Capítulo 115 - Bombardeio.
Laura trabalhava em silêncio.
Não por calma, por necessidade.
Cada pedaço de tecido era reaproveitado. Cada fragmento de metal virava apoio, cunha ou trava improvisada. O abrigo não era bonito, nem sólido. Era apenas o suficiente para cortar o vento frio que soprava pelos corredores abertos da cidade e dar a ilusão de um ponto fixo naquele labirinto de ruínas.
Gustav observava.
Sentado sobre um bloco de pedra, com a perna estendida, a bengala apoiada ao lado, ele amarrava algumas tiras de tecido, enquanto os olhos analisavam tudo ao redor com curiosidade inquieta.
As criaturas metálicas passavam.
Se pareciam com aranhas, mas só na proporção geral. Corpos angulares, articulações expostas, superfícies opacas marcadas por desgaste antigo. Caminhavam em rotas precisas, repetidas, ignorando completamente a presença deles. Não desviavam. Não reagiam. Apenas… executavam.
— Elas não veem a gente — murmurou Gustav.
Laura nem levantou o olhar.
— Ou veem e não se importam.
Gustav inclinou a cabeça.
— O que é pior.
Uma das criaturas parou a poucos metros. Girou o corpo com um estalo seco. Ajustou algo em uma das patas e seguiu adiante.
Gustav se levantou com cuidado.
— Não se afasta — Laura disse de imediato.
— Só vou olhar dali — respondeu ele, já mancando em direção ao parapeito de pedra.
O abismo se abriu à frente dele.
A cidade não terminava ali.
Abaixo, um vazio colossal revelava níveis inferiores que jamais tinham sido vistos de cima. o piso inferior estava a quatro lances de escada, No centro, uma estrutura massiva soltava vapor como um coração artificial. Torres interligadas por dutos, engrenagens gigantescas e canais por onde escorria mana residual. ao redor de toa a estrutura, pequenas aberturas circulares podiam ser vistas por onde as aranhas de metal entravam e saiam.
— Laura… — ele chamou, fascinado. — Acho que achei o ninho delas.
Ela se aproximou com cautela.
Do lado oposto da estrutura, algo se movia.
Um enorme piso de metal, grande demais para pessoas comuns, deslizava sobre trilhos grossos. Plataforma larga. Ele subia lentamente, carregando blocos de pedra refinada e cristais do Véu, reluzindo em tons azulados, em direção ao ninho.
— Isso tudo converge pra lá — Gustav continuou, a mente trabalhando rápido. — Centro logístico. Distribuição. E… —
Ele ia apontar quando o som veio.
Thum.
Seco. Abafado. Distante.
Laura congelou.
Thum.
— Isso veio da… — ela virou o corpo. — Direção do Karl.
Outro som.
Thum.
Mais próximo.
Depois outro. E outro.
Ritmados. Pesados. Como algo enorme colidindo contra estruturas ocas.
— Gustav… — ela sussurrou. — Isso não é normal.
Algo caiu do teto.
Uma esfera escura atravessou o campo de visão deles e desapareceu entre os prédios à frente.
CRASH.
Uma casa desabou em fragmentos.
Gustav arregalou os olhos.
— Não são pedras… são bolas.
Então o grito ecoou.
— CORRAM!
A voz de Karl rasgou a cidade.
Laura não pensou.
Agarrou Gustav pelo braço.
— AGORA!
Eles começaram a correr.
Mais esferas despencavam do teto da cidade, rolando pelas ruas, esmagando estruturas inteiras. Cada impacto vinha acompanhado de um tremor profundo, que fazia o chão vibrar sob os pés. foi quando Gustav viu, o enorme piso de metal agora começando a se deslocar para longe do ninho, em direção ao centro da cidade.
— Laura! — Gustav gritou, apontando com a bengala enquanto mancava o mais rápido que conseguia. — Eu tenho uma ideia!
Laura entendeu no mesmo instante.
Não era um plano.
Era a única opção.
Eles mudaram a rota, desviando de destroços, quase sendo atingidos por uma esfera que esmagou uma fachada a poucos metros deles.
Passos atrás.
— Mãe! — Karl surgiu, ofegante, com Lyra logo atrás. — O que está acontecendo?!
— O que vocês fizeram?! — ela gritou de volta. — Ativaram alguma armadilha?!
— Não! — Lyra respondeu, sem fôlego. — Não é armadilha! São encouraçados!
Como para confirmar, um deles caiu violentamente próximo demais.
O impacto lançou estilhaços de pedra em todas as direções.
Karl foi atingido no braço ao proteger o rosto. Lyra no ombro.
Eles mal tiveram tempo de reagir.
— AS ESCADAS! — Laura apontou.
Eles não subiram ali por acaso.
Laura tinha visto antes, ainda correndo, o ângulo do telhado quebrado, a inclinação da antiga rampa, o piso metálico avançando lentamente para fora da parede como um pulmão mecânico que ainda respirava. Dava para alcançar. Difícil. Arriscado. Mas possível.
— Por ali! — gritou Karl, apontando com a barra de ferro.
Os encouraçados vinham rolando atrás deles, não como bolas perfeitas, mas como massas irregulares de placas rangentes. Um deles se chocou contra uma parede lateral, rachando a pedra, mas se recompôs em segundos, as placas se encaixando com estalos secos antes de voltar a girar.
Outro saltou.
Não rolou, impulsionou-se, as placas se abrindo por um instante para revelar músculos densos e escuros antes de se fechar novamente. A criatura bateu contra o parapeito onde eles estavam, as garras cravando na borda.
— Ele vai subir! — Lyra gritou.
Karl girou o corpo e golpeou.
A barra de ferro atingiu a lateral da carapaça com força total. O impacto reverberou pelo braço dele como se tivesse acertado uma bigorna, mas funcionou. As placas cederam por um segundo. O encouraçado perdeu o equilíbrio, bateu contra a parede e despencou, rolando escada abaixo em uma sequência de impactos brutais.
Não ficou quieto.
Já se desenrolava no meio da queda.
— Gustav, agora! — Laura gritou.
Gustav já estava subindo para o telhado com dificuldade, apoiando todo o peso na perna boa e na muleta improvisada. O encouraçado voltou a se mover, tentando ganhar tração entre os escombros.
Karl avançou e se colocou entre ele e Gustav.
— Vai! — berrou, sem olhar para trás.
O encouraçado lançou o corpo para frente numa tentativa desesperada de alcançar a borda. Karl cravou a barra de ferro no espaço entre duas placas e empurrou com tudo o que tinha. O metal rangiu, a criatura guinchou, e o corpo pesado foi jogado para o lado, batendo contra uma pilastra já fraturada.
A estrutura cedeu.
Poeira, pedra e metal desabaram juntos, bloqueando o acesso por alguns segundos preciosos.
Tempo suficiente.
Gustav chegou ao telhado ofegante. Laura e Lyra o puxaram sem delicadeza.
— AGORA! — Gustav gritou.
A plataforma do elevador passava logo abaixo.
Sem tempo para hesitar, pularam.
Karl foi o último a saltar, sentindo o chão vibrar sob os pés quando outro encouraçado se chocou contra os escombros, frustrado.
O impacto foi duro, mas controlado. A plataforma seguiu em movimento, inclinada, arrastando-os em direção ao centro da cidade. Ao redor deles mais esferas caiam do teto, mas cada vez mais eles estavam se distanciando daquela devastação.
Por um instante… tudo o que eles ouviram, era o soltar de vapor da plataforma.
Respiração pesada. O som distante de impactos ficando para trás.
Laura riu, sem humor.
— Vocês têm ideia do que—
O chão vibrou.
Não foi um impacto.
Foi uma vibração.
Um clique metálico ecoou sob os pés deles, profundo, como uma trava antiga sendo liberada depois de séculos. Em seguida, um zumbido baixo começou a crescer, atravessando a plataforma e subindo pelos ossos, regular demais para ser natural.
Runas apagadas reacenderam ao redor da estrutura. Uma a uma. Lentas. Algumas falharam antes de estabilizar, como sistemas forçados a operar além do limite.
— …ativamos alguma coisa — murmurou Lyra.
Do fundo da plataforma, placas de metal se separaram com um rangido áspero. Não abriram de forma limpa. Algumas emperraram. Outras se partiram, caindo com estrondo.
Então eles surgiram.
Autômatos humanoides, altos e angulosos, feitos de ligas antigas marcadas por rachaduras, corrosão e remendos. As juntas rangiam, soltando faíscas breves. Um deles mancava. Outro demorou a alinhar o braço antes de assumir posição.
Mas nenhum hesitou.
Assim que tocaram o piso, as cabeças se ergueram em uníssono.
Luz amarela acendeu nos olhos.
Um feixe fino varreu a plataforma, passando por Laura, Gustav, Karl e Lyra. Quando terminou, os olhos se fixaram neles ao mesmo tempo.
Armas integradas aos braços se ajustaram com estalos secos. Lâminas retraídas deslizaram para fora. Canhões curtos giraram, emitindo um tom agudo, crescente.
O ar ficou denso.
Runas nas laterais da plataforma mudaram de cor.
— Merda — murmurou Gustav.
Os autômatos deram um passo à frente.
Sincronizados.
Nenhum aviso.
Nenhuma tentativa de comunicação.
O elevador continuava descendo, indiferente, levando-os cada vez mais fundo em direção ao centro da cidade.
Laura sentiu o estômago afundar.
— Eles vão nos matar.
Karl apertou a barra de metal com força.
— Então corram quando eu disser.
— Correr pra onde Karl? — Gustav perguntou sem tirar os olhos os autômatos que se aproximavam.
Ele deslocou o peso para a perna boa, se preparando para o combate.
A cidade antiga havia acordado.

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