abruptamente.
— Ouviu isso?
Karl ergueu a mão.
O som vinha de longe.
Um arrastar irregular. Pedra raspando. Um ritmo pesado e errado.
Avançaram devagar, por entre os escombros tentando gerar o mínimo de barulho possível em meio a ruinas. Assim que passaram por baixo de um antiga parede que estava tombada.
Karl viu.
A criatura era baixa e larga, o corpo coberto por placas rígidas sobrepostas, curvas como lâminas de metal antigo. As patas curtas terminavam em garras grossas, feitas mais para cavar do que para correr. A cabeça quase não se destacava do tronco, protegida por uma couraça contínua, interrompida apenas por duas fendas escuras onde deveriam estar os olhos.
Cada movimento fazia as placas rangerem entre si.
Pedra contra ferro.
A carapaça opaca estava presa entre duas lajes caídas. A criatura se debatia de costas, patas rasgando o ar.
— Um encouraçado… — Lyra sussurrou olhando para cima. — Deve ter caído.
Karl observou.
— Acho que dá pra matar…
Ele começou a se movimentar, com o encouraçado preso com a parte sensível exposta seria um desafio simples mata-lo.
— Karl, espera—
— É carne. A gente consegue comida por mais uns dias.
— Karl eles—
O encouraçado percebeu movimento.
O corpo inteiro se contraiu.
Então ele gritou.
Um som agudo, estridente, que ecoou pelas ruas como um alarme antigo sendo ativado.
Karl congelou.
Lyra empalideceu.
— …Eles andam em bando — disse ela, tarde demais.

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