Capítulo 05 — 1 Pescaria (3/3)
— Noossaa…!!
Vaiola estava maravilhada com o que via. O barco preto diante dela era humilde, com uma pequena cabine que sequer tinha porta, onde um adulto teria que se dobrar todo caso quisesse dormir ali. Mas ninguém dormia ali, tudo o que lá estava era o material de pesca que seria necessário. Na lateral direita do casco, ela podia ver claramente o nome “Borboleta” pintado à violeta.
Vaiola olhava para o Borboleta como se fosse o mais luxuoso dos navios, chegando a ignorar os dois jovens parados no dique onde o barco estava amarrado.
— É tão lindo. — Os olhos dela brilhavam e o seu sorriso estava escancarado.
— Então, essa é a famosa nanica!? — indagou um dos jovens, de cabelos pretos. Ele estava ao pé do Glamich na areia da praia, ao lado do dique.
— Deve ser ela — comentou sorridente o outro jovem de longos cabelos castanhos amarrados num rabo de cavalo, deixando algumas madeixas caírem na lateral direita do rosto. —, acho que dá pra ver isso, não?
— Vocês parecem ter esquecido que eu estou aqui — disse Glamich, um sorriso sombrio em seu rosto.
— Heh Heh Heh! Bom dia, chefe. — O jovem de cabelos pretos disse, um sorriso tenso em seus lábios.
— A gente só estava brincando, chefe. — O jovem de cabelos castanhos acrescentou.
— Sei, sei. — Glamich balançou a cabeça para os lados e sorriu com alguma diversão. — Bem… é ela, sim. Esta é a Vaiola. — Indicou a nanica com um aceno de cabeça. A pequena estava agachada na berma do dique, observando o Borboleta.
— Ela parece já ter nascido para ser pescadora — comentou o de cabelos pretos. — Olha só para ela.
— Você tem razão, Tirius. Ela já parece apaixonada pelo mar. — O de cabelos castanhos disse. Ferin era o seu nome.
— Venham! Vou apresentar-vos a ela — disse Glamich e foi com os dois para perto da nanica.
Glamich chamou a atenção da filha e a apresentou os dois rapazes, o Tirius e o Ferin. Os dois jovens já trabalhavam para o Glamich há algum tempo, há alguns anos. Eles eram de confiança.
Vaiola já era conhecida por alí como a “nanica”, já que o seu amado tio Dokin fez questão de a apresentar assim para todos os amigos. Os vários amigos do Glamich e Dokin já tinham escutado várias histórias sobre a nanica. Todos já sabiam que a Vaiola era um tanto menor para a sua idade e das suas… anormalidades.
Depois das apresentações, Glamich contou aos dois jovens sobre a encomenda que tinha sido feita pelos Hyems e soube que eles já estavam cientes e que estavam esperando pela decisão dele.
Mas Glamich deixou tudo nas mãos dos dois, dizendo que, se eles decidissem ir, ele os permitiria, mas ficaria em terra com a filha, para não a colocar em perigo. No fim, os dois jovens decidiram e foram unânimes: Era perigoso demais.
Eles tiveram um tempo para conversar e se conhecer e os dois jovens contaram um pouco sobre eles para a pequena. Tirius era um jovem que o Glamich tinha tirado das ruas e o Ferin era órfão de pai e cuidava da sua mãe doente.
Depois de tudo, eles finalmente embarcaram no Borboleta.
Tirius e Ferin remaram em conjunto até onde o vento era forte o suficiente para soprar a vela içada no único mastro do barco. A direção foi acertada e o Borboleta navegou até onde havia peixes com alguma abundância.
Navegaram por alguns minutos pelas águas, levados pelo vento amigável até o destino procurado.
A vela foi recolhida e o barco parou em alto mar. A Vaiola corria de um lado para o outro, alternando entre os bordos do barco. Por vezes colocava as mãos nas bordas para se equilibrar, seus olhos fechados, e deixava o vento com cheiro de maresia lhe dar um tapa e conduzir os sussurros do oceano até aos seus ouvidos. Ela, então, baixava a cabeça e apreciava as águas cristalinas, que refletiam o azul dos céus e eram induzidas pelos ventos a criar pequenas ondulações que se chocavam com o barco.
Se a sensação causada pela fusão do cântico das gaivotas, os sussurros do vento e a melodia do marulho não era hipnose, então ela não sabia mais o que era.
Ela sentia o seu corpo ficar cada vez mais leve, flutuando num infinito de calmaria.
As redes foram jogadas no mar e houve um momento de silêncio em que todos apenas deliciavam-se da melodia oceânica, aguardando que surgissem peixes burros o suficiente para se jogar e se prender nelas.
Vendo o tempo passar lentamente, Glamich mexeu e remexeu o material na pequena cabine, tirou os arpões e algumas redes do caminho e levou de lá um pequeno tabuleiro. Ele colocou o tabuleiro no centro dos quatro e posicionou as peças. Dali, todos começaram a jogar em turnos usando um pequeno dado cúbico.
Durante o jogo, o grupo sequer viu o tempo passar e só perderam o foco das jogadas quando a rede foi tão agitada ao ponto de balançar o barco.
— Puxem!! — gritou Glamich e todos os outros o obedeceram. Enquanto as ondas faziam splash! contra o casco, dois minutos passaram despercebidos durante o braço de ferro entre o grupo de humanos e o cardume.
A batalha foi demorada, mas os peixes acabaram tomando o posto de derrotados depois de alguns minutos, capturados e despejados no convés.
— Hahaha! Isso foi incrível!! — disse Vaiola em seguida. Alguma adrenalina inundava o seu ser.
Foi uma pesca farta, mas ainda não era o suficiente para o previsto das vendas. Portanto, as redes voltaram a ser lançadas ao mar, os mais velhos voltaram a sentar para jogar e a Vaiola foi para o bombordo do barco, ficou de joelhos, as mãos apoiadas à borda e os olhos fechados. Ela amava os sons que vinham do oceano, os cheiros… tudo.
Ninguém sabe ao certo quanto tempo ela ficou ali, mas foi tempo suficiente para causar dores nos seus pulsos e ombros.
“Isso é maravilhoso. A brisa, o som do mar e das gaivotas, o vapor quentinho…”— pensava ela em seus devaneios. Com algum desejo de se jogar e se deixar abraçar pelo mar. —“Espera!! Vapor quentinho??!”
Seus olhos se abriram de imediato e miraram o mar. Realmente, as águas estavam evaporando como se tivesse um forno embaixo delas.
— Huh!? — Seus olhos arregalaram-se. O que era aquilo que ela via nas águas? Que silhueta era aquela? Aquilo era… uma serpente? — Pai…! — chamou, seus olhos ainda fixos na silhueta no mar. — Tem uma serpente vermelha embaixo do barco. Está fazendo a água aquecer.
— QUÊ!!? — O trio de homens gritou em simultâneo, seus olhos arregalados. Eles olharam uns para os outros, olharam para os arredores e voltaram a trocar olhares, depois de finalmente notar o vapor que subia. — Um Barbatanas douradas!?
Glamich puxou rapidamente a Vaiola para a meia-nau e os outros dois foram verificar se as suspeitas estavam corretas.
É, tinha mesmo o que parecia ser uma serpente no mar, mas era um peixe gato rubro de um metro e meio de cumprimento, com Barbatanas Douradas similares a asas.
— Merda!! O que um Barbatanas Douradas está fazendo aqui? — indagou Tirius.
— Isso não é importante agora! — disse Ferin, indo até a pequena cabine. — Nós só temos arpões aqui, mas não temos nenhum talismã antimágico. Não temos como vencer uma Besta Mágica de Tier Branco.
Branco, Amarelo, Laranja, Vermelho e Preto. Eram assim classificadas as Bestas Mágicas no império humano e era essa a classificação que fora adotada pelas Terras Centrais, mesmo elas não fazendo parte do império humano.
Conforme dito pelo Tirius, não era para ter uma Besta Mágica por alí, afinal aquelas Bestas gostavam mais de áreas onde a Ehne era abundante. Era simples determinar quais áreas do mar tinham Ehne abundante, bastava só observar as condições climáticas. Ehne abundante costuma causar tempestades e criar um mar turbulento, assim como era o mar nos arredores da Ilha dos Esquecidos, mas isso era bem mais à Leste dalí.
E quanto a classificação, embora o Tier Branco fosse a mais baixa, era bem difícil uma Besta Mágica ser catalogada nas classes mágicas, ou seja, a Besta tinha de ser poderosa o suficiente.
Existiam Bestas Mágicas não classificadas e essas eram relativamente fáceis de combater, até mesmo usando meios rudimentares, mas o assunto mudava quando era uma Besta mágica classificada. Afinal, essas Bestas Mágicas precisavam ser combatidas usando antimagia.
— O que faremos, chefe!!? — indagou Tirius, um arpão já em sua mão.
A rede foi puxada de volta ao convés, tinha pouquíssimos peixes e todos estavam mortos. A água começou a borbulhar de tão quente que estava.
Por que um Barbatanas Douradas era poderoso o suficiente para estar catalogado no Tier Branco?
Bem, ele podia esquentar e facilmente passar dos dois mil graus de calor. Era praticamente suicídio enfrentá-lo em alto mar.
— Vamos, rem…!!!
BAM!!
Glamich perdeu o equilíbrio e cambaleou pelo convés. Os outros não tiveram a sorte dele de continuar em pé após o embate. Tinha sido uma cabeçada. O Barbatanas Douradas estava atacando usando sua cabeça resistente quanto aço.
BAM! BAM!! BAM!!!
As pancadas continuaram vindo de todos os lados do barco e um leve crack! foi escutado. O casco começava a ceder.
BAM!!
O último som, estranhamente, veio de dois cantos à Estibordo.
— PAAAAIII…!!!!
Glamich e os dois jovens arregalaram os olhos, desespero e terror se apossando do mais velho, que só conseguia ver a sua filha ser arremessada para fora do barco por conta do impacto repentino.
— VA-!!! — O coração do pai falhou uma batida e quase silenciou-se.
Ao mesmo tempo, outro peixe entrou em cena, quando o Barbatanas Douradas se posicionou com a boca aberta, pronto para tirar um pedaço da nanica.
O peixe era de um tom vermelho tão escuro que era quase preto, se assemelhava a uma fusão de um filhote tubarão e uma piranha, mais parecido, fisicamente, com uma piranha, mas com o comprimento de um tubarão. Em sua cabeça, um par de chifres pretos, idênticos aos de um touro, se sustentavam.
Era o que chamavam de Besta Corrompida, um Chifrudo Negro .
Bestas Corrompidas eram conhecidas como a contraparte das Bestas Mágicas . Inimigos jurados, assim como Demônios e Deuses.
“Ela vai ser empalada.”
O pensamento passeou pela mente do Glamich depois de ver o Chifrudo Negro pular para fora do mar em direção a sua filha, parecendo querer tomar posse da presa antes do Barbatanas Douradas.
Seus chifres apontados para a pequena.
Não tinha como a Vaiola sobreviver.

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