Capítulo 117 - Desorientação.
A plataforma não desacelerou.
Pelo contrário.
O impacto do combate parecia tê-la soltado das travas. O piso metálico continuava vibrando sob os pés deles, agora em ciclos irregulares, como se engrenagens antigas estivessem tentando se reajustar sem sucesso. O zumbido grave que antes era constante tornara-se errático, subindo e descendo de tom, atravessando o corpo como uma febre mecânica.
Faíscas escapavam das laterais, riscando o ar com o brilho alaranjado. Cada solavanco arrancava um rangido profundo dos trilhos, um som cansado, forçado, que fazia Laura apertar os dentes.
Karl apoiou as mãos nos joelhos por um instante, tentando controlar a respiração. O braço ainda ardia, os músculos tremiam, não só pelo esforço, mas pela sensação estranha que ainda parecia circular sob a pele.
— Isso… — ele começou, engolindo em seco. — O que é isso?
Gustav, encostado na lateral da plataforma, respirava curto, o ombro sangrando sob o tecido improvisado. Ele observava os encaixes expostos do mecanismo com atenção clínica.
— Temos um problema — Falou. — Acho que o que parava isso está quebrado.
A plataforma começava a ganhar velocidade.
De forma suave, como se tivesse recebido uma oportunidade tardia e estivesse tentando compensar séculos de atraso.
— Temos outro problema! — Laura gritou chamando a atenção dos dois enquanto tentava manter Lyra o mais estável que conseguia no chão que sacudia. — Acho que ela quebrou a costela.
A lateral de Lyra estava vermelha assumindo tons roxos.
Foi então que o cenário mudou.
As ruínas começaram a ficar para trás.
Primeiro, de forma sutil, menos colunas partidas, menos fachadas destruídas. Depois, quase de uma vez. As estruturas quebradas deram lugar a muros inteiros, a caminhos de pedra ainda alinhados, a escadarias limpas demais para aquele mundo subterrâneo esquecido.
Vegetação surgiu.
Não selvagem. Não invasiva.
Cuidada.
Árvores altas, com copas bem distribuídas, cresciam em linhas quase deliberadas. Arbustos podados, raízes contidas por anéis de pedra. Pequenos canais de água corriam ao lado dos caminhos, refletindo a luz azulada dos cristais do Véu embutidos no solo.
Lyra, apoiada em Laura, esqueceu a dor por um instante.
— C-como? — Ela falo cuspindo um pouco de sangue. — Arvores?
— Estamos indo em direção ao centro — Gustav completou.
Karl sentiu um desconforto subir pela espinha.
Se o ambiente estava tão bem cuidado podia significar a presença de alguém ali.
Um estalo seco ecoou sob os pés deles.
O piso inclinou por um segundo, depois se corrigiu com um tranco que quase os jogou para fora. Laura agarrou Lyra antes que a garota rolasse para longe. Karl bateu o ombro contra uma pilha de cristais, sentindo a dor subir pelo braço.
— Precisamos sair daqui — Laura disse, sem elevar a voz, mas com urgência crua demais para ser ignorada. — Não da para fazer nada por ela nessa tremedeira.
— Sair como? — Karl perguntou olhando em volta.
— Vamos ter que pular!
— Pular? — Karl respondeu, incrédulo. — Olha essa altura. E com isso se mexendo assim?
— Se ficarmos, não vai sobrar alternativa — ela rebateu. — Ou saímos por escolha, ou vamos morrer do mesmo jeito.
Gustav ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos correndo pelo ambiente ao redor, calculando.
— Ali.
Ele apontou com a bengala, a mão tremendo não só pela dor.
À frente, emergindo entre jardins elevados e muralhas curvas, erguia-se uma estrutura monumental. Torres largas, pontes internas, arcos sobrepostos. Um castelo, ou algo que já tivera essa função. Não estava em ruínas.
A plataforma passava no nível acima da estrutura, dando uma visão nítida do local.
E além.
Mais ao fundo.
Uma lâmina d’água.
Um canal largo, profundo, refletindo a luz azul dos cristais nas margens. A água corria constante, limpa demais.
Karl sentiu a garganta queimar.
Sede.
Desespero.
Esperança.
— É agora — disse. — Não vamos ter outra chance.
Laura avaliou a distância em um relance rápido, medindo a velocidade, e o caminho da plataforma que se aproximava de uma curva.
— Esperem a curva — ordenou. — Um de cada vez. Sem hesitar.
Karl parou na beirada ajudando Gustav enquanto Laura segurava Lyra em pé.
— Karl — Gustav falou segurando no ombro de Karl.
— O que?
— Eu não vou conseguir pular.
— Que merda você esta dizendo agora?
— A minha perna, a distância é muito grande, vou cair antes — Gustav falou lutando para se equilibrar.
— Para de falar merda, Não da tempo pro seu choro.
A plataforma entrou na curva.
O vento subiu de repente, frio e cortante, puxando roupas, arrancando respirações. O metal sob os pés gemeu, forçado.
— AGORA!
Eles saltaram.
O salto não teve elegância. Nem cálculo.
Karl sentiu o vazio sob os pés e, no instante seguinte, o impacto da água o atingiu como uma parede sólida. O ar foi arrancado dos pulmões. O corpo afundou mais do que esperava, girando desajeitado.
O frio o envolveu por completo.
Ele se debateu, engoliu água, os braços se movendo sem técnica alguma até conseguir emergir, tossindo, os olhos ardendo.
— Karl! — Laura já estava se movendo, nadando com força segura.
Gustav caiu logo depois, de lado, afundando rápido demais. Os ferimentos impossibilitando ele se movimentar como gostaria. Laura mergulhou, segurou-o por trás e o trouxe à superfície com esforço visível.
— Segura em mim! — ela gritou.
Eles começaram a avançar em direção à margem.
— Lyra? — Karl virou o corpo, o pânico subindo rápido demais. — LYRA?!
Não houve resposta.
A água atrás deles borbulhou… e então ficou lisa.
Lyra havia afundado.
O impacto, a dor, o peso das roupas, tudo veio junto. Ela tentou mover os braços como tinha visto Laura fazer, mas o corpo não respondeu. A água invadiu o peito, abafando qualquer som.
O mundo ficou azul-esverdeado.
Distante.
Ela nunca tinha aprendido a nadar.
Karl olhou ao redor.
— Mãe! — gritou, a voz quebrada. — ELA AFUNDOU!
Karl gritou e aproximando com esforço.
— E-Espera, MÃE!. Eu levo ele, ajuda ela!
— O-o que?
— Ajuda Lyra!
Laura não hesitou.
Inspirou fundo e mergulhou.
Felizmente a água era mais rasa do que aparentava de cima. A luz se distorcia, alongando formas. Laura viu Lyra lutando para nadar, mas ainda descendo devagar.
Ela a alcançou e puxou com força.
Quando emergiram, Karl e Gustav ajudaram a arrastá-las até a margem de grama. Lyra tossiu violentamente, cuspindo agua e sangue, o corpo se curvando em espasmos, puxando ar como se nunca tivesse respirado antes.
Laura a segurou firme.
— Você está bem, não dorme — repetiu, sem permitir que ela fechasse os olhos. — Respira devagar. Você está bem.
A plataforma continuou seu caminho acima deles, desaparecendo entre árvores e estruturas antigas, indiferente.
A cidade os havia engolido.
E, por ora…
Os cuspido de volta. Em uma espécie de Jardim
O vento sacudia as folhas de algumas arvores do jardim de forma constante.
O chão era macio sob os pés, grama curta, aparada com precisão que não combinava com as ruínas vistas minutos antes.
Laura estava ajoelhada ao lado de Lyra.
A respiração dela vinha em intervalos errados. O rosto pálido contrastava com o sangue seco no canto da boca e com a mancha vermelha e roxa que só parecia crescer.
— Ela não vai aguentar — Laura murmurou, sem olhar para ninguém.
Karl sentiu o peso da frase mais do que qualquer golpe anterior.
— Não. — Ele se aproximou. — Você já resolveu coisa pior com menos.
Laura finalmente o encarou.
Não havia desespero ali. Só constatação.
— Isso não é ferimento de campo. — Ela apoiou a mão com cuidado no peito de Lyra, sentindo a irregularidade. — Mesmo que a gente tivesse tempo… não temos como salvar ela aqui.
Um som metálico, suave, quase educado, ecoou entre as árvores.
Karl se virou no mesmo instante.
Três autômatos emergiam entre os troncos, mas não eram como os da plataforma.
Esses eram diferentes.
Altos, esguios, com placas encaixadas de forma fluida, quase orgânica. As articulações não rangiam. Não havia ferrugem visível. Os cristais incrustados no peito e na cabeça pulsavam com uma luz quente, amarelada.
Eles pararam a alguns metros do grupo.
Os sensores se acenderam.
Primeira varredura.
Karl sentiu a pressão estranha atravessar o corpo, como se algo estivesse sendo pesado por dentro, ele estava sem a barra de ferro dessa vez. Gustav levou a mão à bengala, mas não a levantou.
Nada aconteceu.
Segunda varredura.
Mais longa. Mais profunda. Um dos autômatos inclinou a cabeça, analisando Karl com atenção quase… curiosa.
— Eles vão atacar? — Laura sussurrou.
— Se fossem… já teriam feito — Gustav respondeu, sem tirar os olhos deles.
Na terceira análise, algo mudou.
Os sensores ignoraram Karl.
Ignoraram Gustav.
Ignoraram Laura.
Fixaram-se em Lyra.
O autômato à frente avançou.
— NÃO. — Karl se colocou no caminho instintivamente.
Ele não viu o golpe.
Apenas sentiu.
Uma pressão súbita no peito, precisa demais para ser violenta, o lançou de costas no chão. O ar foi arrancado dos pulmões. Antes que pudesse se levantar, algo prendeu seus braços e pernas, imobilizando-o com facilidade humilhante.
— Karl! — Laura deu um passo à frente.
Gustav segurou o braço dela.
— Para. — Ele falou baixo. — Olha.
O autômato poderia ter esmagado Karl.
Não o fez.
A contenção era firme, mas cuidadosa. Sem lâminas. Sem força excessiva.
O segundo humanoide ajoelhou-se ao lado de Lyra e, com um movimento quase solene, a tomou nos braços.
A respiração dela falhou por um segundo… e depois estabilizou.
O terceiro autômato emitiu um som curto e apontou para a mansão ao fundo.
O primeiro disparou em direção à construção com Lyra nos braços, rápido demais para ser acompanhado.
O terceiro aproximou-se de Karl.
E o mundo dele ficou branco.

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