Capítulo 127 | A Vontade de Can
Magno estava em um quarto nos fundos de uma taverna de baixa categoria, trocando sua túnica habitual por uma veste de linho grosseiro e sujo. O cheiro de suor antigo e serragem impregnava o tecido. Ele ajustou uma faixa de pano na cabeça para esconder parte do rosto e calçou botas de couro cru, reforçadas para o trabalho pesado.
Seu objetivo era simples: observar a floresta de dentro, sem os olhos da guarda real sobre ele. Ele conseguira a vaga através de Elpenor, o guarda com quem conversara no dia anterior.
Quando terminou de se vestir, encontrou Elpenor no pátio dos fundos. O guarda o observou de cima a baixo e soltou um suspiro.
— Não cause problemas, “Hilal” — disse Elpenor, usando o nome falso que haviam combinado. — Se você for pego fazendo algo que não seja derrubar árvores, eu não te conheço.
— Tinha um nomezinho melhor, não? — Magno fez um bico de nojo.
Elpenor deu de ombros e o conduziu até os limites da muralha leste, onde um grupo de doze trabalhadores se preparava para o turno da noite. Tochas de resina estavam espetadas em suportes de ferro, iluminando as lâminas de machados e serras.
— Este aqui é o Hilal — anunciou Elpenor ao representante dos trabalhadores, um homem de pele curtida e braços do tamanho de troncos. — Ele precisa trabalhar. A esposa está grávida e como todos estão vendo, os tempos estão difíceis.
Magno forçou um sorriso amarelo e assentiu com a cabeça, tentando forçar uma faceta humilde. Os trabalhadores o avaliaram em silencio. O representante, no entanto, não demonstrou simpatia. Ele pegou um machado de cabo longo que estava encostado em uma carroça e o arremessou na direção de Magno de forma súbita e perigosa.
Magno estendeu a mão e pegou o cabo de madeira no ar, a poucos centímetros de seu peito, sem vacilar. O impacto produziu um som seco. Houve um instante de silêncio entre os homens.
— Não faça corpo mole, novato — rosnou o representante. — Se não produzir, não recebe.
Magno equilibrou o peso da ferramenta sobre o ombro com um sorriso de olhos semicerrados e olhou para o grupo.
— Para onde é a floresta? — perguntou ele.
Os trabalhadores se entreolharam com expressões de desconfiança. Um deles apontou com o queixo para a escuridão além das luzes das tochas. Eles iniciaram a caminhada.
Uma hora depois, o som rítmico de metal contra madeira ecoava na margem da mata. Magno estava suado e seus músculos ardiam. Ele havia se afastado propositalmente do grupo principal, ocupando-se de um tronco grosso de carvalho que já estava quase completamente cortado.
— Eu não fui feito para o trabalho honesto — resmungou Magno, limpando o suor da testa com as costas da mão.
Ele parou para recuperar o fôlego e olhou para trás. O representante dos trabalhadores estava parado a cerca de vinte metros, vigiando-o com um olhar fixo. Magno voltou sua atenção para a árvore e paralisou.
Os galhos que ele havia cortado e empilhado no chão minutos atrás haviam sumido. No lugar deles, pequenas brotações verdes já rompiam a terra. Mais do que isso: o corte profundo que ele fizera no tronco do carvalho, que deveria ter deixado a árvore prestes a cair, agora estava reduzido à metade. A seiva escura escorria pela fenda, endurecia e fechava a madeira como se fosse uma ferida a cicatrizar.
Magno jogou o machado no chão de terra e soltou um xingo baixo.
— Inútil. Isso é completamente inútil.
Ele pegou a ferramenta de volta e retornou para perto do grupo principal.
— Não dá para fazer muito sozinho daquele lado — reclamou Magno para o representante. — A madeira é dura demais.
O homem resmungou algo ininteligível, mas apontou para as carroças.
— Então ajude a carregar os troncos que já caíram. Movam-se!
Magno aproximou-se de dois trabalhadores que carregavam um poste de madeira e começou a acompanhá-los. Ouviu-os falar sobre o que fariam quando chegassem em casa. Um deles falou que passaria no templo, o outro que não teria vigor pra isso. Magno tossiu perto deles e chamou-lhes a atenção.
— Vocês viram algo estranho por aqui hoje? — perguntou Magno, tentando manter a voz casual.
— Estranho? — respondeu o mais velho, sem parar o serviço. — Além das plantas que crescem enquanto a gente as corta? Nada.
— E animais? — insistiu Magno. — Caminhamos bastante e não ouvi um pássaro ou vi o rastro de um javali.
Os homens pararam por um momento, concordando com a cabeça.
— É verdade — disse o segundo trabalhador. — Mas ainda estamos na margem. Há duas semanas, aqui não existia uma árvore sequer. Era campo aberto. Não é tão estranho que não haja bichos.
— E vozes? — perguntou Magno, baixando o tom. — Boatos sobre pessoas se perdendo ou gritos entre as árvores?
Os homens desviaram o olhar imediatamente. Eles voltaram a carregar a madeira e desconversaram, focando no esforço físico. Magno percebeu pela troca de olhares deles que era um assunto proibido.
Pouco antes da meia-noite, um grupo de guardas reais surgiu da estrada. Eles escoltavam um homem de aparência distinta. Ele vestia um manto de lã vermelha e usava uma coroa de louros dourados sobre os cabelos pretos e curtos. Seu rosto era jovem, um tanto arredondado demais, mas seus olhos eram fundos.
A comoção foi imediata. Os trabalhadores largaram as ferramentas.
— Já trabalharam o suficiente por hoje — disse o nobre com uma voz mansa e diplomática. — O rei se preocupa com a saúde de seus súditos. Vão para casa e descansem. Retornem apenas amanhã.
O representante dos trabalhadores deu um passo à frente, retirando o chapéu de feltro.
— Senhor, se pararmos agora, a floresta terá avançado dez passos antes do amanhecer. Os moradores dos arredores das muralhas correm perigo se não mantivermos o corte.
O porte gracioso do nobre desapareceu imediatamente quando seus olhos se fixaram nele. Ele endireitou a coluna e encarou o trabalhador com um olhar de desprezo.
— Eu dei uma ordem. Saiam daqui imediatamente — replicou num sussurro que era quase um rosnado. — E não contem a ninguém sobre este ato de generosidade. Se eu souber que espalharam que estive aqui, as consequências serão severas.
Os guardas que o acompanhavam deram um passo à frente, e levaram as mãos aos punhos das espadas. Os trabalhadores recuaram, intimidados pela ameaça direta. O representante rangeu os dentes, mas assentiu e deu o sinal para a retirada.
Magno observava a cena escondido, agachado atrás de uma das carroças. Ele memorizou o rosto do nobre e a forma como ele olhava para a floresta sem medo, e com certo brilho estranho.

De volta à cidade, Magno retornou à taverna e trocou as roupas de trabalhador por sua cota de malhas e o chlamys negro. Ele encontrou Elpenor em um canto escuro do bar.
— O que houve lá fora? — perguntou o guarda, curioso.
— Um sujeito de manto vermelho e coroa de louros apareceu — disse Magno. — Mandou todo mundo para casa e disse para ficarmos de boca fechada. Sabe quem é?
Elpenor empalideceu e desviou o olhar para o balcão.
— Não sei de nada sobre isso — murmurou o guarda, de forma pouco convincente.
Magno colocou uma dracma de prata sobre a mesa. Elpenor não se moveu. Magno colocou mais duas moedas.
— Não insista, Magno. Eu não posso te ajudar com esse tipo de informação. É perigoso.
Magno retirou um saco de couro pesado de dentro do manto e despejou vinte moedas de prata de uma vez sobre a madeira da mesa. O tilintar do metal atraiu alguns olhares, que Magno afastou com um olhar ameaçador.
O queixo de Elpenor caiu. Ele olhou para o dinheiro e depois para Magno.
— Como você conseguiu tanto dinheiro? Quem é você de verdade? — perguntou o guarda, assustado. Ele rapidamente balançou a cabeça. — Quer saber? É melhor eu não saber.
Ele puxou as moedas para perto de si e falou em um sussurro rápido.
— Aquele era Can, o irmão mais novo dos três príncipes de Pérgamo. Com o desaparecimento do primogênito, Átalo II, ele se tornou o segundo na linha de sucessão.
— E o irmão do meio? — questionou Magno.
— Há boatos de que ele está ilhado em Creta desde que o pai adoeceu. Ninguém sabe se ele não consegue voltar ou se alguém está impedindo que ele receba as mensagens — explicou Elpenor. — Se o rei morrer logo e o irmão do meio não aparecer, o caçula será coroado.
— E por que ele impediria os homens de cortarem a floresta? — Magno estreitou os olhos.
— Eu não sei — admitiu o guarda. — Mas eu apostaria minha vida que isso tem a ver com a sucessão. Ele quer que a cidade se sinta sufocada, talvez para aparecer como o único salvador, ou para impedir que alguém saia ou entre para mudar o jogo político.
Magno assentiu, levantando-se.
— Obrigado pela conversa, Elpenor.
O guarda estendeu a mão.
— Você já sabe meu nome. Se precisar de mais alguma coisa em Pérgamo que não envolva ser executado por traição, me procure aqui.
Magno apertou a mão do homem e saiu para a noite fria, com a mente trabalhando na nova peça do quebra-cabeça: Can, e seu comportamento estranho. Átalo ouviria sobre isso.

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