Esse aqui é pra ser divertido. O conto passado me quebrou as pernas.

    Eram garotos. Adolescentes de jaqueta preta. Um trio de punk rockers fora de época. Ao invés de brandir floretes, os mosqueteiros tinham coisa melhor: baixo, guitarra e bateria. O guitarrista, Atos, liderava o bando. Portos era o baixista pão com ovo, valssando com a bateria, batucada por Aramis.

    O cantor? Atos, obviamente. O clássico frontman com uma stratocaster na mão.

    Falando em instrumentos, não se enganem. Não eram caros. Nenhum dos rapazes era de condomínio. O mais custoso (com certeza) foi a bateria, que saiu por volta dos mil e duzentos e uns quebrados — e parcelados, inclusive. Fizeram diversos bicos para quitá-la. Foi difícil, mas o sonho falou mais forte do que o bolso deles.

    Era tudo ou nada.

    E eles não queriam fazer covers. Não queriam, tampouco, se prenderem no quarto. Ou na sala, ou na varanda, ou onde quer que desse para tocar. Não, eles tinham fome. Fome criativa. Ânsia de palco. Queriam fazer seus próprios riffs, cantar suas mazelas e revoltas, ter sua multidão.

    Atos, como frontman, guitarrista e cantor, também assumiu o papel de letrista. Antes que pareça que ele monopolizou o processo criativo para si, saiba de uma coisa: Aramis e Portos só queriam tocar. Não se importavam com nada. Desde que fosse legal, redondinho e grudento, tudo bem.

    Por isso, Atos era sempre o mais cobrado.

    — Ah, e aí, mano? — falou Portos, que mexia num amplificador. — Cozinhou?

    — Ram! Quem deras… — reclamou ele, afinando a mizinha. — Escutei uns caetanos, uns Beatles, Stones, uns racionais, peguei até os undergrounds… e nada. Nã veio. Não bateu, tá ligado?

    — Ah, tô ligado, tô ligado… — E, claramente sem ânimo, ergueu o baixo. — É foda. Mas o festival já é sábado que vem, pô. A gente tem que fazer alguma merda… 

    Nem precisava falar, pois Atos se lamentava todo dia, antes de dormir, por não ter aquele fluxo de ideias insano de dois meses atrás. Foi como se tivesse desaprendido a escrever. 

    Melhorando a guitarra, esqueceu todo o resto.

    — Ram! Acho que não vai sair até lá, não… 

    — Ah, mas tem que sair, sim, pô!

    O frontman sabia. Claro que sabia. Mas não vinha de jeito nenhum. Parecia que, a cada dia que passava, só vinha com fraseados conhecidos. Suas melodias já existiam. Era como se tudo que fosse legal, bom de ouvir, já tivesse sido feito.

    E não sobrou nada para eles. Inconformado, o baixista deu um slap numa corda.

    — …E por que a gente não faz aqui, mesmo? 

    Aramis se cansou de só ouvir.

    — Ele tem razão. Você não precisa fazer tudo sozinho. Eu acho que três cabeças pensam melhor que uma, né?

    — Exato, pô — murmurou Portos.

    — Ram! Verdade… — Atos ajeitava o microfone no cabo (que era de vassoura).

    Eles se olharam, olharam, entreolharam… esperavam que a fada da música beijasse Atos, que nada fazia a não ser bater o pé. Se melodias fossem divinas, desejavam que caíssem do céu. Queriam um, dois milagres, se possível. 

    Mas nada saiu.

    Portos, o baixista, dedilhava alguma coisa. Nada que chamasse atenção. Não era inspirado. Era algo tão, mas tão sem graça, que parecia vinda daquelas aulas práticas que você encontra pelo youtube. 

    Aramis, o baterista, estapeou o prato e cutucava o chimbal. Era quase um jazz. Nada especial. Sabia que, quando Atos entrasse com um riff, qualquer que fosse, poderia acompanhá-lo do jeito que quisesse, o mais matador possível… 

    O problema que Atos, o frontman, o rosto e a mente por trás da banda… 

    — Tá zerado. Meu estoque tá vazio. Meu cérebro tá oco. Mas, mas… eu sei. Tem alguma coisa… alguma coisa queimando.

    — Pode ser o amp — falou Portos, fungando.

    — Não isso. É o cheiro de uma ideia, sabe? Como se…

    Ouvisse os trovões no horizonte e nunca visse a chuva cair. O barulho da água que escorre pelo cano, mas que nunca sai pelo chuveiro. O cantar de um pneu freando longe, sem nunca ver o carro… 

    A iminência do que não vem!

    — — — 

    Dagadum, dagadum, dagadum… tish!

    Depois dessa virada, Aramis lançou um olhar mortal ao frontman.

    — Somos artistas, porra! — esbravejou, agoniado com a demora. — A gente tem que falar de alguma coisa. Um tema, sei lá! Qualquer coisa!

    — Ram! Falar, falar… eu sei, mas… mas o quê, cara? Falar do quê? 

    — Sei lá, pô! Não é você o Chico Buarque de araque? Faz alguma coisa!

    — Ram!

    Falar era fácil, difícil era encontrar um assunto.

    — Não é que eu não tenha o que dizer…. — continuou Atos, fazendo a forma de Sol no braço da guitarra. —- Tenho coisa até demais, sabia? O problema é que… não sei, cara… 

    — Ah, nada parece fazer sentido — contribuiu Portos.

    — Ram! Exato! Nada bate com o que eu tô sentindo agora. Somos punks, tá ligado? Punks! Tem essa guerra da Ucrânia, os nazipardos da Bahia, a pec da bandidagem… — E riu de si mesmo. — Tem os Estados Fodidos…. 

    — O que não falta é assunto — disse Aramis, franzindo a testa.

    — Ram! Pois é, mas a parada é que… bem, eu não tô afim, sabe? Não tô nessa vibe… política. Não hoje, sei lá!

    Era verdade. Falar de geopolítica contemporânea… ele não via inspiração nisso. Não do jeito como se encontrava. Tentou fazer algo sobre os anos de chumbo, sobre o cansaço colotivo e tal, mas saiu um poema idiota que beirava um trabalho de sétima série feito às pressas.

    Tudo por culpa dela.

    — Eu tô com a cabeça na Lana… 

    — Calma aí, paizão… — brincou Aramis, rindo.

    — Não, cara, sem maldade. Eu só consigo pensar na Lana… — disse ele, coçando o pescoço. Era meio vergonhoso falar disso. — Essa garota roubou meu pensamento.

    Flick!

    Estalando os dedos, Portos gritou:

    — AH, É ISSO! É isso, pô.

    Confusos, os outros se voltaram para ele como se estivesse ficando maluco.

    — Ah, não sacaram? Não sacaram, não? É isso, cara! A Lana, pô!

    Enquanto Atos arregalava os olhos, Aramis foi erguendo as sobrancelhas. Eis a musa!

    — Ram! Portos, tu é um gênio!

    E antes que eles se perdessem na euforia, o batera atacou o chimbau, fazendo a marcação do tempo. Era o convite que precisavam!

    — VOCÊ ROUBOU MEU PENSAMENTO, A-LA-NA!

    — — — 

    Foi incrível. Se alguém visse de fora, diria que foi surreal. A experiência era a mesma, talvez, de ver o sol nascer. Ao mesmo tempo que foi bonito, foi louco. Pareciam animais. Devoradores de gente. O grave do baixo se perdia na risada maníaca de Portos… 

    Não penso mais em nada,
    Sò penso em você
    Não penso mais em nada
    Só penso em você… 

    Não penso mais
    Em nah-ah, aaah.

    Só em você, yeah
    Só em você, yeah
    Só… ó!

    Você roubou meu pensamento,
    A-la-na!
    Você roubou meu pensamento,
    A-la-na!
    Você roubou meu pensamento… 

    Yeah!

    — Aí dá pra esticar esse “yeah”! — gritou Atos.

    — Ah, e o solo podia copiar ele! — sugeriu Portos, chacoalhando-o.

    — Porra, e esse meu prato ficou bom pra caralho no “a-la-na”! Puta que pariu! — berrou Aramis, feliz da vida.

    Animado, Atos pegou o microfone e cantou:

    — Yeah-yeah, yeah-yeah, yeah! — E os pratos martelavam o início de cada um. — Yeah, yeah, ah!

    Ele se inclinou sobre o pedestal do microfone. A energia pairou no ar, e um sonoro “C@-R@-LHO” escapou da boca deles. Aí estava a música de que precisavam. Foi como se ela sempre estivesse ali, só esperando ser feita!

    — Galera! — chamou Portos. — Só tem um problema. O festival não era de música regional? Não tinha que ser uma parada meio toada, “põe tapioca, põe farinha d’água”?

    Batera e guitarra se entreolharam:

    — FODA-SE, HAHAHAHA!

    Portos riu.

    — Fechou, então.

    Podia não parecer, mas eles não paravam de sorrir. Quando você compõe alguma coisa que soe minimamente legal, não importa a circunstância, isso sempre vai te deixar feliz. É uma sensação única…

    Era como se, por um segundo, todo compositor fosse um rei na Terra. O senhor de dois mundos. Depois de uns drinks de laranja, a pergunta de Atos veio tímida:

    — Será que a gente adiciona mais versos? 

    — Sério? — indagou Portos.

    O baixista queria pensar, mas o batera nem deu tempo: 

    — Não. 

    — É deixa assim, mesmo. 

    — A coisa crua é mais legal. Punk não é punk se for refinado.

    Atos não tinha muita certeza.

    — Ou tu quer pagar de Green Day? — brincou o batera.

    — Ram! Não, não. É que é pensando na Lana, né… será que ela vai gostar assim?

    — Ela vai, pô! É só tu ir com tudo, que dá certo!

    Esperançoso, o garoto brindou com os amigos.

    — Tomara que sim.

    — Confia, pô! A gente tem um hit aqui — riu Aramis, terminando o suco num gole. — Ah, eu nem perguntei. Vocês namoram?

    — Não!

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