— Eu já não te falei para sempre se manter focada? — indagou Lavina, seus olhos repreensivos sobre a filha. — Você já devia ser capaz de sentir a minha presença à essa altura.

    — E-eu… — Vaiola tentou formular alguma desculpa em sua mente, mas aqueles olhos azuis da Lavina pareciam a imensidão dos mares, afogando qualquer desculpa que a sua mente ousava criar. A sua mãe conseguia ser assustadora quando queria. — Me distraí — disse ela por fim, incapaz de dar qualquer desculpa que fosse.

    — Eu sei. — Lavina suspirou e sorriu. Toda a pressão sobre a Vaiola sumiu no mesmo instante. — Você é uma criança, afinal. Se distrair é o que você faz de melhor. Só tente ficar mais atenta da próxima vez.

    — Uhum! — Vaiola concordou com um acenar de cabeça, seus punhos cerrados e levantados, balançando em sincronia com a cabeça. — Pode deixar, mãe — garantiu, motivada e determinada.

    Talvez aquela fosse a razão da Vaiola continuar aproveitando a sua infância como uma criança de verdade. Se sua mãe era rigorosa e exigia muito dela? É claro que exigia, mas a Lavina tinha consciência de que a Vaiola era só uma criança e dava espaço para ela agir como tal.

    Lavina Hermis não era alguém de beleza majestosa, era só uma mulher bonita; como tantas outras, ela era só ‘padrão’. Bem, isso é só quando o assunto era beleza e somente isso.

    Seus 1,91 metros de altura a faziam ser dez centímetros maior que o seu esposo e seu corpo saliente e com músculos delineados a faziam parecer uma lutadora veterana. Isso sem nem contar o tanto de cicatrizes em suas costas, barriga e braços. Ela tinha até uma cicatriz oblíqua na bochecha direita.

    Ela vestia uma calça azul de trabalho e, no tronco, vestia apenas um top preto que revelava uma barriga que, mesmo sem músculos visíveis, parecia firme. Ela tinha uma cicatriz na lateral direita da barriga que descia até a cintura e outras duas na lateral esquerda.

    Seus cabelos verdes estavam escondidos num chapéu de palha um tanto gasto e em seus ombros ela carregava dois sacos um tanto sujos de terra, assim como ela própria estava. Ela era uma agricultora, afinal.

    — Bom dia, querida. — Glamich às alcançou e foi logo para o lado da esposa, depositando um beijo nos lábios da mulher, que precisou se curvar de leve.

    — Bom dia — cumprimentou ela. —, que bom que os encontrei, por pouco não fiz uma viagem inútil. — Tirou os sacos dos ombros, pousando-os no chão, diante dos seus pés cheios de lama. Ela estava descalça. — Preciso que levem isso para mim.

    — Claro. O que é? — indagou Glamich.

    — Batata-doce, 15 quilos em cada saco. Encomenda da Amália — informou ela. —, tenho que voltar para colher o milho. Os Lankes decidiram atacar cedo nesta temporada.

    Lankes eram um tipo de pássaros similares a pardais, mas tinham duas cabeças e duas riscas vermelhas nas costas. Eles adoravam milho e era quase impossível pegar eles, já que conseguiam mudar de cor, como um camaleão, e se camuflavam sempre que iam atacar o milho. O maior dos problemas era que eles andavam sempre em grupos.

    — Esses malditos pássaros ficam piores a cada ano — resmungou Glamich.

    — Você vai fazer Xima, mãe? — Lavina olhou para a pequena filha e quase ficou cega por conta do brilho que irradiava dos olhos da mais nova e daquele sorriso pidão dela.

    — Só posso fazer Xima com milho seco — respondeu Lavina e viu o brilho diminuir nos olhos da pequena. —, mas acho que tenho algum milho seco no estoque lá em casa. Então, quem sabe?

    — Com feijão? — A alegria retornou aos olhos da Vaiola. Aquele seu sorriso escancarado aliado àqueles olhinhos de gato e aqueles punhos levantados em expectativa. Aquilo tornava impossível dizer não.

    — Talvez eu faça Xima e feijoada hoje. — Lavina respondeu com um sorriso derrotado. — Mas você sabe o quão trabalhoso é ter que pilar o milho, moê-lo e só então fazer a Xima. E isso vai ter que ser feito sem antes deixar o milho de molho em água…

    — Uhum! Uhum!

    — Acho que eu mereço algo em troca, não?

    — Uhum! Uhum! — Vaiola já estava quase babando só de pensar na refeição.

    — Eu vou te dar uma missão, então… — Lavina levantou os dois sacos. — Leve esses dois sacos para a tia Amália lá no mercado, mas sem a ajuda do…

    — Dá cá! — exclamou a menor, seus braços levantados para receber os sacos. Era de Xima e feijoada que estavam falando. Era o seu prato favorito.

    — Certo. Mas você não tem permissão para pedir ajuda nem descansar, combinado? — Vaiola continuou irreversível, apenas concordando com um aceno de cabeça. — Nem tente me enganar, pequena. Seu pai estará de olho.

    — O papai? — Os braços da Vaiola baixaram por um instante e seus olhos viajaram até o seu pai, mas logo voltaram a encarar a Lavina. — Você vai mesmo confiar no papai, mãe?

    — Ei!! — reclamou Glamich, indignado.

    — É! Você tem razão. — Lavina concordou com a filha, parecia pensar noutro plano.

    — Até você…!! — Glamich fingiu alguma mágoa quando a esposa concordou com a filha.

    — Heh Heh! Você é gentil demais, pai.

    — Ela está certa. É bem possível que seja você o primeiro a oferecer ajuda a ela. — Lavina acrescentou.

    — Eu não esperava por essa… — disse Glamich, sua mão direita sobre o peito.

    — Heh Heh! Deixa de ser dramático, pai. — Vaiola já estava com os sacos nos ombros, fazendo agachamentos para preparar as pernas. — Temos que ir.

    — Então vou confiar em você, Vaiola —  disse Lavina depois de pensar por um momento, sua mão esquerda afagando o topo da cabeça da menor.

    — M-m-mas… isso não é muito pesado para ela? — Glamich conhecia muito bem as capacidades da filha, mas… ela parecia tão frágil. Não tinha como ele não se preocupar com ela.

    Se a Vaiola era paranormal? Talvez. Talvez só assim seria explicado o fato dela ter suportado o treinamento bruto da sua mãe desde os seis meses de vida.

    — Eu sou uma Hermis, pai. — Vaiola pontuou. — As Hermis podem tudo, desde que queiram. — Ela acrescentou. Não era algo que veio à mente dela por acaso, Lavina dizia aquelas palavras para a pequena desde sempre. 

    ‘Porque somos Hermis’ tinha virado justificativa para tudo o que a Vaiola questionava.

    Sobre a Lavina? Bem, ela era monstruosamente forte. Aquela mulher só começava a mostrar algum esforço na casa das centenas de toneladas.

    — Minha menina — disse Lavina, com orgulho. — Compre uma Lun para ela, quando chegarem ao mercado.

    — Aêêê…!!! — comemorou Vaiola. Quase nunca sua mãe permitia que ela comesse uma Lun.

    — Mas não a deixe comer ela toda de uma vez. — Lavina acrescentou. — Preciso ir agora. — Deixou um beijo na testa da filha e outro nos lábios do esposo. — Nos vemos em casa.

    — Até mais tarde. — Glamich se despediu e viu a esposa desaparecer num beco. Olhou para a filha por um instante… — Você tem certeza que não quer ajuda?

    — Pai!! — Vaiola sorriu e chacoalhou a cabeça, antes de tomar a dianteira. — Lun! Lun! Lun! Lun… — gritou durante toda a caminhada até o mercado.


    Cerca de uma hora de caminhada se passou, de beco em beco, até o mercado. Vaiola já estava toda suada e sentia seus ombros reclamar, mas não tinha descansado em momento algum.

    — Você parece cansada. Tem certeza que não quer ajuda? — Glamich indagou pela quinquagésima vez, suas sobrancelhas caídas de tanta preocupação. 

    Vaiola ser consideravelmente menor para uma criança da sua idade não estava ajudando o coração do pobre pai, mas ela continuava firme.

    — Eu prometi para a mamã… que não receberia ajuda.

    (“Louça? você pode quebrar. Podemos comprar outra. Ossos? A gente dá um jeito. Mas uma promessa… uma promessa é a única coisa que uma Hermis é proibida de quebrar.”) 

    Lavina fazia questão de repetir aquelas palavras diariamente, para que ficassem gravadas em cada célula da Vaiola.

    ‘Uma promessa feita é uma promessa cumprida’, aquele era o lema das Hermis.

    No instante seguinte, os olhos da Vaiola brilharam e o enorme sorriso dela retornou a sua face. Ela conseguia sentir aquele cheiro doce e inebriante inundar as suas narinas. 

    Era uma Lun.

    Ela ergueu a cabeça com rapidez e lá estava o mercado.

    O mercado era montes e montes de barracas enfileiradas por uma área de vários metros quadrados. As barracas eram bem simples, apenas estacas de madeira cravadas no chão e um teto de palha. Sob as barracas estavam bancas recheadas com os mais diversos produtos alimentícios, utensílios e outros.

    Vaiola pareceu ter a sua bateria recarregada e saiu correndo de onde estava, chegando rapidamente ao mercado. Passou por várias barracas e só parou numa em específico no centro do mercado. A banca diante da Vaiola estava repleta de frutas e legumes.

    — Vejam só, se não é a nossa pequena anã. — Vaiola sequer escutava a vendedora atrás da banca, seus olhos e pensamentos estavam presos na fruta vermelha e oval do tamanho de uma bola de tênis, empilhada na banca.

    — Bom dia, Amália — cumprimentou Glamich.

    —Bom dia, Glamich — respondeu a vendedora atrás da banca. —, isso aí é para mim?

    — Lun! — Vaiola já estava babando.

    — Oh! Quer uma, pequena? — perguntou Amália.

    — Uhum! Uhum! Essas aqui, oh! — Vaiola levantou dois dedos, mas os seus olhos ainda estavam fixos nas Lun’s.

    — Ela pode? — Amália olhou para Glamich, à espera de uma resposta. Glamich logo entendeu o que ela queria dizer: “A Lavina deixou?”. Ela era amiga da Lavina, afinal.

    — Claro. Mas só uma.

    — Se é assim. — Amália recebeu os sacos que eram entregues pelo Glamich, entregou a fruta à pequena Vaiola e recebeu uma moeda de cobre pequena com a imagem de um peixe e o número 1 por baixo dele na parte traseira. A moeda de 1 Centavo. Na parte frontal da moeda podia ver-se a imagem do primeiro imperador, Dorian Naddgard.

    — A propósito, Glamich, passaram por aqui dois Hyems ontem e encomendaram dois Barbatanas Douradas. Já falei com os outros pescadores, mas ninguém aceitou até agora.

    Os olhos da Vaiola brilhavam enquanto ela devorava a suculenta Lun, a fruta mais doce do mundo. Era dito que comer uma Lun inteira era como comer um quilo de açúcar.

    — Já era de se esperar. — Glamich disse, pensativo. Uma lembrança sobre o mencionado peixe passando pela sua mente. — Aqueles malditos são difíceis de pescar.

    — Pois é — concordou Amália. —, deve ser por isso que eles estão pagando 2 Vell’s por cada.

    — Quê? — Os olhos do Glamich quase pularam para fora do rosto. — Mas isso é…

    — O dobro. — Amália concluiu. — E não é só isso, eles ainda prometeram pagar o triplo caso haja algum ferido durante a pesca. Confesso que desconfiei por um momento, mas aí pensei: “Ei, são os Hyems, eles tem as minas nas cordilheiras douradas. Eles podem”.

    — É tentador, mas é muito perigoso, isso sem nem precisar falar do peixe em si. O mar revolto não vai deixar ninguém chegar perto da Ilha dos Esquecidos. — Glamich justificou-se, sua mão deslizando pela sua cabeça careca.

    — Eu entendo. Mas, caso decida aceitar, a entrega deve ser feita ao meio dia de hoje no extremo norte das Terras Centrais, bem ao pé da Ponte Rúnica.

    — Certo. Vou pensar no assunto. — Glamich balançou a mão em despedida e confiscou a Lun da filha, para evitar que ela a comesse por inteira.

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